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27 de ago. de 2008

8 de jul. de 2008

Prepare-se!

Mais um crime bárbaro resultou na morte de uma criança de 3 anos de idade. Menos de 12 horas depois, cartazes de políticos invadiam as ruas da cidade. Um deles me chamou a atenção pelos dizeres: "Quero o meu Rio de volta". Ironicamente, uma política que fazia parte do grupo que destrói o município há quase duas décadas. Fiquei imaginando, que cartazes os pais dessa criança estariam empunhando. Talvez algo como "Quero meu filho de volta".


À tarde, o secretário e o governador dizem que a polícia está despreparada. Logo eles, que são os responsáveis pela polícia, dizem que ela está despreparada. Mas a cidade, o estado, o país estão preparados para quê? Como exigir preparo de um PM se o comandante dele não é preparado, visto que o secretário responsável por sua corporação não tem qualquer preparo, já que o chefe executivo do secretário também não está preparado para o cargo.


Nesse meio tempo, outra pessoa, desta vez uma dona de casa, morria dentro da sua própria residência na Vila Cruzeiro, vítima de mais uma malfadada bala perdida. Ela podia estar preparando uma comida, quem sabe, ou se preparando para sair.


O despreparo é uma espécie de instituição enraizada e viciada no país, uma vez que no cargo máximo da nação também se encontra um despreparado. E sabe-se lá quantos despreparados ainda estão por vir. Eles já estão por aí, espalhados pelos cartazes.


O cidadão, é claro, este tem de estar sempre preparado. Preparado para ser explorado no trabalho, para ser amarrotado no ônibus, para ser alvejado na rua. Os pais dessa criança, agora, estão preparados para enterrá-la. E os filhos daquela senhora precisam se preparar para sepultar mais um número, mais uma estatística.


O crime de todos? Nascer no Brasil.


Desculpem a pieguice e a dramaticidade. É apenas o desabafo de um pai e de um filho que não está preparado para nada disso.

7 de jul. de 2008

Prepare-se!

Mais um crime resultou na morte de uma criança de 3 anos de idade. Menos de 12 horas depois, cartazes de políticos invadiam as ruas da cidade. Um deles me chamou a atenção pelos dizeres: "Quero o meu Rio de volta". Ironicamente, uma política que fazia parte do grupo que destrói o município há quase duas décadas. Fiquei imaginando que cartazes os pais dessa criança estariam empunhando. Talvez algo como "Quero meu filho de volta".


À tarde, o secretário e o governador dizem que a polícia está despreparada. Logo eles, que são os responsáveis pela polícia, dizem que ela está despreparada. Mas a cidade, o estado, o país estão preparados para quê? Como exigir preparo de um PM se o comandante dele não é preparado, visto que o secretário responsável por sua corporação não tem qualquer preparo, já que o chefe executivo do secretário também não está preparado para o cargo.



O despreparo é uma espécie de instituição enraizada e viciada no país, uma vez que no cargo máximo da nação também se encontra um despreparado. E sabe-se lá quantos despreparados ainda estão por vir. E eles já estão por aí, espalhados pelos cartazes.



O cidadão, é claro, este tem de estar sempre preparado. Preparado para ser explorado no trabalho, para ser amarrotado no ônibus, para ser alvejado na rua. Os pais dessa criança de 3 anos, agora, estão preparados para enterrá-la.



O crime de todos? Nascer no Brasil.



Desculpem a pieguice e a dramaticidade. É apenas o desabafo de um pai que não está preparado para nada disso.

16 de jun. de 2008

48 horas de alienação na "sociedade da informação"


The Blindfolded, 2002 - Marlene Dumas


Sábado, duas horas da tarde, eu, Antônio e Marcelo pegamos o 996, em Niterói, e fomos em direção ao Flamengo. Já no Rio, na altura do Santo Cristo, o ônibus teve de dar meia volta, pegar um caminho alternativo para chegar ao túnel Santa Bárbara, pois o viaduto estava interditado. O motorista perguntou ao agente de trânsito da prefeitura qual seria o melhor trajeto a fazer, o agente respondeu, e seguimos em frente, nos perguntando qual teria sido a gravidade do acidente. Não consegui sentir um clima tenso no ar.

O dia passou, almoço delicioso no restaurante japonês, aniversário da sogra à noite no clima ameno da Praça São Salvador. No domingo, assistimos a uma bela apresentação do grupo Os tapetes contadores de histórias, na Caixa Cultural. Comentamos como o Rio de Janeiro é uma cidade maravilhosa, cheia de programas interessantes a preços baixos ou gratuitos (era o caso). Depois, assistimos ao documentário "Personal Che" e debatemos sobre ideologia e linguagem cinematográfica.

No sábado, o celular ficou desligado todo o tempo e pensei como era bom estar desconectada. Durante todo o fim de semana não abri a Internet e a única notícia que tive foi a morte do Jamelão, numa olhada relâmpago para a banca de jornal: o Extra deu a notícia em meia capa, enquanto O Globo ocupou um pequeno quadrado da parte inferior da página. Essa notícia não atrapalhou o clima fresco. Ao contrário, é bom homenagear o sambista que se foi aos 95 anos.

De volta a Niterói, no domingo à noite, o jornal ainda estava na porta. Peguei e deixei em cima da mesa, até a manhã seguinte, quando resolvi ler as manchetes do dia anterior, certa de que, apesar de viver na chamada "Sociedade da Informação", não havia "acontecido" nas páginas dos periódicos muita coisa que merecesse grande atenção.

No entanto, estava lá, quase 48 horas depois, o acontecimento por trás do desvio de rota que o 996 foi obrigado a fazer no sábado. Moradores do Morro da Providência queimaram um ônibus e apedrejaram outros em protesto contra a venda de três jovens, pelo exército, aos traficantes do Morro da Mineira. Não preciso comentar o caso, nem narrar os detalhes, pois o tema está sendo mais do que debatido.

No final de semana que vem, diante de outros acontecimentos, esses jovens já estarão esquecidos em meio a uma multidão de "notícias", porque a informação, nessa sociedade, tem vários pesos e várias medidas, tem cor e tem classe. Marcos Paulo, David e Wellington se tornarão apenas estatística.

9 de abr. de 2008

Sobre Caveirão, leite Parmalat e moradores de rua


Nas páginas 14 e 15 do jornal O Globo de hoje, menores foram tratados como objetos e a notícia, como mercadoria


As referidas páginas do jornal O Globo de hoje dão uma aula sobre o que o jornalismo não deveria fazer. Na matéria “Choque de ordem em Ipanema e Copacabana”, não encontramos diferenças entre o que foi recolhido (sic) das ruas pelos fiscais das operações Ipa-Total e Copa-Total, mesmo se tratando de “coisas” tão díspares quanto cadeiras e seres humanos. Nas operações realizadas pela Secretaria estadual de Governo, com apoio da Polícia Militar e o objetivo de “combater a desordem urbana” nesses digníssimos bairros da Zona Sul do Rio, “cadeiras de praia, sofás, caixas de isopor, restos de mesas e outros objetos que ocupavam as calçadas na esquina das ruas Teixeira de Melo e Barão da Torre” foram “recolhidos” da mesma maneira que “22 moradores de rua, entre eles sete menores, encaminhados à Fundação para a Infância e a Adolescência (FIA)”.

Qual o destino desses moradores de rua? Não temos idéia. O importante é dar a sensação de que os moradores desses bairros da Zona Sul poderão caminhar por algum tempo sem ter de desviar os olhos e se trancar na indiferença a que ficamos cada vez mais acostumados diante da miséria, da má distribuição de renda e do abandono, principalmente, da infância.

Na outra página, uma notícia que já esperava há cerca de um mês: “Estado comprará dez novos blindados [os famosos Caveirões] para a PM”, além de um helicóptero também blindado. A licitação para a compra dos veículos de guerra (oito serão produzidos no Brasil e dois, “mais sofisticados”, virão de Israel ou da Rússia), veio pouco tempo depois de o jornal publicar uma pesquisa reveladora (para quem simplifica pesquisas, é verdade) do Instituto Brasileiro de Pesquisa Social: 47,9% dos moradores de favelas apóiam o uso do Caveirão pelo polícia e acredita que o Exército deveria atuar na segurança pública. Pronto, está legitimado o uso do Caveirão!

Pesquisas são sempre um perigo. Esta deve ter provocado muito arrependimento em quem a encomendou, Celso Athayde, da Central Única de Favelas, militante da causa do negro e das populações de favelas. Em primeiro lugar, nós não ficamos sabendo como foram feitas as perguntas, se as perguntas foram bem formuladas e se as pessoas que responderam entenderam as questões. Em segundo lugar, os dados resultantes da pesquisa não foram bem analisados.

Uma análise superficial dos dados pode nos levar a outras conclusões. 47,9% dos moradores disseram ser a favor do caveirão, mas os outros 52,1% estavam divididos entre os que são contra e os que não responderam à pergunta, porque estavam com medo ou porque não entenderam a questão. Um número tão grande de pessoas que se recusam a responder não põe em cheque a pesquisa, mas indica que há problemas com ela, com o modo como foi feita e analisada e/ou com o tema de que ela trata. Não se pode legitimar a utilização de um veículo de guerra em comunidades de baixa renda a partir de uma simples pesquisa de opinião.

Essas duas notícias, assim como as outras encontradas nas páginas 14 e 15 do jornal, são ilustradas com produtos da Parmalat. Leite, iogurte, suco, não estão no espaço destinado à publicidade, mas nos espaços das matérias, concorrendo com elas pela atenção do leitor. A Parmalat acha que seu marketing é mais forte do que as notícias? O Globo acha que as notícias são mais fortes do que o marketing? Ou ambos acham que os leitores/consumidores são bobos?