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14 de out. de 2008

Brincando com Machado


Um trecho do livro que estou relendo, em edição nova, do grande Machado de Assis, para entrar no clima da homenagem ao centenário do escritor. A propósito, acho que há livros escritos e para serem lidos na maturidade. É o caso desse "Memórias póstumas de Brás Cubas".


Isto dizendo, arrebatou-me ao alto de uma montanha. Inclinei os olhos a uma das vertentes, e contemplei, durante um tempo largo, ao longe, através de um nevoeiro, uma coisa única. Imagina tu, leitor, uma redução dos séculos, e um desfilar de todos eles, as raças todas, todas as paixões, o tumulto dos impérios, a guerra dos apetites e dos ódios, a destruição recíproca dos seres e das coisas. Tal era o espetáculo, acerto e curioso espetáculo. A história do homem e da Terra tinha assim uma intensidade que lhe não podiam dar nem a imaginação nem a ciência, porque a ciência é mais lenta e a imaginação mais vaga, enquanto que o que eu ali via era a condensação viva de todos os tempos. Para descrevê-la seria preciso fixar o relâmpago. Os séculos desfilavam num turbilhão, e, não obstante, porque os olhos do delírio são outros, eu via tudo o que passava diante de mim - flagelos e delícias -, desde essa coisa que se chama glória até essa outra que se chama miséria, e via o amor multiplicando a miséria, e via a miséria agravando a debilidade. Aí vinham a cobiça que devora, a cólera que inflama, a inveja que baba, e a enxada e a pena, úmidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a melancolia, a riqueza, o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho, até destruí-lo, como um farrapo. Eram as formas várias de um mal, que ora mordia a víscera, ora mordia o pensamento, e passeava eternamente as suas vestes de arlequim, em derredor da espécie humana. A dor cedia alguma vez, mas cedia à indiferença, que era um sono sem sonhos, ou ao prazer, que era uma dor bastarda. Então o homem, flagelado e rebelde, corria diante da fatalidade das coisas, atrás de uma figura nebulosa e esquiva, feita de retalhos, um retalho de impalpável, outro de improvável, outro de invisível, cosidos todos a ponto precário, com a agulha da imaginação; e essa figura - nada menos que a quimera da felicidade -, ou lhe fugia perpetuamente, ou deixava-se apanhar pela fralda, e o homem a cingia ao peito, e então ela ria, como um escárnio, e sumia-se, como uma ilusão.

13 de out. de 2008

Do eterno embate entre escritores e leitores

"Não gostou da moça sentada ao seu lado e o ofendia ver como ela lia às pressas e desatentamente as páginas que lhe haviam custado tanto esforço. Seu impulso era arrancar o livro das mãos dela e sair correndo com o volume para o outro lado da estação."
Paul Auster, A trilogia de Nova York.

9 de out. de 2008

Machado de Assis na WWW

A dica foi da minha amiga Pâmela:

A obra completa de Machado de Assis está disponível na internet, no site do Ministério da Educação. Além dos 246 arquivos de romances, contos, poesias, crônicas, etc., há informações introdutórias sobre a vida e a obra do autor, links para teses e dissertações baseadas em sua obra, um espaço para os leitores e pesquisadores postarem comentários e um vídeo produzido pela TV Escola.
O projeto é resultado de uma parceria entre o Portal Domínio Público - a biblioteca digital do MEC - e o Núcleo de Pesquisa em Informática, Literatura e Lingüística (NUPILL), da Universidade Federal de Santa Catarina.

6 de out. de 2008

NYTimes sobre "Ensaio sobre a cegueira"

Não tenho acompanhado tudo que tem sido escrito sobre o filme Ensaio sobre a cegueira. Mas achei interessante essa crítica do New York Times, que bate, principalmente, no livro do José Saramago.
Tenho restrições ao livro, mas o que mais me impressiona é que o NYTimes praticamente diz que o livro é ruim porque é alegórico, isto é: porque não é realista. Para o jornal, o que importa são os "seres humanos reais" (o que é isso, exatamente?; algum livro ou filme fala realmente de "seres humanos reais"?). Como bons apóstolos de Syd Field, os críticos costumam avaliar negativamente todo e qualquer filme (e, claro, todo livro, ora pois) que não obedeça à máxima de que "toda ação do personagem deve ser justificada pela construção psicológica desse personagem". Isso, para eles, não é um "universo mecânico"...
Por fim, nos diz o crítico, "o filme [Blindness] não nos dá muito o que pensar". A mim, dá muito o que pensar (como, p. ex., que m... afinal é o "ser humano"), ao contrário desse realismo onipresente em filmes como Menina de ouro (Clint Eastwood) e livros como Pastoral americana (Philip Roth), que todos aplaudem sem restrições, mas que para mim parecem aula de educação moral e cívica.
Conclamo algum caroço com maior sensibilidade cinematográfica a falar sobre o filme...

3 de out. de 2008

Que mistérios tem Clarice?

“E um dos indiretos modos de entender é achar bonito.”

Tinha acabado de entrar na exposição sobre Clarice Lispector no Centro Cultural Banco do Brasil e pensava justamente na dificuldade que sempre tive de “entender” a escritora. Tenho vários livros, tentei ler alguns deles, mas sempre fui abandonando a leitura pelo caminho, um a um. No entanto, ao entrar na primeira sala e me deparar com as fotos e algumas de suas frases era como se aquilo que estava lendo e admirando fizesse todo o sentido para mim, desde sempre.

Foi quando me deparei com a frase lá em cima.

Estive lá no domingo, mais um dia chuvoso no Rio e, pelo que eu tinha lido, o último para se conferir a exposição, que já tinha feito o maior sucesso em São Paulo. Foi uma surpresa atrás da outra. Além de achar as soluções cenográficas perfeitas para se ler Clarice, gostei muito de entrar em contato com o universo mulher da escritora. Numa entrevista, que assisti sentada no sofá, ao lado da máquina de escrever usada por Clarice, ela explica que “é muito maternal” e que, portanto, tem muito mais facilidade e gosto para lidar com crianças que com adultos.

Nessa linha feminina, um dos documentos expostos que mais me chamou a atenção foi uma listinha de afazeres domésticos de Clarice:
1) Viver melhor as 24 horas do dia (ter mais tempo)
2) Tinturaria cabelo
3) Luvas
4) Café turco
5) Ginástica

1) ...
2) Morangos pessoas de idade
3) ... o menu
4) Vestido preto
5) Dar paz ao rosto (telefonar Wilma)

Desde que casei, as listas com afazeres tornaram-se um hábito indispensável. A gente vai andando pela casa e vê que a pasta de dente está acabando, que o leite só dá para hoje, que o pão está vencido, etc. Se não anotamos nada, corremos o risco de voltar do supermercado sem os itens básicos para a casa funcionar. Clarice, mãe de dois filhos, mulher de diplomata, escritora famosa, não era diferente.

Em outro trecho da tal entrevista, ela fala também de seus livros e do rótulo de “hermética”. E conta, deliciosamente, que um professor de literatura de um colégio famoso no Rio disse que não conseguiu entender um de seus livros. Emenda revelando que o mesmo era o livro de cabeceira de uma moça de 17 anos, que a abordou para contar a história.

Saí da sala de exposição, depois de me deliciar com as cartas enviadas por e para Clarice, de gente como Rubem Braga, Lúcio Cardoso, Paulo Mendes Campos, Érico Veríssimo, direto para a livraria da Travessa do CCBB. Se a menina de 17 anos compreendia, já era a minha hora de comprar e tentar ler “A paixão segundo G.H. Para minha surpresa, o livro citado por Clarice no vídeo estava esgotado ali. Sinal de que muitos leitores, como eu, já estavam tentando penetrar ainda mais no reino das palavras da autora de “A hora da estrela”.

OBS: Esse texto também foi publicado no meu novo blog. Tentei escrever algo que valesse para os dois lugares, com o objetivo mesmo de linkar aqui no Caroço o meu novo endereço no mundo blogueiro. O Lameblogadas II ainda está em fase de arrumação e faxina geral, mas acho que já posso fazer o open house.

1 de out. de 2008

Novo Portal Literal

Boa notícia na rede. O Portal Literal entrou em uma nova fase. Inspirado no modelo do Overmundo, abre espaço para a publicação de textos meus, seus, de todos os internautas deste país. Boa notícia porque o Literal, com todo o seu pioneirismo, estava mesmo precisando de novos ares. Mas também porque propostas como essa de, digamos, "co-autoria", mais descentralizadas, combatem o umbiguismo que acomete a maior parte dos blogs brasileiros sobre os nossos velhos amigos de papel com marquinhas pretas.

24 de set. de 2008

Já visitaram o Blog do Saramago?

Recomendo (se é que eu posso recomendar alguma coisa):
http://blog.josesaramago.org/#

11 de set. de 2008

Sincronicidade

De outro tempo, outro lugar: recebo agora meus exemplares de Último round e A volta ao dia em 80 mundos. Na quarta capa, GGM, autor de nada menos que Cem anos de solidão:
"Havia lido seu primeiro livro de contos ... e desde a primeira página me dei conta de que aquele era um escritor como o que eu queria ser quando crescesse."
E, no meu tempo, que não é o do mundo, GGM me plagiou.

4 de set. de 2008

Por que você escreve (e por que lê)?

Acho que todo mundo que algum dia escreveu algo com qualquer pretensão "artística" fez querendo ser o escritor que outro foi. Acho também que a gente lê porque descobre um autor que escreve aquilo que a gente queria ter escrito.
Este preâmbulo é para dizer que a Civilização Brasileira acaba de lançar obras inéditas no Brasil daquele que, sem sombra de dúvida (talvez dividindo com Barthes esse posto), foi o escritor que eu queria ser, se um dia tivesse a audácia de tentar: Julio Cortázar.
Ontem não havia os livros na livraria, mas a piauí adiantou alguns poemas, entre eles este:

O SONHO

o sonho, uma doce neve
que beija o rosto, e o rói até encontrar
lá embaixo, sustentado por fios musicais,
o outro que acorda.
(trad. de Ari Roitman)

Quatro linhas que emocionam mais que todas as páginas e mais páginas que li atualmente.

31 de ago. de 2008

Leitores, espectadores e internautas

Acabei de postar o texto anterior e me dirigi a uma livraria, para comprar mais um livro para o mestrado. Enquanto aguardava o vendedor trazer o exemplar, chamou-me a atenção, entre as centenas de livros das prateleiras, uma lombada fina, num tom de azul que já está sendo chamado, na gíria dos mais jovens, de "azul Orkut". (Aliás, fica a dica para as editoras. Deve ser uma boa estratégia de visibilidade imprimir títulos com as capas azul Orkut, verde MSN ou na estética clean do Google.)

Trouxe para casa, além do que fora comprar, Leitores, espectadores e internautas, recém-lançado livro de Néstor García Canclini que, a meu ver, continua o assunto do post anterior, que se pretendia mais focado nas formas de ler do que na questão do tempo, como preferiram os leitores que deixaram comentários.

O livro é composto de pequenos fragmentos ensaísticos, organizados em ordem alfabética, que nos remetem a noção de hipertexto. Podemos ler os textos em qualquer ordem, ir e voltar. Não há, também, uma pretensão em oferecer respostas, mas um incentivo a que façamos perguntas, como sugerido pelo autor no fragmento "Dicionário": "Não seria mais útil um dicionário dedicado a focalizar pequenas partes e dizer algo que se pudesse saber de cada coisa? Poderia acompanhar cada palavra só com perguntas. Cada artigo seria uma breve entrada na penumbra ou na claridade de um momento ou, ainda, a expressão de estranheza produzida ao ver-se iluminado esse fragmento. A melhor definição não buscaria somar-se a outras para ir ampliando o panorama do saber, mas, sim, tornar visível o que brilha por uns minutos. Também o que fica interrompido ou oculto entre uma definição e outra. Trabalhar com noções embora ainda não sejam conceitos, essas que usamos apesar de não estarem no dicionário".

São várias as perguntas que somos incentivados a fazer, pensando a globalização no que tem de dominação e de resistência, mas quero me deter só na questão que dá título ao livro. Que novos hábitos culturais, que novos tipos de experiências acontecem agora que somos, ao mesmo tempo, leitores, espectadores e internautas? Ou a partir de que critérios devemos pensar esses novos hábitos culturais agora que somos leitores de livros, revistas, quadrinhos, legendas de filmes, cartazes publicitários, bulas de remédios, blogs, e-mails e mensagens de celular?

Canclini, questionando teóricos críticos da comunicação, elogia as formas de resistência que se desdobram em "ações espetaculares"; pergunta a quem não serve ser internauta, já que convivem no espaço virtual novas formas de sociabilidade e de se fazer política, junto a novas formas de transtorno e destruição; apresenta pesquisas feitas em vários países do mundo que mostram que as formas tradicionais de leitura e a leitura na internet, ao invés de se excluírem, se complementam (os dados apresentados batem com resultado da pesquisa "Retratos da leitura no Brasil", lançada recentemente pelo Instituto Pró-Livro).

Se somos, ao mesmo tempo, espectadores, leitores e internautas, "por que as campanhas de incentivo à leitura são feitas só com livros e tantas bibliotecas incluem somente impressos em papel?"



O volume foi editado pela Iluminuras, dentro da coleção "Os livros do observatório", parte do projeto Observatório Itaú Cultural, beneficiado pela Lei de Incentivo à Cultura do MinC. Esses dados são relevantes se pensarmos que uma das críticas presentes no livro é exatamente a mercantilização cada vez maior da cultura. Chamam a atenção, a meu ver, para algumas das contradições de nosso tempo. A crítica à globalização econômica ganha voz através de um dos maiores símbolos e beneficiários deste processo, um banco privado. Além disso, chama atenção uma fato já questionado por mim algumas vezes neste blog: o dinheiro público subsidiando as ações sociais e culturais (diretamente ligadas às ações de marketing) das empresas privadas.

26 de jul. de 2008

Brincadeira com Jung

"Minha vida foi singularmente pobre em acontecimentos exteriores. Sobre estes não posso dizer muito, pois se me afiguram ocos e desprovidos de consistência. Eu só me posso compreender à luz dos acontecimentos interiores. São estes que constituem a peculiaridade de minha vida..."

C.G. Jung, Memórias, sonhos, reflexões

25 de jul. de 2008

Dia do escritor - Brincadeira com João Cabral

Aproveitando as citações literárias por aqui, deixo a minha contribuição lembrando que hoje é o Dia do Escritor. Quem deu a dica foi o amigo Henrique Rodrigues, cujo livro de poesia "A musa diluída" recomendo com louvor. Segue seu email:

Hoje é comemorado o dia do escritor, desde um decreto governamental de 1960. O crítico francês Roland Barthes distinguia écrivant (escrivão, aquele que transmite uma mensgagem sem muito gueriguéri) de écrivain (escritor, o que se detém na forma e vai além das palavras, tentando costurar os vazios que existem por trás delas). Uma diferença pequena e imensa entre os dois termos. Vai em homenagem aos camaradas um dos metapoemas mais relevantes da nossa língua: "Catar feijão", do João Cabral.

Catar feijão
João Cabral de Melo Neto

Catar feijão se limita com escrever:
joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo;
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e o oco; palha e eco.

Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a com o risco.

24 de jul. de 2008

Brincadeira com Clarice


“Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria – e não o que é.”

De Felicidade Clandestina, Clarice Lispector. Rocco, 1971.


E eu que, plena de arrogância, achava que já tinha lido tudo de Clarice, há exatos sete dias descobri o visceral conto “Perdoando Deus”. Desde então, rezo para dar de cara com um rato de esgoto.

Brincadeira

Para animar o grupo, proponho que todos publiquem aqui trechos dos livros que estão lendo atualmente, citando o autor e o nome da obra, obviamente. Vou começar a brincadeira:

"Aquilo era o começo do nunca mais, pensou Maurício. E repetiu em pensamento: nunca nunca nunca mais. Porque quando uma pessoa morria, era para sempre. Mas não conseguia compreender palavras grandes como essas: nunca, sempre. Havia o dia de ontem, o dia de hoje e o dia de amanhã. Havia mesmo os dias de uma semana atrás, de um mês ou, com um grande esforço que quase fazia a cabeça estourar, os dias de um ano atrás. Mas sempre era muito mais que um ano; e nunca, muito menos que um segundo. Sempre e nunca - ele imaginava uma coisa muito grande e branca, que a gente olhava de baixo para cima, sem conseguir ver onde terminava. Luciana ia ficar para sempre na parede branca, para nunca mais voltar."

De Limite Branco, Caio Fernando Abreu. Agir, 2007.
Obrigado pelo presente, Lucas. A leitura me emociona a cada linha.

1 de jul. de 2008

Aprendendo a escrever


No terceiro período da faculdade de Jornalismo, deu-se a experiência que considero fundamental para a nossa formação e para a aproximação do grupo que mais tarde formaria este Caroço, em sua forma impressa, nos idos de 2000, no Iacs. Era a aula de oficina de textos, do professor Dênis de Moraes, na qual discutíamos literatura e éramos estimulados a escrever (dava frio na barriga) textos em vários formatos (contos, poesias, artigos jornalísticos, etc).

Mas, a melhor experiência era poder compartilhar o texto um do outro, por meio da leitura que o professor fazia daqueles que ele considerava os melhores. A Lili era a campeã em leitura, e ali soubemos que ela era poeta (uns já sabiam, mas eu descobri durante essas aulas). Assim como tivemos contato com o talento de vários amigos, inclusive do querido (e sumido) Leonardo Cosendey (Leo, se você estiver me lendo, entre em contato, volte a escrever conosco). Minha intuição é de que ali surgiu a primeira semente do nosso projeto, que se tornaria realidade dois períodos mais tarde.

Todo esse preâmbulo é para contar que o amigo Marcelo Moutinho, autor do indispensável Pentimento, vai ministrar uma oficina de contos na Estação das Letras, em aulas às quintas-feiras, das 19h30 às 21h30, a partir de agosto (mais informações aqui). Quando ele me contou do projeto, me lembrei imediatamente daquelas aulas e do quanto aquela convivência literária em sala de aula foi importante para nossas vidas.

Por falar nisso, aí vai um pedido: se alguém ainda tiver um daqueles textos, eu gostaria muito de relê-los aqui no blog.

19 de jun. de 2008

Promiscuidade machadiana

Esta surgiu em conversa com uma figura mitológica do jornalismo literário do Rio de Janeiro sobre o bruxo do Cosme Velho:
"O negócio de Machado de Assis era comer a mulher do José de Alencar. Tanto que há a suspeita de que Mario de Alencar seria filho dele. Mario nasceu epilético, e quem tinha epilepsia? Machado. Está tudo lá, nos diários secretos do Humberto de Campos. E a Carolina só conseguiu casar com o Machado porque já veio furada de Portugal!".

13 de mai. de 2008

Mais sobre Órfãos do Eldorado

Apenas para dar minha "avaliação do livro": para quem leu Dois irmãos, o livro decepciona. Não tem a força trágica do outro livro, embora o "ambiente" e a linguagem sejam semelhantes. É uma história boa, curta, que se lê rapidamente, mas não empolga. Apenas o protagonista tem força, os outros personagens somem na memória logo após virada a última página. (Avaliação "impressionista", aliás, sem muita paciência para me alongar.)

7 de mai. de 2008

Órfãos do Eldorado - prévia

A crítica já falou bastande do novo livro de Milton Hatoun, Órfãos do Eldorado. A leitura do livro abre algumas possibilidades de análise: a recorrência do signo do duplo (que já havia em Dois irmãos), o antimito do Eldorado, a concisão narrativa que o autor conseguiu alcançar neste seu quarto. O leitor pode encontrar uma boa análise de Luiz Costa Lima no caderno Mais!, da Folha de S. Paulo (para assinantes).

O que eu achei mais interessante acrescentar é que esse é um livro em muitos sentidos "simbolista". Pensei isso após ler O castelo de Axel, do crítico Edmund Wilson. Nele, o crítico analisa a "literatura imaginativa", que, muito simplificadamente, é aquela que sugere mais do que diz, ou que tem essa intenção.

O livro de Hatoun é um livro construído em torno de imagens que, intencionalmente contrapostas, justapostas, repetidas, produzem esse efeito de "sugerir" interpretações. Vemos isso muito bem em uma dessas primeiras repetições de imagem, muito pouco "verossimilhante". Arminto Cordovil, o narrador, inicia sua história contando o caso de uma mulher que, quando ele tinha 9 anos, foi atrás de seu amor debaixo das águas do Amazonas, em busca de "um mundo melhor, sem tanto sofrimento, desgraça". Logo depois no texto, Armindo é chamado de louco por ficar olhando as mesmas águas em busca de seu passado. Isso não é verossimilhante, é sugestivo. Está ali para que o leitor interprete a história.

E essa escolha deliberada pela sugestão, no lugar da coerência dos personagens, não é comum na literatura contemporânea, nem é bem aceita pela crítica, a não ser quando está em autores excepcionais como Hatoun. Como já disse Harold Bloom, hoje em dia a ironia está fora de moda. E ironia é justamente sugerir o contrário do que se diz. (Para Bloom, um dos mestres da ironia era Thomas Mann, que também inseriu uma bela imagem do duplo no final da novela Morte em Veneza.) Guy Debord, em seu Panegírico, dizia que hoje em dia as pessoas não entendem nem a ironia, nem a citação sem aspas. Poderíamos acrescentar: nem a sugestão.

Leiamos, portanto, livros que, como Órfãos do Eldorado, pretendem sugerir ao leitor, não iludi-lo com a vessimilhança, que não é um predicado essencial da boa literatura, embora possa estar nela.

2 de mai. de 2008

Em Lisboa, de braços dados com Pessoa

No último fim de semana, dedicado ao repouso por causa de uma virose ou suspeita de dengue e de sinusite, fui a Lisboa. Explico. Está saindo no Brasil, pela Companhia das Letras, um guia turístico escrito por ninguém menos que Fernando Pessoa, lá pelos idos dos anos 20. Escrevi um texto para o caderno Idéias, do JB, que sai hoje, a respeito. A cada página virada, o poeta me dava a mão e me levava de volta à cidade branca, que conheci há um ano. Percorri o caminho sugerido por Pessoa: o terreiro do paço, os arcos, a Rua Augusta, o Rossio, o elevador da Santa Justa, a subida de elétrico até o Chiado, o Bairro Alto, a Rua do Diário de Notícias, a Av. da Liberdade, depois o parque Eduardo VII. Depois busquei o roteiro que eu mesma fiz, e confesso que fui a alguns lugares justamente seguindo os passos do poeta. O café A Brasileira. A assorda no almoço econômico no Martinho da Arcada, bem ali ao lado da Alfândega, onde ele, o próprio, comeu de graça tantas vezes, me contou o neto do dono. Era lá que colocava as idéias em ordem...me contou. Pessoa escreveu o guia em inglês mas não há muitas informações sobre a publicação do mesmo na época. A intenção era divulgar os encantos de sua cidade amada no estrangeiro. No livro, o poeta exalta grandes momentos históricos do país. Tenta seduzir seu turista acidental para dentro de todas as bibliotecas. De forma quase inocente dá, "aos leitores que entendem português", um panorama completo dos jornais da cidade, comentando a orientação editorial e fornecenedo até o endereço de cada um. Curiosidades a parte, é encantador perceber no texto, deveras datado, romantismos dos idos tempos. As pessoas chegavam à cidade de navio pelo Tejo! As preferências turísticas também mudaram. Na época, pelo que dá a entender, o delicioso bairro de Alfama, muito procurado pelos turistas por conservar um clima século 19-alternativo-roots, não fazia qualquer sucesso: era um bairro de pobres. Talvez a vocação do bairro não seja, mesmo, a de receber visitantes inoportunos. Nos muros brancos da Alfama irmortalizada pelos fados de Amália Rodrigues há várias mensagens estampadas em stencil expoulsando os baderneiros: Turistas, respeitem os moradores ou vão para a Espanha!

17 de abr. de 2008

Kiriku, Macunaíma, folclore e arte


Outro dia, assisti a um desenho animado mais do que diferente, Kiriku e a feiticeira, de Michel Ocelot. O filme começa com uma mulher, africana, grávida. Dentro do ventre materno, o bebê fala: "Mamãe, eu quero nascer." A mãe responde que, se ele já fala dentro da barriga dela, pode nascer sozinho. O menino engatinha para fora do corpo da mãe e corta o próprio cordão umbilical. "Mamãe, você tem que me lavar." Se ele nasceu sozinho, também pode se lavar sozinhom, é o que a mãe responde. Ela recomenda apenas que economize a água, porque, desde que a feiticeira Karaba apareceu na aldeia, o riacho parou de correr e todos os homens que vão combatê-la são comidos, inclusive o pai e o tio de Kiriku. E Kiriku, apesar do preconceito que sofre por ser menor que todos, vai atrás de Karaba para acabar com o sofrimento do seu povo.
A animação, com desenho algo naïf, é infantil mas não infantilizada (as cores são fortes - "tropicais?" - e as mulheres andam com seios à mostra, o que levou o filme a receber indicação "adulto" nos EUA). Uma análise do filme pode ser encontrada aqui.
A história é baseada em lendas da África Ocidental, e o interessante é notar como o tom se parece com as narrativas indígenas que inspiraram Macunaíma, de Mário de Andrade. Folheando hoje um livro do Sérgio Buarque de Holanda, O espírito e a letra, encontrei "O mito de Macunaíma". O antropólogo, historiador, crítico, etc., etc. (não é à toa que o filho dele é músico, escritor, dramaturgo, etc.) traduziu três narrativas do mito do deus Macunaíma, encontradas nos livros de Koch-Grünberg (de onde Mário de Andrade tirou a matriz de seu romance) e de Walter Roth. Na primeira, Macunaíma e Piá, gêmeos filhos do Sol, ainda no ventre da mãe, dizem: "Saiamos a visitar nosso pai. Mostraremos o caminho..." No meio do caminho para encontrar o pai de Piá e Macunaíma, a mãe acaba caindo e se machucando. Enfurecidos, os gêmeos se recusam a indicar a direção novamente. A mãe é morta por um jaguar, mas as crianças sobrevivem e crescem rapidamente. Dentro de um mês já eram adultos.
Outra semelhança entre os dois mitos está nos "suporpoderes" de Kiriku (que, além de já nascer espertérrimo, corre mais rápido que qualquer um) e do "deus" Macunaíma.
Queria ter mais tempo - e conhecimento - para tentar entender o que, afinal, significa esse mito do filho conversar com a mãe antes de nascer. Seria uma referência à óbvia e profunda ligação materna com os filhos? Ou àquilo que falta ao homem e atrapalha sua sobrevivência, ao fato de demorar mais que as outras espécies para ter autonomia?
Mas, além disso, Kiriku e Macunaíma são duas obras muito divertidas, e que nem por isso são simples. Tendo se inspirado em tradições semelhantes, têm públicos muitos distintos.
Kiriku é daquele tipo de animação que, em vez que passar valores às crianças, incentiva a imaginação. E, quem sabe, após conhecer algo diferente de Shreks e Mulans, ela não se desenvolve com mais gosto pelos livros, por culturas diferentes da sua (e da americana). Para terminar, a música do filme (traduzida; em francês é mais bonita):
Kiriku não é grande mas é valente
Kiriku é pequeno mas é o meu amigo
Kiriku é pequeno mas é o meu amigo
Kiriku o valente, é melhor que nós
Kiriku não é grande mas é a nossa criança
Kiriku é pequeno mas tem bom coração
Kiriku é pequeno mas tem bom coração
Kiriku é pequeno mas é o nosso amigo
Kiriku não é grande mas é a nossa criança.

(Imagens: cartaz de Kiriku e a feiticeira e Grande Otelo como Macunaíma.)