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17 de set. de 2008

Globalização é isso aí

Mais um baque na economia globalizada. Mais uma vez, o mundo vira refém dos papéis. Malditos papéis na mão de investidores que brincam de banco imobiliário ao seu bel prazer, sem gerar emprego ou qualquer outro benefício. É a sociedade moderna, dizem, indispensável para a sobrevivência dos países. Mas que país pode sobreviver com especuladores ávidos por lucros que deixam de colocar suas peças de monopólios em determinados lugares de uma hora para outra e são capazes de quebrar um país inteiro?

Ah, os neoliberais verborrágicos de plantão dirão que a economia hoje é assim mesmo, que o mundo não consegue mais viver de outra forma, que a globalização é inevitável, nhém-nhém-nhém bem ao estilo das aves emplumadas brasileiras. Muito cômodo para eles, que fazem três refeições por dia, possuem um belo carro na garagem, não precisam contar os níqueis no fim do mês, os filhos têm planos de saúde e escola particular...

Enquanto o capital e o lucro continuarem com privilégios, esse panorama de ansiedade financeira e revés econômico vai acontecer, com mais freqüência. E alguns vão ficar cada vez mais ricos e
um bilhão de pessoas no mundo terão cada vez mais fome. É esse o preço que temos de pagar para eu ter um perfume importado, um carro na garagem, comer no palhaço vermelho e amarelo, beber soda cáustica e ter uma roupa moderna?

Tudo bem, sou utópico. Vou já colocar meu dinheiro sob o colchão.

11 de set. de 2008

Aqui se faz...

A mídia só lembra do 11 de setembro como o dia dos atentados ao World Trade Center, do horror dos prédios caindo e da morte de 3.500 pessoas. Um fato que convenientemente ofuscou uma outra tragédia, que sempre foi tratada com menos importância pela mídia, ainda mais a nossa, que adora "chupar" o que se fala lá fora, sem qualquer visão crítica.

Há 35 anos, nessa mesma data, o Chile foi devastado covardemente. Em vez de aviões em prédios, tanques disparando incessantemente contra La Moneda. Um presidente morto, milhares caídos. Iguais aos projetos e ao desenvolvimento social do país que foram abortados. No lastro desse terror oficial, mais de 7 mil mortes estimadas.
Coincidentemente, uma onda de terror que veio do Pacífico Norte e avançou sobre todo o continente sul-americano. O número de afogados? Oficialmente, nem se sabe, mas deve ultrapassar 30 mil.

Hoje, a maré continua agitada, em outros mares, em outros continentes, mas sempre com a mesma origem.

Já as ondas de lágrimas só relembram do 11 de setembro mais recente.

Não deixemos de chorar os outros milhares de 11 de setembros instaurados mundo afora...

22 de ago. de 2008

Obituário de um sobrevivente

Outro dia, em uma conversa com uma amiga minha da mesma faixa etária (quando começamos a usar faixa etária em vez de idade é claro sinal que estamos ficando velhos), começamos a relembrar coisas da infância e da adolescência. E chegamos a uma conclusão: o pessoal da minha geração sobreviveu, literalmente.

Tudo bem gente, confesso que nasci no então Estado da Guanabara, nos Anos de Chumbo e na meia-vida do AI-5. Assisti a Máquina Tricolor em ação e me tornei Fluminense ao ver o Rivelino entortar a zaga do Vasco. No Maraca, a gente bebia Coca-Cola de máquina e Mate Leão naqueles latões, e ainda comia cachorro quente do Genial, cuja salsicha ficava exposta ao calor de 40 graus. Tudo sem qualquer fiscalização da Vigilância Sanitária. Lembro-me de quando Elvis morreu (mas será que ele morreu mesmo?). Lembro-me quando Cartola, Carmem Miranda, Vinícius de Moraes, Elis Regina, Cecília Meirelles e Garrincha morreram...
Vi pela televisão o Brasil ser campeão moral da Copa da Argentina e o ursinho Micha chorar nas Olimpíadas de Moscou. Joguei Telejogo (o primeiro videogame vendido no Brasil, da Telefunken!) e tomei Ki-Suco, um suco em pó mais artificial que Tang. E chupava balas Banda e Soft, que tinha um formato condenado e amaldiçoado por médicos, pois grudava no meio da garganta e fechava a glote. Mesmo assim, era vendida em qualquer cantina de escola ou barraquinha. Acompanhei o noticiário sobre as bombas na OAB e do RioCentro e comecei a achar que o SNI me vigiava e tinha minha ficha completa.

Pulei de alegria ao ganhar meu primeiro Autorama usado e adorava brincar de bolinha de gude no canteiro do Metrô perto de casa, repleto de ratos e sem qualquer fiscalização. Aliás, os brinquedos da nossa época não tinham qualquer selo do Inmetro e a gente se amarrava em beber a água do Aquaplay, que não tinha qualquer vedação. Cantei o hino nacional todos os dias no colégio. Fui advertido e suspenso algumas vezes na escola por desenhar uma foice e um martelo no quadro-negro. Usei Kichute para jogar bola, com aquelas travas de borracha que eram um verdadeiro crime contra os ligamentos do tornozelo. Peguei fila no cinema Carioca para ver ET (duas vezes!). Joguei Atari e entrava em rios já imundos para pegar pipa. Aliás, para fazer cerol, moía vidro na linha do trem, já que os muros eram mal conservados e qualquer um podia entrar na via férrea...

Comia sem medo os quitutes que a gente ganhava de desconhecidos no Dia de Cosme e Damião. Vivi a expectativa de uma Terceira Guerra Mundial e me assustei com o filme “The Day After”. Lembro da inauguração do Sambódromo... Freqüentei o Circo Voador quando ainda era no Arpoador e me amarrava nos shows “fumaçentos” do Celso Blues Boy. Era rato do “original” Noites Cariocas, no Morro da Urca, onde assisti um monte de bandas de BRock começarem e por onde me entranhei na mata para tentar chegar ao morro sem ter de pagar. Assisti ao Bernard dar o saque Jornada nas Estrelas, no Maracanã. Voltei várias vezes a pé para casa sozinho, às três da matina, na maior inocência e tranqüilidade.

Fui aos comícios das Diretas Já! e fiz panelaço na janela da minha casa. Fui escondido ao primeiro Rock in Rio, ao lado do RioCentro. Vi o Tancredo ser eleito pelo Congresso e morrer (ou ser morto) depois. Testemunhei a inflação diária, quando ia ao supermercado e o preço do macarrão estava Cr$ 1,50 (para quem não sabe, isso é cruzeiro) mais caro que no dia anterior e Cr$ 4,00 mais caro que há dois dias. Vi o Sarney baixar o Plano Cruzado e um monte de gente virar “Fiscal” nos supermercados. Vivi a falta de leite e de carne. Aliás, comi carne estragada da Europa e bebi aos montes um leite em pó holandês Vremilk, especialmente importado (as importações não eram liberadas) para suprir a falta de leite, para depois descobrirmos que a região das vaquinhas fornecedoras havia sido contaminada pelo acidente nuclear de Chernobyl.

Passei e levei cristal japonês no olho, que fazia a gente chorar e, por um milagre, ninguém ficou cego. Usei calça amarelo ovo com camisa de manga comprida vinho da OP e dancei new wave peitando os outros na Mamão com Açúcar, Robin Hood Pub, Mistura Fina e Help (antes de virar um puteiro). Vi pessoas dançarem com as paredes no Crepúsculo de Cubatão. Saí na porrada um sem número de vezes no Maracanã, levei bomba de gás lacrimogênio e cacetete da PM. Brinquei com mercúrio puro (que os dentistas davam para a gente brincar!) e essa porra deve estar no meu sangue até hoje. Dei calote em ônibus. Fumei Salem, um cigarro de menta 300 vezes mais cancerígeno que qualquer outro normal, enquanto meus amigos que não tinham dinheiro nem culhão para comprar loló ou maconha, cheiravam benzina e vomitavam depois.

Joguei pedras em ônibus na manifestação popular na Central do Brasil, em 1988. Bebi vodka Natasha, cerveja Malt 90, uísque Passport e caninha Pitu (sim, menor conseguia comprar bebida e cigarros sem problemas). Fui a todos os comícios do Lula no Rio de Janeiro e votei pela primeira vez para presidente, em 1989, sem medo de ser feliz. Chorei com a vitória do déspota de Maceió, com a queda do Muro de Berlim e com a Coca-Cola na China.




Ufa! Sobrevivi...

24 de jul. de 2008

Dois pesos, duas medidas

A Justiça condenou o MST a desembolsar R$ 5,2 milhões à Vale, outrora Companhia Vale do Rio Doce. O processo movido pela mineradora se refere à ocupação e interdição da ferrovia de Carajás, ocorrido em abril, pelo movimento (impressionante como a Justiça é rápida para condenar movimentos sociais).

E logo surgem os porta-vozes da "ordem" e da "legalidade" para condenarem as ações do MST. O discurso é quase sempre o mesmo: o movimento não conhece vias democráticas, ou prefere o uso da força, ou não respeita a livre propriedade e outros argumentos típicos do sistema neoliberal que nos é enfiado goela abaixo.

E isso não é exclusividade do MST ou dos outros movimentos agrários. Qualquer passeata no Centro do Rio, seja de funcionários públicos, de sem-tetos, de motoristas de ônibus, de bancários, de carteiros, é logo execrado pelos formadores de opinião de plantão. É comum ouvir a hipócrita frase: "A reivindicação deles é até justa, mas por que atrapalhar o resto da sociedade, o trânsito, os trabalhadores?".

A resposta é simples: porque no Brasil e na devastadora sociedade liberal que vivemos, só mesmo parando o trânsito, gritando alto do carro de som, interrompendo a ferrovia, a estrada, a rua, é que se tenta roubar um pouco a atenção de um povo forçadamente alienado pelo próprio sistema. Pois as mazelas e feridas desse país precisam competir com a preferência pelo Big Brother, pela Xuxa, pela Ana Maria Braga, pelo futebol, pelo Carnaval...

E por que trabalhadores não têm o direito de fazer sua manifestação e o Estado atrapalha nossa vida a todo momento? Afinal, o incompetente prefeito desta cidade é o primeiro a atrapalhar a vida dos cariocas. Todo verão tem um deslizamento de terra em uma favela, uma enchente em uma comunidade esquecida, uma epidemia de dengue. E em todo ano de eleição, o trânsito piora porque o Napoleão dos Trópicos resolve fazer todas obras ao mesmo tempo para mostrar serviço.

Disso, ninguém reclama. Ou não quer reclamar.

8 de jul. de 2008

Prepare-se!

Mais um crime bárbaro resultou na morte de uma criança de 3 anos de idade. Menos de 12 horas depois, cartazes de políticos invadiam as ruas da cidade. Um deles me chamou a atenção pelos dizeres: "Quero o meu Rio de volta". Ironicamente, uma política que fazia parte do grupo que destrói o município há quase duas décadas. Fiquei imaginando, que cartazes os pais dessa criança estariam empunhando. Talvez algo como "Quero meu filho de volta".


À tarde, o secretário e o governador dizem que a polícia está despreparada. Logo eles, que são os responsáveis pela polícia, dizem que ela está despreparada. Mas a cidade, o estado, o país estão preparados para quê? Como exigir preparo de um PM se o comandante dele não é preparado, visto que o secretário responsável por sua corporação não tem qualquer preparo, já que o chefe executivo do secretário também não está preparado para o cargo.


Nesse meio tempo, outra pessoa, desta vez uma dona de casa, morria dentro da sua própria residência na Vila Cruzeiro, vítima de mais uma malfadada bala perdida. Ela podia estar preparando uma comida, quem sabe, ou se preparando para sair.


O despreparo é uma espécie de instituição enraizada e viciada no país, uma vez que no cargo máximo da nação também se encontra um despreparado. E sabe-se lá quantos despreparados ainda estão por vir. Eles já estão por aí, espalhados pelos cartazes.


O cidadão, é claro, este tem de estar sempre preparado. Preparado para ser explorado no trabalho, para ser amarrotado no ônibus, para ser alvejado na rua. Os pais dessa criança, agora, estão preparados para enterrá-la. E os filhos daquela senhora precisam se preparar para sepultar mais um número, mais uma estatística.


O crime de todos? Nascer no Brasil.


Desculpem a pieguice e a dramaticidade. É apenas o desabafo de um pai e de um filho que não está preparado para nada disso.

7 de jul. de 2008

Prepare-se!

Mais um crime resultou na morte de uma criança de 3 anos de idade. Menos de 12 horas depois, cartazes de políticos invadiam as ruas da cidade. Um deles me chamou a atenção pelos dizeres: "Quero o meu Rio de volta". Ironicamente, uma política que fazia parte do grupo que destrói o município há quase duas décadas. Fiquei imaginando que cartazes os pais dessa criança estariam empunhando. Talvez algo como "Quero meu filho de volta".


À tarde, o secretário e o governador dizem que a polícia está despreparada. Logo eles, que são os responsáveis pela polícia, dizem que ela está despreparada. Mas a cidade, o estado, o país estão preparados para quê? Como exigir preparo de um PM se o comandante dele não é preparado, visto que o secretário responsável por sua corporação não tem qualquer preparo, já que o chefe executivo do secretário também não está preparado para o cargo.



O despreparo é uma espécie de instituição enraizada e viciada no país, uma vez que no cargo máximo da nação também se encontra um despreparado. E sabe-se lá quantos despreparados ainda estão por vir. E eles já estão por aí, espalhados pelos cartazes.



O cidadão, é claro, este tem de estar sempre preparado. Preparado para ser explorado no trabalho, para ser amarrotado no ônibus, para ser alvejado na rua. Os pais dessa criança de 3 anos, agora, estão preparados para enterrá-la.



O crime de todos? Nascer no Brasil.



Desculpem a pieguice e a dramaticidade. É apenas o desabafo de um pai que não está preparado para nada disso.

3 de jul. de 2008

A batalha

Ninguém mais do que eu gostaria de escrever hoje sobre glórias e vitórias. Sobre conquistas e comemorações. Só que a realidade cruel e injusta do futebol quer me forçar a lamuriar a angústia de uma noite trágica. Mas isso seria injusto. Injusto com os guerreiros do dia 2 de julho. Focar apenas alguns minutos de cobranças infelizes de pênaltis seria desmerecer os bravos tricolores, vivos e mortos, em campo, nas arquibancadas, nos bares e nas casas. Foi uma luta árdua, uma noite mágica para dizer a verdade.
Seria ainda mais injusto esquecer as batalhas vencidas anteriormente e as alegrias proporcionadas. Quando todos nos davam como vencidos e mortos, provamos nosso brio e superamos inimigos considerados imbatíveis pela opinião geral. Calamos os críticos, matamos em campo, avançamos no front.
Veio a noite de 2 de julho. E os guerreiros foram mais guerreiros do que nunca. A torcida foi mais torcida do que nunca. O verde da esperança foi mais verde do que nunca. O destino cruel, que, sabe-se lá quem traça, porém, atravessou o caminho da glória. Pesou nas chuteiras dos melhores lutadores daquela batalha na hora decisiva. Caiu de forma fria nas mãos do arqueiro. Caiu como a água que desceu dos rostos de 80 mil testemunhas vivas de uma batalha épica. Caiu como uma face vermelha em braços confortantes.
A batalha estava perdida, é verdade. Mas lançando mão do lugar-comum mais comum que existe, outras batalhas virão e a guerra perdura. E os guerreiros se postarão novamente para calar adversários e cicatrizar os corações tricolores. É o que movimenta o orgulho e a paixão pelas três cores. É o que torna o sangue mais encarnado, o verde mais esperançoso e o branco mais harmonioso. É o que nos faz ter orgulho de ser tricolor. É o que nos faz amar eternamente esse clube.
Obrigado Fluminense. Obrigado por proporcionar momentos eternos. Momentos que reforçam a nossa paixão e nossa lealdade pelo manto tricolor. Onde buscamos força para superar a dor. Onde buscamos força para as próximas batalhas. Onde buscamos força para as futuras glórias e alegrias. Que venha o próximo...

26 de jun. de 2008

Muito mais que um sonho


Parecia um sonho. Mas felizmente foi real. Um governo genuinamente socialista encheu de esperança um país e a América do Sul. À frente, coincidentemente mais um médico. Um líder que desejava um governo voltado para a educação, um país independente do capital estrangeiro exacerbado, uma "via chilena para o socialismo". O sonho se tornou mais real quando ele nacionalizou as minas de cobre, que eram brinquedinho de multinacionais, e os bancos. E o incrível: dividia os lucros com os funcionários.
Em sua breve passagem, mais realidades: a inflação caiu, o poder aquisitivo aumentou, a economia também. Tudo em um âmbito democrático e limpo. Foi demais para o império do norte. Na seqüência de horror, corrupção, roubalheira, imundice e assassinatos que varriam o continente, o sonho real se tornou pesadelo. A onda paranóica para servir a interesses do outro hemisfério se fez presente com bombas e homicídios dele, de 7 mil conterrâneos, de um país, de um continente.
Hoje, Allende faria aniversário. A lembrança desta data e deste homem em jornais e sites, porém, comprova que, sem dúvida, não foi um sonho. Foi real. E pode ser real novamente. E está sendo real por aí. Basta não deixar o pesadelo que vem lá de cima fazer crer que tudo não passa de sonho.

26 de mai. de 2008

Sem filtro


Tradicionalmente, os impostos levam a culpa do alto preço dos carros brasileiros. A indústria costuma usar a alta carga tributária como uma espécie de biombo. A voracidade do Estado brasileiro, é fato, beira a indecência. Mas as taxas sobre os produtos não são os únicos vilões dessa história. Ao se comparar diretamente os automóveis brasileiros com seus similares na Europa e nos Estados Unidos, descontados os impostos, a constatação é só uma: carro no Brasil é muito, muito caro. E isso em números absolutos, dólar a dólar ou euro a euro, sem relativizar o poder aquisitivo médio, muito maior em países desenvolvidos.

Um exemplo: Volkswagen Polo Sportline 1.6, com ar, trio, ABS e airbag ­ equipamentos típicos encontrados na Europa ­, custa R$ 60.095. Sem ICMS, IPI e PIS/Cofins, cai para R$ 42.668, equivalentes a 15.800 euros. Um Polo similar na Europa, sem impostos, sai por 12.768 euros, 23% a menos. Foram procuradas para falar sobre o assunto Renault, Volkswagen, Citroën, Fiat, Honda e General Motors. Nenhuma quis se pronunciar.

O tema, deve se reconhecer, é mesmo espinhoso. Sem a desculpa da carga tributária, sobram poucos argumentos para justificar porque um Fiat Punto ELX 1.4 com ABS e airbag feito em Betim custa 18,5% a mais que o similar europeu, que ainda por cima tem uma plataforma mais moderna. Aqui ele sai a R$ 48.399, ou R$ 34.064 sem os tributos, o que representa 12.616 euros. Na Alemanha, o Grande Punto 1.4 Active, com os mesmos recursos, sai por 10.645 euros. A única explicação que sobra é a velha teoria de formação de preço: “o preço de um produto é o valor máximo que o mercado aceita pagar”.

Na falta dos impostos, o culpado da vez passa a ser o enigmático “custo Brasil”. “Temos um custo geral que ainda é muito alto. Isso afeta diretamente o preço final de qualquer produto”, argumenta Carlos Thadeu Gomes, economista chefe do Conselho Federal de Contabilidade e ex-diretor de Política Monetária do Banco Central, que ficou surpreso ao saber que o carro brasileiro é mais caro. Não se pode desprezar, no entanto, o custo dos “favores” que as montadoras costumam ganhar. Estados que querem abrigar novas fábricas acenam com as mais diversas regalias, que vão desde a doação de terrenos até isenção de ICMS e IPTU.

Estudos do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais, Ibmec, estimam que 10% do valor de um automóvel seja do famigerado “custo Brasil”. Embora países como a França e Alemanha tenham obrigações sociais até mais altas que no Brasil, aqui se agregam os ônus da falta de infra-estrutura de transporte e até custos administrativos. Um exemplo: para cada R$ 1 bilhão faturado por uma empresa na Europa é necessário um funcionário para cuidar das questões tributárias. No Brasil, a proporção é de 20 funcionários para cada R$ 1 bilhão. “Esta burocracia também faz parte do “custo Brasil”, pondera Gilberto Braga, professor de Finanças do Ibmec.

Por outro lado, um funcionário europeu recebe, em média, 3 mil euros, contra 500 euros médios de um operário brasileiro. Sem contar que no chão da fábrica, a produtividade das plantas brasileiras é bem parecida com as obtidas em países desenvolvidos. Fábricas modernas, como a da General Motors em Gravataí, no Rio Grande do Sul, e a da Ford, em Camaçari, na Bahia, produzem cerca de 100 automóveis/ano por empregado, índice considerado altíssimo.

Mas não há como negar que os impostos exercem um papel nefasto neste jogo. Por isso mesmo, as diferenças ficam ainda mais gritantes se a referência for os preços nos Estados Unidos, um dos países com menor oneração de taxas no mundo. Enquanto um Honda Civic EX no Brasil custa sem impostos R$ 45.027 ­ ou US$ 22.500 ­, para os americanos ele custa US$ 15 mil. Ou seja: aqui é 50% mais caro. “O mercado americano tem ganhos de escalas e custos mais baratos, nosso mercado ainda é muito menor”, tenta justificar Miguel José de Oliveira, vice-presidente da Associação Nacional dos Executivos de Finanças e Contabilidade.

Aparentemente, há muitos motivos para esta escalafobética diferença de preços entre um país com renda percapta de US$ 5 mil, como o Brasil, e outros com renda percapta de US$ 30 mil para cima, como Alemanha, França, Itália, Espanha ou Estados Unidos. E os lucros são certamente um deles. No ano passado, a Fiat do Brasil lucrou nada menos que R$ 804 milhões líquidos. No primeiro semestre deste ano, a divisão da General Motors para América Latina, Ásia e Oriente Médio auferiu US$ 414 milhões de lucro ­ 67% das vendas deste braço são da América Latina. E a Ford alcançou US$ 255 milhões de lucro apenas no segundo trimestre deste ano no Mercosul. O tal do “custo Brasil” aparentemente ainda deixa uma margem muito simpática para as empresas.

Instantâneas

# Estudos apontam que um metalúrgico custa, em média, cerca de R$ 1.300 mensais para a indústria. Na Europa, um trabalhador custa o correspondente a R$ 8 mil reais por mês.

# Na França, 16% do valor de um carro é de impostos. Na Alemanha e na Espanha os índices são de 13% cada. No Japão, 9%, enquanto nos Estados Unidos a fatia tributária média é de 6,1% ­- varia de estado para estado.

# No Brasil, a média de tributos é de 29% do preço final de um automóvel.

Os preços aqui e lá

# Volkswagen Polo 1.6 Sportline - Brasil
Preço sugerido: R$ 60.095 (com ABS e airbag).
Sem os impostos: R$ 42.668.
Conversão: 15.803 euros.
# Volkswagen Polo 1.6 - Alemanha
Preço sugerido: 14.675 euros.
Sem os impostos: 12.768 euros.
Diferença: 23,7%.

# Renault Logan Privilége 1.6 16V
Preço sugerido: R$ 42.790 (completo).
Sem impostos: R$ 30.090.
Conversão: 11.144 euros.
Dacia Logan 1.6 16V - Alemanha
Preço sugerido: 10.550 euros.
Sem impostos: 9.175 euros.
Diferença: 21,4%

# Honda Civic EX - Brasil
Preço sugerido: R$ 63.515.
Sem impostos: R$ 45.027.
Conversão: US$ 22.513.
# Honda Civic Sedan - Estados Unidos
Preço sugerido sem impostos: US$ 14.990 mil.
Diferença: 50,1%.

# Citroën C3 Exclusive 1.6 16V - Brasil
Preço sugerido: R$ 53.410.
Sem impostos: R$ 37.922.
Conversão: 14.040 euros.
# Citroën C3 1.6 16V - Espanha
Preço sugerido: 13.500 euros.
Sem impostos: 11.637 euros.
Diferença: 20,6%.

# Peugeot 206 Presence 1.4 - Brasil
Preço estimado: R$ 43.750 (com ABS e airbag duplo).
Sem impostos: R$ 31.063.
Conversão: 11.505 euros.
# Peugeot 206 Urban 1.4 - Alemanha
Preço sugerido: 12.100 euros.
Sem impostos: 10.431 euros.
Diferença: 10,3%.

# Fiat Punto ELX 1.4 - Brasil
Preço sugerido: R$ 48.399.
Sem impostos: R$ 34.064.
Conversão: 12.616 euros.
# Fiat Grande Punto Active 1.4 ­ Alemanha
Preço sugerido: 12.140 euros.
Sem impostos: 10.645 euros.
Diferença: 18,5%.

# Toyota Corolla XEi - Brasil
Preço sugerido: R$ 63.944.
Sem impostos: R$ 45 401.
Conversão: US$ 22.700.
# Toyota Corolla CE ­ Estados Unidos
Preço sugerido sem impostos: US$ 14.400.
Diferença: 57,6%.

# Chevrolet Vectra GT - Brasil
Preço sugerido: R$ 59.990.
Sem impostos: R$ 45.593.
Conversão: 15.575 euros.
# Opel Astra - Alemanha
Preço sugerido: 16.360 euros.
Sem impostos: 14.234 euros.
Diferença: 9,4%.

# Ford Fiesta 1.6 - Brasil
Preço sugerido: R$ 50.360 (com ABS e airbag).
Sem impostos: R$ 35.756.
Conversão: 13.242 euros.
# Ford Fiesta 1.6 - França
Preço sugerido: 15.100 euros.
Sem impostos: 12.684 euros.
Diferença: 4,4%.

1 euro = R$ 2,70.
1 dólar = R$ 2,00.

(Matéria publicada pela agência de notícias Auto Press em setembro de 2007)

24 de abr. de 2008

As belas leis insuficientes


O Brasil é realmente o país das leis mais bonitas do mundo. Nossos códigos ambientais e do consumidor estão entre os mais modernos do planeta. Temos outras leis maravilhosas, de fazer inveja a muito país dito desenvolvido. A papelada judiciária, porém, não tem qualquer efeito de fato. As razões são variadas, mas convergem para quatro pilares fundamentais: falta de educação, fiscalização ineficiente, corrupção institucionalizada e impunidade recorrente. 

Outras servem apenas para tirar o sofá da casa, lembrando daquela piadinha em que o português pega a mulher com o amante no sofá da sala e em vez de expulsar a mulher, joga fora o móvel. Isso ocorreu quando assassinaram uma professora em um posto de combustível na Tijuca durante um assalto a um caixa eletrônico instalado dentro da loja de conveniência. O nosso prefeito bobalhão e blogueiro, na época, baixou uma norma para proibir caixas eletrônicos em postos como se isso fosse resolver o problema da violência.

Agora, a Medida Provisória 415/2008 (mais uma no país das MPs) proíbe a venda de bebidas alcoólicas nas estradas federais. Ou seja, mais uma vez se podam os galhos da questão enquanto a raiz continua podre. Não há estudos concretos, mas estima-se que quase 50% dos acidentes graves de trânsito no país sejam provocados pelo excesso de álcool. Isso em um país onde 35 mil pessoas morrem por ano vítimas do trânsito em números que desprezam as mortes ocorridas fora do local do acidente – ou seja, se o sujeito faleceu no hospital ou a caminho dele, não conta.

Pois bem, o motorista agora não pode mais comprar bebida na beira da estrada. Mas quem vai proibir colocar um isopor no seu carro com diversas latas de cerveja? Ou de malocar aquela garrafa de Johnny Walker embaixo do banco? Ou simplesmente de encher a cara e pegar o carro para viajar? O que faz mudar este comportamento é a consciência e a educação. Se punição e proibição resolvessem alguma coisa, esse país seria a oitava maravilha do mundo. Há diversos radares espalhados na cidade, multando aos borbotões e enchendo os cofres da prefeitura e nem por isso o número de acidentes diminuiu.

É a mesma coisa com o cigarro. Transformaram os tabagistas em vilões da saúde depois de encherem os nossos ouvidos e olhos com propagandas sobre o cigarro com a imagem do fumante como um poderoso. Pois bem, agora não se pode fumar em aeroporto, shopping, restaurante, nem no inferno. O consumo de cigarro por acaso diminuiu? Eu mesmo jamais deixei de fumar. Onze horas de viagem em um avião, antes mesmo de pegar as malas eu ia para fora do aeroporto onde fazia 20 graus negativos para acender meu cigarro. Conheço muito pouca gente que parou de fumar por conta dessas restrições. Eu mesmo parei pela consciência de que a nicotina me faz mal e não porque não podia fumar no restaurante.

Vou recorrer a um lugar-comum, me perdoem, mas a educação é a base de tudo, inclusive de um trânsito mais seguro e menos violento. É conscientizar os atuais e os futuros motoristas dos riscos da combinação álcool-direção e de outras imprudências. Curiosamente, a educação no trânsito é uma lei que não é respeitada nem pelos próprios governos. O Código Brasileiro de Trânsito prevê uma disciplina destas como obrigatória no currículo da educação fundamental. Não conheço uma escola pública sequer no Rio que lecione tal matéria. 

E o Estado, além de não aplicar o que promulga, também não fiscaliza o que já existe. É difícil acreditar que a Polícia Rodoviária Federal vai conseguir fiscalizar estabelecimentos em 61 mil km de rodovias federais. E sempre tem aquele comerciante espertalhão que vai esconder umas cervejinhas e umas pingas no canto do balcão e oferecer para os clientes “vips”. Não há como controlar isso. Um motorista ciente de como o álcool afeta os reflexos, pode ser mais eficaz ao recusar bebida quando estiver dirigindo.

Isso sem contar a famosa molhadinha na mão do guarda que tanto condenamos, mas cuja maioria não hesita duas vezes em praticar para livrar a cara. A corrupção tão usual contribui ainda mais para esse quadro assustador. Aliado à sensação de impunidade, a situação piora. Hoje, um louco pode atropelar e matar seis pessoas em um ponto de ônibus, desembolsar 100 pratas de fiança e ir para casa assistir TV. Fora os casos famosos de jogadores de futebol que mataram e feriram pessoas por estarem dirigindo de forma imprudente e continuam soltos por aí.

Estou muito longe de ser exemplo para alguém. Muito menos o senhor da razão. Adoro beber meu uisquinho e minha cervejinha. Quando estou dirigindo, acabo me regrando – e me punindo, pois acho que não deveria nem ter bebido aquilo tudo. Muitas vezes já deixei o carro onde estava e fui de ônibus para casa por ter bebido além da conta. Fora as vezes que terminei uma noitada e fui dormir dentro do próprio carro estacionado para acordar em melhores condições. O trânsito é uma verdadeira guerra – aliás, mata mais que muitas guerras. E não é uma lei que proíbe venda de bebida na estrada que vai resolver. Sem querer ser planfetário, mas como tudo nesse país, no trânsito a educação também tem de ser prioridade.

22 de abr. de 2008

Aventuras paternas


Minha alma boêmia e rueira poderia achar essa cena inimaginável. Noite de domingo, eu e os dois herdeiros refestelados no chão do quarto assistindo televisão. Só falta mesmo minha futura esposa para dividir esse momento dominical familiar e preguiçoso. Tudo bem. Daqui a seis meses o quarteto estará fixo e completo para estes hiatos raros entre saideiras e pé na rua.
“Pai, vamos ver o DVD do 'George, o Rei da Floresta'?”. Os olhinhos claros e a voz fina interrompem aquele ócio momentâneo e amolecem ainda mais este progenitor já tão vulnerável às investidas melosas daquela menininha. Pronto, estou eu agora refestelado no chão e assistindo ao Brendan Fraser interpretar um Tarzan abobalhado. Rio das risadas da minha filha mais do que das piadas previsíveis do longa-metragem.
Meus olhos vacilam de sono quando sinto aquela pele infantil queimar a minha. “Essa menina está quente demais ou isso é coisa de pai preocupado em excesso?”. Resolvi não me deixar enganar pelas neuroses paternas. Olho para o lado, ela continua a rir do macaco falante que usa óculos, enquanto o irmão mais velho revela todo seu tédio com os olhos perdidos na tela do televisor.
“Tão bem disposta, não está com febre não”, digo isso tentando enganar a mim mesmo. Aquela espoleta em forma de gente brinca com disposição mesmo com 40 graus. Saco o termômetro cor-de-rosa, guardado na necessaire cor-de-rosa, dentro da bolsa cor-de-rosa. “Minha filha é quase uma legalmente loira”, penso eu, em meio a um suspiro de constatação.
O termômetro digital é impiedoso e objetivo. Minhas suspeitas se confirmam e a febre agora é oficial. No relógio, 15 minutos para as 11 da noite. O pai irresponsável que não tem antitérmico em casa nem o remédio de alergia da filha agora vai pagar pela sua displicência. Com muita sorte encontrarei uma farmácia aberta a esta hora pelas redondezas. Arrisco dois telefonemas na esperança forçada de que alguma estar aberta.
Visto a primeira coisa que aparece na minha frente e ganho as ruas já certo da derrota. Olho a primeira farmácia possível de avistar do meu prédio. Obviamente que se estivesse aberta, o letreiro nada discreto chamaria minha atenção. Penso como as drogarias nesse país são espalhafatosas. A ponto de os estabelecimentos mais parecerem lojas de fast-food, vendendo saúde como se fosse um hambúrguer de qualidade e gosto discutíveis.
Arrasto meus chinelos com rapidez até a esquina. Mais uma vez, letreiros escuros. Corro os olhos pelo quarteirão e o panorama é inusitado. Uma churrascaria, duas pizzarias, dois restaurantes, um boteco, um podrão e uma lanchonete abertos. Ou seja, posso comer que nem um porco, beber até cair, mas não conseguirei um Engov.
Bem, pelo menos posso comprar uma flor para minha noiva a qualquer hora do dia, pois constato que o quiosque das plantinhas também não fecha. Curioso. Em um bairro repleto de idosos e cheio de farmácias, não tem um raio de uma drograria 24 horas para eu comprar um simples paracetamol genérico! Tijucano resignado, me dirijo ao ponto de ônibus resmungando toda a sorte de impropérios que me vem à cabeça. Destino: Saes Peña, ou “Praça”, como a raça tijucana costuma generalizar o coração comercial do bairro.
“Pelo menos, qualquer ônibus passa por lá”. Estendo a mão para o primeiro que faz a curva na rua, mas me lembro que não posso embarcar. Só estou com o cartão de débito. Bem que os coletivos poderiam começar a aceitar esse raio de dinheiro de plástico. Mas é por causa desse raio desse cartão que tenho a mania de não andar com dinheiro, sob protestos da minha mãe, que vive dizendo que um dia o ladrão vai me encher de tapa por eu estar sem grana.
Por causa do ladrão, também lembro que não consigo sacar dinheiro. Quer dizer, nenhum cidadão carioca pode tirar dinheiro na rua depois das 22h. Em uma daquelas resoluções em que se tira o sofá da sala, você não é mais assaltado ou seqüestrado entre 22h e 6h da matina. Mas também está fadado a ficar a pé.
Penso em ir a pé até “a Praça”, mas a preguiça me faz voltar para casa. Certo de que vou ter de abrir o cofrinho para juntar os níqueis e pagar a passagem de ida e de volta. O recurso é freqüente. Tanto que o cofrinho não é de porquinho nem tem cadeado. As moedas fazem barulho no bolso conforme os meus passos se apressam. Subo no ônibus com uma sensação de alívio imediato. E curto. Um estrondo sob o assoalho do coletivo provoca um frio na espinha. O ônibus quebrou no meio do caminho.
Esperar outro ônibus da mesma linha depois das 23h na Tijuca é uma tarefa para pessoas pacientes, virtude que jamais me coube. Com o dinheiro contado para a volta, não há outra alternativa senão seguir arrastando meus chinelos. Ainda mais resignado e com o vocabulário de palavrões mais extenso, vislumbro finalmente meu destino. As luzes das farmácias contrastam com as lojas apagadas e os cinemas de outrora, agora dominados pelo comércio e pela religião.
Chego rapidamente a um dos ex-cinemas, onde agora funciona uma farmácia cujo plantão se dá com os funcionários sonolentos atrás de um vidro blindado e um cilindro de ferro para entregar as mercadorias. Com dois sujeitos ainda para serem atendidos, penso na mão-de-obra que é comprar nesse esquema.
Vou até a outra farmácia, essa sim, que fica aberta plenamente 24 horas. Entro, peço os remédios e vou ao caixa já esboçando um sorriso com o dever quase cumprido e antecipando o fim de minha missão paterna. Compro até uma bala para comemorar, já que essas drogarias vendem de tudo mesmo.
Pura ilusão momentânea. O cartão de débito não passa. A máquina impiedosa diz que não há linha disponível para conectar. Lembro logo do comercial da TV do famigerado cartão que expõe uma senhora ao desagravo comercial por preencher um cheque em uma loja de plantas. E estou eu lá há 10 minutos tentando passar o cartão, sem que o cenário fique preto-e-branco de repente.
“Jorge, tem alguém usando a linha?”, pergunta a caixa da farmácia pela terceira vez ao atrapalhado companheiro de trabalho. Minha cara de irritado ganha contornos ainda mais agressivos quando um táxi estaciona na porta do estabelecimento com o rádio na estratosfera ao som de “Créu”. Juro que nunca tinha ouvido a música inteira. Agora, sou forçado a constatar o quanto a canção é idiota.
Nada de linha, nada de cartão, logo se forma uma fila e a caixa passa a atender os seguintes enquanto o Jorge tenta resolver o imbróglio do cartão. Um playboy ansioso paga uma caixa de camisinhas. Em seguida, um companheiro com a bela camisa tricolor paga o mesmo produto. Não tenho como não pensar na minha noiva e no pouco tempo que nós acabaríamos com aquela caixa de preservativos. “Todo mundo vai foder, enquanto essa porra desse cartão fode com a minha paciência ao som do Créu”.
Finalmente, consigo pagar os remédios. Agora, a missão é voltar. Os ônibus por aqui ficam mais raros conforme o passar das horas. Mas eis que surge rapidamente um 415. Entre vans e Kombis paradas no ponto para suprirem a carência dos coletivos oficiais, estico o braço. O insensível ônibus passa direto. Antes mesmo que eu soltasse o xingamento, o veículo pára 200 metros adiante. “Valeu motorista”. E saio arrastando os chinelos de forma mais rápida, pois me nego a correr atrás de ônibus (ainda mais de chinelos).
Quase alcançando o coletivo, eis que desembarcam três adolescentes para quem a noite, pelo visto, ainda vai começar. A luz de freio do ônibus se apaga e o motorista começa a arrancar para eu perceber que ele não tinha parado para mim. Antes que ele se vá totalmente, abro a mão e desfiro um golpe perfeito sobre a lataria oca da parte de trás do veículo. O estrondo não só atrai os olhares do vendedor de balas, que cochilava sob a marquise, mas serve também para o motorista frear.
A irritação é tanta que enquanto ando em direção à porta do ônibus penso nos pedidos da minha amada para relaxar. Minha fisionomia e o vigor do tapa na carroceria, porém, já denunciavam meu grau de irritação. Entro no coletivo e me deparo com uma motorista com um semblante de espanto. Viro os olhos e encontro o trocador igualmente assustado e levantando rapidamente para pegar meu dinheiro. Todos os passageiros me encaram com silêncio.
Calado e com cara de poucos amigos, me jogo no banco do ônibus e penso que realmente devo estar assustador. Gordo, cara de sono, cabelos desgrenhados, uma camisa preta com um Garfield fazendo careta e com as mangas rasgadas, a imagem de um ser estranho tatuada no braço esquerdo, short azul todo ferrado e havaianas. “Saudade da minha noiva. Com certeza ela estaria aqui rindo disso tudo e me fazendo rir”.
Exausto moralmente e fisicamente, abro a porta de casa e a pequena febril abre os braços e o sorriso em minha direção. Não está mais quente como antes. Saco o termômetro cor-de-rosa novamente. Não confio no resultado e apelo para outro termômetro, sem grandes tecnologias e mais convencional. A febre baixou.
“Pai, vamos ver o George novamente?”. As palavras em meio às gargalhadas do irmão adolescente e os olhinhos pidões da caçula me fazem achar graça da saga notívaga a qual tinha acabado de me submeter. Me fazem lembrar de outras aventuras de madrugada por conta do primogênito. E me fez ter certeza que faria tudo novamente. Inclusive, ver mais uma vez o Brendan Fraser se espatifar contra uma árvore.

15 de abr. de 2008

Elefante globalizado

Elefante chique

O Brasil viveu nas últimas décadas uma campanha constante e suja de depreciação do serviço público. Principalmente nos anos 80, o discurso recorrente, seja na mídia ou forçada pela elite, era de que, se era público não prestava. Eu mesmo cresci me acostumando a ouvir que o Estado não funciona, que funcionário público é imprestável e tudo que o governo põe a mão é ruim e danoso ao cidadão. Ou seja, já se preparava nessa época um ambiente hostil contra estatais e órgãos públicos de uma forma geral. Um cenário propício para as oligarquias deste país ensaiarem uma onda preocupante e perversa de privatizações na década de 90.
Me lembro até hoje de um asqueroso senador da república, já falecido, comemorando com dinossauros de brinquedo a quebra do monopólio da Petrobras sobre a exploração do petróleo no país. Também me recordo daquele meu xará, que foi presidente, usava cabelo gomalina e tinha semblante fascista, amaldiçoando a máquina do estado e a comparando a um elefante em reclames de televisão. Outro xará meu, com faixa presidencial e em uma falsa pluma de social democrata, então, colocou em prática uma promíscua série de privatizações com o intuito de fomentar a livre concorrência e aliviar o Estado para que esse, enfim, pudesse se dedicar a assuntos como educação e saúde.
Pois bem, o xará pseudo-tucano (escrevo assim porque acho um crime usarem uma ave tão bonita como marca de um partido político sem qualquer ideologia ou coerência) abriu as pernas e vendeu empresas estatais até hoje em situações e negócios considerados desvantajosos para os cofres do estado e sob suspeita de fraudes que as aves azuis e amarelas tentam varrer para debaixo do tapete.
Passada uma década, na prática, o que melhorou? Bem, já ouvi um estudante de jornalismo soltar a pérola de que graças a esse sistema e ao governo “social-democrata” (as palavras social e democracia nunca foram tão mal empregadas e entendidas) que hoje eu tinha um telefone celular. E que, graças a isso, o gari da esquina também tinha celular e televisão em casa. Nesta visão extremamente linear e medíocre, cheguei a indagar se deveria colocar um altar com a foto do meu xará em casa e venerá-lo diariamente com o meu celular ao ouvido.
Bacana. Então, o gari tem celular, mas o filho dele não tem escola e a esposa dele precisa ficar três meses para aguardar uma cirurgia em qualquer SUS da vida. Pelo visto, é muito pedir para ser cidadão e ser reconhecido como tal, inclusive pelos serviços que outrora eram estatais e foram dados (está bem, vendidos) à iniciativa privada. Hoje, o que temos? Temos taxas altas de telefonia e um serviço que ainda deixa muito a desejar. Cobranças de assinaturas, preços altos de ligações e serviços de qualidade discutível. Basta ver a lista de campeões de reclamações dos Procons país afora.
E gostaria de hoje perguntar àquele nefasto senador dos dinossauros onde foi parar a tal concorrência? Sim, porque hoje para ter um telefone fixo em casa no Rio de Janeiro eu só posso recorrer a duas empresas, sendo que uma usa antena e é controlada por um magnata mexicano, que também é dono de uma operadora de telefonia celular, que acaba de comprar uma concorrente (viva a globalização!). Isso em um mercado de telefonia móvel que reúne o impressionante número de quatro companhias, no Rio.
E o que dizer da empresa fornecedora de energia elétrica? Essa é um espetáculo. Nome inglês pomposo para um serviço de quinta. Só para refrescar a memória, quando essa tal companhia foi privatizada, nos anos 90, recebeu uma bela quantia do BNDES para sanar dívidas e se reestruturar. Pois bem, há dois anos, estava em crise novamente, apesar disso ter custado 18 mil empregos. O mal gerenciamento lhes custou a concessão? Pelo contrário, receberam mais grana do mesmo banco. Curiosamente, as reclamações não têm a mesma ênfase de décadas atrás e as queixas mesmo só são ouvidas nas esferas judiciais. Pena que o senador dos dinossauros não esteja vivo para me explicar melhor essa lógica...
Tudo isso que escrevi freneticamente até agora é para tentar entender uma outra privatização. Em uma matéria que fiz recentemente sobre o trânsito das grandes cidades, que fica cada vez mais caótico com os milhares de carros novos que ganham as ruas, o engenheiro de tráfego Fernando McDowell me chamou a atenção para números assustadores sobre os metrôs do Rio e de São Paulo. Considerados os meios de transporte mais eficazes para tentar tirar os automóveis das ruas e melhorar o trânsito e a poluição das metrópoles, o metrô se mostra hoje muito mais ineficaz que quando era regido pelo Estado.
Segundo o mesmo engenheiro, nos horários de pico, o tempo de espera entre uma composição e outra nos dois metrôs é de inacreditáveis quatro minutos – o certo são 90 segundos. Me lembro bem quando usava o metrô carioca nos anos 80. Passava rápido e enchia pouco, mesmo na hora do rush. Hoje, se perde minutos preciosos esperando os trens, que, invariavelmente, chegam abarrotados. E tem mais essa: a média de pessoas por metro quadrado no metrô do Rio e no de São Paulo é de seis, quando o ideal são quatro pessoas por metro quadrado.
E como transporte de péssima qualidade nunca significou tarifas mais baixas, o sujeito corre do abarrotado e atrasado metrô - e do igualmente ineficaz ônibus - para pegar seu carro ou moto com uma bíblia de prestações em uma das mãos. Resultado: mais veículos nas ruas, mais congestionamentos e mais poluição saindo pelos escapamentos. Perda de produtividade e de qualidade de vida são os efeitos seguintes de tamanho descaso com o transporte público. Ou melhor, privado.
Na outra ponta, tudo como antes. A educação e saúde, aquelas áreas que seriam contempladas com as gorduras deixadas pelo emagrecimento do elefante estatal, continuam sucateadas e ferindo os princípios básicos democráticos (democracia não é só votar para presidente!). Está na hora do Estado voltar a valorizar seu papel. Não só nas áreas que sempre foram sua obrigação. É preciso tomar as rédeas de áreas estratégicas porque o elefante não emagreceu. Ele só mudou de roupa e usa presas de marfim.
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Antes que eu esqueça: agradeço ao convite para este blog caroçal e também pelo modo acolhedor com que todos me receberam... apesar de o Diego não deixar eu sentar na janela e de eu ter matado Dolores!!!