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4 de nov. de 2008

Quase ninguém percebe


Reparar erros de continuidade, seja na TV ou no cinema, é a maior diversão. Alguns elementos, como figurino, cenário e objetos de cena nos permitem descobrir as falhas com mais facilidade. Mas quase ninguém repara em dois itens importantes: maquiagem e cabelo. Não é incomum ver nas novelas, por exemplo, takes em que as personagens aparecem com maquiagens diferentes, em uma mesma cena.

Muda o tom da sombra (ou o esfumaçado) ou a cor do batom. Incluem-se (ou se excluem) rímel e gloss, muda-se a intensidade do blush. O mesmo ocorre com os penteados: ora os cabelos estão mais lisos, ora apresentam ondulações. Tudo isso na mesma cena.

Ok, talvez isso seja uma paranóia minha. Desde que me formei em maquiagem reparar essas coisas virou um vício. Mas esses descuidos, na minha modesta opinião, comprometem, de certa forma, a qualidade do produto. O problema é que as novelas costumam exagerar nas maquiagens, o que as torna ainda mais inverossímeis. E passíveis de erros.

Uma personagem adquire personalidade não só pelo figurino, mas também pelos produtos que enfeitam seu rosto. Assim, se a mocinha começou a trama com sombra marrom escura e cílios postiços lotados de rímel, essa pintura será sua marca registrada até o final, faça chuva ou faça sol, e em qualquer hora do dia ou da noite.

Acontece que, na vida real, ninguém usa as mesmas cores de cosméticos o tempo inteiro! Nesse ponto, tenho muitos elogios a fazer à direção artística de A Favorita. A novela pode não ser grande coisa, mas a maquiagem é diferenciada. A maioria das personagens femininas está de cara limpa, sem exageros, apenas com os produtos básicos: corretivo, pó compacto, rímel e blush. Coisa rara da teledramaturgia brasileira. Na mexicana então, nem se fala...

25 de set. de 2008

Desafinação



Com inauguração prevista para dezembro, a Cidade da Música (Barra da Tijuca), que teve o custo total estimado em mais de R$ 460 milhões (em vez dos R$ 80 milhões previstos inicialmente), está causando polêmica. Além dos gastos considerados excessivos, que representam 20% do orçamento de investimentos da Prefeitura, e do atraso na obra – o cronograma inicial previa a entrega para 2004 - teve o estudo de viabilidade realizado apenas no ano passado, seis anos após o lançamento do projeto. Em março, uma CPI, idealizada pelo vereador Roberto Monteiro (PCdoB), foi instaurada para investigar o suposto mau uso do dinheiro público na obra.

Prometendo ser um dos mais imponentes centros de cultura da América Latina, a Cidade da Música tem também contornos nebulosos: o estudo de viabilidade realizado pela Ernst & Young, por exemplo, mostra que as receitas não serão suficientes para cobrir as despesas. A programação (concertos de música clássica, de ópera e dança, e sessões de cinema), garantirá uma receita estimada em R$ 21,2 milhões com uma despesa apurada em torno de R$ 21,01 milhões ao ano. A manutenção custará R$ 12 milhões anuais, valor que poderá ficar sob responsabilidade da Prefeitura, caso nenhuma empresa interessada em assumir a Cidade da Música venha a ser licitada.

A confusão está armada. De um lado os que consideram o empreendimento o mais ambicioso projeto público das últimas décadas – e um marco no cenário cultural brasileiro. Do outro, os que acreditam que o equipamento será um grande elefante branco, alegando a falta de interesse da população pela música clássica e desconfiando dos preços dos ingressos a serem vendidos. Na CPI, os vereadores se perguntam por que, em vez de gastar R$ 400 milhões na Cidade da Música, o Prefeito não implementou o programa estabelecido em 2000 de construção de bibliotecas e teatros nos bairros.

Projetada por Christian de Portzamparc, marroquino que estudou na École National de Beaux Arts (Paris), e idealizou projetos semelhantes em Paris e Luxemburgo, a Cidade da Música, que será a sede da Orquestra Sinfônica Brasileira no Rio, conquistou, junto com outras 146 obras ou projetos arquitetônicos de 38 países, no início de setembro, o Prêmio de Arquitetura Internacional 2008, oferecido pelo Chicago Athenaeum - Museu de Arquitetura e Design, em parceria com o Metropolitan Arts Press e a revista italiana “Abitare”. A única obra brasileira a ser premiada.

Terá 1.755 lugares na Grande Sala - que servirá para os concertos da OSB -, 1.250 lugares na Sala de Ópera, sete salas de ensaio, dez salas de aula e três cinemas de arte. O contrato de concessão prevê uma orquestra residente com no mínimo 70 músicos que fará dez apresentações em dois anos, regida por maestro com no mínimo cinco contratos internacionais. A concessionária a ser licitada deve ter, no mínimo, três anos experiência na gestão de equipamentos culturais. O complexo cultural contará ainda com midiateca e estacionamento para mais de 800 carros.

10 de set. de 2008

Homenagem de aniversário (9 de setembro)

Ontem eu percebi,
Lento, que
Infelizmente, qualquer palavra é
Vã para definir o quão
Importante é a Olívia para
A vida de todos nós.

Olívia, nossa é vida é mais feliz com a sua existência.
Feliz aniversário.

4 de set. de 2008

Meu irmão nadou no rio

Ando nostálgico nesses últimos dias. E tenho pensado muito no meu irmão, que é quase dois anos mais velho que eu – ele fez 33 em Agosto. Nunca fomos grandes amigos, andávamos em bandos diferentes. Ele sempre andou na rua, eu brincava no quintal. Ele não levava a escola a sério, eu me matava de estudar. Ele tem os olhos azuis, os meus são castanhos.

Não nos vemos com tanta freqüência e conversamos menos do que eu gostaria. Ele está no segundo casamento e, apesar de jovem, já tem quatro filhos. Somos os primos mais velhos da parte materna, que é numerosa. Para os pequenos, ele sempre foi exemplo de bravura, esperteza e malandragem. Eu era o contraponto: ensinando a falarem direito, a se portarem com educação e darem atenção aos livros.

Demorei quase 30 anos para perceber, mas hoje sinto que tenho grande admiração pelo meu irmão. Ele fez coisas que eu gostaria de ter feito. Viveu a infância e parte da vida adulta sem tanta preocupação. Hoje está bem, com trabalho estável. É um pai responsável e amigo, cuida bem das duas famílias. Sempre me teve como exemplo, porque eu estudei, me formei, vim morar na cidade grande. Se achava inferior.

Com algum tempo de atraso eu vejo que ele me serve como exemplo também. Me orgulho de tê-lo tido sob o mesmo teto durante quase 18 anos. Aprendi muito com ele, embora o achasse um irresponsável. No fundo eu tinha um pouco de inveja. Às vezes me arrependo de ter sido tão certinho o tempo todo.

O que me desperta ainda mais admiração foi um fato ocorrido há muito tempo atrás: meu irmão nadou no Rio Paraíba do Sul. E em época de cheia. Várias crianças já haviam se afogado tentando a façanha. O rio é traiçoeiro e cheio de poços. Mas meu irmão pulou ali. Não teve correnteza, não teve água barrenta que o ameaçasse. Apanhou, ficou de castigo, foi repreendido por toda a família. E apesar do choro tinha sempre escondido um riso gostoso e sonoro dentro de si. Meu irmão nadou no rio!

3 de set. de 2008

Braço quebrado


Fraturas me assustam desde sempre. Acho que é um medo de outras vidas. Ou é coisa do meu subconsciente, já que quebrei o braço direito três vezes, e no mesmo local: final do rádio, próximo ao cotovelo. É um medo controlável. Mas o pavor passou a me rondar de novo depois do jogo do Flamengo contra o Cruzeiro, em 3 de agosto desse ano, quando o atacante do rubro-negro, Diego Tardelli, fraturou gravemente o antebraço direito. Pela televisão, ele parecia um pedaço de pau. Terrível.

O mais interessante – e contraditório – é que, apesar do medo de me machucar, não sofro quando penso nas fraturas da infância. Porque não foram acidentes graves, nada relacionado a automóveis ou travessuras dentro de casa. Nas três vezes em que me machuquei, estava brincando no quintal, lá em Barra do Piraí.

Na primeira, fui imitar meu irmão, um exímio trapezista de árvores. Ele, maior que eu, se pendurava nos galhos do limoeiro – no jardim da igreja - fazendo balanço com o próprio corpo. Eu, menor que ele, ia atrás. Só que uma das tentativas teve conseqüências mais dolorosas: caí. A segunda vez também teve árvore envolvida: a amendoeira lá de casa. Incorri no mesmo erro: imitar o meu irmão. Caí.

Na terceira, eu queria voar, como o Super Homem. Em vez de árvore, escolhi outro meio de transporte: o balanço da casa de uma prima. No vaivém, cada vez que a cadeirinha chegava no ponto mais alto, me jogava lá de cima. Numa dessas o Super Homem veio ao chão, e de mau jeito: era mais uma fratura. Nunca esqueço a sensação boa do vento no rosto a cada pulo. E da sensação ruim da dor e do pânico ao ver o inchaço: “Mãe, não quero ficar com braço torto!”.

Eu era criança, então o gesso implicava em certas conseqüências interessantes. As provas na escola, por exemplo, eram orais. Com o calor – os acidentes aconteciam no Verão – dava coceira, que eu aliviava com as agulhas de tricô da vó. Os amigos e primos desenhavam e escreviam bobagens no gesso. Eu tinha que comer com a mão esquerda. E tentava, a todo custo, escrever no papel como os canhotos. Sem sucesso. Havia ainda as tipóias, que compunham o figurino.

Meu pai, ansioso, foi quem tirou o gesso todas as vezes, em casa mesmo, com muita água caindo da bica. Horas na função. Eu tremia, tenso, esperando rever o meu braço depois de dias e dias sem contato visual algum. Ele aparecia frágil, mais branco que o resto do corpo, dolorido ainda. Ia aprendendo a movimentá-lo com o passar dos dias. Da terceira vez, precisei de muitas sessões de fisioterapia pra fazê-lo voltar ao normal.

Até hoje carrego a marca das travessuras: meu braço direito não flexiona completamente. No exame para o Exército, bastou uma olhada do tenente pra eu ser dispensado. “Quem aí já fraturou alguma parte do corpo?”, perguntou. “Eu, várias vezes”, respondi. Me livrei do quartel. O fato é que, a despeito de todos os inconvenientes de quebrar um braço – e do medo que me ronda ainda hoje - só tenho boas lembranças das minhas fraturas. E, mãe, apesar do seu apoio, não teve jeito: fiquei com o braço torto.

25 de jul. de 2008

Medicina moderna

Diálogo no consultório de Medicina do Trabalho, às 14h do dia 25 de julho de 2008, Centro do Rio:

- Boa tarde. Qual o seu peso?
- Acho que 73 quilos.
- Qual a sua altura?
- 1,71m.
- Sua pressão é normal? Sabe quanto?
- Sim, 12 por 8.
- Está se sentindo bem, algum problema de saúde?
- Tudo ótimo (com a voz ainda alterada pela gripe).
- Ok, bom trabalho. Tenha um dia feliz.
- Obrigado, pro senhor também.

Um médico simpático, devia ter seus quase 50 anos. A consulta durou menos de 1 minuto. Saí de lá com o meu atestado de saúde ocupacional debaixo do braço, o documento confirma que estou apto a realizar minhas funções na empresa. Lamentei por aquele profissional, imaginando que eu me sentiria profundamente triste por ter transformado anos de estudo naquilo.

24 de jul. de 2008

Brincadeira

Para animar o grupo, proponho que todos publiquem aqui trechos dos livros que estão lendo atualmente, citando o autor e o nome da obra, obviamente. Vou começar a brincadeira:

"Aquilo era o começo do nunca mais, pensou Maurício. E repetiu em pensamento: nunca nunca nunca mais. Porque quando uma pessoa morria, era para sempre. Mas não conseguia compreender palavras grandes como essas: nunca, sempre. Havia o dia de ontem, o dia de hoje e o dia de amanhã. Havia mesmo os dias de uma semana atrás, de um mês ou, com um grande esforço que quase fazia a cabeça estourar, os dias de um ano atrás. Mas sempre era muito mais que um ano; e nunca, muito menos que um segundo. Sempre e nunca - ele imaginava uma coisa muito grande e branca, que a gente olhava de baixo para cima, sem conseguir ver onde terminava. Luciana ia ficar para sempre na parede branca, para nunca mais voltar."

De Limite Branco, Caio Fernando Abreu. Agir, 2007.
Obrigado pelo presente, Lucas. A leitura me emociona a cada linha.

27 de jun. de 2008

Com todo gás


Não é de hoje que venho tentando eliminar os refrigerantes da minha vida. É muita cafeína, acidulante, corante, estabilizante, antioxidante e edulcorante (adoçante) para uma pessoa só. Além de gastrite e aumento do colesterol, a prática pode me levar a desenvolver um câncer no esôfago, e eu não estou a fim de morrer desse jeito. Não mesmo.

Fico imaginando a dificuldade dos pais em educar seus filhos a ingerirem líquidos mais saudáveis. Os refrigerantes estão por todos os lados, nas ruas, nos bares, nas cantinas escolares, nos hospitais, nas bancas de jornais e nas prateleiras dos supermercados, obviamente. Embalagens coloridas e cintilantes. Quase lúdicas.

Dados da Abir (Associação Brasileira das Indústrias de Refrigerantes e Bebidas Não-Alcoólicas) revelam que os brasileiros consomem, anualmente, 66 litros de bebidas não-alcoólicas. Nesse rol estão, além de refrigerantes, os chás, sucos, energéticos, isotônicos e águas minerais.

O consumo médio diário de refri, no Brasil, é de 165 ml. A campeã disparada, segundo a AC Nielsen, é a Coca-Cola comum, com 37,3% do mercado. Depois vêm a Fanta Laranja, com 6,4%, Guaraná Antarctica (5,7%), Pepsi (4,1%) e Coca Zero (4%). Donde se conclui que, até nesse setor, somos engolidos pelas multinacionais. A Coca detém, absoluta, espantosos 50% do mercado nacional.

Um mercado disputado, que gera grandes lucros. Mas como ficam as empresas brazucas? Informações da Associação dos Fabricantes de Refrigerantes do Brasil (Afrebas) dão conta de que, nos últimos cinco anos, cerca de 66% dos produtores de refrigerantes brasileiros deixaram de produzir, provocando a demissão de mais de 50 mil trabalhadores.

A explicação é que as multis ganham isenções fiscais, o que prejudica os nossos fabricantes. Nesse cenário, as marcas brasileiras perdem forças e se restringem aos mercados locais. É o caso de Xereta, Maracanã, Frutty, Fanny, Simba, Kareta, etc. Com mais expressão, marcas como Dolly e Schin ainda conseguem ir mas longe.

A força do Jesus

De cor rosa é sabor adocicado, o Guaraná Jesus, popular em São Luís do Maranhão, foi criado pelo farmacêutico Jesus Norberto Gomes, em 1920, época em que sequer havia refrigerante no País. Reza a lenda que a bebida surgiu acidentalmente, quando Gomes tentou sintetizar um remédio famoso na época utilizando uma máquina de gaseificação importada. Não se sabe ao certo a composição, mas dizem que há no refrigerante 17 ingredientes, entre eles ervas e produtos que o farmacêutico descobria em suas viagens pela Amazônia.

A família de Jesus manteve fábrica própria até o início de 1960. Os filhos que comandavam o negócio do pai farmacêutico partiram para São Paulo e a família decidiu vender a fábrica - mas não a marca - para a Antarctica. Naquela ocasião, os Gomes acusaram a empresa de adulterar e boicotar o produto, iniciando então uma briga judicial. O contrato foi rompido, mas a família ficou sem fábrica para produzir a bebida.

Por isso, o Jesus ficou sete anos fora do mercado até ser vendido, em 1980, para a Companhia Maranhense de Refrigerantes, que já tinha licença para fabricar e distribuir a Coca-Cola no Estado. Embora seja distribuído apenas no Maranhão, o produto pode ser encontrado na Feira de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, e em outros pontos específicos escondidinhos pelo Brasil.

26 de jun. de 2008

Paixão gay

Título de matéria no site G1, editoria São Paulo/Polícia:

"Paixão gay pode ter motivado seqüestro de mãe, diz polícia".

Minha opinião: sensacionalismo barato. Paixão é paixão, não importa a que sexo pertencem as duas partes.

Aliás, já repararam como o G1 adora dar destaque para matérias sobre homossexuais?

19 de jun. de 2008

Quizz


Há cerca de um mês venho me deparando com essa imagem aí. São cartazes grandes afixados em paredes (como aqueles de shows de música). Neles há, como podem ver, duas mãos femininas, unhas grandes, pintadas de vermelho, tampando uma vulva. Uma enorme vulva depilada. E se você chegar bem perto consegue ver alguns poucos pêlos pretos crescendo nos grandes lábios. No canto inferior esquerdo tem um vidro de esmalte vermelho, no mesmo tom das unhas. Um vermelho-sangue. E a frase: “base para unhas fracas”. Nada mais. Desde a primeira vez que vi o cartaz, venho me perguntando o que será que aquilo quer dizer. Me vieram na cabeça algumas idéias:

1 – Propaganda de esmalte.
2 – Um novo grupo musical que se apresentará na Lapa.
3 – O começo de um movimento feminista (nesse caso, a imagem representa o controle da mulher sobre o próprio prazer e o próprio sexo).
4 - O pré-lançamento de novo produto ginecológico.
5 – Uma expressão artística contemporânea.
6 – Propaganda de sex-shop.
7 – Propaganda de puteiro.


Só hoje, ao escrever esse post, eu descobri qual delas é a opção correta. Alguém se arrisca?

13 de jun. de 2008

Eu amo


De acordo com a revista Superinteressante, o site Lovelines, que rastreia em blogs expressões como “eu amo” e “eu odeio”, contabilizou em janeiro desse ano o seguinte:

1º lugar – “eu amo”, escrito por 58.638 pessoas.
2º lugar – “eu quero”, escrito por 48.309 pessoas.

“Eu odeio”, repetido apenas 15.141 vezes, está na lanterninha.

Legenda

Legenda de uma foto no site G1, em galeria sobre casais no Dia dos Namorados: "André Piva e Carlos Tufvesson estão juntos há 15 anos. Fato raro no meio gay".

Verdade ou preconceito?

Quando a arte atrapalha a sua vida


O título pode parecer absurdo. Afinal, arte é alimento. O que vem dela é benéfico, sem dúvida. Mas pouco se pensa sobre o lado prático da coisa. Especialmente quando se trata de produtos audiovisuais. Vou ser mais claro: quase ninguém pára para analisar como se dá o processo de construção do objeto artístico. Não estou me referindo ao momento criativo, à inspiração, ao sofrimento para traduzir a emoção em arte. Isso todo mundo conhece.

Tampouco falo de questões práticas, tipo: a escolha da locação, a preparação do maquinário, o deslocamento de equipes e materiais, a montagem dos cenários, enfim, a produção propriamente dita. Isso é básico. Agora, o que se comenta pouco – e o que me faz pensar - é de que maneira essas produções, muitas vezes rodadas em locações urbanas, interferem no dia-a-dia da população.

Eu moro numa área naturalmente cinematográfica: a Lapa. É comum, pelo menos quinzenalmente, me deparar com todo aquele aparato: caminhões, tripés, holofotes, cadeirinhas de diretor, câmeras, gruas, trilhos, figurantes, entre outros equipamentos que eu nem conheço. Costumo andar a pé no local, e não é só para o meu lazer. Retorno do meu trabalho caminhando e inevitavelmente cruzo a região dos arcos.

Já me vi tendo que desviar muitos metros do local corriqueiro, por causa de uma novela das sete. As produções cercam áreas bastante extensas, com faixas semelhantes às da Defesa Civil. E tem sempre alguém pra avisar os distraídos: “Não pode passar por aqui!”. Como assim?? Eu estava indo para a minha casa! Eu moro ali! Já precisei andar pela rua, com trânsito intenso, para não ocupar a calçada onde era gravada uma cena da Alzira, de Duas Caras.

Recentemente descobriram que o Bairro de Fátima, onde moro, é uma boa locação de cinema. Parece um lugar do interior, tem uma pracinha linda, muitas árvores, ruas com paralelepípedos e um monte de escadarias quilométricas, que quase tocam o céu. Aconchegante e pacato. Mas hoje de manhã, por exemplo, estava tudo cercado com as famosas faixas amarelo-e-pretas. Vários caminhões, muitos figurantes, um café da manhã apetitoso servido pela produção, fora todo o maquinário.

O pessoal da cenografia construiu ali um ponto de ônibus com uma tubulação enorme, azul, passando embaixo. Os atores – que eu não reconheci – gravavam na escadaria. Eram 8h30, portanto meu horário de ir trabalhar. Mas não havia ônibus porque a praça estava "lacrada". O ponto da vida real mudou de locação, para quase 500 metros adiante. Nessa hora, eu juro que pensei: “foda-se a arte, eu quero meu coletivo".

30 de mai. de 2008

No sobe e desce da vida


Tarefas corriqueiras realizadas no centro da cidade, em edifícios comerciais, quase sempre me fazem andar de elevador. E nesse sobe e desce praticamente diário me vem uma sensação de desconforto com a presença dos ascensoristas. Mas um desconforto pelos dois lados: o dos passageiros, que precisam se espremer entre si por causa do funcionário, e o do próprio ascensorista, que acaba trabalhando em situação de quase-insalubridade.

Imaginem subir e descer durante horas a fio, encerrado num espaço pequeno, abafado e, muitas vezes, malcheiroso. A atividade não requer instrução, muito menos habilidade no contato com os passageiros, já que a comunicação é primária: “bom dia”, “boa tarde” e “boa noite”. A pergunta “Qual o andar, senhor?” é um plus. A maioria não faz questão de um contato mais próximo. Nem tem por quê.

Muitos deles ocupam ¼ do espaço disponível. A viagem já é ruim quando o elevador tem ventilação interna. Imaginem sem essa regalia... E quando o equipamento tem funcionamento precário, a situação pode ser ainda pior. O fato é que um ascensorista, muitas vezes, ocupa o lugar de dois passageiros. E as filas se formam do lado de fora... Soa incoerente.

Fico me perguntando se essa função é realmente útil para a população, já que os elevadores modernos possuem dispositivos eletrônicos que dispensam manuais e, por conseguinte, alguém que os opere. Hoje em dia as cabines falam com você, de maneira que a presença do ascensorista num equipamento como esse torna-se meramente figurativa.

Os salários variam do mínimo (R$ 415), podendo chegar a cerca de R$ 800 em cidades como São Paulo. No Rio, a categoria não tem um sindicato próprio, sendo representada pelo Sindicato dos Empregados de Edifícios no Município do Rio de Janeiro. Não é incomum encontrar anúncios nos classificados solicitando cidadãos para a função.

Pouca gente sabe mas existe um projeto de Lei no Rio (nº 48/2005) que pretendia obrigar a presença dos ascensoristas nos edifícios comerciais do município. Ele foi vetado por Cesar Maia. Em São Paulo, José Serra também vetou, na íntegra, em dezembro de 2005, o projeto de lei nº 144/2005, que previa a mesma coisa.

Certa vez, em um curso-relâmpago de Jornalismo Econômico no IBMEC, Eduardo Giannetti falou uma coisa interessante sobre isso: que nos Estados Unidos, por exemplo, não existem ascensoristas. Ele contou o caso de um amigo dele, norte-americano, que, em visita ao Brasil, perguntou-se, assustado: “o que essa pessoa está fazendo?”, apontando para o cabineiro.

No curso, o economista desabafou: “Pobre de um país como o Brasil, que não tem capacidade para absorver essas pessoas de forma digna”. No que tem toda razão: a atividade é completamente desnecessária, a não ser nos casos em que os elevadores requerem operação manual – o que é a minoria. Mas o tema vai além: reflete o descaso do poder público com a educação e qualificação profissional dos cidadãos brasileiros.

No cenário atual, o que seria mais sensato: seguir o exemplo das prefeituras carioca e paulista, vetando a contratação dos ascensoristas, mas promovendo qualificação de mão-de-obra em massa (para outras atividades), ou tornar obrigatória a presença deles, impedindo que mais pessoas sofram com o desemprego?

23 de mai. de 2008

A verdade

Numa manhã cinzenta de agosto, Chico e Ana acordaram dispostos a encontrar A VERDADE. Conversaram durante horas sobre como a tarefa poderia ser realizada. Cogitaram todos os meios e ponderaram sobre as conseqüências que a descoberta poderia trazer. Cochicharam muito durante o café da manhã, entre broas e queijos e pães. Tudo sob o olhar interrogativo, mas carinhoso, da mãe. Concordaram sobre a importância de manter o projeto em sigilo. Passaram a tarde planejando a ação, desenharam, trocaram bilhetes ao longo do dia, mantendo o segredo da intenção sob sete chaves bem pesadas. À noite, despediram-se após o jantar e correram para o quarto. Luz apagada, juntaram-se embaixo do cobertor. Acenderam o abajur, do mesmo jeito que faziam desde pequenos, quando brincavam de caverninha. Respirações ofegantes, um calor dentro do corpo subindo para as bochechas. Ana então perguntou: “Chico, você achou A VERDADE?”. E o menino, olhos exclamativos, revela o livro escondido atrás de si, afastando a poeira acumulada. “Aqui está, Ana”, com o dedo certeiro sobre A VERDADE. Era o dicionário de capa preta aberto na página 2.060.

21 de mai. de 2008

Uma nova Angola para mim


Depois de anos como membro do Rio Voluntário, resolvi que era hora de me tornar, de fato, um voluntário. A primeira ação de que participei, no sábado passado, 17 de maio, foi uma festinha para os idosos da Casa Caminho da Felicidade, em Paciência. Mas sobre isso eu falo depois. O que me traz ao blogue, agora, foi o contato que tive com um dos voluntários, Silas, um jovem angolano residente no Brasil desde 1993.

Foi na volta da ação. Retornávamos eu, Guilherme e Silas de carona com Marcelo, que nos deixaria na Central. Já tinha reparado o sotaque do angolano desde a festa com os idosos, mas, como eu estava sendo introduzido ao grupo naquele momento, minha timidez não permitiu um contato mais próximo.

No carro, banco de trás, eu e Silas sentamos lado a lado. Papo-vai-papo-vem, resolvi perguntar: “Qual a sua nacionalidade?”. E foi aí que as histórias dele começaram a brotar, coloridas por sorrisos amplos e uma dicção quase cantada. Silas tem 14 irmãos, sendo oito deles por parte de pai. Além dele, três moram fora de Angola, na Espanha, Bélgica e Alemanha.

O simpático angolano, magro, de estatura média, vestia a camisa do Rio Voluntário, calça jeans, um tênis bonito e um chapéu que não me deixava ver seus cabelos. Dentes muito brancos e olhos muito escuros, da cor da pele. Há seis anos ele não visita os pais, que moram em Luanda. A passagem aérea, segundo me explicou, já foi mais cara. Hoje, é possível pagar a viagem com R$ 2 mil. Há um tempo atrás pagavam-se R$ 6 mil.

Mas para Silas a compra é ainda mais fácil. Alguém da família, lá em Luanda, consegue as passagens por poucos dólares. Ainda assim, os compromissos do rapaz aqui no Brasil acabam por absorver todo o seu tempo, e ele vai deixando as visitas de lado. Como compensação, familiares vêm passear no Rio. Silas mora em São Cristóvão e é formado em Turismo pela Universidade Plínio Leite, de Niterói.

Atua como voluntário em muitos projetos, há bastante tempo. No Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia, por exemplo, ele é um dos membros do grupo de recreação infantil. Já morou com uma das irmãs, em Bonn, mas não gostou dos germânicos. “Estar no Brasil é como estar em casa. A língua é a mesma, o clima é o mesmo, a alegria das pessoas é muito parecida”, disse.

Apesar das súplicas familiares, Silas recusa-se a ir morar na Europa. Me disse que trabalha em sua área de formação e, por uma confusão mental, acabou indo parar no curso de Fisioterapia do Bennet. Trancou a matrícula depois de seis meses, tamanha a insatisfação com o curso. Agora pretende iniciar Pedagogia, acha que tem mais a ver.

Ele me disse que Luanda é uma cidade grande e populosa. E que, com o fim da guerra civil, muitos se mudaram para as áreas urbanas, o que provocou um inchamento da capital. Como não há infra-estrutura que comporte esse êxodo, o povo sofre com a pobreza e o governo, por sua vez, não é capaz de evitar a favelização. Mas o angolado faz questão de dizer que o país está crescendo.

Perguntei por que o Bairro de Fátima tem uma comunidade tão grande de angolanos. “O que eles fazem ali?”, indaguei. Ao que Silas me respondeu: “É simplesmente um ponto de encontro que a comunidade escolheu na cidade”. Grande parte, inclusive, já sai de Angola munida de informações sobre a região, que fica perto do Centro do Rio. Para ele, é uma maneira de não se sentirem sozinhos e reverem conhecidos. “Já me deparei aqui com pessoas que moravam perto da minha casa, em Luanda”.

A maioria, porém, fixa residência na Vila do João, que faz parte do Complexo da Maré. A realidade é dura para a maioria desses imigrantes, mas ainda assim a vida parece melhor por aqui. Embora a realidade angolana seja quase sempre distorcida pelos meios de comunicação estrangeiros. Silas mostra-se inconformado com a maneira como as pessoas enxergam a África. “A idéia que vocês têm foi construída em cima das imagens de crianças subnutridas, seca, fome e pobreza. Mas não é só isso”, diz, completando: “Assim como a imagem que os europeus têm do Brasil é completamente deturpada”. Para matar minha curiosidade, resolvi navegar pela página no governo angolano (http://www.angola.gov.ao/) e descobri que tem muita coisa interessante acontecendo por lá.

Comentei que, durante minha passagem pela UFF, era comum convivermos com alunos de Cabo Verde. Silas confirmou, disse que se trata de intercâmbio universitário, e que os governos encarregam-se de arcar com os custos ao longo do processo. No caso dele, foi possível pagar o estudo particular com a ajuda dos irmãos que residem no estrangeiro.

Já nos aproximando do ponto final, disse a ele que gostaria muito de conhecer a África urbana, diferente da África dos safáris vendidos pelas operadoras de turismo do mundo todo. Elogiei a elegância do seu povo e a beleza de homens e mulheres, sempre com roupas novas e penteados impecáveis. Ele sorriu, sem graça, confirmando a preocupação com a aparência e lembrando que muitos deles compram roupas aqui para vender em Angola. É um bom negócio. Despedimo-nos com a promessa de trocar e-mails e manter contato ao longo do ano, nas ações promovidas pelo Rio Voluntário.

10 de mai. de 2008

A grande verdade

Frase dita por Sandra de Sá na TV, nessa semana: "Tudo é ou não é, em relação a".

9 de mai. de 2008

Purpurina

Frase proferida por uma senhora que foi ao show do Village People, na noite desta quinta-feira, no Via Funchal, em Sampa: “Tenho muitos amigos gays e adoro esse tipo de alegria festiva que só os gays têm”. Minha pergunta é: se a alegria festiva é característica exclusiva dos homossexuais, os caroços são todos gays???

5 de mai. de 2008

O naufrágio do noticiário virtual amazonense

Curiosamente, a tragédia com um barco que levava 110 passageiros, em Manacapuru (Amazonas), no rio Solimões, dia 4 de maio, resultando em 17 mortes, confirmadas pelo Instituto Médico Legal de Manaus até as 17h desta segunda-feira, não foi noticiada no site do município amazonense (www.manacapuru.am.gov.br).

A página nem sequer possui espaço para notícias, ao contrário do que se costuma observar em sites de outras grandes cidades de regiões metropolitanas brasileiras. O site de Manacapuru, município que fica a apenas 69 quilômetros da capital, oferece, entretanto, espaço privilegiado para informações turísticas.

O site do estado do Amazonas segue a mesma linha: não há uma materiazinha, mínima que seja, abordando o acidente. Em vez disso, http://www.amazonas.am.gov.br/, publica, no espaço reservado às notícias, propagandas do governo disfarçadas de textos jornalísticos: “Amazonas já vacinou 42% dos idosos contra a gripe”, “Governo leva alternativas ao interior”, “Manaus ganha vôo direto para Quito”, entre outras.

30 de abr. de 2008

Travestindo


Travestis sempre chamam a atenção. Além de atiçarem o imaginário, a curiosidade e até a libido das pessoas (por que não?), eles ajudam a vender revista e jornal. Não bastasse serem estigmatizados, inclusive entre os próprios homossexuais, ainda servem de chacota para a grande parte da população. Representam a medida exata do quanto “o mundo está perdido”.

Poucos realmente se colocam no lugar deles. Porque a rejeição, mesmo imaginária, dói. Analisando com equilíbrio, travestis carregam um peso que faz os nossos problemas parecerem ínfimos. Imaginem uma adolescente, travesti, no exame do Exército.

Nos meus 18 anos vi isso de perto: um rapaz, já com corpo feminino, maquiagem e roupas de menina, exposto a um batalhão de dezenas de garotos e submetido aos olhares maliciosos dos soldados, que passavam por ele com sorrisinhos de canto de boca.

Acredito que toda a vergonha, a humilhação e o medo, substantivos abstratos, tenham se personificado ali, naquele momento. Talvez a moça/rapaz não tenha se sentido tão mal, talvez até tenha tirado de letra. Pode ser que o fato tenha incomodado mais a mim do que a ela.

Mas é só pra ilustrar que o dia-a-dia dessas pessoas é, certamente, bem mais complicado que o nosso. Atividades normais, como ir ao supermercado ou à farmácia, comer em um restaurante, comprar uma coca-cola na esquina, podem se tornar experiências profundamente penosas.

Imaginem fazer academia, ir ao dentista, comprar sapatos de salto... Já viram travestis em lojas de departamento? Eles estão condenadas a viver à margem. Por isso a grande maioria acaba indo parar nas esquinas das ruas cariocas, submetidas à violência e à humilhação.

Quanto mais parecidas com mulheres (sem pêlos, gogó, sinal de barba, voz grave, sem formas exageradas), maior a possibilidade de sucesso. É o caso de Roberta Close, Rogéria, Ruddy, Jane de Castro, entre outras. Os postos de trabalho, entretanto, ainda são restritos, e estão no universo dos negócios voltados para a beleza.

Em um caso como o do Ronaldo Fenômeno, a tendência é acreditar que os travestis são culpados. Pode ser que sejam culpados sim (pela acusão em relação às drogas, não ao sexo, claro). Mas antes mesmo de se defenderem, já estão na desvantagem. E o povo gosta, tem notícia no Jornal Nacional e no Globo. É provável que revistas semanais também explorem o assunto. Agora, alguém se lembra da última matéria abordando violência contra travestis? Acontece todos os dias...

Hoje saiu outra notícia falando da Operação Copacabana, que tem a pretensão de acabar com a desordem no bairro. O título, na versão online do Globo é “Operação em Copacabana prende prostitutas”. Mas a legenda da foto não deixa por menos: “travestis também foram detidos”. Pronto, taí a palavrinha mágica que faz atrai os olhos e o imaginário dos leitores.