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13 de out. de 2008

Continuando a campanha eleitoral...

Li este post hoje no Player, um dos blogs do Globo Online, assinado por Rodrigo Pinto, parece que é editor de cultura lá. E como a temática Cultura nos é cara aqui, vai a análise do jornalista. O candidato é Eduardo Paes e o tema é, mais uma vez, mas não só, a Cidade da Música.

http://oglobo.globo.com/blogs/mpb/default.asp#132066

25 de set. de 2008

Ary e o Maracanã


O Gustavo escreveu sobre a Cidade da Música e a Monique lembrou, em comentário, a polêmica sobre a construção do Maracanã, no Rio. Então, aproveito a oportunidade para publicar um texto que tinha escrito para o jornal, mas que não foi publicado, numa série sobre os vereadores do país. Nele, está citada a briga sobre o Mário Filho, defendido na Câmara por ninguém menos que o nosso ilustre Ary Barroso, e atacada pelo controverso Carlos Lacerda. No livro do Sérgio Cabral, há mais detalhes sobre o debate. Aliás, o capítulo que trata de Ary como vereador é o mais saboroso da biografia escrita pelo primeiro-pai do estado sobre o compositor. Segue o texto:



Em tempos de mensaleiros, sanguessugas e fichas-sujas, é curioso lembrar que, no passado, os políticos ofendiam uns aos outros com xingamentos mais, digamos, ideológicos, do tipo “integralista”, “comunista” e até “sambista”. Esse último é o caso do compositor Ary Barroso, que, na legislatura de 1947/1951 na Câmara de Vereadores do Rio, foi “acusado” por um colega de não ter experiência como funcionário público, mas viver de tocar e cantar — como conta o jornalista Sérgio Cabral na biografia “No tempo de Ari Barroso”.


“Sr. Presidente, qual o defeito, qual a culpa, qual o erro, qual o castigo que mereço pelo simples fato de ser sambista? (...) Ser sambista, sr. Presidente, é muito difícil. Nunca pertenci ao quadro de funcionários (da prefeitura) e, se pertencesse e conseguisse chegar ao mais alto grau da carreira, nunca viria à tribuna do Legislativo com a pretensão de atirar contra um colega a pecha ‘infamante’ de sambista. Conclamo os sambistas a prestarem atenção nestas palavras: fui apontado, em tom pejorativo, nesta Casa, como sambista.”


Na época em que Ary ocupou uma das cadeiras da Câmara Municipal do Rio, a ideologia ainda definia posições e projetos. Polêmico, o compositor de “Aquarela do Brasil” foi um vereador atuante, se envolveu em várias discussões e dividiu a tribuna com nomes como Carlos Lacerda, seu colega de UDN. O estilo irreverente e irônico que trouxe de seus programas de rádio, entre eles o “Calouros em desfile”, e da narração de jogos de futebol foi uma de suas marcas na Casa.


Na briga pela aprovação da construção do Maracanã, Ary Barroso defendia que grande parte das despesas seria paga com a venda de cadeiras cativas. Lacerda era contra o estádio, preferia que ele fosse construído num terreno em Jacarepaguá. Tito Lívio, outro udenista, defendia que a prioridade do Rio era a saúde pública. Numa resposta ao colega Tito, Ary usou do deboche:


“Vossa Excelência, que combate com tanta veemência a aquisição de ‘cadeiras cativas’ nos estádios de futebol e que defende com tanto ardor os hospitais, deveria propor a compra de ‘leitos cativos’ para os doentes, já que eles se acham tão necessitados de morar dentro dos hospitais” (“Risos”, registrou a taquigrafia).


Ainda na polêmica sobre o estádio, Lacerda, um dos grandes oradores da casa, respondeu à altura. Uma de suas justificativas era de que o Brasil não tinha cimento suficiente para a construção.


“O Brasil vai importar cimento da Inglaterra para que o nosso colega, o sr. vereador Ary Bar-roso, possa irradiar jogos de futebol”, acusou o futuro go-vernador da Guanabara.


Na Câmara, Ary defendeu os interesses de seu bairro, apresentando projetos para melhorar a ladeira do Leme, onde morava, e os dos compositores brasileiros. Democrata, discursou contra a cassação do mandato dos vereadores do Partido Comunista. Conservador, reclamou da autorização para que banhistas circulassem nos bondes da Light:


“O Rio de Janeiro está se transformando numa cidade de homens seminus, uma vez que os banhistas se intrometem nas ruas distantes da praia, em trajes, positivamente, atentatórios à moral. (...) Assistimos ao desfile crítico e inédito de bondes, em plena Capital da República, carregados de banhistas em trajes menores e atitudes imorais, num desrespeito integral à família carioca, em gestos e esgares que depõem sensivelmente contra os nossos foros de civilização”.


Ao mesmo tempo, ao criticar um projeto que isentava o Clube Militar de impostos, Ary usou argumentos nada conservadores para defender que o teatro é que merecia tal benefício. Num aparte no plenário, defendeu o Teatro Recreio, acusado de imoralidade:


“V. Excia. acha que exibir ao público mulher de corpo bonito é deseducar o povo? V. Excia. desejaria talvez que, pela platéia do Teatro Recreio, desfilassem aleijões e monstruosidades físicas? (...) A pornografia bem disfarçada deixa de ser pornografia. (...) A malícia transforma-se em pornografia desde que o espectador seja pornográfico”.


Em tempos de gastos escandalosos nas câmaras e no Congresso Nacional, Ary Barroso, que já tinha o seu carro importado, foi contra um movimento para que a Câmara importasse automóveis para servir aos vereadores.

“Não vejo, sr. presidente, que, pelo simples fato de me transformar em representante do povo, valha-me dessa prerrogativa para superar o próprio povo, que está enfileirado, esperando a vez de comprar o seu carro. Seria preferível, sr. presidente, abandonar tais questiúnculas de privilégio, de prioridades e defendermos, exclusivamente, os reais interesses do povo.”

Desafinação



Com inauguração prevista para dezembro, a Cidade da Música (Barra da Tijuca), que teve o custo total estimado em mais de R$ 460 milhões (em vez dos R$ 80 milhões previstos inicialmente), está causando polêmica. Além dos gastos considerados excessivos, que representam 20% do orçamento de investimentos da Prefeitura, e do atraso na obra – o cronograma inicial previa a entrega para 2004 - teve o estudo de viabilidade realizado apenas no ano passado, seis anos após o lançamento do projeto. Em março, uma CPI, idealizada pelo vereador Roberto Monteiro (PCdoB), foi instaurada para investigar o suposto mau uso do dinheiro público na obra.

Prometendo ser um dos mais imponentes centros de cultura da América Latina, a Cidade da Música tem também contornos nebulosos: o estudo de viabilidade realizado pela Ernst & Young, por exemplo, mostra que as receitas não serão suficientes para cobrir as despesas. A programação (concertos de música clássica, de ópera e dança, e sessões de cinema), garantirá uma receita estimada em R$ 21,2 milhões com uma despesa apurada em torno de R$ 21,01 milhões ao ano. A manutenção custará R$ 12 milhões anuais, valor que poderá ficar sob responsabilidade da Prefeitura, caso nenhuma empresa interessada em assumir a Cidade da Música venha a ser licitada.

A confusão está armada. De um lado os que consideram o empreendimento o mais ambicioso projeto público das últimas décadas – e um marco no cenário cultural brasileiro. Do outro, os que acreditam que o equipamento será um grande elefante branco, alegando a falta de interesse da população pela música clássica e desconfiando dos preços dos ingressos a serem vendidos. Na CPI, os vereadores se perguntam por que, em vez de gastar R$ 400 milhões na Cidade da Música, o Prefeito não implementou o programa estabelecido em 2000 de construção de bibliotecas e teatros nos bairros.

Projetada por Christian de Portzamparc, marroquino que estudou na École National de Beaux Arts (Paris), e idealizou projetos semelhantes em Paris e Luxemburgo, a Cidade da Música, que será a sede da Orquestra Sinfônica Brasileira no Rio, conquistou, junto com outras 146 obras ou projetos arquitetônicos de 38 países, no início de setembro, o Prêmio de Arquitetura Internacional 2008, oferecido pelo Chicago Athenaeum - Museu de Arquitetura e Design, em parceria com o Metropolitan Arts Press e a revista italiana “Abitare”. A única obra brasileira a ser premiada.

Terá 1.755 lugares na Grande Sala - que servirá para os concertos da OSB -, 1.250 lugares na Sala de Ópera, sete salas de ensaio, dez salas de aula e três cinemas de arte. O contrato de concessão prevê uma orquestra residente com no mínimo 70 músicos que fará dez apresentações em dois anos, regida por maestro com no mínimo cinco contratos internacionais. A concessionária a ser licitada deve ter, no mínimo, três anos experiência na gestão de equipamentos culturais. O complexo cultural contará ainda com midiateca e estacionamento para mais de 800 carros.

16 de set. de 2008

Iggy Baggins

Elijah WoodIggy PopDepois de ler o (muito bom) texto do JH logo abaixo, fui procurar na uiquipédia o nome de um álbum lançado pelo Iggy Pop. Lá, esbarrei na notícia de que deverá ser lançado no fim deste ano um filme-biografia sobre ele e que Elijah Wood (ele mesmo, o Frodo) faria o papel principal.

Calmaí.

Iggy Pop é um louco perigoso. Nos primeiros shows, ele rolava sobre cacos de vidro, vomitava no palco e entrava na porrada com os outros músicos ou com a platéia. Ainda hoje, mesmo sendo uma caricatura de si mesmo, ele incendeia (não literalmente) a multidão.

Pra terem uma idéia do que estou falando, eis um vídeo -- não sei exatamente de quando, mas com o Iggy já meio coroa:



Não consigo imaginar de jeito nenhum o cara que fez o Frodo Bolseiro e o moleque otário que o Macaulay Culkin (antes mesmo de ser um junkie barra pesada) sacaneava em O Anjo Malvado sendo o Iggy Pop. O Ewan McGregor, na época em que fazia filmes bons, interpretou um personagem baseado em Iggy Pop, com bastante fidelidade, em Velvet Goldmine:



Mas, pensando bem, até que uma música do Iggy se encaixa com a história do Senhor dos Anéis, pelo menos no título: Search & Destroy.

30 de jul. de 2008

Juca tanto fez que está lá, é ministro

Não me cabe aqui fazer milhares de críticas, boas ou ruins, à atuação do cantor e compositor Gilberto Gil como ministro da Cultura. Não pararia de escrever nunca. Aliás, os comentários podem trazer a percepção de vocês sobre o reinado dele.
A novidade - velha - é que ele vai sair. Já havia anunciado dúzias de vezes, só faltava dizer em que data apagaria a luz. Por seu elogiado e aguerrido trabalho à frente da Funarte, Antônio Grassi havia sido apontado, há um ou dois anos, pelas classes política e artística, como nome adequado para substituir o ministro, que desde que chegou fala na finitude de seu cargo. O tapete de Grassi, tanto na funarte como no governo foi puxado por uma pessoa, Juca Ferreira, que agora será...o ministro. No lugar de Grassi entrou o inoperante Frateschi, que há um ano ou mais ninguém sabe a que veio. Ser ministro é tudo o que Juca sempre quis. Sempre pôs palavras na boca do ministro Gil. É daquela turma cuja alcunha "ex-militante estudantil exilado"pesa como um sobrenome real.
A maior bandeira de Juca é a mudança da Lei Rouanet. Alega que ela está engessada mas ninguém entende qual é a real proposta. Sei lá viu. Estas coisas me desencantam. Isso não me cheira bem.
Aberto o debate sobre a política cultural brasileira dos últimos cinco anos e os dois que vêm por aí...

19 de jun. de 2008

Promiscuidade machadiana

Esta surgiu em conversa com uma figura mitológica do jornalismo literário do Rio de Janeiro sobre o bruxo do Cosme Velho:
"O negócio de Machado de Assis era comer a mulher do José de Alencar. Tanto que há a suspeita de que Mario de Alencar seria filho dele. Mario nasceu epilético, e quem tinha epilepsia? Machado. Está tudo lá, nos diários secretos do Humberto de Campos. E a Carolina só conseguiu casar com o Machado porque já veio furada de Portugal!".

18 de jun. de 2008

O clássico pode ser pop e bem vagabundinho...

Este boyzinho oriental aí ao lado é o pianista chinês Lang Lang. Tem 25 anos, é mundialmente famoso (ok, a fama na música clássica é relativa) e já está rico. Particularmente gosto dele, e aqui não vai nenhuma consideração crítica, mas adorei conversar com ele, numa entrevista há dois anos e seu concerto aqui no Rio foi bem interessante, embora não tenha sido considerado 100% pela crítica.

Chegou hoje às minhas mãos, distribuído pela Universal Music, o novo CD do astro lançado pela Deutsch Grammophon. Diferentemente da música pop, os artistas clássicos não saem com discos de inéditas assim tão fácil. A música dos compositores vivos é um capítulo à parte no meio. Por isso é preciso sempre caprichar na performance para o novo álbum não seja considerado apenas mais uma gravação, entre tantas, de concertos de Tchaikovsky, Beethoven, Mozart, etc. Apesar de Lang Lang ser uma estrela - sim, ele é - e apesar de sua gravadora ser a mais bem conceituada para este gênero musical, o disco não passa de uma coletânea bem safada, mal-cuidada. Este selo gasta os tubos em marketing, com contratos com artistas importantes, a falta de capricho com o produto é desnecessária. Uma atochação. Traz peças curtas ou parte de obras maiores, como concertos para piano e orquestra, de compositores de diversos estilos e épocas. Tudo misturado, sem qualquer unidade artística, a não ser exibir a virtuose do intérprete. Tem música para todos os gostos. Nas faixas em que o pianista está acompanhado de orquestra, não é possível saber com qual orquestra está tocando - se é a Filarmônica de Berlim ou algum conjunto obscuro do leste europeu - nem que maestro está regendo. É como comprar um disco de um cantor e não encontrar nenhuma informação sobre a banda que o acompanha no encarte.

Talvez nem todo mundo preste atenção nestas informações, mas não é por isso que a gravadora vai omitir. Além disso, o disco traz uma gravação caça-níquel de Lang-Lang com Andrea Bocelli!. Não há nada mais picareta - e brega - que Andrea Bocelli, vamos combinar que nem bom cantor ele é. Não se justifica para mim ele ter se tornado quase um Pavarotti em termos de prestigio, vendagem... Por isso, vamos tirar os saltos altos na hora de falar de música clássica e seus representantes, principalmente os estrangeiros, achando a maior erudição do mundo, coisa de intelectual. É uma indústria com suas particularidades, mas como o pop, o rock, o r&b, também pode servir ao entretenimento e ao apelo fácil do mercado.

9 de jun. de 2008

De volta ao Pantanal!!!


O som do berrante e dos tuiuiuis pegou muita gente de surpresa hoje e o deja vù era real. Silvio Santos, cagando solenemente para a pendenga com a TV Globo, pôs no ar o primeiro capítulo de Pantanal, novela de Benedito Rui Barbosa com direção de Jayme Monjardim, sucesso estrondoso da dramaturgia brasileira exibida em 1989/90, que derrubou a audiência da vênus platinada. Eu estava ansiosa. Há algumas semanas a emissora presidida e comandada como um centro esquizofrênico pelo homem do baú vinha exibindo uma propaganda bizarra anunciando uma tal "arma secreta". A tal arma iria ao ar hoje, às 22h, informava a grade de TV informada pela emissora. Logo depois do almoço, fuçando a internet, vi uma nota escondida no UOL sobre rumores de que a tal arma era Pantanal e que ela iria, sem aviso, ser exibida a partir de hoje.

Protagonizada por Cristiana Oliveira, como Juma Marruá, Claudio Marzo, Marcos Winter...Pantanal marcou época. Tinha aqueles planos enooormeees, aquela música brega do Marcus Vianna ao fundo, sequências lentíssssimas. Coisa de cinema. Uma história incrível, bem diferente das novelinhas batidas que a Globo produz até hoje. Na minha casa era a maior briga, minha mãe e meus avós não gostavam que a gente assistisse Pantanal porque havia muitas cenas, digamos, adultas. Mulheres tomando banho de rio todo capítulo...além do mais, a gente tinha apenas uma televisão, e os mais velhos tinham a preferência. Saco. Jayme Monjardim foi para a Globo, tentou, tentou, mas nunca mais conseguiu reproduzir o efeito visual inovador de Pantanal.

Recentemente, Sr. Abravanel comprou da massa falida da extinta TV Manchete, com autorização a justiça, todas as fitas da novela. Há poucos dias, a TV Globo anunciou a compra dos direitos da novela e prometeu um remake da trama da mulher que vira onça para o ano que vem. Se um tem as fitas gravadas e o outro os direitos sobre o texto, quem poderia, então exibir a novela? Silvio não esperou a situação ser esclarecida: mandou apertar o play. Ele não está com a razão. Os atores que participaram das gravações ficaram com a orelha em pé e iniciaram uma movimentação quando a notícia da venda das fitas, afinal, ninguém autorizou os direitos de imagem, já que se tratava de um projeto secreto. Até a noite de hoje os funcionários do SBT diziam nào saber de nada sobre a veiculação ou não da novela. Nenhum comercial foi vendido. Apesar de todas as rebarbas que esta jogada deixa sobrando, tenho de confessar que adorei a ousadia de Silvio Santos. Ele não decepciona jamais!!!!! Agoniza mas não morre!!! Destemido, o ex-vendedor ambulante que criou um império televisivo provou a todo mundo que não tem medo da enorme batalha judicial que vai enfrentar contra a todo-poderosa. Demais, né?

Fãs fiéis da novela entraram no maior alvoroço em comunidades, sites e listas de discussão na internet sobre o tema. Um cara tá vendendo igual água a coleção de 65 DVDs com todos os capítulos do folhetim. Satisfação garantida ou seu dinheiro de volta: o tal detentor da raridade não é um picareta. Está vendendo muito pois ninguém duvida de que a novela pode ser interrompida a qualquer momento.

Ah, o Patrão é fogo.

16 de mai. de 2008

Adeus, Dinha

Foto: Marlene Bergamo, Folha de São Paulo

Morreu hoje, em Salvador, a Dinha do Acarajé. Em seu pouco tempo de vida, o Caroço já a citou duas vezes, porque dois de nossos ilustres representantes, Gardênia e Pedro Paulo Malta, descobriram recentemente, em viagem à Bahia, o sabor da iguaria feita por dona Lindinalva de Assis, seu nome de batismo.


Dinha era hipertensa e diabética, e foi internada ontem num hospital com suspeita de virose e com falta de ar. Hoje, recebeu alta, mas passou mal de novo, teve uma parada cardiorrespiratória e não resistiu.


A Bahia perde um de seus cartões postais. E o Caroço faz a homenagem publicando a letra dessa música de um outro ilustre da terra maravilhosa, que nos deu Glauber, Caetano, Gil e tantos outros nomes importantíssimos de nossa cultura - fora os anônimos baianos que a gente conhece por aí e logo se apaixona. Viva a Bahia.


A preta do acarajé (Dorival Caymmi)
Dez horas da noite
Na rua deserta
A preta mercando
Parece um lamento
Ê o abará
Na sua gamela
Tem molho e cheiroso
Pimenta da costa
Tem acarajé
Ô acarajé é cor
Ô la lá io
Vem benzer
Tá quentinho

Todo mundo gosta de acarajé
O trabalho que dá pra fazer que é
Todo mundo gosta de acarajé
Todo mundo gosta de abará
Ninguém quer saber o trabalho que dá

Dez horas da noite
Na rua deserta
Quanto mais distante
Mais triste o lamento
Ê o abará

23 de abr. de 2008

O maioral




“Se você tem 15 volumes para falar de toda a música popular brasileira, fique certo de que é pouco. Mas, se dispõe do espaço de uma palavra, nem tudo está perdido. Escreva depressa: Pixinguinha.” (Ary Vasconcellos)

Enquanto monto uma lista de recordações recifenses pra repartir com os amigos (a postar em breve), aproveito o dia de hoje pra registrar minha homenagem ao maior nome da nossa música popular – revolucionário como compositor, arranjador e instrumentista (primeiro na flauta, depois no sax).

A homenagem vai no santinho que o compositor Carlos Careqa fez para distribuir pelo Brasil (postado aí em cima) e neste Carinhoso (letra de Braguinha) interpretado por Paulinho da Viola e Marisa Monte.



22 de abr. de 2008

Morenos e morenas (questionamentos semânticos)

A palavra "moreno", em todas as suas formas (os dois gêneros do adjetivo e do substantivo), é uma espécie de signo que, por sua ambiguidade, possui um sedutor vazio de significado, e por isso recorremos tanto a essa palavra.

Diante de uma pessoa que não sabemos se se considera negra, mulata ou branca, dizemos: "Você é morena." Ela pode tanto se definir morena pela cor do cabelo quanto pela pele. O Dicionário Houaiss mantém essa ambivalência. Moreno é, ao mesmo tempo, "que ou aquele cuja pele é escura, apresentando uma tonalidade entre o pardo e o negro" e "que ou aquele cuja cor de cabelo varia entre o castanho-escuro e o preto".

No discurso cotidiano, utilizamos "moreno" de maneira indefinida para evitar mal-entendidos, comumente de ordem racial. É um eufemismo tranqüilizador, que age porque, neste caso, uma única palavra remete a mais de um significado. Em um primeiro momento, quem fala e quem ouve podem ter idéias diferentes do que significa "moreno" naquela fala específica. Para que o diálogo continue, é necessário recorrer a um agente restritivo, uma comparação: "como é fulano de tal?", "ah, ele é moreno", "como quem?", "como beltrano" (esta resposta pode significar que a pessoa é mulata, ou é branca e tem os cabelos negros, ou mesmo que é negra). Assim, evita-se definir a cor - que, pela natureza da nossa sociedade, nem sempre é algo plenamente definido, muito menos essa definição é desprovida de moral.

No discurso artístico, "moreno" se torna uma espécie de arquétipo esfumaçado do brasileiro, sem contronos fixos. Serve tanto para louvar a "Morena dos olhos d'água" quanto para o "pretinho" que é rejeitado por ser "moreno demais". Afinal, a palavra "moreno" parece tão miscigenada quanto o "brasileiro". Ou seja, ela é apenas uma palavra (como brasileiro é apenas uma nacionalidade) cindida em vários significados (como o brasileiro é cindido em várias identidades, sem caráter único). Ela esconde, como a idéia de mestiçagem, uma separação social que evitamos enxergar.

"Moreno" representa muitas das características positivas (a mistura) e negativas (a cisão social velada) do Brasil. Morenos todos nós, mas morenos diferentes.

17 de abr. de 2008

O Rio de Janeiro sob olhos canadenses - sem entrada e sem juros

- I always find it funny when something that I thought was strange about Brazil shows up in the news, five years later (i.e. calling  yourself Catholic when you disagree with the Pope about 90% of official church doctrine).

A frase acima fazia referencia a esta noticia. Nao precisa ser canadense pra nao entender essa compulsao parcelatoria, ne? 

Perguntado sobre mais curiosidades brasileiras, eis as questoes que ainda intrigam o nosso visitante:

- "Screaming at the top of your lungs on the sidewalk: just annoying or an effective marketing strategy?"

- "All those cheap Hershey chocolate bars: where the hell do they get them?! (and btw, are those real Gillette razor blades?!"

10 de abr. de 2008

Plutão na segunda divisão


Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano, Netuno e... Pois é, desfalcaram o Sistema Solar que aprendemos na escola. Plutão deixou de fazer parte da lista em 2006, depois que cientistas mal humorados descobriram ali perto outros corpos celestes de tamanho comparável ao dele e um outro, maior ainda, que ocupou seu posto e ganhou o nome de Éris.

Pior que isso, Plutão passou a ser chamado de planeta-anão. E foi incluído na categoria de objetos “trans-netunianos”. Ou seja: foi rebaixado. Está na segunda divisão do Sistema Solar. Fiquei me perguntando: será que os livros escolares de Ciências já introduziram a novidade? Porque eu não consigo imaginar a criançada decorando a ordem dos planetas, a partir do Sol, sem Plutão.

Porque ele pode até ser pequeno mas, caramba, faz a maior diferença. Sempre teve um quê de misterioso, uma coisa meio nebulosa e sedutora. O planeta mais distante do Sol excita a imaginação da gente. Será que é muito frio lá? Que cor será que ele tem? Como seria um ser plutoniano?

Confesso minha ignorância em assuntos de mitologia mas, diante de tamanha tristeza com o rebaixamento do astro, resolvi então pesquisar. Plutão era o nome de Hades, deus grego do submundo. Quando os três filhos de Cibele e Saturno fizeram a partilha do universo, Netuno ficou com os mares, Júpiter tomou posse do Olimpo e para Plutão sobraram os Infernos.

Donde se conclui que, mais do que nunca, o nome do planeta veio a calhar. Detalhe: o planeta-anão Éris, que derrubou Plutão, é homônimo da deusa grega da discórdia. Agora tudo faz sentido...

7 de abr. de 2008

A (re)descoberta da MTV

Quando eu era criança e morava numa rua sem asfalto, tinha de subir na lage pra mexer na antena de TV até conseguir uma imagem boa. Ou entao girar o botão pra sintonizar no canal 24 UHF e assistir à MTV. Todas as minhas amigas assistiam, conheceram suas bandas favoritas no canal que costumava entupir a programação de clipes importados. Mas não teve jeito. Eu não gostava de rock e a música brasileira já tinha me conquistado pela vitrola da minha mãe. Resultado: era uma analfabeta musical diante dos meus amigos, boiava em vários assuntos por não conhecer os band leaders da vez. Apesar de ter agido de forma natural, hoje penso que deveria ter me esforçado um pouquinho mais (não tanto como uma amiga que comprou uma guitarraaaa!!!) pois o acúmulo de informação musical tá me fazendo falta...mas ok.

A MTV foi abandonando os clipes, se tornou um canal de comportamento jovem e, depois de uns anos de uma grade sofrível, a emissora volta a ganhar fôlego. Alguns dos programas são ótimos, espirituosos, os toscos são os melhores. Venho acompanhando esta mudança não como espectadora, mas como observadora do mercado de TV. Mas isso não vem ao caso.

Não sei se os blogueiros e leitores acompanham a programação da MTV, mas desde que a minha gatonet foi cortada (a assinatura será feita assim que colocar contas em dia.....) é o único canal que tem me divertido e informado. A cada dia tem sido uma descoberta e devo admitir: o programa de entrevistas do João Gordo é sensacioooonal. Não é nada comparado aos arranca-rabos que ele promovia no palco do seu antigo talk-show. Ele visita artistas, ou pseudo, em casa. E faz as pessoas falarem barbaridades muuuito sinceras. E mais: arranca autocríticas que nenhum jornalistinha que cobre a área (me incluo!!!) consegue. Vale a pena ver, principalmente para os que estão cansados de tanta caretice no chamado jornalismo cultural. Ok, o programa do JG não é exatamente jornalismo cultural. Mas vai na linha de muitos suplementos de jornais e revistas que enfocam a vida e carreira de celebridades.

Os entrevistados são os mesmos que figuram nos veículos de imprensa e na TV. Ele não escolhe, digamos, os ícones de sucesso. Mas conseguiu transformar entrevistas com a Bárbara Paz (sim, ela sempre será a mulher que pegou o Supla na Casa dos Artistas) e com a Kelly Key (siiiim, acreditem) em bate-papos muuito interessantes. Enquanto escrevo este post aguardo a edição de hoje, segunda-feira, que terá o músico Nazi, do extinto Ira. Ele vai botar a boca no trombone sobre o fim da banda e o João certamente vai arrancar dele declarações toscas, cheias de narcizismo e mágoa os ex-companheiros. Muito divertido. O programa começou e ele já abriu a boca para dizer que o Chacrinha era jabazeeeiro. Vou assistir. Recomendo.