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12 de out. de 2008

Dia das Crianças (homenagem a Vinícius)

Vou seguir o tema das últimas postagens e continuar na música. A homenagem, dessa vez, é pra Vinícius de Moraes, e graças ao meu filho Antônio. Ontem, depois de cantar "A casa", "O ar (O vento)" e "O pato", ele me disse:
- Mãe, quero conhecer Vinícius de Moraes e Toquinho.
Inocentemente, respondi:
- Filho, Vinícius já morreu.
Passada uma hora e meia de tristeza (parecia ter perdido um avô querido) e só depois que prometi mostrar a ele alguns vídeos em que Vinícius aparece, Antônio resolveu o problema:
- As pessoas aqui no Brasil não sabem, mas Vinícius não morreu, ele agora mora na China.

Em nossa pesquisa no Youtube, além do musical "A Arca de Noé", exibido pela Rede Globo em 1980, encontramos este curta sobre o poetinha, feito por Fernando Sabino e David Neves, e lançado recentemente em DVD (Encontro Marcado com o cinema de Fernando Sabino e David Neves) pela Biscoito Fino:

8 de out. de 2008

Diálogos de campanha (ainda no 1º turno) - e uma pergunta

No sacolão volante, estacionado na Pacheco Leão, Horto.

_ Esse Crivella não pode ganhar.
_ Ah, não mesmo. Não voto nele de jeito nenhum, aquele povo evangélico...
_ Você vai votar em quem, então?
_ Ah, eu voto naquele menino, ele é muito bom, honesto.
_ Quem, o Eduardo Paes?
_ Não, no Gabeira, ué.


Numa janela da São Clemente. Uma carreata do Molon passava na rua, com quase ninguém atrás. E a menina Sofia, de 2 anos e 10 meses, pergunta:

_ Mamãe, o que aquele moço tá fazendo em pé no carro, dando tchau?

*****

A pergunta: vocês acham que as fotos do "menino" Gabeira de sunga podem tirar votos do candidato verde?

29 de set. de 2008

Diálogo entre pais e filho

- Pai, quero ser rico e famoso.
- Pra que, meu filho? - responde o pai, desanimado.
- O Zico é rico e famoso.
A mãe escuta ao longe e se mete na conversa:
- Filho, pra que ser rico e famoso se tem tanta gente pobre, tanta desigualdade nesse mundo?
- Ah, então tá, mãe. Quero ser pobre e famoso.
...

5 de set. de 2008

Navalha na carne


Serginho chegou para sua mãe com a boca pingando sangue. Grita grita chora berra. Dona Alice se espanta. O que foi, meu filho, como isso aconteceu?

Grito choro soluço berro berro.

Dona Alice leva Serginho pro banheiro. Lava lava lava lava língua. Sangue pinga vaza escorre. Sabão não, mãe, o gosto é ruim. Lava lava. Que corte é esse na sua língua, meu filho?

Dois talhos fundos, no sentido da largura.

É que a vovó me falou que eu estava dizendo uns palavrões muito cabeludos, explicou Serginho muito envergonhado. E aí fui raspar a língua pra não ter perigo de engolir cabelo.

Ah, meu filho -- disse a mãe, compreensiva -- Você não pode fazer isso, que machuca! Da próxima vez, chama a mamãe que ela faz com cera quente!

Ambos se abraçam.

4 de set. de 2008

Meu irmão nadou no rio

Ando nostálgico nesses últimos dias. E tenho pensado muito no meu irmão, que é quase dois anos mais velho que eu – ele fez 33 em Agosto. Nunca fomos grandes amigos, andávamos em bandos diferentes. Ele sempre andou na rua, eu brincava no quintal. Ele não levava a escola a sério, eu me matava de estudar. Ele tem os olhos azuis, os meus são castanhos.

Não nos vemos com tanta freqüência e conversamos menos do que eu gostaria. Ele está no segundo casamento e, apesar de jovem, já tem quatro filhos. Somos os primos mais velhos da parte materna, que é numerosa. Para os pequenos, ele sempre foi exemplo de bravura, esperteza e malandragem. Eu era o contraponto: ensinando a falarem direito, a se portarem com educação e darem atenção aos livros.

Demorei quase 30 anos para perceber, mas hoje sinto que tenho grande admiração pelo meu irmão. Ele fez coisas que eu gostaria de ter feito. Viveu a infância e parte da vida adulta sem tanta preocupação. Hoje está bem, com trabalho estável. É um pai responsável e amigo, cuida bem das duas famílias. Sempre me teve como exemplo, porque eu estudei, me formei, vim morar na cidade grande. Se achava inferior.

Com algum tempo de atraso eu vejo que ele me serve como exemplo também. Me orgulho de tê-lo tido sob o mesmo teto durante quase 18 anos. Aprendi muito com ele, embora o achasse um irresponsável. No fundo eu tinha um pouco de inveja. Às vezes me arrependo de ter sido tão certinho o tempo todo.

O que me desperta ainda mais admiração foi um fato ocorrido há muito tempo atrás: meu irmão nadou no Rio Paraíba do Sul. E em época de cheia. Várias crianças já haviam se afogado tentando a façanha. O rio é traiçoeiro e cheio de poços. Mas meu irmão pulou ali. Não teve correnteza, não teve água barrenta que o ameaçasse. Apanhou, ficou de castigo, foi repreendido por toda a família. E apesar do choro tinha sempre escondido um riso gostoso e sonoro dentro de si. Meu irmão nadou no rio!

3 de set. de 2008

Braço quebrado


Fraturas me assustam desde sempre. Acho que é um medo de outras vidas. Ou é coisa do meu subconsciente, já que quebrei o braço direito três vezes, e no mesmo local: final do rádio, próximo ao cotovelo. É um medo controlável. Mas o pavor passou a me rondar de novo depois do jogo do Flamengo contra o Cruzeiro, em 3 de agosto desse ano, quando o atacante do rubro-negro, Diego Tardelli, fraturou gravemente o antebraço direito. Pela televisão, ele parecia um pedaço de pau. Terrível.

O mais interessante – e contraditório – é que, apesar do medo de me machucar, não sofro quando penso nas fraturas da infância. Porque não foram acidentes graves, nada relacionado a automóveis ou travessuras dentro de casa. Nas três vezes em que me machuquei, estava brincando no quintal, lá em Barra do Piraí.

Na primeira, fui imitar meu irmão, um exímio trapezista de árvores. Ele, maior que eu, se pendurava nos galhos do limoeiro – no jardim da igreja - fazendo balanço com o próprio corpo. Eu, menor que ele, ia atrás. Só que uma das tentativas teve conseqüências mais dolorosas: caí. A segunda vez também teve árvore envolvida: a amendoeira lá de casa. Incorri no mesmo erro: imitar o meu irmão. Caí.

Na terceira, eu queria voar, como o Super Homem. Em vez de árvore, escolhi outro meio de transporte: o balanço da casa de uma prima. No vaivém, cada vez que a cadeirinha chegava no ponto mais alto, me jogava lá de cima. Numa dessas o Super Homem veio ao chão, e de mau jeito: era mais uma fratura. Nunca esqueço a sensação boa do vento no rosto a cada pulo. E da sensação ruim da dor e do pânico ao ver o inchaço: “Mãe, não quero ficar com braço torto!”.

Eu era criança, então o gesso implicava em certas conseqüências interessantes. As provas na escola, por exemplo, eram orais. Com o calor – os acidentes aconteciam no Verão – dava coceira, que eu aliviava com as agulhas de tricô da vó. Os amigos e primos desenhavam e escreviam bobagens no gesso. Eu tinha que comer com a mão esquerda. E tentava, a todo custo, escrever no papel como os canhotos. Sem sucesso. Havia ainda as tipóias, que compunham o figurino.

Meu pai, ansioso, foi quem tirou o gesso todas as vezes, em casa mesmo, com muita água caindo da bica. Horas na função. Eu tremia, tenso, esperando rever o meu braço depois de dias e dias sem contato visual algum. Ele aparecia frágil, mais branco que o resto do corpo, dolorido ainda. Ia aprendendo a movimentá-lo com o passar dos dias. Da terceira vez, precisei de muitas sessões de fisioterapia pra fazê-lo voltar ao normal.

Até hoje carrego a marca das travessuras: meu braço direito não flexiona completamente. No exame para o Exército, bastou uma olhada do tenente pra eu ser dispensado. “Quem aí já fraturou alguma parte do corpo?”, perguntou. “Eu, várias vezes”, respondi. Me livrei do quartel. O fato é que, a despeito de todos os inconvenientes de quebrar um braço – e do medo que me ronda ainda hoje - só tenho boas lembranças das minhas fraturas. E, mãe, apesar do seu apoio, não teve jeito: fiquei com o braço torto.

2 de set. de 2008

Eles não são tão fofinhos quanto parecemSe bem me lembro, foi num aniversário que meu pai chegou em casa com um enorme embrulho cor-de-rosa. Fiquei ansioso: o que seria aquele presente tão grande?

-- É uma bicicleta, pai?
-- Que nada, rapaz, muito melhor.

Entusiasmado, comecei a rasgar o papel sem pena. Pedaços voavam para todo lado. Meus pais me olhavam com um sorriso de dever cumprido.

Quando afinal terminei de rasgar o pacote, estranhei aquele anão de rosto laranja e cabelo verde:

-- Que é isso, pai?
-- É um Umpa Lumpa, filhão. Vai dizer que você não conhece? Eu sempre quis ter um quando tinha a sua idade!

Olhei para o anão, que me encarava sério. Ele fedia a cigarro e estava mal barbeado -- as pontas pretas nojentas surgiam por baixo da maquiagem. Olhei para meus pais, que mantinham uma expressão encorajadora e um pouco ansiosa também.

Não queria desapontá-los, coitados.

* * * * * * * * * *

No meu quarto, o Umpa Lumpa estava olhando pela janela com as mãos pra trás das costas. Depois de um tempo bem longo, virou-se e me encarou.

-- O que você tem pra beber aí?
-- Aqui? Nada!
-- Que merda. Tem um cigarro?
-- Não, sou apenas uma singela e meiga criancinha!

O Umpa Lumpa resmungou e cuspiu pro lado. Escuta aqui, ele disse. Vou sair pra comprar uns cigarros e tomar umas cervas. Tu fica quieto aqui e não me enche o saco.

Obedeci.

Em silêncio, o Umpa Lumpa foi até o quarto dos meus pais e pegou a chave do carro. Olhou pra mim com uma cara ameaçadora e saiu.

* * * * * * * * * *

Mais tarde (já era madrugada), meus pais entraram no meu quarto. Minha mãe não chorava, berrava como um bezerro sendo castrado. Acordei assustado:

-- Que foi? Que foi?

Minha mãe não conseguia falar. Meu pai ficava quieto, mudo, os olhos bem abertos como se quisesse ver através das cortinas. Então ele falou, sem me olhar nos olhos:

-- O Umpa Lumpa, meu filho. Ele morreu.
-- Hã?
-- Ele morreu, meu filho. Batida de carro. Parece que estava bêbado. Tinha mais alguém com ele. Parece que eram... prostitutas.
-- ...
-- Como você faz isso, garoto? Como você deixou ele sair de carro sozinho, e ainda com vagabundas? Aposto que isso é influência sua!
-- Mas eu...
-- Seu irresponsável! Agora levanta, seu moleque! Você vai com a gente no IML!

Minha mãe berrava, uivava, gritava, gemia. Meu pai me empurrava pra me vestir. Estava começando a não gostar daquele presente.

* * * * * * * * * *

Chegamos ao IML pra fazer o reconhecimento do corpo. Quando meus pais viram aquela peruca verde começaram a chorar. Minha mãe tremia. Meu pai mantinha a cabeça baixa, as lágrimas rolando por seu rosto em silêncio.

O enterro foi no dia seguinte. Vários outros anões laranja de cabelos verdes foram à cerimônia. Eles cantavam

Umpa
Lumpa
Dumpa-di-du

E a música continuava, mas eu não entendia nada. Quando o caixote foi finalmente enterrado, eles simplesmente sumiram por entre os túmulos. Em seguida, meus pais me arrastaram até o carro. Eles não falavam mais comigo.

O silêncio durou dias, até que resolvi perguntar a meus pais o que eles queriam que eu fizesse. Não disseram nada; simplesmente me deram a peruca verde. Desde então, pelo menos uma vez por semana, tenho que me vestir de Umpa Lumpa pra eles. Minha mãe sempre chora e meu pai, suspirando, diz: "Aquele sim, faz uma falta."

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agradecido pelo convite, senhoras e senhores. espero poder colaborar no que for possível.

27 de mai. de 2008

O CAROÇO E A ANDORINHA- Uma história infantil para usar o dicionário...




Acéfalo abstraído do absurdo
Acabrunhado em sua casca,
em pouca polpa envolvido.
Acaule acautelado,
Permaneceu no chão escondido:
_O caroço!

Ouviu dizer de um moço:
_ Nem todo caroço que cai na terra vinga!

Berrou o caroço:
_Eu vim, eu vingo!

Açambarcando todo o terreno.
Ia crescendo o caroço,
sem caule nem raiz.
continuava sempre....
caroço!

Era duro feito osso,
Acastanhado liso
Sem destino e sem juízo

Era acatado, respeitoso
O gigantesco caroço
de acelerado crescimento
era já um monumento,
agora mais duro que cimento!

Colossal caroço tornou-se uma ameaça
Dia a dia ele crescia
Acolá, a cidade era engolida
Era prédio, casa e avenida

Para tanta aberração
Ninguém tinha explicação
Botânicos vinham do mundo inteiro
Gastavam tempo e dinheiro

Chamou-se pois, um batalhão.
Era preciso conter essa expansão.

_Uma explosão! Disse o capitão.

Mil megatons e um caroço que continuava caroço.

A cidade assustada
não conseguia pensar em mais nada.

Chegou então, o verão
Vieram com ele as aves de arribação:
As pequeninas andorinhas em peregrinação

Feito o caroço, um mistério!
Tomavam o que restava da cidade

Em toda parte uma andorinha
Aos milhares iam e vinham
Atrás de suculentos insetos incertos

Desprevenida , certa andorinha perseguia o seu almoço:
_Um gafanhoto gordo.

No ar ele fez um giro
desviando-se do caroço.

A andorinha, coitada!
Chocou-se de bico com o colossal caroço
A Potente pontiaguda córnea proeminência
Rachou sem ponderar a sua excelência:
_O caroço.

Frutas de todo tipo saíram do Colosso
Atemóia, manga, cajá
Maracujá, caju, melancia
Banana, morango, maçã...

Alimento de sobra pra homem e pra pássaro.

Fartando a todos sem desembaraço.
O que restou do caroço gritou:
_ Vinguei!

9 de mai. de 2008

Chegada da escola

Um dia ele chegou da escola e disse:
- Mamãe, quero desenhar o sistema solar e os planetas.
No dia seguinte, quis mostrar uma dança nova que aprendera:
- Creeeeeu, creeeeeu, creeeeeeeu.
No terceiro dia, perguntou quem era o prefeito de Niterói. E completou:
- Se o Lula é presidente do Brasil, por que não pode ser também presidente de Niterói? Ele é presidente só dos homens ou também dos animais?

A escola é mesmo um lugar fascinante.

22 de abr. de 2008

Aventuras paternas


Minha alma boêmia e rueira poderia achar essa cena inimaginável. Noite de domingo, eu e os dois herdeiros refestelados no chão do quarto assistindo televisão. Só falta mesmo minha futura esposa para dividir esse momento dominical familiar e preguiçoso. Tudo bem. Daqui a seis meses o quarteto estará fixo e completo para estes hiatos raros entre saideiras e pé na rua.
“Pai, vamos ver o DVD do 'George, o Rei da Floresta'?”. Os olhinhos claros e a voz fina interrompem aquele ócio momentâneo e amolecem ainda mais este progenitor já tão vulnerável às investidas melosas daquela menininha. Pronto, estou eu agora refestelado no chão e assistindo ao Brendan Fraser interpretar um Tarzan abobalhado. Rio das risadas da minha filha mais do que das piadas previsíveis do longa-metragem.
Meus olhos vacilam de sono quando sinto aquela pele infantil queimar a minha. “Essa menina está quente demais ou isso é coisa de pai preocupado em excesso?”. Resolvi não me deixar enganar pelas neuroses paternas. Olho para o lado, ela continua a rir do macaco falante que usa óculos, enquanto o irmão mais velho revela todo seu tédio com os olhos perdidos na tela do televisor.
“Tão bem disposta, não está com febre não”, digo isso tentando enganar a mim mesmo. Aquela espoleta em forma de gente brinca com disposição mesmo com 40 graus. Saco o termômetro cor-de-rosa, guardado na necessaire cor-de-rosa, dentro da bolsa cor-de-rosa. “Minha filha é quase uma legalmente loira”, penso eu, em meio a um suspiro de constatação.
O termômetro digital é impiedoso e objetivo. Minhas suspeitas se confirmam e a febre agora é oficial. No relógio, 15 minutos para as 11 da noite. O pai irresponsável que não tem antitérmico em casa nem o remédio de alergia da filha agora vai pagar pela sua displicência. Com muita sorte encontrarei uma farmácia aberta a esta hora pelas redondezas. Arrisco dois telefonemas na esperança forçada de que alguma estar aberta.
Visto a primeira coisa que aparece na minha frente e ganho as ruas já certo da derrota. Olho a primeira farmácia possível de avistar do meu prédio. Obviamente que se estivesse aberta, o letreiro nada discreto chamaria minha atenção. Penso como as drogarias nesse país são espalhafatosas. A ponto de os estabelecimentos mais parecerem lojas de fast-food, vendendo saúde como se fosse um hambúrguer de qualidade e gosto discutíveis.
Arrasto meus chinelos com rapidez até a esquina. Mais uma vez, letreiros escuros. Corro os olhos pelo quarteirão e o panorama é inusitado. Uma churrascaria, duas pizzarias, dois restaurantes, um boteco, um podrão e uma lanchonete abertos. Ou seja, posso comer que nem um porco, beber até cair, mas não conseguirei um Engov.
Bem, pelo menos posso comprar uma flor para minha noiva a qualquer hora do dia, pois constato que o quiosque das plantinhas também não fecha. Curioso. Em um bairro repleto de idosos e cheio de farmácias, não tem um raio de uma drograria 24 horas para eu comprar um simples paracetamol genérico! Tijucano resignado, me dirijo ao ponto de ônibus resmungando toda a sorte de impropérios que me vem à cabeça. Destino: Saes Peña, ou “Praça”, como a raça tijucana costuma generalizar o coração comercial do bairro.
“Pelo menos, qualquer ônibus passa por lá”. Estendo a mão para o primeiro que faz a curva na rua, mas me lembro que não posso embarcar. Só estou com o cartão de débito. Bem que os coletivos poderiam começar a aceitar esse raio de dinheiro de plástico. Mas é por causa desse raio desse cartão que tenho a mania de não andar com dinheiro, sob protestos da minha mãe, que vive dizendo que um dia o ladrão vai me encher de tapa por eu estar sem grana.
Por causa do ladrão, também lembro que não consigo sacar dinheiro. Quer dizer, nenhum cidadão carioca pode tirar dinheiro na rua depois das 22h. Em uma daquelas resoluções em que se tira o sofá da sala, você não é mais assaltado ou seqüestrado entre 22h e 6h da matina. Mas também está fadado a ficar a pé.
Penso em ir a pé até “a Praça”, mas a preguiça me faz voltar para casa. Certo de que vou ter de abrir o cofrinho para juntar os níqueis e pagar a passagem de ida e de volta. O recurso é freqüente. Tanto que o cofrinho não é de porquinho nem tem cadeado. As moedas fazem barulho no bolso conforme os meus passos se apressam. Subo no ônibus com uma sensação de alívio imediato. E curto. Um estrondo sob o assoalho do coletivo provoca um frio na espinha. O ônibus quebrou no meio do caminho.
Esperar outro ônibus da mesma linha depois das 23h na Tijuca é uma tarefa para pessoas pacientes, virtude que jamais me coube. Com o dinheiro contado para a volta, não há outra alternativa senão seguir arrastando meus chinelos. Ainda mais resignado e com o vocabulário de palavrões mais extenso, vislumbro finalmente meu destino. As luzes das farmácias contrastam com as lojas apagadas e os cinemas de outrora, agora dominados pelo comércio e pela religião.
Chego rapidamente a um dos ex-cinemas, onde agora funciona uma farmácia cujo plantão se dá com os funcionários sonolentos atrás de um vidro blindado e um cilindro de ferro para entregar as mercadorias. Com dois sujeitos ainda para serem atendidos, penso na mão-de-obra que é comprar nesse esquema.
Vou até a outra farmácia, essa sim, que fica aberta plenamente 24 horas. Entro, peço os remédios e vou ao caixa já esboçando um sorriso com o dever quase cumprido e antecipando o fim de minha missão paterna. Compro até uma bala para comemorar, já que essas drogarias vendem de tudo mesmo.
Pura ilusão momentânea. O cartão de débito não passa. A máquina impiedosa diz que não há linha disponível para conectar. Lembro logo do comercial da TV do famigerado cartão que expõe uma senhora ao desagravo comercial por preencher um cheque em uma loja de plantas. E estou eu lá há 10 minutos tentando passar o cartão, sem que o cenário fique preto-e-branco de repente.
“Jorge, tem alguém usando a linha?”, pergunta a caixa da farmácia pela terceira vez ao atrapalhado companheiro de trabalho. Minha cara de irritado ganha contornos ainda mais agressivos quando um táxi estaciona na porta do estabelecimento com o rádio na estratosfera ao som de “Créu”. Juro que nunca tinha ouvido a música inteira. Agora, sou forçado a constatar o quanto a canção é idiota.
Nada de linha, nada de cartão, logo se forma uma fila e a caixa passa a atender os seguintes enquanto o Jorge tenta resolver o imbróglio do cartão. Um playboy ansioso paga uma caixa de camisinhas. Em seguida, um companheiro com a bela camisa tricolor paga o mesmo produto. Não tenho como não pensar na minha noiva e no pouco tempo que nós acabaríamos com aquela caixa de preservativos. “Todo mundo vai foder, enquanto essa porra desse cartão fode com a minha paciência ao som do Créu”.
Finalmente, consigo pagar os remédios. Agora, a missão é voltar. Os ônibus por aqui ficam mais raros conforme o passar das horas. Mas eis que surge rapidamente um 415. Entre vans e Kombis paradas no ponto para suprirem a carência dos coletivos oficiais, estico o braço. O insensível ônibus passa direto. Antes mesmo que eu soltasse o xingamento, o veículo pára 200 metros adiante. “Valeu motorista”. E saio arrastando os chinelos de forma mais rápida, pois me nego a correr atrás de ônibus (ainda mais de chinelos).
Quase alcançando o coletivo, eis que desembarcam três adolescentes para quem a noite, pelo visto, ainda vai começar. A luz de freio do ônibus se apaga e o motorista começa a arrancar para eu perceber que ele não tinha parado para mim. Antes que ele se vá totalmente, abro a mão e desfiro um golpe perfeito sobre a lataria oca da parte de trás do veículo. O estrondo não só atrai os olhares do vendedor de balas, que cochilava sob a marquise, mas serve também para o motorista frear.
A irritação é tanta que enquanto ando em direção à porta do ônibus penso nos pedidos da minha amada para relaxar. Minha fisionomia e o vigor do tapa na carroceria, porém, já denunciavam meu grau de irritação. Entro no coletivo e me deparo com uma motorista com um semblante de espanto. Viro os olhos e encontro o trocador igualmente assustado e levantando rapidamente para pegar meu dinheiro. Todos os passageiros me encaram com silêncio.
Calado e com cara de poucos amigos, me jogo no banco do ônibus e penso que realmente devo estar assustador. Gordo, cara de sono, cabelos desgrenhados, uma camisa preta com um Garfield fazendo careta e com as mangas rasgadas, a imagem de um ser estranho tatuada no braço esquerdo, short azul todo ferrado e havaianas. “Saudade da minha noiva. Com certeza ela estaria aqui rindo disso tudo e me fazendo rir”.
Exausto moralmente e fisicamente, abro a porta de casa e a pequena febril abre os braços e o sorriso em minha direção. Não está mais quente como antes. Saco o termômetro cor-de-rosa novamente. Não confio no resultado e apelo para outro termômetro, sem grandes tecnologias e mais convencional. A febre baixou.
“Pai, vamos ver o George novamente?”. As palavras em meio às gargalhadas do irmão adolescente e os olhinhos pidões da caçula me fazem achar graça da saga notívaga a qual tinha acabado de me submeter. Me fazem lembrar de outras aventuras de madrugada por conta do primogênito. E me fez ter certeza que faria tudo novamente. Inclusive, ver mais uma vez o Brendan Fraser se espatifar contra uma árvore.

18 de abr. de 2008

Crise de identidade


A mãe da Nina, amiga e colega de sala do Antônio, ambos com quatro anos, me contou a seguinte estória.



A professora disse:

- Francisco, você é um ser humano.

Francisco, contrariado, respondeu:

- Não, tia, eu sou Francisco.

Alguns segundos de silêncio e a professora perguntou se alguém gostaria de explicar.

Achou que, da boca de um amiguinho, a explicação sairia mais plausível.

Antônio levantou a mãozinha:

- Fran, todos nós somos seres humanos.

Ah, agora sim.

A aula pode continuar.



Foto: O menino maluquinho, tirada por Antônio