30 de mai de 2008

No sobe e desce da vida


Tarefas corriqueiras realizadas no centro da cidade, em edifícios comerciais, quase sempre me fazem andar de elevador. E nesse sobe e desce praticamente diário me vem uma sensação de desconforto com a presença dos ascensoristas. Mas um desconforto pelos dois lados: o dos passageiros, que precisam se espremer entre si por causa do funcionário, e o do próprio ascensorista, que acaba trabalhando em situação de quase-insalubridade.

Imaginem subir e descer durante horas a fio, encerrado num espaço pequeno, abafado e, muitas vezes, malcheiroso. A atividade não requer instrução, muito menos habilidade no contato com os passageiros, já que a comunicação é primária: “bom dia”, “boa tarde” e “boa noite”. A pergunta “Qual o andar, senhor?” é um plus. A maioria não faz questão de um contato mais próximo. Nem tem por quê.

Muitos deles ocupam ¼ do espaço disponível. A viagem já é ruim quando o elevador tem ventilação interna. Imaginem sem essa regalia... E quando o equipamento tem funcionamento precário, a situação pode ser ainda pior. O fato é que um ascensorista, muitas vezes, ocupa o lugar de dois passageiros. E as filas se formam do lado de fora... Soa incoerente.

Fico me perguntando se essa função é realmente útil para a população, já que os elevadores modernos possuem dispositivos eletrônicos que dispensam manuais e, por conseguinte, alguém que os opere. Hoje em dia as cabines falam com você, de maneira que a presença do ascensorista num equipamento como esse torna-se meramente figurativa.

Os salários variam do mínimo (R$ 415), podendo chegar a cerca de R$ 800 em cidades como São Paulo. No Rio, a categoria não tem um sindicato próprio, sendo representada pelo Sindicato dos Empregados de Edifícios no Município do Rio de Janeiro. Não é incomum encontrar anúncios nos classificados solicitando cidadãos para a função.

Pouca gente sabe mas existe um projeto de Lei no Rio (nº 48/2005) que pretendia obrigar a presença dos ascensoristas nos edifícios comerciais do município. Ele foi vetado por Cesar Maia. Em São Paulo, José Serra também vetou, na íntegra, em dezembro de 2005, o projeto de lei nº 144/2005, que previa a mesma coisa.

Certa vez, em um curso-relâmpago de Jornalismo Econômico no IBMEC, Eduardo Giannetti falou uma coisa interessante sobre isso: que nos Estados Unidos, por exemplo, não existem ascensoristas. Ele contou o caso de um amigo dele, norte-americano, que, em visita ao Brasil, perguntou-se, assustado: “o que essa pessoa está fazendo?”, apontando para o cabineiro.

No curso, o economista desabafou: “Pobre de um país como o Brasil, que não tem capacidade para absorver essas pessoas de forma digna”. No que tem toda razão: a atividade é completamente desnecessária, a não ser nos casos em que os elevadores requerem operação manual – o que é a minoria. Mas o tema vai além: reflete o descaso do poder público com a educação e qualificação profissional dos cidadãos brasileiros.

No cenário atual, o que seria mais sensato: seguir o exemplo das prefeituras carioca e paulista, vetando a contratação dos ascensoristas, mas promovendo qualificação de mão-de-obra em massa (para outras atividades), ou tornar obrigatória a presença deles, impedindo que mais pessoas sofram com o desemprego?

Impressões de viagem São João-Bonsucesso

30 de maio

Aos poucos, parece que a configuração urbana do futuro vai surgindo. Na avenida Brasil, há um estranho e antigo prédio comercial; a construção interrompida na metade serve de estrutura para uma favela em camadas: cada andar daquilo que seria uma empresa parece um pequeno bairro miserável, um em cima do outro, pobreza sobre pobreza, em uma selva de concreto ainda mais escura do que aquela em que vivemos. (Em uma rua de Bonsucesso, a calçada de um quarteirão de indústrias começa a ser ocupada por barracos, como um caracol em que no centro houvesse um círculo grande e ao redor fossem se acumulando pequenas circunferências daquilo que é marginal, à margem.)
Não mais apenas duas cidades estranhamente unidas sem se misturar (como água e óleo): agora o Rio também é uma cidade dentro da outra (como aquelas bonecas russas). Se, no Japão dos livros de Genichiro Takahashi, é possível que em um andar de um prédio alto corra um rio, aqui nossa falência urbana é servida em camadas retangulares. Lá estão o esgoto aparente (desta vez, não à céu aberto), sua criminalidade de subsistência, seus gatos elétricos e suas vidas próximas e distantes da minha.

Cu-curitibando...

Desta vez não teve Durski, olho do Niemeyer e outros passatempos da primeira vez que Sassaricando foi a Curitiba, em março do ano passado.

Mas teve minha irmã, ilustríssima curitibana, pela primeira vez na cidade desde que saiu de lá, cinco dias depois de ter nascido, pra ser o que há de mais carioca na minha família. Muito, muito bacana participar da viagem rebobinada da Aninha.

Por causa dela, do jeitão despachado, das gargalhadas frouxas, do gosto pela Mangueira e pelas lantejoulas, nunca engoli o que se diz do povo curitibano: gente fria, sisuda, séria e outros impropérios.

Pra mim, Curitiba está mais para a paisagem de Carlos Careqa em Não dê pipoca ao turista, nos anos 90, que ele cantava com Arrigo Barnabé:

“Eu gosto de Cu!
...ritiba
Eu quero ir fundo
No meio do mundo
Aqui é o lugar”

Ou para a cena que vi no domingo de manhã, tremendo sol no Batel (bairro fino em que nos hospedaram), com senhorinhas de alta fidúcia saindo da igrejinha presbiteriana do século 19. Todas muito maquiadas, laqueadas, empinadas... E o mendigo de camisa do Coritiba, canequinha não mão, nem aí para a esmola. Ou não estaria berrando: “Paaaaau no cuuuu do Atléticooooo! Cuzão!” Impagável a cara das velhotas quando entendiam (ou não) o moço.

Dali saí pr’uma boa caminhada até a feirinha de artesanato do Centro Histórico, não sem antes fazer uma parada no bom Café Avenida, na Boca Maldita (onde manadas de titios discutem política, futebol, meteorologia e outros temas importantes).

Do Centro Histórico, a lembrança mais feliz é do filé aperitivo do Bar do Alemão (Schwarzwald é o nome oficial), que seria a priori um mero acompanhamento pras canecas de chope que vertíamos, eu, Aninha e Luiz - meu cunhado y companheiro de arquibancada.

O diabo do filé era tão bom (com um molho adocicado) que pedimos que chamassem o cozinheiro, para descobrirmos os ingredientes. “Vai dar não senhor, ele não vai falar”, respondeu o garçom, pro nosso espanto. Insistimos e o cabra foi mais incisivo: “Deixa eu explicar melhor pra vocês: é que o cozinheiro é mudo.” Mais um chope, então.

Outra boa comilança foi no Babilônia, onde conseguimos entrar graças à habilidade de Eduardo Dussek. Não fosse nosso anfitrião em Curitiba (onde tem um apê, família e um fusca) ficaríamos com a estupidez do moço da porta (coisa rara por lá) e no frio do lado de fora.

Frio, aliás, foi o que fez o tempo todo dentro da Ópera de Arame - belo espaço em que nos apresentamos (praticamente um iglu de vidro). Sabe lá o que é cantar marchinha a 10 graus, com vapor saindo da boca...?

Pois funcionou. Tanto que voltaremos em julho, pr’um evento fechado, só que desta vez dentro de um teatro (ufa!).

28 de mai de 2008

Semente de Conto - ARACY




Não sei como nem quando essa mulher me dobrou desse jeito. Mal me fita nos olhos, sempre com ar de soberana, nem modos têm. É sempre o que ela quer e na hora que quer. O corpo é uma tábua, nem sinal de cintura. Esnoba meu CD do Chico, meus amigos, meu Botafogo! E eu, feito bobo, volto correndo pra casa, deixo serviço por fazer, dispenso a cerveja com os amigos, só para estar com ela. Horas e mais horas de sono perdidas, contemplando o sono dela. Deus, o que será de mim quando ela completar um ano?

Leitura de jornal em voz alta

Duas Caras por Artur Xexéu

O editor do Segundo Caderno do jornal O Globo levantou, hoje (28/05), questões interessantes sobre a novela Duas Caras, que termina essa semana. Ela tem muitos defeitos, como atores inexperientes, personagens que não cativaram e embates que ameaçaram acontecer, mas não aconteceram. Por outro lado, diz Xexéu, a novela tem também qualidades, como colocar uma favela como personagem principal do horário nobre e trazer “o maior elenco negro da história da telenovela do Brasil”.

Concordo com suas críticas e acrescento outros defeitos, como diálogos mal escritos, a romantização da vida na Portelinha e a legitimação, de certa maneira, das milícias. E também concordo com seus elogios. Questões importantes da realidade brasileira estavam lá colocadas (mesmo que sem profundidade), como o papel das favelas no Rio de Janeiro, a importância dos evangélicos e das religiões afro-brasileiras nas comunidades de baixa renda, a homossexualidade. E, é claro, a atuação fabulosa da Marília Pêra.

Brasil x Argentina

Não adianta. A mídia tem um prazer imenso em alimentar a rivalidade Brasil x Argentina. Pra que questionar um “conflito” tão antigo? Pra que estragar o prazer dos torcedores? Pra que diminuir o número de piadas em circulação?

Na seção “Por dentro do Globo”, em que o jornal conta como é o fazer de seus jornalistas, até na hora de elogiar quem fala mais alto são a crítica e a rivalidade. Leiamos:

“Nem sempre a rivalidade impede uma convivência tranqüila entre brasileiros e argentinos, mesmo que o assunto predominante seja o futebol. Na chamada Casa Amarilla, sede do Boca Juniors, Janaína Figueiredo, correspondente do Globo em Buenos Aires, foi muito bem tratada, na véspera do jogo contra o Fluminense, pela Copa Libertadores. Os colegas argentinos não se incomodaram ao notar a presença de jornalistas brasileiros. Pelo contrário, foram extremamente amáveis. O fato de ser mulher pode ter ajudado, mas desta vez é importante reconhecer que a simpatia dos argentinos foi total. Outros brasileiros confirmaram essa sensação, que ajudou a realizar uma cobertura que poderia ter sido mais difícil (…)”.

Jornalistas e atletas dos dois países costumam bater boca e se engalfinhar? Fiquei com essa impressão.

Minc x Marina Silva

Já falamos aqui no blog sobre a substituição da Marina Silva pelo Carlos Minc no Ministério do Meio Ambiente. Num comentário, manifestei minha preocupação com o que o Minc conseguiria fazer e um lamento pela Mariana Silva, que, em minha opinião, ficou na maior parte do tempo de mãos atadas, apesar dos elogios a sua competência e sua honestidade que o governo fazia.

Verdade ou não essas impressões, os jornais não deixam de alimentar o meu imaginário. A coluna do Ilimar Franco diz: “As comparações [entre Marina e Minc] começaram quando Lula afirmou que ‘Minc já falou, em uma semana, mais do que a Marina em cinco anos e meio’. Lula disse ainda que Minc é o Amarildo na Copa de 62 e Marina seria o Pelé. Ele de Copacabana, ela da Amazônia.” E, na charge do Caruso, Lula aconselha: “Minc, não se acanhe: em caso de dúvida faça o que eu não fiz, pegue o telefone e ligue pra Marina!”.

27 de mai de 2008

Será que pega? Ou se apega?

Vejam o novo celular, reciclável:

http://futuro.vc/2008/05/27/o-celular-de-us-10-e-o-anti-iphone


Num mundo cada vez mais tecnológico e cheio de novidades, será que a ideologia vencerá os aparelhos cheio de luzes, sons, e internet? Quem vai largar seus tamagoshis em prol de um mundo mais harmonioso, hein? Quem dá mais?

Realidade



Foto: Jan Saudek

Medos tenho muitos, um dos maiores é o de ficar louco! O fato é que já fiquei certa vez, perdido entre o sonho e a realidade.

Uma salamandra escala uma abóbada dourada. Sob a abóbada um chimpanzé dá aulas de ortografia. A palavra não é mais humana.
Uma banana, vestida de cigana, dança. Sobre seu chapéu está Carmem Miranda.
Nada sustenta a abóbada, feito um disco voador ela flutua.
Tímidos, Sol e Lua se encontram, não há eclipse.
O tempo do Sonho é o tempo da contemplação.
De repente surgem um tigre e uma águia que me conduzem por caminhos que eu mesmo criei. Vamos ao topo de um desfiladeiro, sua base encontra-se a centenas de metros abaixo de nós. Lá embaixo um mar dourado, tal qual a abóbada. Olho a minha frente, três pontos vermelhos se aproximam. São três cavalos de veludo vermelho. Eles conversam com o tigre. Ele me convida a voar. Salto do desfiladeiro. A águia e a água me aguardam. Em um vôo rasante toco a água. Águas diáfanas que tentam esconder nuvens, não há peixes, somente camelos coloridos nadando. Algo mais aparece, uma grande embarcação cheia de crianças e lobos. Seu movimento é suave apesar de seu tamanho. As crianças olham para mim e sorriem, os lobos também. Foi a primeira vez que vi lobos sorrindo. Um som forte...
Acordo?
Outro dia amanhece?
Minha cabeça quase esquece o sonho. Tento juntar os fragmentos. Lamento. Penso algo a respeito de homens, deuses e sonhos.

O CAROÇO E A ANDORINHA- Uma história infantil para usar o dicionário...




Acéfalo abstraído do absurdo
Acabrunhado em sua casca,
em pouca polpa envolvido.
Acaule acautelado,
Permaneceu no chão escondido:
_O caroço!

Ouviu dizer de um moço:
_ Nem todo caroço que cai na terra vinga!

Berrou o caroço:
_Eu vim, eu vingo!

Açambarcando todo o terreno.
Ia crescendo o caroço,
sem caule nem raiz.
continuava sempre....
caroço!

Era duro feito osso,
Acastanhado liso
Sem destino e sem juízo

Era acatado, respeitoso
O gigantesco caroço
de acelerado crescimento
era já um monumento,
agora mais duro que cimento!

Colossal caroço tornou-se uma ameaça
Dia a dia ele crescia
Acolá, a cidade era engolida
Era prédio, casa e avenida

Para tanta aberração
Ninguém tinha explicação
Botânicos vinham do mundo inteiro
Gastavam tempo e dinheiro

Chamou-se pois, um batalhão.
Era preciso conter essa expansão.

_Uma explosão! Disse o capitão.

Mil megatons e um caroço que continuava caroço.

A cidade assustada
não conseguia pensar em mais nada.

Chegou então, o verão
Vieram com ele as aves de arribação:
As pequeninas andorinhas em peregrinação

Feito o caroço, um mistério!
Tomavam o que restava da cidade

Em toda parte uma andorinha
Aos milhares iam e vinham
Atrás de suculentos insetos incertos

Desprevenida , certa andorinha perseguia o seu almoço:
_Um gafanhoto gordo.

No ar ele fez um giro
desviando-se do caroço.

A andorinha, coitada!
Chocou-se de bico com o colossal caroço
A Potente pontiaguda córnea proeminência
Rachou sem ponderar a sua excelência:
_O caroço.

Frutas de todo tipo saíram do Colosso
Atemóia, manga, cajá
Maracujá, caju, melancia
Banana, morango, maçã...

Alimento de sobra pra homem e pra pássaro.

Fartando a todos sem desembaraço.
O que restou do caroço gritou:
_ Vinguei!

26 de mai de 2008

Sem filtro


Tradicionalmente, os impostos levam a culpa do alto preço dos carros brasileiros. A indústria costuma usar a alta carga tributária como uma espécie de biombo. A voracidade do Estado brasileiro, é fato, beira a indecência. Mas as taxas sobre os produtos não são os únicos vilões dessa história. Ao se comparar diretamente os automóveis brasileiros com seus similares na Europa e nos Estados Unidos, descontados os impostos, a constatação é só uma: carro no Brasil é muito, muito caro. E isso em números absolutos, dólar a dólar ou euro a euro, sem relativizar o poder aquisitivo médio, muito maior em países desenvolvidos.

Um exemplo: Volkswagen Polo Sportline 1.6, com ar, trio, ABS e airbag ­ equipamentos típicos encontrados na Europa ­, custa R$ 60.095. Sem ICMS, IPI e PIS/Cofins, cai para R$ 42.668, equivalentes a 15.800 euros. Um Polo similar na Europa, sem impostos, sai por 12.768 euros, 23% a menos. Foram procuradas para falar sobre o assunto Renault, Volkswagen, Citroën, Fiat, Honda e General Motors. Nenhuma quis se pronunciar.

O tema, deve se reconhecer, é mesmo espinhoso. Sem a desculpa da carga tributária, sobram poucos argumentos para justificar porque um Fiat Punto ELX 1.4 com ABS e airbag feito em Betim custa 18,5% a mais que o similar europeu, que ainda por cima tem uma plataforma mais moderna. Aqui ele sai a R$ 48.399, ou R$ 34.064 sem os tributos, o que representa 12.616 euros. Na Alemanha, o Grande Punto 1.4 Active, com os mesmos recursos, sai por 10.645 euros. A única explicação que sobra é a velha teoria de formação de preço: “o preço de um produto é o valor máximo que o mercado aceita pagar”.

Na falta dos impostos, o culpado da vez passa a ser o enigmático “custo Brasil”. “Temos um custo geral que ainda é muito alto. Isso afeta diretamente o preço final de qualquer produto”, argumenta Carlos Thadeu Gomes, economista chefe do Conselho Federal de Contabilidade e ex-diretor de Política Monetária do Banco Central, que ficou surpreso ao saber que o carro brasileiro é mais caro. Não se pode desprezar, no entanto, o custo dos “favores” que as montadoras costumam ganhar. Estados que querem abrigar novas fábricas acenam com as mais diversas regalias, que vão desde a doação de terrenos até isenção de ICMS e IPTU.

Estudos do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais, Ibmec, estimam que 10% do valor de um automóvel seja do famigerado “custo Brasil”. Embora países como a França e Alemanha tenham obrigações sociais até mais altas que no Brasil, aqui se agregam os ônus da falta de infra-estrutura de transporte e até custos administrativos. Um exemplo: para cada R$ 1 bilhão faturado por uma empresa na Europa é necessário um funcionário para cuidar das questões tributárias. No Brasil, a proporção é de 20 funcionários para cada R$ 1 bilhão. “Esta burocracia também faz parte do “custo Brasil”, pondera Gilberto Braga, professor de Finanças do Ibmec.

Por outro lado, um funcionário europeu recebe, em média, 3 mil euros, contra 500 euros médios de um operário brasileiro. Sem contar que no chão da fábrica, a produtividade das plantas brasileiras é bem parecida com as obtidas em países desenvolvidos. Fábricas modernas, como a da General Motors em Gravataí, no Rio Grande do Sul, e a da Ford, em Camaçari, na Bahia, produzem cerca de 100 automóveis/ano por empregado, índice considerado altíssimo.

Mas não há como negar que os impostos exercem um papel nefasto neste jogo. Por isso mesmo, as diferenças ficam ainda mais gritantes se a referência for os preços nos Estados Unidos, um dos países com menor oneração de taxas no mundo. Enquanto um Honda Civic EX no Brasil custa sem impostos R$ 45.027 ­ ou US$ 22.500 ­, para os americanos ele custa US$ 15 mil. Ou seja: aqui é 50% mais caro. “O mercado americano tem ganhos de escalas e custos mais baratos, nosso mercado ainda é muito menor”, tenta justificar Miguel José de Oliveira, vice-presidente da Associação Nacional dos Executivos de Finanças e Contabilidade.

Aparentemente, há muitos motivos para esta escalafobética diferença de preços entre um país com renda percapta de US$ 5 mil, como o Brasil, e outros com renda percapta de US$ 30 mil para cima, como Alemanha, França, Itália, Espanha ou Estados Unidos. E os lucros são certamente um deles. No ano passado, a Fiat do Brasil lucrou nada menos que R$ 804 milhões líquidos. No primeiro semestre deste ano, a divisão da General Motors para América Latina, Ásia e Oriente Médio auferiu US$ 414 milhões de lucro ­ 67% das vendas deste braço são da América Latina. E a Ford alcançou US$ 255 milhões de lucro apenas no segundo trimestre deste ano no Mercosul. O tal do “custo Brasil” aparentemente ainda deixa uma margem muito simpática para as empresas.

Instantâneas

# Estudos apontam que um metalúrgico custa, em média, cerca de R$ 1.300 mensais para a indústria. Na Europa, um trabalhador custa o correspondente a R$ 8 mil reais por mês.

# Na França, 16% do valor de um carro é de impostos. Na Alemanha e na Espanha os índices são de 13% cada. No Japão, 9%, enquanto nos Estados Unidos a fatia tributária média é de 6,1% ­- varia de estado para estado.

# No Brasil, a média de tributos é de 29% do preço final de um automóvel.

Os preços aqui e lá

# Volkswagen Polo 1.6 Sportline - Brasil
Preço sugerido: R$ 60.095 (com ABS e airbag).
Sem os impostos: R$ 42.668.
Conversão: 15.803 euros.
# Volkswagen Polo 1.6 - Alemanha
Preço sugerido: 14.675 euros.
Sem os impostos: 12.768 euros.
Diferença: 23,7%.

# Renault Logan Privilége 1.6 16V
Preço sugerido: R$ 42.790 (completo).
Sem impostos: R$ 30.090.
Conversão: 11.144 euros.
Dacia Logan 1.6 16V - Alemanha
Preço sugerido: 10.550 euros.
Sem impostos: 9.175 euros.
Diferença: 21,4%

# Honda Civic EX - Brasil
Preço sugerido: R$ 63.515.
Sem impostos: R$ 45.027.
Conversão: US$ 22.513.
# Honda Civic Sedan - Estados Unidos
Preço sugerido sem impostos: US$ 14.990 mil.
Diferença: 50,1%.

# Citroën C3 Exclusive 1.6 16V - Brasil
Preço sugerido: R$ 53.410.
Sem impostos: R$ 37.922.
Conversão: 14.040 euros.
# Citroën C3 1.6 16V - Espanha
Preço sugerido: 13.500 euros.
Sem impostos: 11.637 euros.
Diferença: 20,6%.

# Peugeot 206 Presence 1.4 - Brasil
Preço estimado: R$ 43.750 (com ABS e airbag duplo).
Sem impostos: R$ 31.063.
Conversão: 11.505 euros.
# Peugeot 206 Urban 1.4 - Alemanha
Preço sugerido: 12.100 euros.
Sem impostos: 10.431 euros.
Diferença: 10,3%.

# Fiat Punto ELX 1.4 - Brasil
Preço sugerido: R$ 48.399.
Sem impostos: R$ 34.064.
Conversão: 12.616 euros.
# Fiat Grande Punto Active 1.4 ­ Alemanha
Preço sugerido: 12.140 euros.
Sem impostos: 10.645 euros.
Diferença: 18,5%.

# Toyota Corolla XEi - Brasil
Preço sugerido: R$ 63.944.
Sem impostos: R$ 45 401.
Conversão: US$ 22.700.
# Toyota Corolla CE ­ Estados Unidos
Preço sugerido sem impostos: US$ 14.400.
Diferença: 57,6%.

# Chevrolet Vectra GT - Brasil
Preço sugerido: R$ 59.990.
Sem impostos: R$ 45.593.
Conversão: 15.575 euros.
# Opel Astra - Alemanha
Preço sugerido: 16.360 euros.
Sem impostos: 14.234 euros.
Diferença: 9,4%.

# Ford Fiesta 1.6 - Brasil
Preço sugerido: R$ 50.360 (com ABS e airbag).
Sem impostos: R$ 35.756.
Conversão: 13.242 euros.
# Ford Fiesta 1.6 - França
Preço sugerido: 15.100 euros.
Sem impostos: 12.684 euros.
Diferença: 4,4%.

1 euro = R$ 2,70.
1 dólar = R$ 2,00.

(Matéria publicada pela agência de notícias Auto Press em setembro de 2007)

23 de mai de 2008

A verdade

Numa manhã cinzenta de agosto, Chico e Ana acordaram dispostos a encontrar A VERDADE. Conversaram durante horas sobre como a tarefa poderia ser realizada. Cogitaram todos os meios e ponderaram sobre as conseqüências que a descoberta poderia trazer. Cochicharam muito durante o café da manhã, entre broas e queijos e pães. Tudo sob o olhar interrogativo, mas carinhoso, da mãe. Concordaram sobre a importância de manter o projeto em sigilo. Passaram a tarde planejando a ação, desenharam, trocaram bilhetes ao longo do dia, mantendo o segredo da intenção sob sete chaves bem pesadas. À noite, despediram-se após o jantar e correram para o quarto. Luz apagada, juntaram-se embaixo do cobertor. Acenderam o abajur, do mesmo jeito que faziam desde pequenos, quando brincavam de caverninha. Respirações ofegantes, um calor dentro do corpo subindo para as bochechas. Ana então perguntou: “Chico, você achou A VERDADE?”. E o menino, olhos exclamativos, revela o livro escondido atrás de si, afastando a poeira acumulada. “Aqui está, Ana”, com o dedo certeiro sobre A VERDADE. Era o dicionário de capa preta aberto na página 2.060.

Diálogos de cozinha (com uma americana)

- Você estará aqui no fim de semana que vem?
- Não, eu vou pra Espanha.
- Eu também!
- Ué, mas você não ia pra Portugal?
- É, vou pra Portugal....Portugal não é na Espanha?

21 de mai de 2008

Uma nova Angola para mim


Depois de anos como membro do Rio Voluntário, resolvi que era hora de me tornar, de fato, um voluntário. A primeira ação de que participei, no sábado passado, 17 de maio, foi uma festinha para os idosos da Casa Caminho da Felicidade, em Paciência. Mas sobre isso eu falo depois. O que me traz ao blogue, agora, foi o contato que tive com um dos voluntários, Silas, um jovem angolano residente no Brasil desde 1993.

Foi na volta da ação. Retornávamos eu, Guilherme e Silas de carona com Marcelo, que nos deixaria na Central. Já tinha reparado o sotaque do angolano desde a festa com os idosos, mas, como eu estava sendo introduzido ao grupo naquele momento, minha timidez não permitiu um contato mais próximo.

No carro, banco de trás, eu e Silas sentamos lado a lado. Papo-vai-papo-vem, resolvi perguntar: “Qual a sua nacionalidade?”. E foi aí que as histórias dele começaram a brotar, coloridas por sorrisos amplos e uma dicção quase cantada. Silas tem 14 irmãos, sendo oito deles por parte de pai. Além dele, três moram fora de Angola, na Espanha, Bélgica e Alemanha.

O simpático angolano, magro, de estatura média, vestia a camisa do Rio Voluntário, calça jeans, um tênis bonito e um chapéu que não me deixava ver seus cabelos. Dentes muito brancos e olhos muito escuros, da cor da pele. Há seis anos ele não visita os pais, que moram em Luanda. A passagem aérea, segundo me explicou, já foi mais cara. Hoje, é possível pagar a viagem com R$ 2 mil. Há um tempo atrás pagavam-se R$ 6 mil.

Mas para Silas a compra é ainda mais fácil. Alguém da família, lá em Luanda, consegue as passagens por poucos dólares. Ainda assim, os compromissos do rapaz aqui no Brasil acabam por absorver todo o seu tempo, e ele vai deixando as visitas de lado. Como compensação, familiares vêm passear no Rio. Silas mora em São Cristóvão e é formado em Turismo pela Universidade Plínio Leite, de Niterói.

Atua como voluntário em muitos projetos, há bastante tempo. No Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia, por exemplo, ele é um dos membros do grupo de recreação infantil. Já morou com uma das irmãs, em Bonn, mas não gostou dos germânicos. “Estar no Brasil é como estar em casa. A língua é a mesma, o clima é o mesmo, a alegria das pessoas é muito parecida”, disse.

Apesar das súplicas familiares, Silas recusa-se a ir morar na Europa. Me disse que trabalha em sua área de formação e, por uma confusão mental, acabou indo parar no curso de Fisioterapia do Bennet. Trancou a matrícula depois de seis meses, tamanha a insatisfação com o curso. Agora pretende iniciar Pedagogia, acha que tem mais a ver.

Ele me disse que Luanda é uma cidade grande e populosa. E que, com o fim da guerra civil, muitos se mudaram para as áreas urbanas, o que provocou um inchamento da capital. Como não há infra-estrutura que comporte esse êxodo, o povo sofre com a pobreza e o governo, por sua vez, não é capaz de evitar a favelização. Mas o angolado faz questão de dizer que o país está crescendo.

Perguntei por que o Bairro de Fátima tem uma comunidade tão grande de angolanos. “O que eles fazem ali?”, indaguei. Ao que Silas me respondeu: “É simplesmente um ponto de encontro que a comunidade escolheu na cidade”. Grande parte, inclusive, já sai de Angola munida de informações sobre a região, que fica perto do Centro do Rio. Para ele, é uma maneira de não se sentirem sozinhos e reverem conhecidos. “Já me deparei aqui com pessoas que moravam perto da minha casa, em Luanda”.

A maioria, porém, fixa residência na Vila do João, que faz parte do Complexo da Maré. A realidade é dura para a maioria desses imigrantes, mas ainda assim a vida parece melhor por aqui. Embora a realidade angolana seja quase sempre distorcida pelos meios de comunicação estrangeiros. Silas mostra-se inconformado com a maneira como as pessoas enxergam a África. “A idéia que vocês têm foi construída em cima das imagens de crianças subnutridas, seca, fome e pobreza. Mas não é só isso”, diz, completando: “Assim como a imagem que os europeus têm do Brasil é completamente deturpada”. Para matar minha curiosidade, resolvi navegar pela página no governo angolano (http://www.angola.gov.ao/) e descobri que tem muita coisa interessante acontecendo por lá.

Comentei que, durante minha passagem pela UFF, era comum convivermos com alunos de Cabo Verde. Silas confirmou, disse que se trata de intercâmbio universitário, e que os governos encarregam-se de arcar com os custos ao longo do processo. No caso dele, foi possível pagar o estudo particular com a ajuda dos irmãos que residem no estrangeiro.

Já nos aproximando do ponto final, disse a ele que gostaria muito de conhecer a África urbana, diferente da África dos safáris vendidos pelas operadoras de turismo do mundo todo. Elogiei a elegância do seu povo e a beleza de homens e mulheres, sempre com roupas novas e penteados impecáveis. Ele sorriu, sem graça, confirmando a preocupação com a aparência e lembrando que muitos deles compram roupas aqui para vender em Angola. É um bom negócio. Despedimo-nos com a promessa de trocar e-mails e manter contato ao longo do ano, nas ações promovidas pelo Rio Voluntário.

19 de mai de 2008

Reflexões sobre a Política Habitacional Brasileira: Quando o sonho da moradia racha (Parte II)


Foto: Marcelo Valle


Toda manhã, Helena de Jesus acompanha com ansiedade a evolução da rachadura na parede da sala de seu apartamento, no condomínio Village Laranjeiras, no município de São Gonçalo. Em novembro de 2006, a doméstica deixou a casa de um cômodo em São José do Ribamar, interior do Maranhão, e mudou com o marido e dois filhos para o Rio, atraída pelas promessas da cidade grande.

- À noite, quando o silêncio é maior, ouvimos as paredes partindo e, no dia seguinte, as rachaduras surgem cada vez maiores - conta Helena, com uma angústia indisfarçável.

O empreendimento foi lançado há apenas nove meses, mas as rachaduras já se alastram por todos os 184 apartamentos. De acordo com os mutuários, a construtora Modelo, responsável pela obra, já realizou três pequenos reparos, mas as rachaduras voltam sempre com mais intensidade. O argumento apresentado pela empresa aos moradores, por meio de correio eletrônico, é que trata-se de um "problema natural, de assentamento de terreno".

Assim que chegou do Maranhão, a sorte pareceu ter aberto os braços para Helena: começou a lavar roupa para fora, encontrou vaga para os filhos em uma escola pública e o marido foi contratado como operário da obra de um edifício residencial de classe média. Com a renda, a família conseguiu entrar em um financiamento para a aquisição da casa própria, com duração de 15 anos, no conjunto habitacional de 23 blocos construído com recursos do Programa de Arrendamento Residencial.

Apesar do sacrifício para economizar R$ 240 por mês, a maranhense estava satisfeita com a nova vida, que prometia ser ainda melhor com a chegada de investimentos na região, atraídos pelo Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro, da Petrobras, em construção na vizinha Itaboraí. Mas, dois meses depois de mudar-se para o Village Laranjeiras, o sonho da casa própria se converteu em pesadelo: começaram a aparecer rachaduras profundas na parte externa dos blocos e nos cômodos do apartamento de dois quartos.

Consultor técnico do Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura do Rio de Janeiro (Crea-RJ), Canagé Vilhena diz que o problema das construções populares de má qualidade, verificado em São Gonçalo, é comum em outras cidades. Segundo ele, na ânsia de investir os recursos do Programa de Arrendamento Residencial (PAR), algumas construtoras preferem priorizar a quantidade à qualidade, e, por isso, estão deixado de seguir as normas básicas de engenharia e arquitetura.

- Prédio novo com rachaduras é inaceitável - disse. - Os moradores devem formar uma associação e procurar imediatamente o Crea e o Ministério Público para apurar a responsabilidade civil e criminal. É preciso garantir a integridade física e moral dessas pessoas, que se sacrificam tanto para conseguir realizar o sonho da casa própria.

De acordo com a Prefeitura de São Gonçalo, somente no município sete novos conjuntos habitacionais acabam de ser lançados em parceria com o Ministério das Cidades, para famílias que ganham entre R$ 800 e R$ 1.800.

- A prefeitura faz o que pode, mas o déficit imobiliário no município é crônico e vem de longe - revela o secretário de Habitação de São Gonçalo, Fernando Medeiros.

Ele conta que a crise da habitação popular começou com a construção da Ponte Rio-Niterói, nos anos 70. Contratados para trabalhar na obra, centenas de operários mudaram para a cidade e instalaram-se com as famílias em terrenos baldios. A onda migratória levou à edificação no município da primeira vila operária do país, a Vila Laje. Em seguida, a construção da rodovia BR-101 atraiu mais trabalhadores para morar no local.

Com a terceira maior população do Estado (900 mil habitantes, aproximadamente), São Gonçalo enfrenta sérios problemas de ocupação irregular do solo. Hoje, existem 3 mil barracos construídos a menos de 15 metros da linha férrea que será utilizada para o escoamento da produção do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj).

- Esperamos que o Comperj não seja mais um presente de grego para o município, como foi a Ponte Rio-Niterói e a BR-101 - desabafa Medeiros. - Rogamos que os trabalhadores que vierem trabalhar no Comperj não tragam suas famílias.

Com o intuito de amenizar a crise habitacional antes da finalização da obra do Comperj, prevista para 2012, a prefeita da cidade, Aparecida Panisset, sancionou uma lei para regularizar imóveis ocupados por famílias há mais de cinco anos. Outra alternativa em análise é a implantação de um projeto de hospedagem voluntária.

- O Comperj e as empresas que vão se instalar nos arredores vão precisar de pelo menos 40 mil trabalhadores, mas somente 10 mil serão empregados depois da conclusão das obras - calcula Fernando Medeiros. - A hospedagem em casas de família seria uma opção razoável de moradia temporária.

O anúncio de liberação recorde de recursos para habitação pelo governo federal acelerou desde o ano passado o movimento das escavadeiras no município. Desde o início do ano, foram construídos conjuntos habitacionais nos bairros de Santa Luzia, Columbandê, Jaboticabal, Tumbergia, Girassóis e Laranjal.

Para comercializar as unidades, foram realizadas feiras de financiamento voltadas para a população de baixa renda. Apesar do déficit no município, 269 apartamentos não foram vendidos. De acordo com a Secretaria de Habitação, as unidades não foram ocupadas porque muitos candidatos foram reprovados na avaliação de crédito. Márcio Leandro, morador do conjunto habitacional do Laranjal, discorda.

- Se em poucos meses o prédio já está rachando, imagine daqui a 15 anos, quando terminarmos de pagar? - diz. - A gente se sacrifica para pagar a prestação e, quando recebe o imóvel, ele tem risco de desabar. Eu só não saio daqui com a minha família, porque não quero perder o dinheiro que investi nem tenho para onde ir.

A difícil imposição da idade... malhar!


Bom, vida saudável nunca foi meu forte. Posso assegurar que, por nenhuma vez, durante meus quase 27 anos, consegui freqüentar o ambiente musculoso de uma academia, por mais de três meses. Fiz outros mil esportes, tive uma adolescência saudável. Mas foi só começar a estagiar que nunca mais, nunca mais, consegui por em prática meus planos corporais. O resultado? O de praxe: barriguinha, celulites e gorduras semi-localizadas, ou seja espalhadas mesmo. Estou muito triste com tudo isso, a idade avança a passos largos e daqui a pouco é mais uma festa, mais um aniversário. Tenho prazer em comer bem, todo dia, sou viciada em doces, e sempre arrumo um bom motivo pra tomar um chopinho depois do trabalho. Porém, desta vez não há escapatória Hei de vencer a batalha saudável. Dieta, já desisti, não passo das 18h do primeiro dia. Daí decidi: entrei mais uma vez numa academia. Fica perto de casa e é bem tranqüila, pouca gente. Assim que eu gosto :o)

Cenas do próximo capítulo: Conseguirá, Gardênia, entrar na academia e cruzar com popozudas, achando isso normal? Frequentará, Gardênia, mais de uma vez por semana as aulas de alongamento? Fará parte, Gardênia, da turma de localizada? Aguarde...

Quem? O Super-Minc!!


Quem trabalha em redação, conhece algumas figurinhas tarimbadas da mídia. Logo, aprendemos que fulano, sicrano e beltrano são fontes certas, que nos atendem a qualquer hora do dia e da noite e sempre, sempre nos dão lide (há os contrários, como o Marco Maciel, por exemplo, o maior anti-lide da história do jornalismo). Pior, ou melhor: às vezes, nem precisamos ligar. A fonte-notícia sempre dá um jeito de nos achar na redação para revelar o furo, não importa se você é ganhador de Prêmio Esso ou um mero foca. Esses personagens não almejam falar só com os grandes nomes.


Narizes de cera à parte, estou falando do nosso quase-coleguinha Carlos Minc, que acaba de chegar ao Ministério de Lula e já nos rendeu frases, polêmicas, manchetes e muitas páginas de jornal. No dia em que foi anunciado, a grande piada da redação era: justo hoje ele não atende à imprensa! Ironia! Mas, o "ambientalista de Copacabana", segundo os ruralistas, estava apenas querendo confirmar se tinha sido convidado mesmo e se seria liberado por Sérgio Cabral Filho para aceitar o que classificou como um "grande desafio". "Se não aceitasse, seria covardia política", disse, sem esconder o desconforto por ter que deixar o certo, no Rio, pelo duvidoso, em Brasília.


Eu me lembro do primeiro dia que fui à Assembléia Legislativa do Estado do Rio (a popular Alerj) e de dois choques: o figurino do Minc, com suas gravatas coloridas, coletes, ternos que não combinam e colares indígenas; e o discurso do Chico Alencar, que me cativou pelas metáforas, conhecimento de causa e boa prosa. Já vi Minc em ação, embora nem estivesse trabalhando no dia. Ele estava em Camboinhas fazendo uma de suas diligências para salvar o meio ambiente. Também ganhei uma de suas cartilhas com leis aprovadas e por aprovar, idéias simples e criativas, mas que a gente nunca deu a devida importância.


Minc é assim: liga para a redação, não faz distinção de cargos, posição ou veículo em que o repórter trabalha, é simpático, se veste como um hippie brega, freqüenta a Lapa, é gente como a gente, gosta de aparecer, parece mesmo um Minc Leão Dourado. Agora, a curiosidade que me assola é saber como será sua passagem pela Esplanada e seu desfile pelo Imprensa que eu Gamo no próximo ano. Será que ele vai? No bloco dos coleguinhas em Laranjeiras, já o vi dançando e sambando como se não houvesse amanhã! Definitivamente, é um dos nossos.

18 de mai de 2008

Quem poderá intervir?



“Planeta: a Terra.

Cidade: Tóquio.

Como todas as metrópoles deste planeta, Tóquio está hoje em desvantagem na sua luta contra o maior inimigo do homem: a poluição. E, apesar dos esforços de todo mundo, pode acontecer que – um dia – a terra, o ar e as águas venham se tornar letais para toda e qualquer forma de vida.

Quem poderá intervir?

SPECTREMAN!!!!”

Era assim que sempre começava um episódio do Spectreman, depois daquela abertura que tinha uma música muito legal (e sobre a qual eu sempre falava: “Quando tiver uma banda, vou fazer uma versão dessa música...”).

Eu devia estar sentado no sofá, tirando meleca e coçando o saco ainda moleque.

Acho que passava na TVS (hoje SBT), ou também passou na extinta TV Manchete... não sei. (Acho que lá era o concorrente... o Ultraman).

Monstros gigantes, cenários toscos, a inconfundível vitória do Bem contra as forças do Mal.

Doutor Gori e sua risada ameaçadora, no fundo, não ameaçavam ninguém.

Nosso herói, Spectreman, trajando seu coletinho mal passado, era mais do que um super-herói. Pela introdução, ele já assumiria a responsabilidade de um ambientalista ferrenho, a defender o planeta da louca voracidade da industrialização.

Em Kyoto, anos mais tarde, Spectreman, com sua identidade humana de Joji Gamu, estava na platéia. Já com uns 50 e poucos, bem acabadaço, não teve forças para reagir. Sua história de bons serviços à Divisão de Pesquisa e Controle de Poluição não foi considerada. Ele pediu a palavra, mas foi solenemente ignorado pelos chefes de Estado presentes. Caiu na real e viu que o jogo estava perdido.

Desesperançoso, Spectreman pegou um trem-bala até Tóquio e seguiu a viagem acompanhando um show de bizarrices na TV em frente de sua poltrona. Quando desceu, resolveu comprar calcinhas usadas de colegiais nipônicas numa dessas lojas para japas de meia idade que se amarram em calcinhas suadas de colegiais nipônicas.

Em casa, jogou os sapatos para longe e ligou a TV. Ficou vendo alguns desses desenhos japoneses. A luta, agora, se colocava em mundos paralelos, distantes do cof-cof, dos engarrafamentos, das buzinas, das colegiais. Um mundo fantástico e asséptico.

Ele se sentiu um panaca, um palhaço a serviço de um país que mata baleias em nome de “valores culturais”.

Ele foi até o quarto. Abriu o armário e pegou uma caixinha. Tirou lá de dentro um pouco do haxixe que um amigo filipino havia descolado com um conhecido indiano que fazia hora-extra numa fábrica que fazia peças para aparelhos da Sony. Preparou o fumo e tocou fogo.

Pegou uma fita VHS empoeirada e colocou no videocassete.

Ele se sentou no sofá.

Começou a viajar no episódio em que ele pegou uma barata gigante pela antena e atirou longe, indo cair naqueles prédios toscos feitos de papelão, ou coisa parecida.

Deu uma boa risada. Depois, tirou uma meleca e coçou o saco velho.

E pensou alto:

- E agora? Quem poderá intervir?

16 de mai de 2008

Adeus, Dinha

Foto: Marlene Bergamo, Folha de São Paulo

Morreu hoje, em Salvador, a Dinha do Acarajé. Em seu pouco tempo de vida, o Caroço já a citou duas vezes, porque dois de nossos ilustres representantes, Gardênia e Pedro Paulo Malta, descobriram recentemente, em viagem à Bahia, o sabor da iguaria feita por dona Lindinalva de Assis, seu nome de batismo.


Dinha era hipertensa e diabética, e foi internada ontem num hospital com suspeita de virose e com falta de ar. Hoje, recebeu alta, mas passou mal de novo, teve uma parada cardiorrespiratória e não resistiu.


A Bahia perde um de seus cartões postais. E o Caroço faz a homenagem publicando a letra dessa música de um outro ilustre da terra maravilhosa, que nos deu Glauber, Caetano, Gil e tantos outros nomes importantíssimos de nossa cultura - fora os anônimos baianos que a gente conhece por aí e logo se apaixona. Viva a Bahia.


A preta do acarajé (Dorival Caymmi)
Dez horas da noite
Na rua deserta
A preta mercando
Parece um lamento
Ê o abará
Na sua gamela
Tem molho e cheiroso
Pimenta da costa
Tem acarajé
Ô acarajé é cor
Ô la lá io
Vem benzer
Tá quentinho

Todo mundo gosta de acarajé
O trabalho que dá pra fazer que é
Todo mundo gosta de acarajé
Todo mundo gosta de abará
Ninguém quer saber o trabalho que dá

Dez horas da noite
Na rua deserta
Quanto mais distante
Mais triste o lamento
Ê o abará

15 de mai de 2008

A televisão e o primeiro mundo


Foto: Marcelo Valle

Na verdade o título deveria ser “A falta de televisão e o falso conceito de primeiro mundo”.
Nao sei se ainda nas escolas ensinam a alguma crianca essa cruel divisão do planeta ou se apenas ensinam o não menos falso conceito de países desenvolvidos versus países em desenvolvimento. 

Qualquer pessoa numa grande cidade de um país “em desenvolvimento” - incluindo até a menos abastada - tem um aparelho de televisão. Em economias “desenvolvidas” não é bem assim, pelo menos não na Inglaterra. E relato aqui minha experiencia de “excluída televisiva”. Somo dois anos (com um pequeno intervalo de 3 meses nesse período) desprovida do aparelho. E posso garantir que não estou sozinha. 

Os motivos: 
O primeiro é a condição nomade de grande parte dos habitantes (quando se é estrangeiro num país tenta-se acumular o menor número possivel de bens de consumo, uma vez que nunca se sabe a data da volta e revender objetos usados não é algo muito vantajoso). Inclusive alguns websites tem páginas dedicadas aos “freebies”, que consiste em doar objetos inutilizados/indesejados. 

O segundo motivo é a licensa anual. Qualquer pessoa portadora de um aparelho de tv no Reino Unido tem que pagar anualmente 139.50  libras ou algo em torno de 450 reais. Se a tv for PB (??) o valor cai para algo em torno de 150 reais. O terceiro motivo atribuiria a falta de interesse. Afinal de contas, mesmo com as duas razões citadas, quem quer mesmo assistir TV, pode buscar uma grátis ou burlar a lei (a verdade é que muitos fazem isso).

Nos primeiros meses sofri com a abstinencia, mas hoje posso dizer que sou uma sobrevivente – raramente lembro que não assisto televisão e só me dou conta disso quando alguém fala do “programa da noite passada”. Fora a exclusão social – obviamente fico fora do assunto quando o papo é “voce viu o que fulaninho falou no Big Brother ontem?” - recentemente me dei conta de um sintoma muito mais grave: a indeferença que tenho apresentado em relação as misérias humanas. Sim, porque só a TV pode produzir um indivídui provido de compaixão numa cidade “desenvolvida‘. Um ser humano, quando nao submetido visualmente as maselas do mundo, perde a ternura, a piedade, esfria o coração.  Tentem fazer o teste. Desliguem suas tvs, fiquem alguns meses sem deparar com meninos de rua, não leiam O Globo e vejam como seus corações reagirão.

A TV aquece os corações. E a minha redenção chega em 15 dias.

Reflexões sobre a Política Habitacional Brasileira: A eterna espera pela casa própria (Parte I)

Foto: Marcelo Valle

Há sete anos, respiro imóveis. Desde muito antes da mídia resolver dar bola para a bolha estadunidense, minha condição de repórter "setorista" (sempre simpatizei com essa expressão, que funciona quase como um selo de status dentro da redação), já me obrigava a viver debruçada sobre as análises dos malditos empréstimos subprime, cálculos de hipoteca e tabela price. Assim que, quando a bolha estourou lá em cima e o Lula anunciou as boas novas de uma política habitacional voltada para o povão, com prazos de financiamento de três décadas, quase nada me surpreendeu . Passado o alvoroço inicial, do anúncio de catástrofes econômicas desencadeadas pela bolha e a esperança do fim instantâneo do déficit habitacional, vieram as constatações de que nenhuma das previsões se concretizaria nem tão rápido nem de forma tão fácil quanto previsto. A partir deste post, recorro à vantagem de ter um olhar um pouco mais acostumado com o meio imobiliário que a maioria da população, para publicar, na íntegra, algumas reportagens sobre a atual política habitacional brasileira, veiculadas no Jornal do Brasil durante a minha estadia na casa como "setorista". Foto: Marcelo Valle

A eterna espera pela casa própria (ou O caminho da gestão popular)




Os recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) destinados às obras de urbanização de favelas e construção de casas populares correm o risco de não sair do caixa. Mesmo com R$ 104 bilhões garantidos para investimentos em habitação social até 2010, governadores e prefeitos podem perder a verba por que desconhecem o tamanho do déficit de moradias e ainda não desenvolveram projetos para solucionar o problema.

Na tentativa de incentivar a execução de projetos em tempo hábil, a Secretaria Nacional de Habitação do Ministério das Cidades está promovendo seminários regionais para auxiliar governos e comunidades locais a colocar no papel suas demandas. Mas, de acordo com agentes que participam do debate, o curto espaço de tempo para análise do tema e o excesso de burocracia devem inviabilizar a aplicação dos recursos pelos próximos três anos, no mínimo.

- Esperamos esse dinheiro por 13 anos e agora que ele chegou não temos projeto - diz a representante da União Nacional por Moradia Popular (UNMP), Evaniza Rodrigues. - Estamos trabalhando juntos com o Ministério para entender a dimensão do problema, mas ainda não temos a real noção de prazos e metas para a política habitacional.

Evaniza Rodrigues revela que o último levantamento oficial do déficit data de 2001, quando o governo avaliou que seriam necessários pelo menos R$ 90 bilhões para suprir a falta de 6,5 milhões de moradias. De lá para cá, o Brasil ganhou 500 mil novos sem-teto e, segundo ela, a burocracia para utilização de recursos públicos para obras populares só aumentou.

- Até chegar a quem precisa, o dinheiro passa por um longo caminho burocrático, que envolve as prefeituras e a Caixa Econômica e isso trava a máquina - diz a representante da UNMP. - O ideal seria descentralizar a administração desses recursos e deixar sob a responsabilidade das comunidades locais a gestão dos investimentos.

Entregar às comunidades a gestão dos recursos para construção de moradias pode parecer uma idéia arriscada, a partir da lógica liberal do mercado. Mas, desde 2005, o modelo trouxe bons resultados na maioria das regiões onde foi implantado. Após seguidas ações de ocupação de terra por integrantes do Movimento Nacional de Luta pela Moradia (MNLP), governadores e prefeitos de Norte a Sul do país se renderam à auto-gestão.

O trabalho é semelhante ao de uma cooperativa. Em lugar de centralizar a construção dos conjuntos habitacionais, Estado e municípios se encarregam apenas de prover, com os recursos da União, infra-estrutura local (energia elétrica, asfalto, rede de água e esgoto). O governo municipal auxilia ainda na contratação de mão-de-obra (a maioria os próprios sem-teto) e gerenciamento técnico do projeto. O MNLM, por sua vez, seleciona e credencia os futuros moradores e organiza o mutirão para erguer as casas.

O vice-presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), José Carlos Martins. defende a ampliação de mecanismos que permitam o acesso à casa própria à população de baixa renda.

- Hoje sentimos boa-vontade do governo em solucionar a crise habitacional, mas enquanto a Caixa Econômica for o único agente financeiro autorizado a operar com recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), vai ser difícil pensar em ampliar o crédito para quem mais precisa-diz.

José Carlos Martins destaca que, além do desafio de descentralizar os recursos do FGTS destinados à aquisição da casa própria, o setor sofre ainda com uma elevada carga tributária, que representa 40% do custo final de uma casa popular.

- O governo precisa desonerar a habitação de interesse social para atrair mais investidores e reduzir o déficit de moradias no país. Só liberar verba, não adianta - conclui.

13 de mai de 2008

Mais sobre Órfãos do Eldorado

Apenas para dar minha "avaliação do livro": para quem leu Dois irmãos, o livro decepciona. Não tem a força trágica do outro livro, embora o "ambiente" e a linguagem sejam semelhantes. É uma história boa, curta, que se lê rapidamente, mas não empolga. Apenas o protagonista tem força, os outros personagens somem na memória logo após virada a última página. (Avaliação "impressionista", aliás, sem muita paciência para me alongar.)

12 de mai de 2008

É coisa nossa...


Na minha adolescência suburbana, ainda que freqüentasse muito os cinemas da cidade vizinha (nos anos 80, as famílias podiam ir ao cinema sem gastar fortunas. O dinheiro dava até para comprar os mini-chicletes coloridinhos e a bala caramelo, o grande hit de então), minha grande diversão mesmo era a televisão. Cresci assistindo a programas de auditório, novelas, desenhos. Ouso confessar que meus programas prediletos eram o Cassino do Chacrinha, aos sábados, e o Sílvio Santos, aos domingos.

“Agora é hora de alegria/vamos sorrir e cantar/lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá/Sílvio Santos vem aí/lá lá lá lá lá lá”. Invariavelmente, meus domingos começavam assim (principalmente os sem-sol, porque suburbano adora “viajar” até a praia, com suas barracas, sanduíches prontos, cadeiras e esteiras – onde foram parar as esteiras de palha?). Meus quadros favoritos eram os da cabine-foguete e o dos dados. O primeiro era assim: a criança entrava e, ao ver uma luzinha acender, tinha que responder sim ou não para a pergunta fatal de Sílvio Santos: “você troca uma bicicleta com seis marchas por uma chupeta”? SIMMMMMMM. No segundo, o apresentador distribuía dados para bebês de colo e as mães faziam malabarismos mil para a criança jogar o brinquedinho novo no chão. Ganhava o bebê que jogasse o dado com o maior número virado. Também me lembrei agora de um quadro em que a criança vestia uma calça larga, a enchia de bolas e Sílvio ia estourando cada uma, fazendo a contagem junto com o auditório.

Ah, e tinha o “Qual é a música”, um dos clássicos do domingo. Alguém se lembra do Trio Los Angeles? Eles estavam sempre lá. Gretchen era outra habitué. Ronnie Von idem. Sílvio Santos era o paraíso dos artistas decadentes (vem daí meu gosto estranho por programas bizarros?). O “Programa de Calouros” era outra diversão certa. Ano passado, tentei fazer um mestrado sobre Aracy de Almeida e a construção de uma nova identidade para a cantora dos anos de ouro da MPB a partir da participação neste programa. Não deu.

Sempre que estou em casa, e me lembro de ligar a TV, volto ao SBT aos domingos para matar a saudade. Sílvio Santos continua o mesmo, reeditando velhas fórmulas, criticando a Globo – e agora a Record que lhe tirou o segundo lugar de audiência. O “Qual é a música” ainda atrai artistas no ostracismo, mostra dubladores com pinturas bregas no rosto (quem se lembra do Pablo?) e músicas que só os moradores de São Paulo conhecem (nada contra a cidade, ok?). Mas agora Sílvio está parecendo aquela pessoa que chegou ao fim da vida (velhinhos perdem a vergonha de certas coisas, não é?, feito as crianças) e perdeu todos os pudores. Como dono e faz-tudo da emissora, fala o que quer, tira artistas do ar, muda os horários, monta e desmonta o núcleo de telejornalismo. Além de humilhar as colegas de auditório, ele faz chacota com os participantes do programa.

No “Qual é a música” de ontem, ele se perguntou à Sheila Carvalho (ex-dançarina do Tchan), que estava acompanhada do atual marido, por que o Compadre Washinton (seu ex-companheiro de grupo e de cama) batia tanto nela. Depois, quis saber: e o bebê, vocês já têm? A mulher perdeu um no ano passado, e não escondeu o constrangimento numa lágrima que lhe pendeu do olho esquerdo. Logo depois, quis saber de um piloto desconhecido da Stock-Car quando ele ia correr pela Fórmula-1. E fez o filho da Wanusa, irmão da Aretha e vencedor da Casa dos Artistas (sei tudo isso, mas não lembro o nome da criatura, que herdou os cabelos da mãe) cantar uma de suas músicas atuais para testar sua popularidade. Diante de um auditório mudo, o rapaz cantarolou Plunct Plact Zum, no que foi acompanhado por meia dúzia de senhoras de meia-idade, para mostrar que já fez sucesso um dia...

O pior é que esse patético, mas divertido circo eletrônico ainda deve render ao dono do SBT alguma audiência. Inclusive a minha, claro.

Sobre o GP da Turquia

Alguém, além de mim, notou que o Massa ontem ficou quietinho quietinho na hora do Hino Nacional Brasileiro e abriu um sorrisão na hora da execução do hino da Itália e até ensaiou umas frases da música que embalou os anos Schumacher na Fórmula-1?



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Depois, estranham minha torcida por Lewis Hamilton, que, com um carro melhorzinho ontem, já incomodou a irritante hegemonia vermelha na mais charmosa categoria automobilística.





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E o Rubinho? 257 corridas envergonhando a bandeira brasileira pelo mundo afora. Galvão exaltou: foram nove vitórias e dois vice-campeonatos... E ainda sugeriu ao piloto: para chegar a 300, faltam mais dois anos...

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É cada dia mais ridícula a cobertura da Globo. Se Rubinho fosse um piloto inglês, argentino, espanhol, alemão ou japonês, seria motivo de chacota entre os nossos comentaristas oficiais. Até o Luciano Burti, um rapaz sensato, técnico e dono dos melhores comentários durante a transmissão, encerrou participação hoje no Globo Esporte lembrando que Rubinho tem grandes chances de pontuar no próximo GP de Mônaco, já que seu carro não é bom nas retas...

11 de mai de 2008

Transando lembranças (ou “Uma leitura de um disco”)


Ouvindo “Transa” (1972), eu começo a transar as lembranças de tempos não tão distantes, mas não menos saudodáveis (saudosos e saudáveis).

“You don’t know me”...

“Nasci lá na Bahia”...

“Laia-ladaia-sabadana-Ave-Maria”...

E o baterista dá aquelas viradas jazzísticas, o contrabaixo pulsa serpenteando as notas, o violãozinho solando bem blues, muito blues. E Caetano canchorando (cantando e chorando) algum lamento que poderia ser africano, mississipiano, mas é baiano, é nordestino, é blues, é muito blues, é universal, e é...

“Norte Centro Sul inteiro, onde reinou o baião”.

É extremamente desprovido de fronteiras, de amarras, de bolas de ferro acorrentadas a canelas corroídas. Música/arte essencialmente internacionalista (porque é assim que deve ser), a trabalhar com referências diversas, sem a patrulha das pseudo-esquerdas que sempre chiam quando a mistura não lhes parece enquadrada em seus esquemas de pureza ideológica/artística.

Nove em cada dez estrelas de cinema o faziam chorar... Mas ele estava vivo, muito vivo, ao som do reggae, em Portobello Road, tudo em volta de seu estômago, seu estômago...

Sim, ele sabia que um dia estaria morto, mas estava vivo, muito vivo.

E naquele Transa, naquela transa, a tal MPB (rótulo que mais segrega do que aglutina) parece que estava mais viva do que agora (se levarmos em conta o que enquadram no rótulo... pois, à margem dele, há vida, muita vida).

Caetano estava mais vivo. Ou não sei se me agradou mais porque se abriu pra referências de fora, enriqueceu o som. Afinal, fez a tal “antropofagia” de que falava Oswald de Andrade.

E aquela banda também era fantástica. O que o levou a declarar (segundo a citação reproduzida na wikipedia sobre o disco):

"Chamei os amigos para gravar em Londres. Os arranjos são de Jards Macalé, Tutti Moreno, Moacyr Albuquerque e Áureo de Sousa. Não saíram na ficha técnica e eu tive a maior briga com meu amigo que fez a capa. Como é que bota essa bobagem de dobra e desdobra, parece que vai fazer um abajur com a capa, e não bota a ficha técnica? Era importantíssimo. Era um trabalho orgânico, espontâneo, e meu primeiro disco de grupo, gravado quase como um show ao vivo".

Detesto fórmulas para analisar fenômenos sociais. O termo “ciências humanas” não pode (não deve) encerrar um entendimento de que haja alguma objetividade matemática, algum método que dará conta de prever movimentos, descobrir leis gerais... Chega de determinismos rasteiros.

[O esforço pode até ser por aí: tentar a objetividade (como deve se tentar num bom jornalismo... embora os lados a serem ouvidos sejam, quase sempre, muito mais do que apenas dois), mas nunca perder de vista que sua realização plena não passa de um mito.].

Mas é irresistível montar a fórmula que encerra a lógica:

repressão + artistas de talento = obras inspiradíssimas.

Bom... Pelos menos, eu sempre ouvi esse comentário: “Nos tempos de ditadura, esses caras eram mais inspirados”...

Será que os artistas da MPB foram mais criativos justamente por que estavam sob a sombra da ditadura?

Letras com mensagens cifradas, exílios, saudades da terra...

Creio que contextos diferentes engendrem obras de arte diferentes, unidas por certas pitadas de um “estilo pessoal” (embora “pessoal” seja eminentemente “social”). A criatividade não cessa.

“Trago no peito a estrela do Norte”, “Triste Bahia, ó quão dessemelhante”...

Até que ponto isso mexeu com o imaginário dos artistas? Em que medida isso ajudou a fazer nascerem grandes metáforas entre os dentes cerrados pelo medo?

E aí pensamos em nomes como Brecht, Walter Benjamin, George Orwell... que, de certa forma, produziram sob sopros totalitários, sob o hálito podre do fascismo.

“It’s a long way, it’s a long way”…

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Para quem quiser ouvir trechos:

http://www.caetanoveloso.com.br/sec_discogra_view.php?language=pt_BR&id=8

Ou se fartar com o disco.

Ou muito mais.

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Vida longa ao compartilhamento.

Compartilhar-comunicar-tornar comum.

Acima de interesses econômicos, indústrias, leis de propriedade.

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Então é isso aí.

Prazer chegar aqui ao virtual.

Oi pra geral.

Obrigado pelo convite e abraços...

virtuais.

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10 de mai de 2008

A grande verdade

Frase dita por Sandra de Sá na TV, nessa semana: "Tudo é ou não é, em relação a".

Ainda sobre os Rebeldes

Um momento do show da banda RBD, ontem, na Barra da Tijuca, me fez perceber que os jovens de hoje são um pouco diferentes dos do meu tempo (hã hã). Tive um certo orgulho, confesso, daqueles fanáticos pelo fenômeno mexicano que criou uma novelinha boboca, pouco inteligente e até deseducativa em termos comportamentais devido à quantidade de barracos e maracutaias na trama. Logo na primeira parte do show, os integrantes da banda iam até a frente da passarela que saía do palco e davam uma "mensagem positiva" aos jovens que estavam na platéia.

Breguices à parte, um deles arrancou os mais emocionados e empolgados aplausos do público. Christian, rapaz de cabelos coloridos e maquiagem marcante, de microfone na mão, precisou de apenas uma frase pra arrancar lágrimas e aplausos que revelaram o apoio incondicional de seus fãs: "Obrigado por vocês me aceitarem como eu sou". Há pouco mais de um ano o jovem astro assumiu sua homossexualidade publicamente aos milhões de fãs que o RBD tem mundo afora, a maioria crianças e adolescentes. Pouco depois, ele e o namorado anunciaram o casamento. Christian foi aplaudido também pelos pais que acompanhavam seus filhos.

Descoberta da latinidade

Fiz, há uns dois anos atrás, mais ou menos, para o Caderno B, do Jornal do Brasil, para o qual escrevo, uma matéria discutindo e constatando, de acordo com a opinião de estudiosos de várias áreas, que o Brasil está de costas para a América Latina. A reportagem foi motivada pela abertura de uma grande exposição de arte latinoamericana no CCBB, eu acho. Brasileiro, de uma forma geral, não se sente muito latino. Não se identifica com seus vizinhos, fala uma língua diferente, tem muito mais terra e por mais irônico que isso pareça, mais poder econômico. É até relativamente considerado menos subdesenvolvido.

Esse nariz de cera todo é para contar que ontem (não riam!), sexta-feira, fui ao show da banda jovem mexicana RBD, formado pelos protagonistas da extinta novelinha Rebelde. A missão era levar três primos pré-adolescentes para uma noite de catarse coletiva juvenil. O RBD já lotou o Maracanã, mas desta vez reuniu platéia menor, lotando apenas o Rio Arena (aquela multiuso do Pan, que tem um banco privado como patrocinador) , coisa de 15 mil pessoas. A tal novelinha já acabou há uns dois anos, mas a banda mantém a febre em seus fãs, em muitos países. A longa espera na platéia até o show começar, a euforia, as faixinhas na cabeça, as bandeiras e o choro histérico de meninas e meninos nascidos depois dos anos lembrou o fenômeno Menudo.

O que mais impressionou, entretanto, foi o espanhol perfeito do coro, que cantou todas as letras, por duas horas. O ensino do idioma não é obrigatório nas escolas brasileiras e nem é a preferência da garotada e dos pais, que os matriculam invariavelmente em aulas de inglês. A língua também não é predominante nas séries de televisão e nos filmes a que os jovens assistem (cinema argentino, colombiano ou espanhol é coisa de adulto zona sul, vamos combinar), nem nos clipes da MTV e do VH1. O fenômeno da gravatinha vermelha no pescoço, porém, por maior pobreza cultural que a novela e as letras das músicas da banda apresentem, fez com que uma legião de adolescentes se interessassem pela língua de nossos vizinhos. Os seis integrantes da banda até tentavam arranhar um português com sotaque e os fãs davam gritinhos. Mas todos, incluindo meus três acompanhantes, ouviam e compreendiam perfeitamente tudo o que eles diziam em seu idioma original.

O fenômeno RBD fez com que minha prima de 14 anos, moradora da Baixada Fluminense, começasse a estudar espanhol, apenas com a ajuda de um dicionário. Este ano ela mudou de colégio e a preferência foi por uma escola que, além de inglês, tivesse aulas regulares de... espanhol. Muitos de seus amigos e colegas fizeram o mesmo. O incipiente aprendizado deste idioma amplia seu interesse pelo que se passa nos países vizinhos. Em uma recente viagem que fiz à Argentina, todos os emails trocados com a família para dar noticias da viagem eram intermediados por ela e escritos e respondidos em espanhol. Pra treinar e entrar no clima, ela recomendou. Será que RBD é mesmo uma cultura tão inútil assim? Tenho minhas dúvidas sobre alguns aspectos.