Vou seguir o tema das últimas postagens e continuar na música. A homenagem, dessa vez, é pra Vinícius de Moraes, e graças ao meu filho Antônio. Ontem, depois de cantar "A casa", "O ar (O vento)" e "O pato", ele me disse:
- Mãe, quero conhecer Vinícius de Moraes e Toquinho.
Inocentemente, respondi:
- Filho, Vinícius já morreu.
Passada uma hora e meia de tristeza (parecia ter perdido um avô querido) e só depois que prometi mostrar a ele alguns vídeos em que Vinícius aparece, Antônio resolveu o problema:
- As pessoas aqui no Brasil não sabem, mas Vinícius não morreu, ele agora mora na China.
Em nossa pesquisa no Youtube, além do musical "A Arca de Noé", exibido pela Rede Globo em 1980, encontramos este curta sobre o poetinha, feito por Fernando Sabino e David Neves, e lançado recentemente em DVD (Encontro Marcado com o cinema de Fernando Sabino e David Neves) pela Biscoito Fino:
12 de out. de 2008
Dia das Crianças (homenagem a Vinícius)
8 de out. de 2008
Diálogos de campanha (ainda no 1º turno) - e uma pergunta
No sacolão volante, estacionado na Pacheco Leão, Horto.
_ Esse Crivella não pode ganhar.
_ Ah, não mesmo. Não voto nele de jeito nenhum, aquele povo evangélico...
_ Você vai votar em quem, então?
_ Ah, eu voto naquele menino, ele é muito bom, honesto.
_ Quem, o Eduardo Paes?
_ Não, no Gabeira, ué.
Numa janela da São Clemente. Uma carreata do Molon passava na rua, com quase ninguém atrás. E a menina Sofia, de 2 anos e 10 meses, pergunta:
_ Mamãe, o que aquele moço tá fazendo em pé no carro, dando tchau?
*****
A pergunta: vocês acham que as fotos do "menino" Gabeira de sunga podem tirar votos do candidato verde?
29 de set. de 2008
Diálogo entre pais e filho
- Pai, quero ser rico e famoso.
- Pra que, meu filho? - responde o pai, desanimado.
- O Zico é rico e famoso.
A mãe escuta ao longe e se mete na conversa:
- Filho, pra que ser rico e famoso se tem tanta gente pobre, tanta desigualdade nesse mundo?
- Ah, então tá, mãe. Quero ser pobre e famoso.
...
5 de set. de 2008
Navalha na carne

Serginho chegou para sua mãe com a boca pingando sangue. Grita grita chora berra. Dona Alice se espanta. O que foi, meu filho, como isso aconteceu?
Grito choro soluço berro berro.
Dona Alice leva Serginho pro banheiro. Lava lava lava lava língua. Sangue pinga vaza escorre. Sabão não, mãe, o gosto é ruim. Lava lava. Que corte é esse na sua língua, meu filho?
Dois talhos fundos, no sentido da largura.
É que a vovó me falou que eu estava dizendo uns palavrões muito cabeludos, explicou Serginho muito envergonhado. E aí fui raspar a língua pra não ter perigo de engolir cabelo.
Ah, meu filho -- disse a mãe, compreensiva -- Você não pode fazer isso, que machuca! Da próxima vez, chama a mamãe que ela faz com cera quente!
Ambos se abraçam.
4 de set. de 2008
Meu irmão nadou no rio
Ando nostálgico nesses últimos dias. E tenho pensado muito no meu irmão, que é quase dois anos mais velho que eu – ele fez 33 em Agosto. Nunca fomos grandes amigos, andávamos em bandos diferentes. Ele sempre andou na rua, eu brincava no quintal. Ele não levava a escola a sério, eu me matava de estudar. Ele tem os olhos azuis, os meus são castanhos.
Não nos vemos com tanta freqüência e conversamos menos do que eu gostaria. Ele está no segundo casamento e, apesar de jovem, já tem quatro filhos. Somos os primos mais velhos da parte materna, que é numerosa. Para os pequenos, ele sempre foi exemplo de bravura, esperteza e malandragem. Eu era o contraponto: ensinando a falarem direito, a se portarem com educação e darem atenção aos livros.
Demorei quase 30 anos para perceber, mas hoje sinto que tenho grande admiração pelo meu irmão. Ele fez coisas que eu gostaria de ter feito. Viveu a infância e parte da vida adulta sem tanta preocupação. Hoje está bem, com trabalho estável. É um pai responsável e amigo, cuida bem das duas famílias. Sempre me teve como exemplo, porque eu estudei, me formei, vim morar na cidade grande. Se achava inferior.
Com algum tempo de atraso eu vejo que ele me serve como exemplo também. Me orgulho de tê-lo tido sob o mesmo teto durante quase 18 anos. Aprendi muito com ele, embora o achasse um irresponsável. No fundo eu tinha um pouco de inveja. Às vezes me arrependo de ter sido tão certinho o tempo todo.
O que me desperta ainda mais admiração foi um fato ocorrido há muito tempo atrás: meu irmão nadou no Rio Paraíba do Sul. E em época de cheia. Várias crianças já haviam se afogado tentando a façanha. O rio é traiçoeiro e cheio de poços. Mas meu irmão pulou ali. Não teve correnteza, não teve água barrenta que o ameaçasse. Apanhou, ficou de castigo, foi repreendido por toda a família. E apesar do choro tinha sempre escondido um riso gostoso e sonoro dentro de si. Meu irmão nadou no rio!
3 de set. de 2008
Braço quebrado
O mais interessante – e contraditório – é que, apesar do medo de me machucar, não sofro quando penso nas fraturas da infância. Porque não foram acidentes graves, nada relacionado a automóveis ou travessuras dentro de casa. Nas três vezes em que me machuquei, estava brincando no quintal, lá em Barra do Piraí.
Na primeira, fui imitar meu irmão, um exímio trapezista de árvores. Ele, maior que eu, se pendurava nos galhos do limoeiro – no jardim da igreja - fazendo balanço com o próprio corpo. Eu, menor que ele, ia atrás. Só que uma das tentativas teve conseqüências mais dolorosas: caí. A segunda vez também teve árvore envolvida: a amendoeira lá de casa. Incorri no mesmo erro: imitar o meu irmão. Caí.
Na terceira, eu queria voar, como o Super Homem. Em vez de árvore, escolhi outro meio de transporte: o balanço da casa de uma prima. No vaivém, cada vez que a cadeirinha chegava no ponto mais alto, me jogava lá de cima. Numa dessas o Super Homem veio ao chão, e de mau jeito: era mais uma fratura. Nunca esqueço a sensação boa do vento no rosto a cada pulo. E da sensação ruim da dor e do pânico ao ver o inchaço: “Mãe, não quero ficar com braço torto!”.
Eu era criança, então o gesso implicava em certas conseqüências interessantes. As provas na escola, por exemplo, eram orais. Com o calor – os acidentes aconteciam no Verão – dava coceira, que eu aliviava com as agulhas de tricô da vó. Os amigos e primos desenhavam e escreviam bobagens no gesso. Eu tinha que comer com a mão esquerda. E tentava, a todo custo, escrever no papel como os canhotos. Sem sucesso. Havia ainda as tipóias, que compunham o figurino.
Meu pai, ansioso, foi quem tirou o gesso todas as vezes, em casa mesmo, com muita água caindo da bica. Horas na função. Eu tremia, tenso, esperando rever o meu braço depois de dias e dias sem contato visual algum. Ele aparecia frágil, mais branco que o resto do corpo, dolorido ainda. Ia aprendendo a movimentá-lo com o passar dos dias. Da terceira vez, precisei de muitas sessões de fisioterapia pra fazê-lo voltar ao normal.
Até hoje carrego a marca das travessuras: meu braço direito não flexiona completamente. No exame para o Exército, bastou uma olhada do tenente pra eu ser dispensado. “Quem aí já fraturou alguma parte do corpo?”, perguntou. “Eu, várias vezes”, respondi. Me livrei do quartel. O fato é que, a despeito de todos os inconvenientes de quebrar um braço – e do medo que me ronda ainda hoje - só tenho boas lembranças das minhas fraturas. E, mãe, apesar do seu apoio, não teve jeito: fiquei com o braço torto.
2 de set. de 2008
Se bem me lembro, foi num aniversário que meu pai chegou em casa com um enorme embrulho cor-de-rosa. Fiquei ansioso: o que seria aquele presente tão grande?
-- É uma bicicleta, pai?
-- Que nada, rapaz, muito melhor.
Entusiasmado, comecei a rasgar o papel sem pena. Pedaços voavam para todo lado. Meus pais me olhavam com um sorriso de dever cumprido.
Quando afinal terminei de rasgar o pacote, estranhei aquele anão de rosto laranja e cabelo verde:
-- Que é isso, pai?
-- É um Umpa Lumpa, filhão. Vai dizer que você não conhece? Eu sempre quis ter um quando tinha a sua idade!
Olhei para o anão, que me encarava sério. Ele fedia a cigarro e estava mal barbeado -- as pontas pretas nojentas surgiam por baixo da maquiagem. Olhei para meus pais, que mantinham uma expressão encorajadora e um pouco ansiosa também.
Não queria desapontá-los, coitados.
* * * * * * * * * *
No meu quarto, o Umpa Lumpa estava olhando pela janela com as mãos pra trás das costas. Depois de um tempo bem longo, virou-se e me encarou.
-- O que você tem pra beber aí?
-- Aqui? Nada!
-- Que merda. Tem um cigarro?
-- Não, sou apenas uma singela e meiga criancinha!
O Umpa Lumpa resmungou e cuspiu pro lado. Escuta aqui, ele disse. Vou sair pra comprar uns cigarros e tomar umas cervas. Tu fica quieto aqui e não me enche o saco.
Obedeci.
Em silêncio, o Umpa Lumpa foi até o quarto dos meus pais e pegou a chave do carro. Olhou pra mim com uma cara ameaçadora e saiu.
* * * * * * * * * *
Mais tarde (já era madrugada), meus pais entraram no meu quarto. Minha mãe não chorava, berrava como um bezerro sendo castrado. Acordei assustado:
-- Que foi? Que foi?
Minha mãe não conseguia falar. Meu pai ficava quieto, mudo, os olhos bem abertos como se quisesse ver através das cortinas. Então ele falou, sem me olhar nos olhos:
-- O Umpa Lumpa, meu filho. Ele morreu.
-- Hã?
-- Ele morreu, meu filho. Batida de carro. Parece que estava bêbado. Tinha mais alguém com ele. Parece que eram... prostitutas.
-- ...
-- Como você faz isso, garoto? Como você deixou ele sair de carro sozinho, e ainda com vagabundas? Aposto que isso é influência sua!
-- Mas eu...
-- Seu irresponsável! Agora levanta, seu moleque! Você vai com a gente no IML!
Minha mãe berrava, uivava, gritava, gemia. Meu pai me empurrava pra me vestir. Estava começando a não gostar daquele presente.
* * * * * * * * * *
Chegamos ao IML pra fazer o reconhecimento do corpo. Quando meus pais viram aquela peruca verde começaram a chorar. Minha mãe tremia. Meu pai mantinha a cabeça baixa, as lágrimas rolando por seu rosto em silêncio.
O enterro foi no dia seguinte. Vários outros anões laranja de cabelos verdes foram à cerimônia. Eles cantavam
Umpa
Lumpa
Dumpa-di-du
E a música continuava, mas eu não entendia nada. Quando o caixote foi finalmente enterrado, eles simplesmente sumiram por entre os túmulos. Em seguida, meus pais me arrastaram até o carro. Eles não falavam mais comigo.
O silêncio durou dias, até que resolvi perguntar a meus pais o que eles queriam que eu fizesse. Não disseram nada; simplesmente me deram a peruca verde. Desde então, pelo menos uma vez por semana, tenho que me vestir de Umpa Lumpa pra eles. Minha mãe sempre chora e meu pai, suspirando, diz: "Aquele sim, faz uma falta."
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agradecido pelo convite, senhoras e senhores. espero poder colaborar no que for possível.
27 de mai. de 2008
O CAROÇO E A ANDORINHA- Uma história infantil para usar o dicionário...
Acéfalo abstraído do absurdo
Acabrunhado em sua casca,
em pouca polpa envolvido.
Acaule acautelado,
Permaneceu no chão escondido:
_O caroço!
Ouviu dizer de um moço:
_ Nem todo caroço que cai na terra vinga!
Berrou o caroço:
_Eu vim, eu vingo!
Açambarcando todo o terreno.
Ia crescendo o caroço,
sem caule nem raiz.
continuava sempre....
caroço!
Era duro feito osso,
Acastanhado liso
Sem destino e sem juízo
Era acatado, respeitoso
O gigantesco caroço
de acelerado crescimento
era já um monumento,
agora mais duro que cimento!
Colossal caroço tornou-se uma ameaça
Dia a dia ele crescia
Acolá, a cidade era engolida
Era prédio, casa e avenida
Para tanta aberração
Ninguém tinha explicação
Botânicos vinham do mundo inteiro
Gastavam tempo e dinheiro
Chamou-se pois, um batalhão.
Era preciso conter essa expansão.
_Uma explosão! Disse o capitão.
Mil megatons e um caroço que continuava caroço.
A cidade assustada
não conseguia pensar em mais nada.
Chegou então, o verão
Vieram com ele as aves de arribação:
As pequeninas andorinhas em peregrinação
Feito o caroço, um mistério!
Tomavam o que restava da cidade
Em toda parte uma andorinha
Aos milhares iam e vinham
Atrás de suculentos insetos incertos
Desprevenida , certa andorinha perseguia o seu almoço:
_Um gafanhoto gordo.
No ar ele fez um giro
desviando-se do caroço.
A andorinha, coitada!
Chocou-se de bico com o colossal caroço
A Potente pontiaguda córnea proeminência
Rachou sem ponderar a sua excelência:
_O caroço.
Frutas de todo tipo saíram do Colosso
Atemóia, manga, cajá
Maracujá, caju, melancia
Banana, morango, maçã...
Alimento de sobra pra homem e pra pássaro.
Fartando a todos sem desembaraço.
O que restou do caroço gritou:
_ Vinguei!
9 de mai. de 2008
Chegada da escola
22 de abr. de 2008
Aventuras paternas
18 de abr. de 2008
Crise de identidade

A mãe da Nina, amiga e colega de sala do Antônio, ambos com quatro anos, me contou a seguinte estória.
A professora disse:
- Francisco, você é um ser humano.
Francisco, contrariado, respondeu:
- Não, tia, eu sou Francisco.
Alguns segundos de silêncio e a professora perguntou se alguém gostaria de explicar.
Achou que, da boca de um amiguinho, a explicação sairia mais plausível.
Antônio levantou a mãozinha:
- Fran, todos nós somos seres humanos.
Ah, agora sim.
A aula pode continuar.
Foto: O menino maluquinho, tirada por Antônio

