30 de set de 2008

Find a Grave

Não sei a que ponto isso é necrofilia intelectual, mas, para aqueles que sonham em visitar os túmulos de Cortázar em Montparnasse e de Jim Morrison no Père Lachaise, o site Find a Grave (sim, você está lendo direito...) dá, perdoe-me o trocadilho, o caminho das pedras. Confesso que achei deprimente demais para o meu gosto, mas, caso alguém queira saber onde está o túmulo de Tom Jobim, não precisa mais procurar.

29 de set de 2008

Diálogo entre pais e filho

- Pai, quero ser rico e famoso.
- Pra que, meu filho? - responde o pai, desanimado.
- O Zico é rico e famoso.
A mãe escuta ao longe e se mete na conversa:
- Filho, pra que ser rico e famoso se tem tanta gente pobre, tanta desigualdade nesse mundo?
- Ah, então tá, mãe. Quero ser pobre e famoso.
...

28 de set de 2008

25 de set de 2008

Ary e o Maracanã


O Gustavo escreveu sobre a Cidade da Música e a Monique lembrou, em comentário, a polêmica sobre a construção do Maracanã, no Rio. Então, aproveito a oportunidade para publicar um texto que tinha escrito para o jornal, mas que não foi publicado, numa série sobre os vereadores do país. Nele, está citada a briga sobre o Mário Filho, defendido na Câmara por ninguém menos que o nosso ilustre Ary Barroso, e atacada pelo controverso Carlos Lacerda. No livro do Sérgio Cabral, há mais detalhes sobre o debate. Aliás, o capítulo que trata de Ary como vereador é o mais saboroso da biografia escrita pelo primeiro-pai do estado sobre o compositor. Segue o texto:



Em tempos de mensaleiros, sanguessugas e fichas-sujas, é curioso lembrar que, no passado, os políticos ofendiam uns aos outros com xingamentos mais, digamos, ideológicos, do tipo “integralista”, “comunista” e até “sambista”. Esse último é o caso do compositor Ary Barroso, que, na legislatura de 1947/1951 na Câmara de Vereadores do Rio, foi “acusado” por um colega de não ter experiência como funcionário público, mas viver de tocar e cantar — como conta o jornalista Sérgio Cabral na biografia “No tempo de Ari Barroso”.


“Sr. Presidente, qual o defeito, qual a culpa, qual o erro, qual o castigo que mereço pelo simples fato de ser sambista? (...) Ser sambista, sr. Presidente, é muito difícil. Nunca pertenci ao quadro de funcionários (da prefeitura) e, se pertencesse e conseguisse chegar ao mais alto grau da carreira, nunca viria à tribuna do Legislativo com a pretensão de atirar contra um colega a pecha ‘infamante’ de sambista. Conclamo os sambistas a prestarem atenção nestas palavras: fui apontado, em tom pejorativo, nesta Casa, como sambista.”


Na época em que Ary ocupou uma das cadeiras da Câmara Municipal do Rio, a ideologia ainda definia posições e projetos. Polêmico, o compositor de “Aquarela do Brasil” foi um vereador atuante, se envolveu em várias discussões e dividiu a tribuna com nomes como Carlos Lacerda, seu colega de UDN. O estilo irreverente e irônico que trouxe de seus programas de rádio, entre eles o “Calouros em desfile”, e da narração de jogos de futebol foi uma de suas marcas na Casa.


Na briga pela aprovação da construção do Maracanã, Ary Barroso defendia que grande parte das despesas seria paga com a venda de cadeiras cativas. Lacerda era contra o estádio, preferia que ele fosse construído num terreno em Jacarepaguá. Tito Lívio, outro udenista, defendia que a prioridade do Rio era a saúde pública. Numa resposta ao colega Tito, Ary usou do deboche:


“Vossa Excelência, que combate com tanta veemência a aquisição de ‘cadeiras cativas’ nos estádios de futebol e que defende com tanto ardor os hospitais, deveria propor a compra de ‘leitos cativos’ para os doentes, já que eles se acham tão necessitados de morar dentro dos hospitais” (“Risos”, registrou a taquigrafia).


Ainda na polêmica sobre o estádio, Lacerda, um dos grandes oradores da casa, respondeu à altura. Uma de suas justificativas era de que o Brasil não tinha cimento suficiente para a construção.


“O Brasil vai importar cimento da Inglaterra para que o nosso colega, o sr. vereador Ary Bar-roso, possa irradiar jogos de futebol”, acusou o futuro go-vernador da Guanabara.


Na Câmara, Ary defendeu os interesses de seu bairro, apresentando projetos para melhorar a ladeira do Leme, onde morava, e os dos compositores brasileiros. Democrata, discursou contra a cassação do mandato dos vereadores do Partido Comunista. Conservador, reclamou da autorização para que banhistas circulassem nos bondes da Light:


“O Rio de Janeiro está se transformando numa cidade de homens seminus, uma vez que os banhistas se intrometem nas ruas distantes da praia, em trajes, positivamente, atentatórios à moral. (...) Assistimos ao desfile crítico e inédito de bondes, em plena Capital da República, carregados de banhistas em trajes menores e atitudes imorais, num desrespeito integral à família carioca, em gestos e esgares que depõem sensivelmente contra os nossos foros de civilização”.


Ao mesmo tempo, ao criticar um projeto que isentava o Clube Militar de impostos, Ary usou argumentos nada conservadores para defender que o teatro é que merecia tal benefício. Num aparte no plenário, defendeu o Teatro Recreio, acusado de imoralidade:


“V. Excia. acha que exibir ao público mulher de corpo bonito é deseducar o povo? V. Excia. desejaria talvez que, pela platéia do Teatro Recreio, desfilassem aleijões e monstruosidades físicas? (...) A pornografia bem disfarçada deixa de ser pornografia. (...) A malícia transforma-se em pornografia desde que o espectador seja pornográfico”.


Em tempos de gastos escandalosos nas câmaras e no Congresso Nacional, Ary Barroso, que já tinha o seu carro importado, foi contra um movimento para que a Câmara importasse automóveis para servir aos vereadores.

“Não vejo, sr. presidente, que, pelo simples fato de me transformar em representante do povo, valha-me dessa prerrogativa para superar o próprio povo, que está enfileirado, esperando a vez de comprar o seu carro. Seria preferível, sr. presidente, abandonar tais questiúnculas de privilégio, de prioridades e defendermos, exclusivamente, os reais interesses do povo.”

Desafinação



Com inauguração prevista para dezembro, a Cidade da Música (Barra da Tijuca), que teve o custo total estimado em mais de R$ 460 milhões (em vez dos R$ 80 milhões previstos inicialmente), está causando polêmica. Além dos gastos considerados excessivos, que representam 20% do orçamento de investimentos da Prefeitura, e do atraso na obra – o cronograma inicial previa a entrega para 2004 - teve o estudo de viabilidade realizado apenas no ano passado, seis anos após o lançamento do projeto. Em março, uma CPI, idealizada pelo vereador Roberto Monteiro (PCdoB), foi instaurada para investigar o suposto mau uso do dinheiro público na obra.

Prometendo ser um dos mais imponentes centros de cultura da América Latina, a Cidade da Música tem também contornos nebulosos: o estudo de viabilidade realizado pela Ernst & Young, por exemplo, mostra que as receitas não serão suficientes para cobrir as despesas. A programação (concertos de música clássica, de ópera e dança, e sessões de cinema), garantirá uma receita estimada em R$ 21,2 milhões com uma despesa apurada em torno de R$ 21,01 milhões ao ano. A manutenção custará R$ 12 milhões anuais, valor que poderá ficar sob responsabilidade da Prefeitura, caso nenhuma empresa interessada em assumir a Cidade da Música venha a ser licitada.

A confusão está armada. De um lado os que consideram o empreendimento o mais ambicioso projeto público das últimas décadas – e um marco no cenário cultural brasileiro. Do outro, os que acreditam que o equipamento será um grande elefante branco, alegando a falta de interesse da população pela música clássica e desconfiando dos preços dos ingressos a serem vendidos. Na CPI, os vereadores se perguntam por que, em vez de gastar R$ 400 milhões na Cidade da Música, o Prefeito não implementou o programa estabelecido em 2000 de construção de bibliotecas e teatros nos bairros.

Projetada por Christian de Portzamparc, marroquino que estudou na École National de Beaux Arts (Paris), e idealizou projetos semelhantes em Paris e Luxemburgo, a Cidade da Música, que será a sede da Orquestra Sinfônica Brasileira no Rio, conquistou, junto com outras 146 obras ou projetos arquitetônicos de 38 países, no início de setembro, o Prêmio de Arquitetura Internacional 2008, oferecido pelo Chicago Athenaeum - Museu de Arquitetura e Design, em parceria com o Metropolitan Arts Press e a revista italiana “Abitare”. A única obra brasileira a ser premiada.

Terá 1.755 lugares na Grande Sala - que servirá para os concertos da OSB -, 1.250 lugares na Sala de Ópera, sete salas de ensaio, dez salas de aula e três cinemas de arte. O contrato de concessão prevê uma orquestra residente com no mínimo 70 músicos que fará dez apresentações em dois anos, regida por maestro com no mínimo cinco contratos internacionais. A concessionária a ser licitada deve ter, no mínimo, três anos experiência na gestão de equipamentos culturais. O complexo cultural contará ainda com midiateca e estacionamento para mais de 800 carros.

A divina Elizeth, rainha da bossa


Um amigo meu disse que, ouvindo novamente Canção do amor demais, para muitos o disco inaugural da bossa nova, notou como era estranha a combinação das músicas inovadoras de Tom e Vinícius e o violão de João Gilberto com aquela cantora à moda antiga, com seus vibratos e seu "errrre", típico dos cantores da primeira metade do século XX. Eu me pergunto: que outra cantora poderia estar ali? Era, com certeza, a pessoa certa, no lugar certo, na hora certa, a mais versátil de sua época, capaz de ir de Villa-Lobos a "Eu bebo sim". (Mais do que saber se a Divina era a Sarah Vaughan ou a Ella Fitzgerald brasileira, chego mesmo a me perguntar: qual das duas fois a Elizeth deles?)
Um exercício rápido é, em vez de ouvir algum de seus melhores discos, escolher uma coletânia, como esta. Escutando com atenção, parece uma seleção de cantoras, ou de estilos de cantoras que iriam se desenvolver nas décadas seguintes (estilo Elis Regina, estilo Clara Nunes, estilo Gal, etc.).

Outro exercício interessante é comparar os pout-porris do disco A bossa eterna de Elizeth e Cyro com os do Dois na bossa de Elis e Jair Rodrigues. É só substituir o regional do Caçulinha por um grupo se samba-jazz, o grande Cyro por um sucedâneo mais limitado (Jair Rodrigues) e pronto. Até o figurino é igual.



24 de set de 2008

Ainda os ingressos para a Material Girl Tour

Alô Vocês!

Ninguém aguenta mais falar disso. Mas vai que há leitores interessados. Depois da confusão para compra dos ingressos para o show da Madonna, em que os fãs, mais uma vez, foram vítimas da falta de estrutura das empresas de venda de ingressos pela internet, a equipe de promoção dos shows de Madonna no Brasil, em dezembro, anuncia a venda dos ingressos cujos processos de compra eletrôncia não foram efetivados. Dá para acreditar? Cadê o Procon minha gente!!!

De qualquer maneira, aos interessados, a venda começou hoje, às 15h. Release com todas as infos abaixo:

Shows de Madonna nos dias 14 (Rio de Janeiro), 18 e 20 (São Paulo) terão ingressos re-disponibilizados para venda ao público hoje.

Vendas para todos os setores começam a partir das 15 horas A Time for Fun, produtora brasileira responsável pelos cinco shows de Madonna no país, informa que, a partir das 15h de hoje, quarta-feira, dia 24 de setembro, serão recolocados à venda ingressos para os shows que acontecem nos dias 14 de dezembro (Rio de Janeiro) e 18 e 20 de dezembro (São Paulo).

Estes ingressos fazem parte da reserva técnica criada pela empresa para atender a clientes que tiveram problemas ao comprar ingressos pela Internet e não tiveram sua compra finalizada ou confirmada. Como não foi necessário o uso de toda a reserva, a empresa está re-disponibilizando estes ingressos para venda hoje.

As vendas serão feitas pelo site da Ticketmaster, call center, bilheterias oficiais e pontos-de-venda. Serão disponibilizados ingressos para todos os setores no show do Maracanã e nos shows do Morumbi. A Time For Fun também informa que a partir do dia 1º de novembro será colocado à venda o saldo de ingressos referente as cadeiras cativas do Morumbi, para os três shows de São Paulo.

Locais de Vendas:

Internetwww.ticketmaster.com.br - Serão aceitos todos os cartões de crédito. Sujeito a taxa de conveniência.
Call center - Serão aceitos todos os cartões de crédito. Sujeito a taxa de conveniência. (11) 4004-1007 (custo de uma ligação local para as cidades atendidas pela Embratel, demais localidades custo de uma ligação interurbana): aberto das 9h às 21h de segunda-feira à sábado. Pontos-de-venda - Serão aceitos todos os cartões de crédito e dinheiro. Sujeito a taxa de conveniência.
Rio de Janeiro - Rampa externa Via Parque Shopping (Avenida Ayrton Senna, 3000): aberto todos os dias das 12h às 20h;
Modern Sound (Rua Barata Ribeiro, 502): aberto todos os dias das 9h30 às 18h. (AOS DOMINGOS ESTARÁ FECHADO)
São Paulo - Teatro Abril (Av. Brigadeiro Luiz Antônio, 411): aberto todos os dias das 12h às 20h; Al. dos Jamaris, 213: aberto todos os dias das 12h às 20h.
Bilheteria oficial - Serão aceitos todos os cartões de crédito e dinheiro.
Rio de Janeiro - Maracanãzinho (Rua Prof. Eurico Rabelo, s/n): aberto todos os dias das 10h às 18h.
São Paulo - Av. das Nações Unidas, 17.981, aberto todos os dias das 12h às 20h.

Os clientes dos cartões de crédito Bradesco e cartões American Express® Membership Cards, emitidos pelo Banco Bradesco ou Banco Bankpar S.A. poderão comprar os seus ingressos em duas vezes sem juros no cartão.

Será permitida a compra de no máximo 6 ingressos por CPF/Pessoa

Classificação Etária: 12 e 13 acompanhados dos pais ou responsáveis legais. Maiores de 14 anos desacompanhados.

Já visitaram o Blog do Saramago?

Recomendo (se é que eu posso recomendar alguma coisa):
http://blog.josesaramago.org/#

Debate dos candidatos à prefeito do Rio no JB

Os que votam no Rio podem acompanhar, em tempo real, o único debate entre os candidatos à prefeito da cidade realizado no primeiro turno, que acontece agora no Jornal do Brasil.

www.jb.com.br

A transmissão está limpinha. Depois, o vídeo poderá ser assistido no site.

23 de set de 2008

Próxima parada: ônibus 174


Ai. Preguiça. A programação do Festival do Rio começa na sexta, dia 26, e só de pensar na fila da central de ingressos perco a paciência. Horas e horas escolhendo, combinando os horários, tudo anotado numa listinha para ouvir da mocinha do guichê: "acabou", ou " ainda não foi liberado pela alfândega".

É claro que acho maravilhoso ter um festival de cinema abrangente na minha cidade, com mil filmes que não entrarão em cartaz. Sou eu que não consigo encarar a maratona nem levá-la tão à sério. Um filme, porém, pretendo fazer todo esforço do mundo para ver: "Última parada, 174", de Bruno Barreto. Não se trata de querer saber como o cineasta, cujos filmes nem sou fã, contou a história do cara que seqüestrou o ônibus em frente ao Parque Lage e marcou pela tragédia da inoperância policial carioca diante de centenas de câmeras de televisão. Estou curiosa para ver Michel Gomes, ator que interpreta Sandro do Nascimento.


Conversei outro dia com o moleque e ele me pareceu muito maneiro. A frase, escrita assim, é referência à maneira como ele fala. Típico carioca suburbano, nascido e criado em Padre Miguel, Michel, de 19 anos, teve sua atuação elogiada por quem já viu o longa, indicação brasileira à Academia Americana de Cinema para concorrer à uma das cinco indicações ao Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira. Amparado pela preciosa ajuda dos irmãos Rogério e Ricardo Blat, feras no teatro, cinema e televisão, o garoto, que coleciona pequenos papéis e pontas em filmes e programas - sempre dentro do estereótipo "de comunidade" - está predestinado à se tornar a nova bola da vez. É aguardar e pagar - o ingresso - para ver.

22 de set de 2008

Um dia...

...a cura da calvice era simples...



...homens peludos eram um must.



 Antes do botox os cosméticos Mary Quant proporcionavam lábios sedutores.


Ainda não tinham inventado a esteira ou a bicicleta ergométrica...




...e ser magrela não era nada atraente.




Família unida...



...atira e vai pra cama unida!



Um dia, o cubo mágico foi novidade.


Fonte: flickr

21 de set de 2008

O sobe e desce

A intensidade da vida é algo que me fascina. Sigo os dias sempre numa gangorra. Às vezes fico lá no alto, olhando tudo, mirando o verde e o caos de longe. Outra estou no meio de tudo, tento me livrar do peso e subo de novo. Hoje com pouco mais de 25 anos já me sinto vivida, imatura, mas vivida. Busco a independência do corpo, da alma. Busco a subida, o alto astral, a vida leve. Busco a sabedoria que os anos oferecem em conta gotas, e alguns momentos em uma avalanche. Dosar, respirar, se esticar. Esticar a vida para ser vivida intensamente, e na medida.

Domingo é dia de campanha eleitoral

É incrível como o carioca é blasé em relação à política. A campanha na capital carioca, comparada a outras capitais brasileiras, está mais fria que pão de queijo em balcão de padaria. Nem nos subúrbios a coisa está realmente sendo debatida na rua. Os cabos eleitorais, contratados, é claro, só sabem dormir debaixo das placas. Nos municípios da região metropolitana, porém, os votos parecem estar realmente disputador.

Na Baixada Fluminense, onde Deus e a Justiça Eleitoral passam longe, a campanha está animadíssima. Não há um só poste sem galhardete; E todo mundo acorda cedo: às oito horas começa a passar o carro de som, e pelos autofalantes, jingles dos candidatos em todos os ritmos, do axé ao funk, passando pelo forró e pelo pagode, acordam o pobre do eleitor. Os candidatos à prefeito começam o corpo-a-corpo nas padarias de maior movimento, acomapnhados do candidato à vereador do bairro, ou da rua. Os comitês abrem as portas.

Depois do almoço é a ves das carreatas. Trinta, quarenta, até cinquenta carros, ônibus, trios elétricos, botam gente pelo ladrão. As moças que trabalham na campanha, de shortinho e camiseta baby look com a foto do candidato sentam na jabela, com o bumbum para fora. É mas fácil hastear a bandeira. Nas motocicletas, os cabos eleitorais dispensam o capacete. É que deve atrapalhar a hastear a bandeira. Sim, não há campanha sem bandeira!!!

O dia termina com a rua forrada de panfletos, com as mais variadas fotos, que ninguém lê. Acho que os candidatos não tem nenhuma noção de ecologia. Ainda faltam duas semanas para o primeiro turno.

18 de set de 2008

Teleatendimento Paraíso, bom dia


Terminei de discar. Chamou uma vez só e aí veio a gravação:

Bem-vindo ao teleatendimento do Paraíso. Para comunicar perda ou roubo da sua alma, tecle dois. Para solicitar uma cura, tecle três. Para solicitar emprego, tecle quatro. Para consultar seu saldo divino, tecle cinco. E para falar com um de nossos atendentes, tecle nove.

Nove.

Uma voz disse "Aguarde" e foi seguida por outra gravação:

Sua mulher se transformou numa estátua de sal? Peça a nossos atendentes o livro "Curiosidade não é de Deus" e aprenda a não olhar para trás quando não deve. Na compra do livro, você ganha de brinde o premiado "100 receitas de pão ázimo", que fez grande sucesso...

-- Teleatendimento Paraíso, Anjo Falafel, bom dia. -- era o atendente.
-- Hã... bom dia. Estou ligando pra pedir paciência pra aturar o meu chefe.
-- Pois não, senhor, qual o seu nome?
-- Leandro Rosemberg.
-- Número de registro da certidão de batismo?
-- Hmmmmm... não sei.
-- Desculpe senhor, para estarmos autorizando ajuda é necessário estarmos verificando seu cadastro, e para isso estaremos precisando desta informação.
-- Tudo bem. Eu ligo mais tarde.
-- A Corporação Paraíso agradece sua ligação, senhor.

Doze minutos depois, terminei de ligar de novo. Veio a gravação. Teclei nove antes que ela acabasse. "Aguarde".

Um dilúvio está caindo em sua cidade? Encomende com um de nossos atendentes uma moderna arca! Temos modelos esportivos para profissionais arrojados, além do modelo standard para toda sua família e um casal de cada...

-- Teleatendimento Paraíso, Anjo Carretel, bom dia.
-- Bom dia, eu queria paciência pra aturar o meu chefe.
-- Pois não, senhor, qual é o seu nome?
-- Leandro Rosemberg.
-- Número de registro da certidão de batismo?
-- Três dois cinco nove barra oito, livro trinta e sete.
-- Pois não, senhor, aguarde um momento enquanto estamos verificando seu cadastro... qual é o nome completo do titular?
-- Leandro Muniz Rosemberg.
-- Obrigado pela confirmação, senhor. É, realmente estou vendo em nosso banco de dados que seu chefe é mesmo difícil de agüentar.
-- Por isso estou pedindo paciência. Não quero mandar ele tomar no cu e perder o emprego.
-- Cuidado com o linguajar, senhor. O senhor acaba de perder um crédito divino.
-- Ei!
-- As Corporações Paraíso estão sempre atentas, senhor.
-- Tá bom. Então, vocês podem me dar um pouco de paciência?
-- Quanta o senhor quer?
-- O suficiente pra permanecer no meu emprego até o fim do ano.
-- Para isso é necessário consultar seu saldo divino. Aguarde um instante na linha enquanto estou fazendo a consulta.
-- Tudo bem.

Silêncio.

-- Obrigado por ter aguardado, senhor. Realmente, de acordo com o sistema, o senhor não possui créditos divinos o suficiente para estar recebendo uma carga de paciência extra nem até o fim do mês.
-- Ih, que merda.
-- E o senhor acaba de perder mais um.
-- Não, não, desculpe. Hmmmm.... tem como recuperar meus créditos?
-- Sim, senhor: orando, vigiando, jejuando...
-- Não, mas eu quero uma forma rápida.
-- Bom, na compra de nossos produtos o senhor pode estar recebendo um bônus de divindade que aumentará seu saldo.
-- Ótimo. Como é que eu faço?
-- Vou estar transferindo sua ligação para o setor de compras. O senhor deseja mais alguma informação?
-- Não, obrigado.
-- As Corporações Paraíso agradecem sua ligação. Tenha um bom dia.

Comprei uma Lembrança do Monte Sinai e um Barril Mágico de Água, que se transforma em vinho durante festas. Não foi muito caro e, melhor, pude pagar com cartão de crédito. De acordo com o setor de compras, minhas encomendas vão levar 40 dias e 40 noites pra chegar em casa, mas o melhor é que consegui um bônus divino pra durar até o fim do ano. Isso, claro, se eu perder essa maldita tendência de perder meus créditos.

Será que dizer "maldita" faz perder créditos?

É essa culpa que me mata.

17 de set de 2008

Globalização é isso aí

Mais um baque na economia globalizada. Mais uma vez, o mundo vira refém dos papéis. Malditos papéis na mão de investidores que brincam de banco imobiliário ao seu bel prazer, sem gerar emprego ou qualquer outro benefício. É a sociedade moderna, dizem, indispensável para a sobrevivência dos países. Mas que país pode sobreviver com especuladores ávidos por lucros que deixam de colocar suas peças de monopólios em determinados lugares de uma hora para outra e são capazes de quebrar um país inteiro?

Ah, os neoliberais verborrágicos de plantão dirão que a economia hoje é assim mesmo, que o mundo não consegue mais viver de outra forma, que a globalização é inevitável, nhém-nhém-nhém bem ao estilo das aves emplumadas brasileiras. Muito cômodo para eles, que fazem três refeições por dia, possuem um belo carro na garagem, não precisam contar os níqueis no fim do mês, os filhos têm planos de saúde e escola particular...

Enquanto o capital e o lucro continuarem com privilégios, esse panorama de ansiedade financeira e revés econômico vai acontecer, com mais freqüência. E alguns vão ficar cada vez mais ricos e
um bilhão de pessoas no mundo terão cada vez mais fome. É esse o preço que temos de pagar para eu ter um perfume importado, um carro na garagem, comer no palhaço vermelho e amarelo, beber soda cáustica e ter uma roupa moderna?

Tudo bem, sou utópico. Vou já colocar meu dinheiro sob o colchão.

16 de set de 2008

Iggy Baggins

Elijah WoodIggy PopDepois de ler o (muito bom) texto do JH logo abaixo, fui procurar na uiquipédia o nome de um álbum lançado pelo Iggy Pop. Lá, esbarrei na notícia de que deverá ser lançado no fim deste ano um filme-biografia sobre ele e que Elijah Wood (ele mesmo, o Frodo) faria o papel principal.

Calmaí.

Iggy Pop é um louco perigoso. Nos primeiros shows, ele rolava sobre cacos de vidro, vomitava no palco e entrava na porrada com os outros músicos ou com a platéia. Ainda hoje, mesmo sendo uma caricatura de si mesmo, ele incendeia (não literalmente) a multidão.

Pra terem uma idéia do que estou falando, eis um vídeo -- não sei exatamente de quando, mas com o Iggy já meio coroa:



Não consigo imaginar de jeito nenhum o cara que fez o Frodo Bolseiro e o moleque otário que o Macaulay Culkin (antes mesmo de ser um junkie barra pesada) sacaneava em O Anjo Malvado sendo o Iggy Pop. O Ewan McGregor, na época em que fazia filmes bons, interpretou um personagem baseado em Iggy Pop, com bastante fidelidade, em Velvet Goldmine:



Mas, pensando bem, até que uma música do Iggy se encaixa com a história do Senhor dos Anéis, pelo menos no título: Search & Destroy.

Punk e dark


Minha vida é punk e dark.

Dois opostos complementares.

Pequena fatia do dilema universal, do duplo universal, do yin-yang fundamental.

O punk do essencialmente coletivo, do ruidoso, do raivoso, do irado, do realista, do revolucionário, do consciente, do iconoclasta, do histórico, do crítico, das utopias, dos libertários, do fraterno, do social.

O dark do essencialmente subjetivo, silencioso, mórbido, pessimista, fim de século, cínico, cético, triste, frio, blue, romântico, poético, idealista, místico, individual.

Mas não consigo deixar de ver características partilhadas entre ambos, demonstrando a imensa complementaridade, não oposição.

A estética punk é visceral, plasticamente energética, mostrando em geral imagens coletivas, de “massas”: os shows, as rodas, o pogar (o modo de “dançar”), o mosh (o subir e saltar do palco)... Tudo até parece, em alguns momentos, uma batalha encenada, uma revolução lúdica. A música punk pode ser tosca em “termos técnicos”, mas é trilha sonora perfeita para atos de rebeldia, revolução, enfrentamento, ódio ao autoritarismo, ao nazi-fascismo, ao preconceito de raça-gênero-sexualidade...

Já a estética dark é extremamente fascinante e inegavelmente tributária de uma longa tradição, que remonta aos tempos mais distantes: a tradição da melancolia. Mas acho que tal estética melancólica finca raízes mais sólidas a partir do século XIX – o ultra-romantismo trágico, Baudelaire, os comedores de ópio. É um filho dileto do mal-estar do capitalismo, do louco crescer da modernidade.

No mesmo solo, utopias e distopias, otimismo e pessimismo, crença e descrença no potencial humano – como dizer que tais dilemas estão definitivamente adormecidos?

Punk e dark.

De Black Flag a Joy Division.

Da bandeira negra da revolução libertária ao traje negro em sinal de luto.

Luto e luta.

Lótus e lúmpen.

Dark e punk.

15 de set de 2008

Receita para quatro pães caseiros

Ter na dispensa:

4 saquinhos de fermento biológico em pó seco (40g)
1,5 copo de leite morno
1 colher de sopa de açúcar
150g margarina
sal, um punhadinho
6 ovos batidos
1kg de farinha de trigo dona benta
1 ovo batido para pincelar

Disposição para sovar a massa por pelo menos 20 minutos:

Por a farinha na tijela, colocar o fermento, misturar bem. leite morninho, açucar, sal, margarina, comece a misturar. é beeem nojento, grudento. abre um espação dentro, põe o ovo batido. mistura, mistura. a massa vira um chiclete. mexa com vontade, até o braço cansar! numa superfíce limpa e lisa, espalhe um pouco de farinha, ponha o bolo de massa lá e comece a sovar. precisa entrar ar na massa e ela precisa ficar macia. é mais ou menos como lavadeira batendo a roupa na pedra do tanque.
A massa vai ficar linda. Não sei quanto aos amigos leitores. Mas adoro massas caseiras. Esta tem de estar lisa, uniforme. Parta em quatro partes semi iguais. Em breve você terá quatro pães feitos por você mesmo. Não é bíblico isso!!! depois de tanto apanhar, a massa precisa descansar. vai, misteriosamente, dobrar de tamanho. Ah! tire uma bolinha de massa pequenina de um dos pedaços.
Num copinho dágua, mergulhe a bolinha. Quando ela boiar, o que leva uma meia hora, a massa terá crescido o suficiente. em seguida, acenda o forno pra pré-aquecer.
Eu recheei os pães com mussarela e presunto picadinhos, com orégano. é só abrir a massa com a ajuda de uma faca. ou se abre bem e espalha o recheio para depois emrolar, como um rocambole mais grosseiro, ou abre, recheia e faz como um sanduíche, fechando em cima. pincele com ovo. beeem espanhadinho, pra dourar e ajudar a grudar. o forno já estará quente o suficiente e você poe por os pães para assar. em meia hora está pronto, talvez um pouquinho mais.
o resultado é de dar orgulho.
bem, a receita eu meio que tirei do livro da ofélia, qualquer coisa sobre "cozinha maravilhosa". mas fiz várias adaptações. mania de quem está acostumado às alquimias da cozinha e a aproveitar o que tem na dispensa e na geladeira.
saboreiem. compartilhem.

Ouvido por aí, em época de campanha

_ Tenho vontade de dar uma coça em quem inventou o horário de verão.
_ ...
_ É mesmo. Se eu fosse autoridade, mas dessas autoridades que podem fazer qualquer coisa, e descobrisse quem inventou, mandava dar uma coça. Meu filho acorda às 4h pra trabalhar. No horário de verão, é 3h. Não pode.

Segue o papo, mas agora sobre política.
_ Ah, eu não anulo meu voto não. Não vou votar no Crivella, vou de Eduardo Paes, esse aí apoiado pelo governador. Porque eu sou democrata! _ diz a senhora que falava há cinco minutos em bater em quem inventou o horário de verão.
_ Eu vou votar em branco. Não acredito em ninguém.
_ Ah, não pode fazer isso não. O povo tem que ser inteligente: votar no candidato de quem já está no governo. Porque aí, eles não vão poder brigar e depois dar desculpa de que não fizeram nada por causa disso. Aliás, eu não votei nesse Sérgio Cabral não.
_ Esse Sérgio Cabral só tá na política por causa do pai dele, né? O pai dele é político.
_ Nada, o pai dele é jornalista. Nunca soube que ele se candidatou antes. Ele é jornalista político, escreve muito bem. Eu gosto de política, sabe? Gosto muito. Minha antiga patroa era casada com o prefeito da cidade, lá no interior. Essa de agora, não é dona Maria, me deu um livro sobre o Juscelino. Sei tudo sobre o Juscelino. Só não virei professora porque não tenho paciência com marmanjo. Mas sou muito inteligente. "Catuco" muito a vida deles. Já votei muito naquele Nelson Carneiro, o que inventou o divórcio.

Utilidade publica

Sabe aquele amigo, colega da escola ou do trabalho que vive mandando apresentacoes fofas em powerpoint ou 10 motivos para ser feliz e pede que voce mande para dez pessoas (caso contrario a sua vida sera um caos, repleta de mau agouro)?
O site Stop Forwarding us te ajuda a dizer pra essa pessoa, de forma anonima, a parar com essa chatice. Ajude a acabar com os spammers!

13 de set de 2008

Na sola dos meus pés


Estive em Olinda na semana passada. Impregnada pela preguiça que toma conta da gente naquele lugar, só transcrevo agora anotações do meu caderninho:

"Parece que as memórias das ladeiras da cidade-patrimônio ainda estão sob meus pés. Quando acho que estou perdida, reconheço nas lojinhas, esquinas, placas e calçadas o caminho de volta. Mas quem está interessado em se encontrar quando o melhor é se perder?"

11 de set de 2008

Sincronicidade

De outro tempo, outro lugar: recebo agora meus exemplares de Último round e A volta ao dia em 80 mundos. Na quarta capa, GGM, autor de nada menos que Cem anos de solidão:
"Havia lido seu primeiro livro de contos ... e desde a primeira página me dei conta de que aquele era um escritor como o que eu queria ser quando crescesse."
E, no meu tempo, que não é o do mundo, GGM me plagiou.

11 de setembro

- Mamãe, o que é comunismo?

- América Latina, minha filha, comunismo é quando você se descobre que seus mortos não estão menos mortos que os mortos deles.

Aqui se faz...

A mídia só lembra do 11 de setembro como o dia dos atentados ao World Trade Center, do horror dos prédios caindo e da morte de 3.500 pessoas. Um fato que convenientemente ofuscou uma outra tragédia, que sempre foi tratada com menos importância pela mídia, ainda mais a nossa, que adora "chupar" o que se fala lá fora, sem qualquer visão crítica.

Há 35 anos, nessa mesma data, o Chile foi devastado covardemente. Em vez de aviões em prédios, tanques disparando incessantemente contra La Moneda. Um presidente morto, milhares caídos. Iguais aos projetos e ao desenvolvimento social do país que foram abortados. No lastro desse terror oficial, mais de 7 mil mortes estimadas.
Coincidentemente, uma onda de terror que veio do Pacífico Norte e avançou sobre todo o continente sul-americano. O número de afogados? Oficialmente, nem se sabe, mas deve ultrapassar 30 mil.

Hoje, a maré continua agitada, em outros mares, em outros continentes, mas sempre com a mesma origem.

Já as ondas de lágrimas só relembram do 11 de setembro mais recente.

Não deixemos de chorar os outros milhares de 11 de setembros instaurados mundo afora...

VÉU – Breves errâncias da mente de uma noiva 15 dias antes

sou concatenação de saudades
que paira
sobre o ventre
com duplicidade única
debulhada em teu sexo em flor

10 de set de 2008

Apocalypse Now

The end, always the end
This is the end
Beautiful friend
This is the end
My only friend, the end

Of our elaborate plans, the end
Of everything that stands, the end
No safety or surprise, the end
I'll never look into your eyes...again


Hoje vim para o trabalho ouvindo The Doors. Pensando na vida, em grandes decisões, em grandes problemas e na efemeridade disso tudo. Tomei o caminho mais longo, uma estrada deserta e tranqüila, onde não precisasse lidar com o trânsito e todo o choque de realidade urbana que ele traz. Dirigir me ajuda a pensar; é o momento em que me sinto melhor comigo mesmo.

Fiquei imaginando como tudo aquilo poderia acabar. Como a rotina, os problemas, as angústias e decepções poderiam acabar um dia ou outro -- e como, provavelmente, sentiria falta de tudo isso. O carro seguia. Tinha vontade de permanecer ali, naquela estrada, dirigindo até que...

Depois de chegar, fui ler o jornal. Então aquele ciclotron fuderoso entrou em funcionamento hoje. Há tempos temia por isso, e agora a porca já torceu o rabo. Daqui a algumas semanas, as partículas estarão na velocidade da luz, dizem os cientistas. Elas vão colidir e liberar energia. Tudo perfeitamente controlável, dizem eles.


"As projeções agora são de uma guerra curta"
Henry Cabot Lodge, embaixador americano no Vietnã do Sul, em 1963 (oito anos antes do fim da guerra).


O mal dos tecnocratas, tecnicistas e quetais é achar que têm tudo sob controle. A repercussão de um choque é caótica. Bilhões de anos atrás, a conseqüência foi a criação de um novo universo. Difícil dizer, contudo, qual será a conseqüência daqui a duas semanas. Os físicos reconhecem que não compreendem o suficiente das reações subatômicas. É ousadia afirmarem "saber" que nada de ruim vai acontecer.

Nada contra o avanço da ciência. Mas essa paranóia não me deixa em paz.

This is the end
Beautiful friend
This is the end
My only friend, the end

It hurts to set you free
But you'll never follow me
The end of laughter and soft lies
The end of nights we tried to die

This is the end

Homenagem de aniversário (9 de setembro)

Ontem eu percebi,
Lento, que
Infelizmente, qualquer palavra é
Vã para definir o quão
Importante é a Olívia para
A vida de todos nós.

Olívia, nossa é vida é mais feliz com a sua existência.
Feliz aniversário.

9 de set de 2008

Será que sempre foi assim?

Bem, depois de um furto, a sensação de vazio é normal, a rápida atitude de cancelar cartões e retirar novos documentos também. Pois bem, depois de sumirem (gatuno profissional) com a minha bolsa na Lapa, decidi dar queixa numa delegacia mais simpática e menos movimentada do que a 5ª DP, na Lapa. Fui ao Catete. Chego e peço para fazer o B.O., eles pedem para eu esperar um pouquinho. Logo depois, e até bem rápido, a menina da triagem em atende e pergunta o que houve. Eu explico que furtaram minha bolsa na Lapa. Ela pergunta "o sujeito estava armado?" "Não meu amor, foi um furto. Eu nem vi o meliante" "Ah tá". De repente surge um homem caminhando lentamente. Pega o papelzinho e chama: "Germânia?" "Não inspetor, Gardênia". Aqui já percebi que paciência seria meu trunfo nessa missão.

Como é que alguém pega um papel, no qual, em letras garrafais, está escrito um nome, no caso, G-A-R-D-Ê-N-I-A, e lê Germânia? Na boa, já sofri demais por conta do meu nome (que hoje acho lindo e blá blá blá) mas, façameofavor, não dá pra ver Gardênia e ler Germânia, né?

Enfim. Sento na cadeira precária da delegacia precária e, na mesma hora, o homem barrigudo bem precário senta à minha frente. Percebo que o inspetor Fábio é jovem, não deve passar dos 35. Na mão esquerda exibe uma aliança esmagada, daquelas que só saem arrebentadas por um alicate. Pensei: "esse é do tipo que engorda cem kilos depois de casar". De repente fui interrompida pela voz ríspida de Fábio:

- Olha, esse registro só vai ficar pronto depois de 4 dias. Você só vai poder pegar sua cópia na sexta-feira.

- Mas eu não levo nenhum outro documento que comprove que fiz um Boletim de Ocorrência? – retruquei com cara de desentendida.

- Não.

- Mas eu preciso...

- Vou anotar aqui o número do registro, você vem na sexta e pega.

- Mas e enquanto isso? Não dá pra fazer nada sem o B.O.. Preciso ir ao banco, Detran, tirar CPF, identidade, meu celular...

- Ah minha querida, eu não posso fazer nada. Agora é assim. Paciência.

Olha ela aí. Paciência. Eu não disse que seria meu trunfo. Respirei bem fundo. Chamei Buda, Jesus, Xangô, Oxalá, Maomé e tudo quanto foi santo pra me ajudar.

- Mas... Você não pode me dar algum papel timbrado que comprove o meu registro? Daí...

- Menina! Você não me ouviu?! Eu só cumpro ordens. O delegado decidiu que só vai liberar depois de quatro dias, e é isso! Entendeu bem? – bravejou bem alto o moço da barriga enorme batendo na mesa e com olhar de assassino.

Confesso que fiquei com medo nessa hora, me tremi toda. Minha mã começou a suar. Mas minhas reações nunca são as melhores. Olhei bem pra ele e disse com o coração pulando:

- Eu sei que você SÓ cumpre ordens. Mas pense na minha situação. Fui roubada. Levaram todos meus pertences de uma só vez. Venho à uma delegacia que, teoricamente, é um lugar de proteção à vítima e, você me agride? Não estou entendendo. Você acha que estou aqui por que penso em recuperar minhas coisas? Eu preciso mesmo é desse B.O. para minha vida andar. Só quero entender por que não posso levar agora. Não pode me dar uma resposta do tipo "por que não". Não sou burra...

Nesse exato momento, eis que surge um outro inspetor. Mais velhor, com ar de experiência e uma feição mais doce – se é que é possível candura numa delegacia. Segurou o ombro do gordão e disse olhando pra mim:

- Você não vai poder pegar sua cópia hoje por que a queixa devia ter sido feita na Lapa. Lá você teria acesso rápido.

- Então pára. Por favor. Eu vou agora mesmo até lá.

- Agora não dá mais. Eu já comecei – se meteu o inspetor Fábio que, com um sorriso sarcástico no canto da boca, continuou - Já gerei o número e agora não tem mais como voltar atrás.

- Então eu acabo aqui e vou lá fazer outro registro – respondi rápido.

- Você vai fazer duas ocorrências do mesmo roubo? – se espantou Fábio, o inspetor barrigão.

- Sim, claro. Se é isso que preciso fazer para ter o documento que quero, não tenho a menor dúvida.

- Mas...

- Você não precisa ir até lá, não. O delegado vai fazer um despacho para a 5ª DP e despacha seu B.O., daí você já leva sua cópia, ok? – disse o homem bom de barba grisalha e bem mais magro que o mais novo.

Silêncio.

- Pronto. Acabou. É só isso. Tchau! – se despediu o inspetor Fábio, o da barriga enorme.

Olhei para o lado, levantei e procurei o cara da barba grisalha. Respirei, abri o maior dos sorrisos de gratidão: "Muito obrigada". Saí da delagacia com vontade de morrer, sem entender como a vida se tornou assim, tão hostil.

8 de set de 2008

O ramo de almeirão

Se beber não dirija, dizia a lei, e eu, como cidadão respeitável que tem medo de pau de arara, obedecia. Foi por isso que, depois daquele porre, resolvi voltar de táxi.

-- Pra onde? -- perguntou o taxista.
-- Ah, sei lá -- respondi. -- Pra qualquer lugar. Nada mais me importa. Minha mulher me trocou por um ramo de almeirão, aquela vaca.
Lá estava o almeirão, nas mãos dela!-- Sei bem como isso é. Aconteceu comigo também. Mas sei o que pode te deixar bem melhor.
-- O quê?
-- Vou te levar num lugar mágico, cheio de cor e música, onde todos voltam a ser crianças e sorriem, cheios de esperância e inocença -- o taxista não se dava muito bem com sufixos.

Não respondi. O taxista tinha um brilho cativante no olhar, mas eu estava enjoado demais, então só me recostei. As casas passavam. Os postes piscavam. As putas me mostravam os peitos. Um duende apareceu do meu lado.

-- E aí, campeão?
-- Sai daqui, coisa do capeta.
-- Epa, epa, epa! -- o duende era o Juvenal Antena. -- Eu justamente vim aqui te avisar de uma situação muito perigosa!
-- Que que é?
-- Esse lugar pra onde vocês estão indo... é melhor tomar cuidado! É um lugar do barulho, cheio de aventura e confusão, onde tem uma turminha da pesada que vai aprontar todas! -- agora o duende era o Narrador da Sessão da Tarde.
-- Ah, vai se foder, seu duende.

Aí ele se ofendeu. "Duende é o cacete. Sou um Leprechaun, porra. Da Irlanda. Legítimo."Isto é um Leprechaun

-- Sério mesmo? -- eu perguntei.
-- Com certeza. Olha aqui, ó -- e ele mostrou, no braço, um autêntico selo de procedência irlandesa.

Na mesma hora, pedi para o taxista parar o carro. Meio a contragosto, já que a corrida seria menor, ele encostou no meio-fio. Paguei e descemos, eu e o duende leprechaun, e fomos para um bar beber e falar da vida. Sentamos no balcão, mas ele desistiu bem depressa, assim que viu que não serviam Guinness.

"Brahma me dá dor de cabeça", foram suas últimas palavras antes de desaparecer numa nuvem de fumaça amarela. Merda de vida, pensei, sempre me tomando meus amigos. Então olhei pro lado e vi, no banco à direita, um saci que tomava uma dose de pinga.

Cheguei mais perto.

-- E aí, amigão. Quer conversar? -- perguntei.
-- Minha vida é uma merda -- ele disse. -- Todo dia acordo com o pé esquerdo. É por isso que eu bebo.

Juntei-me a ele. Aquela noite foi folclórica.

5 de set de 2008

Navalha na carne


Serginho chegou para sua mãe com a boca pingando sangue. Grita grita chora berra. Dona Alice se espanta. O que foi, meu filho, como isso aconteceu?

Grito choro soluço berro berro.

Dona Alice leva Serginho pro banheiro. Lava lava lava lava língua. Sangue pinga vaza escorre. Sabão não, mãe, o gosto é ruim. Lava lava. Que corte é esse na sua língua, meu filho?

Dois talhos fundos, no sentido da largura.

É que a vovó me falou que eu estava dizendo uns palavrões muito cabeludos, explicou Serginho muito envergonhado. E aí fui raspar a língua pra não ter perigo de engolir cabelo.

Ah, meu filho -- disse a mãe, compreensiva -- Você não pode fazer isso, que machuca! Da próxima vez, chama a mamãe que ela faz com cera quente!

Ambos se abraçam.

4 de set de 2008

O Caroço

Dizem por aí que o CAROÇO brotou do nada, que antes dele havia apenas o Coisa Nenhuma. Mas é difícil, já que ele surgiu já metido, cheio de idéias, botando as manguinhas de fora, todo saliente, irreverente, inconseqüente. Havia algo antes do CAROÇO, mesmo no fundo das entranhas das quais ele adveio. Havia vontade? Havia. Havia necessidade? Havia. Havia mais, havia, como dizem as fofoletes de Icaraí, uma daquelas coisas loucas assim, sabe, que vão tipo assim subindo pela garganta e te deixam com uma vontade muito louca de gritar.

O CAROÇO veio de uma vontade, de uma súbita ânsia de fazer alguma coisa. De sacudir a poeira. De meter dedo no olho e morder nariz. Algo inexplicável, um transe coletivo surgido numa noite de poesia com cachaça e que não foi levado pelas ondas da ressaca. Mesmo às vezes meio frígido, o CAROÇO virou uma tara coletiva, que brotou, esfriou e vem maturando. O CAROÇO, sim. Ele é. Ele não precisa de. O CAROÇO, simplesmente. O CAROÇO e ponto.

O CAROÇO, até agora, apresenta poucas realizações. Mas projetar é o que importa, como diria Le Corbusier.

O Caroço - É a menina dos olhos da Caroço Produções. Enfrenta enormes problemas desde seu nascimento (quando era apenas o "Jornalão"), como má-vontade na gráfica, críticas generalizadas, crises de preguiça e um mau agouro constante. Mas assim mesmo, embora aos trancos e barrancos, já emplacou algumas edições.

Quando o texto acima foi escrito, se não me engano, pelo Leo, o CAROÇO eram quatro edições toscas de um jornal impresso na gráfica da UFF. A apresentação estava num endereço que se pretendia a nossa casa na internet (coisa muito feia, mas possível naquela época com poucos recursos e pré-blogs). Desde então, amigos se foram e voltaram, filho nasceu (outro está por vir), amigos novos surgiram, até que a correspondente em Londres decidiu parar de ouvir as idéias e lamentações por falta de um novo lugar para escrever e criou este blog coletivo, onde CAROÇOS voltaram a dividir textos no mesmo espaço. Cônjuges viraram colaboradores, CAROÇOS perdidos voltaram e eis que a equipe se completa novamente, com a chegada do nosso querido Leo Cosendey, da equipe original que um dia, no anfiteatro que virou praia, decidiu que teria um nome só: CAROÇO. Um ciclo se fecha para surgir, quem sabe, outro.

Meu irmão nadou no rio

Ando nostálgico nesses últimos dias. E tenho pensado muito no meu irmão, que é quase dois anos mais velho que eu – ele fez 33 em Agosto. Nunca fomos grandes amigos, andávamos em bandos diferentes. Ele sempre andou na rua, eu brincava no quintal. Ele não levava a escola a sério, eu me matava de estudar. Ele tem os olhos azuis, os meus são castanhos.

Não nos vemos com tanta freqüência e conversamos menos do que eu gostaria. Ele está no segundo casamento e, apesar de jovem, já tem quatro filhos. Somos os primos mais velhos da parte materna, que é numerosa. Para os pequenos, ele sempre foi exemplo de bravura, esperteza e malandragem. Eu era o contraponto: ensinando a falarem direito, a se portarem com educação e darem atenção aos livros.

Demorei quase 30 anos para perceber, mas hoje sinto que tenho grande admiração pelo meu irmão. Ele fez coisas que eu gostaria de ter feito. Viveu a infância e parte da vida adulta sem tanta preocupação. Hoje está bem, com trabalho estável. É um pai responsável e amigo, cuida bem das duas famílias. Sempre me teve como exemplo, porque eu estudei, me formei, vim morar na cidade grande. Se achava inferior.

Com algum tempo de atraso eu vejo que ele me serve como exemplo também. Me orgulho de tê-lo tido sob o mesmo teto durante quase 18 anos. Aprendi muito com ele, embora o achasse um irresponsável. No fundo eu tinha um pouco de inveja. Às vezes me arrependo de ter sido tão certinho o tempo todo.

O que me desperta ainda mais admiração foi um fato ocorrido há muito tempo atrás: meu irmão nadou no Rio Paraíba do Sul. E em época de cheia. Várias crianças já haviam se afogado tentando a façanha. O rio é traiçoeiro e cheio de poços. Mas meu irmão pulou ali. Não teve correnteza, não teve água barrenta que o ameaçasse. Apanhou, ficou de castigo, foi repreendido por toda a família. E apesar do choro tinha sempre escondido um riso gostoso e sonoro dentro de si. Meu irmão nadou no rio!

Depois de Zé Pequeno...

seguindo idéia dada pelo grande pai do francisco neste comentário:

Bricabraque

Claudinei só queria saber de futebol. Foi perder a virgindade aos 23 e ainda assim porque seu pai o levou pra ver a final do Brasileiro na zona. Casou-se com uma jogadora e teve um filho que batizou de Pelé, mas teve que parar de disputar peladas porque a marcação que sofria era forte.

* * * * * * * * * *

Dinorah era puta e se chamava Madeinusa. Quando soube que seus pais lhe haviam dado seu nome em homenagem a um robozinho de brinquedo Made in USA que herdara do patrão, quis conhecer a América. Conheceu um açougueiro de Campos que tratava tão bem da chuleta que se apaixonou e casou com ele. Hoje moram em frente ao estádio do Americano, e ela nunca foi tão feliz.

* * * * * * * * * *

Cecília tinha pavor de homem. Jamais encarara um piru na vida e se consolava com a siririca. Tocava duas, três, cinco por dia. Certa vez, vendo um catálogo de carpetes, excitou-se tanto que se masturbou na loja, na frente de todos. Foi contratada por uma cliente, que era dona de uma boate lésbica, para entreter seu público no lounge.

* * * * * * * * * *

Adamastor Ricochete Trozobada. Aquilo não era um nome, era um castigo. Foi um homem infeliz até conseguir que o cartório aceitasse seu pedido de mudança de nome para Rafaela Céu Azul. Mas isso é nome de mulher, lhe disseram. Esse é meu próximo problema, ele respondeu.

* * * * * * * * * *

Deoclécia era uma verdadeira vagabunda. Já meio velha, só queria saber de garotos bem mais jovens. Como dava, a Deoclécia! Ela era freira, mas como suas colegas tinham feito votos de silêncio, ninguém a incomodava. No entanto, tudo mudou quando chegou um padre novo na paróquia. Ele denunciou Deoclécia, que foi expulsa e virou mendiga. O padre não tolerava concorrência.

Por que você escreve (e por que lê)?

Acho que todo mundo que algum dia escreveu algo com qualquer pretensão "artística" fez querendo ser o escritor que outro foi. Acho também que a gente lê porque descobre um autor que escreve aquilo que a gente queria ter escrito.
Este preâmbulo é para dizer que a Civilização Brasileira acaba de lançar obras inéditas no Brasil daquele que, sem sombra de dúvida (talvez dividindo com Barthes esse posto), foi o escritor que eu queria ser, se um dia tivesse a audácia de tentar: Julio Cortázar.
Ontem não havia os livros na livraria, mas a piauí adiantou alguns poemas, entre eles este:

O SONHO

o sonho, uma doce neve
que beija o rosto, e o rói até encontrar
lá embaixo, sustentado por fios musicais,
o outro que acorda.
(trad. de Ari Roitman)

Quatro linhas que emocionam mais que todas as páginas e mais páginas que li atualmente.

3 de set de 2008

Braço quebrado


Fraturas me assustam desde sempre. Acho que é um medo de outras vidas. Ou é coisa do meu subconsciente, já que quebrei o braço direito três vezes, e no mesmo local: final do rádio, próximo ao cotovelo. É um medo controlável. Mas o pavor passou a me rondar de novo depois do jogo do Flamengo contra o Cruzeiro, em 3 de agosto desse ano, quando o atacante do rubro-negro, Diego Tardelli, fraturou gravemente o antebraço direito. Pela televisão, ele parecia um pedaço de pau. Terrível.

O mais interessante – e contraditório – é que, apesar do medo de me machucar, não sofro quando penso nas fraturas da infância. Porque não foram acidentes graves, nada relacionado a automóveis ou travessuras dentro de casa. Nas três vezes em que me machuquei, estava brincando no quintal, lá em Barra do Piraí.

Na primeira, fui imitar meu irmão, um exímio trapezista de árvores. Ele, maior que eu, se pendurava nos galhos do limoeiro – no jardim da igreja - fazendo balanço com o próprio corpo. Eu, menor que ele, ia atrás. Só que uma das tentativas teve conseqüências mais dolorosas: caí. A segunda vez também teve árvore envolvida: a amendoeira lá de casa. Incorri no mesmo erro: imitar o meu irmão. Caí.

Na terceira, eu queria voar, como o Super Homem. Em vez de árvore, escolhi outro meio de transporte: o balanço da casa de uma prima. No vaivém, cada vez que a cadeirinha chegava no ponto mais alto, me jogava lá de cima. Numa dessas o Super Homem veio ao chão, e de mau jeito: era mais uma fratura. Nunca esqueço a sensação boa do vento no rosto a cada pulo. E da sensação ruim da dor e do pânico ao ver o inchaço: “Mãe, não quero ficar com braço torto!”.

Eu era criança, então o gesso implicava em certas conseqüências interessantes. As provas na escola, por exemplo, eram orais. Com o calor – os acidentes aconteciam no Verão – dava coceira, que eu aliviava com as agulhas de tricô da vó. Os amigos e primos desenhavam e escreviam bobagens no gesso. Eu tinha que comer com a mão esquerda. E tentava, a todo custo, escrever no papel como os canhotos. Sem sucesso. Havia ainda as tipóias, que compunham o figurino.

Meu pai, ansioso, foi quem tirou o gesso todas as vezes, em casa mesmo, com muita água caindo da bica. Horas na função. Eu tremia, tenso, esperando rever o meu braço depois de dias e dias sem contato visual algum. Ele aparecia frágil, mais branco que o resto do corpo, dolorido ainda. Ia aprendendo a movimentá-lo com o passar dos dias. Da terceira vez, precisei de muitas sessões de fisioterapia pra fazê-lo voltar ao normal.

Até hoje carrego a marca das travessuras: meu braço direito não flexiona completamente. No exame para o Exército, bastou uma olhada do tenente pra eu ser dispensado. “Quem aí já fraturou alguma parte do corpo?”, perguntou. “Eu, várias vezes”, respondi. Me livrei do quartel. O fato é que, a despeito de todos os inconvenientes de quebrar um braço – e do medo que me ronda ainda hoje - só tenho boas lembranças das minhas fraturas. E, mãe, apesar do seu apoio, não teve jeito: fiquei com o braço torto.

2 de set de 2008

Bairro das Laranjeiras


Há muito quero iniciar uma série de posts sobre o bairro de Laranjeiras, que satisfeito sorri na música de Nando Reis. Eu moro lá. Faço invariavelmente o mesmo trajeto todos os dias até o ponto de ônibus que pego para ir ao trabalho, praticamente no mesmo horário. Diversas coisas e pessoas me chamam muito a atenção, uma delas é uma moça sentada num banco de jardim num condomínio enorme, na esquina da Rua Prof. Estelita Lins.


Nunca a vi acompanhada de ninguém. Parece que ela está ali para tirar o mofo, tomar um pouco de sol da manhã e ar fresco. Não sei exatamente o que se passa com ela, mas ela tem um olhar triste, perdido. Não imagino o que gosta de observar. Não há um só dia que eu não olhe para ver se ela está lá, mas ela não percebe, eu acho. Talvez ela sofra de depressão, acumule amarguras, talvez tenha outros problemas psicológicos, ou talvez seja apenas uma pessoa séria. É como se eu precisasse vê-la ali para saber que as coisas no bairro estão no lugar.


Hoje, por acaso, quando passei ela não estava. Eu estava adiantada. Não tive aula de ioga, logo saí alguns minutos mais cedo. Mas parei em frente ao condomínio dela pois um esquilo, sem a menor cerimônia, brincava e comia frutinhas numa árvore baixa sem se assustar com o grupo que parava, diante da grade, para observá-lo. Era uma atração: temos a sorte de ter muitas famílias de miquinhos nas árvores do bairro, mas esquilos! Fiquei ali a observar o comportamento do animalzinho, quando a vi sair da portaria e vir caminhando até seu banco favorito.


Ela não notou o esquilo, e eu fui embora.

Eles não são tão fofinhos quanto parecemSe bem me lembro, foi num aniversário que meu pai chegou em casa com um enorme embrulho cor-de-rosa. Fiquei ansioso: o que seria aquele presente tão grande?

-- É uma bicicleta, pai?
-- Que nada, rapaz, muito melhor.

Entusiasmado, comecei a rasgar o papel sem pena. Pedaços voavam para todo lado. Meus pais me olhavam com um sorriso de dever cumprido.

Quando afinal terminei de rasgar o pacote, estranhei aquele anão de rosto laranja e cabelo verde:

-- Que é isso, pai?
-- É um Umpa Lumpa, filhão. Vai dizer que você não conhece? Eu sempre quis ter um quando tinha a sua idade!

Olhei para o anão, que me encarava sério. Ele fedia a cigarro e estava mal barbeado -- as pontas pretas nojentas surgiam por baixo da maquiagem. Olhei para meus pais, que mantinham uma expressão encorajadora e um pouco ansiosa também.

Não queria desapontá-los, coitados.

* * * * * * * * * *

No meu quarto, o Umpa Lumpa estava olhando pela janela com as mãos pra trás das costas. Depois de um tempo bem longo, virou-se e me encarou.

-- O que você tem pra beber aí?
-- Aqui? Nada!
-- Que merda. Tem um cigarro?
-- Não, sou apenas uma singela e meiga criancinha!

O Umpa Lumpa resmungou e cuspiu pro lado. Escuta aqui, ele disse. Vou sair pra comprar uns cigarros e tomar umas cervas. Tu fica quieto aqui e não me enche o saco.

Obedeci.

Em silêncio, o Umpa Lumpa foi até o quarto dos meus pais e pegou a chave do carro. Olhou pra mim com uma cara ameaçadora e saiu.

* * * * * * * * * *

Mais tarde (já era madrugada), meus pais entraram no meu quarto. Minha mãe não chorava, berrava como um bezerro sendo castrado. Acordei assustado:

-- Que foi? Que foi?

Minha mãe não conseguia falar. Meu pai ficava quieto, mudo, os olhos bem abertos como se quisesse ver através das cortinas. Então ele falou, sem me olhar nos olhos:

-- O Umpa Lumpa, meu filho. Ele morreu.
-- Hã?
-- Ele morreu, meu filho. Batida de carro. Parece que estava bêbado. Tinha mais alguém com ele. Parece que eram... prostitutas.
-- ...
-- Como você faz isso, garoto? Como você deixou ele sair de carro sozinho, e ainda com vagabundas? Aposto que isso é influência sua!
-- Mas eu...
-- Seu irresponsável! Agora levanta, seu moleque! Você vai com a gente no IML!

Minha mãe berrava, uivava, gritava, gemia. Meu pai me empurrava pra me vestir. Estava começando a não gostar daquele presente.

* * * * * * * * * *

Chegamos ao IML pra fazer o reconhecimento do corpo. Quando meus pais viram aquela peruca verde começaram a chorar. Minha mãe tremia. Meu pai mantinha a cabeça baixa, as lágrimas rolando por seu rosto em silêncio.

O enterro foi no dia seguinte. Vários outros anões laranja de cabelos verdes foram à cerimônia. Eles cantavam

Umpa
Lumpa
Dumpa-di-du

E a música continuava, mas eu não entendia nada. Quando o caixote foi finalmente enterrado, eles simplesmente sumiram por entre os túmulos. Em seguida, meus pais me arrastaram até o carro. Eles não falavam mais comigo.

O silêncio durou dias, até que resolvi perguntar a meus pais o que eles queriam que eu fizesse. Não disseram nada; simplesmente me deram a peruca verde. Desde então, pelo menos uma vez por semana, tenho que me vestir de Umpa Lumpa pra eles. Minha mãe sempre chora e meu pai, suspirando, diz: "Aquele sim, faz uma falta."

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agradecido pelo convite, senhoras e senhores. espero poder colaborar no que for possível.

1 de set de 2008

Vinte nove

Tenho 28, vou fazer 29 em breve, o que significa: quase 30. Mesmo.
A boa e velha desculpa que dissemos pra nós mesmos "sou jovem, tenho tempo". não cola mais.
Não. Não sou mais tão jovem assim.
Sinto-me cansada como quem carrega nos ombros - ou no lombo? - uma vida inteira. Olha que nem cheguei à metade do caminho. Este mês completo 15 anos de trabalho. Já fui balconista, secretária, assessora, repórter de rádio, revista, jornal, produtora de mil coisas...enfim. O início precoce não antecipará a aposentadoria. Sou fruto do emprego informal, como boa parte de minha geração. Sempre me preocupei mais com o trabalho do que com o emprego em si. Sinto-me burra por causa disso, mas no fim, é o que conta, e o que acrescenta alguma coisa.
Desde o início deste ano me sinto permanentemente doente, ou à beira de ficar doente. Imunidade baixíssima. Pareço uma velha. Corpo gasto. Castigado. Dores, um mal estar permanente, um certo enjôo que não me larga e me atrapalha escovar os dentes todos os dias de manhã.
O cansaço, entretanto, não é só físico. É mental. É um desânimo por querer que as coisas dêem certo, e muitas vezes não é o que acontece. A pressão interna e externa em cima dessa coisa de dar certo na vida é muuuito chato. A cada dia que passa acho que preciso mais de um analista para me ajudar a exorcizar fantasmas, entender e sublimar neuras, a me perdoar mais. Ou menos.
Sinto-me velha diante de um mundo que pouco me surpreende. A juventude não abandona, aos poucos, só o corpo. Parece que meu tempo já passou, que perdi o bonde pois não tenho mais 20 anos, embora também tenha saudades de coisas que não vivi.
Minhas dores emocionais estão sendo jogadas, mês a mês, num buraco qualquer da alma, onde me incomodam pouco depois de uma semana martelando. Nesta seara o analista certamente me receitaria dois tarja-pretas por dia. Diferentes, um pra relaxar, outro pra ficar ligada.
Deus, o que fiz de mim...devia me cuidar mais.

The Killers

Oh well I don't mind, if you don't mind'
Cause I don't shine if you don't shine
Before you go, can you read my mind?

A plateia que assistia ao ultimo show da edicao 2008 do Festival de Leeds pode nao ter conseguido ler a mente de Brandon Flowers, vocalista da banda The Killers, mas era nitida a tensao do lider do grupo. A voz e o corpo tremulos deixavam claro que algo nao estava muito bem. Alguma adolescente que estava do meu lado perguntou "voce acha que ele esta "com algo?".

O show era particularmente o que eu mais esperei - por duas vezes nao cheguei a tempo no website para comprar ingresso dos shows que o grupo fez em Londres nos ultimos dois anos. Enfim, o dia chegou e ainda era o encerramento de um festival incrivel. Em tres dias consegui ver shows de Pete and the Pirates, Blood Red Shoe, Be your own pet, Jack Penate, Ida Maria, Fratellis, Queens of the Stone Age, Rage Against the Machine (pensei que o empurra-empurra ia me render varios hematomas, mas ate que nao), Metallica (show bonito de ver, mas tirando a classica "Nothing else matters", eu nao conhecia muita coisa), CSS (tinha implicancia com eles, mas juro que bateu um momento patriotico no show e me emocionei), Chromeo, Cage the Elephant, Simian Mobile Disco (me senti na rave ha 10 anos atras), The Automatic (que acaba de lancar disco novo e eu gosto deles bastante, apesar das criticas ruins), Santogold (que negona estilosa!), Editors (aquela voz do Tom Smith eh orgasmatica), The Ting Tings (a bandinha de dois eh boa mesmo), Black Kids, Bloc Party (um dos melhores do festival), Serj Tankian (vocalista do System of a Down, fez um show tao despretencioso quanto lindo, cheio de mensagens de paz, justica e inconsciente coletivo), Last Shaddow Puppets (acompanhados de uma orquestra, uma graca), Hadouken! ("musica para uma cultura acelerada" - o moleque nao poderia ter achado melhor nome) e de repente algum mais que esqueci. Ufa! Cansei so de ler. Realmente essa maratona para um corpinho de quase 30 anos nao foi nada facil. Depois da primeira noite no camping (ou "grande campo de lama e desordem"), decidimos (eu e dois amigos) assumir os nossos limites e as 8 da manha de sexta ja estavamos no centro da cidade em busca de um hotel (chegamos no festival a meia-noite e a barraca ficou em pe as quatro da manha, depois de varias "atolacoes na lama", derrapadas, muito frio e experiencias estranhas no banheiro a ceu aberto).  Um hotel com lencois limpos e banheiro cheiroso foi fundamental pra aguentar ate o fim. Mas isso eh papo pra outro post.

Na manha seguinte, no onibus de volta a Londres, um dos amigos que me acompanhou na jornada musical resolveu comprar um exemplar da NME, uma das biblias musicais inglesas (eu diria A biblia, na verdade). Na capa, tres fotos do vocalista do The Killers parecendo confuso, e a chamada "estou tendo uma crise de personalidade". Agora sim esta explicado. Brandon Flowers, 27 anos, mormon praticante, casado, pai e lider de uma das bandas de maior sucesso nos ultimos anos nao aguenta mais o peso. E ainda tem que empolgar 70 mil pessoas. A missao, apesar de tudo, foi muito bem cumprida. 


I'm coming out of my cage
And I've been doing just fine
Gotta gotta be down
Because I want it all