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7 de nov. de 2008

Capitalismo selvagem II

“Os bancos brasileiros estão se preparando para novas fusões depois do anúncio da união entre Itaú e Unibanco”, destaca a edição desta sexta-feira do jornal britânico Financial Times.

De acordo com o periódico, as condições são propícias pois "o Brasil tem cerca de 150 bancos, muitos deles de pequeno porte e concentrados em uma única linha de negócios como empréstimos para a compra de veículos ou ligados a folhas de pagamento, áreas que cresceram depressa seguindo a criação de empregos e aumento de salários".

O artigo ressalta que o Banco do Brasil, que até antes da fusão Itaú / Unibanco era maior do país, e o Bradesco, que já foi o maior banco do setor privado, deverão buscar aquisições muito em breve.

Foto: Marcelo Valle

5 de nov. de 2008

I have a dream

Martin Luther King venceu as eleições estadunidenses de 2008. Simbolismos à parte, é esse o principal motivo de celebração: a derrota da contracultura do racismo em um país que há tão pouco tempo assassinou líderes que pregavam a igualdade.

Se fosse uma cidadã estadunidense legalmente reconhecida pelo Estado, latina, também votaria em Obama. Não por ser ingênua a ponto de acreditar que o simbolismo de ter à frente da presidência um negro, descendente de imigrantes, mudará a política do Tio Sam com os países emergentes. Obama provavelmente não assinará o protocolo de Kyoto, não destruirá os muros (físicos e imaginários) que apartam os Estados Unidos do “resto” da América Latina, não deixará de pôr em prática a política imperialista na Amazônia, não vai retirar o apoio ao holocausto palestino.

Em todo caso, a eleição de Barack Obama é onde mais longe a sociedade americana conseguiu chegar.

4 de nov. de 2008

Capitalismo selvagem


Do que riem aqueles que anunciaram, ontem, a fusão do Itaú e Unibanco? O que representa, para o bolso da maioria da população, esta velha fórmula do tubarão que engole os pequenos peixes para ficar mais forte e garantir a expansão dos lucros capitalistas? Agora, cinco bancos controlam 74% de todos os depósitos no país. Alguém duvida que esta promíscua concentração vai incidir, diretamente, na prestação de serviços e juros, já elevadíssimos, cobrados do brasileiro? Como argumento de defesa, os banqueiros alegam que a fusão fortalece o setor bancário e que, em algum momento, isso será revertido em benefício para a população. Qualquer semelhança com a velha fórmula de “fazer o bolo crescer, para dividir depois”, não é mera coincidência.
Foto: Marcelo Valle

14 de out. de 2008

Economia do Pânico

A edição do New York Times de hoje traz uma matéria interessante sobre a atual crise capitalista. Os tradicionais monstrinhos e bruxas do Halloween, usados amplamente para vender, vender e vender tralhas da economia do pânico, foram substituídos por frases de efeito conclamando os estadunidenses a, quem diria, continuarem comprando em plena bolha imaginária de crédito. Sentenças como “Faça uma economia monstruosa” e “Ofertas assustadoras”, de acordo com a reportagem, são as preferidas dos anunciantes.

13 de out. de 2008

Parem as rotativas! A crise chegou

Cento e oitenta jornalistas acabam de ser demitidos do jornal mexicano El Centro. Notícia fúnebre fresquinha, que chegou há cinco minutos via tecnologia yankee, direto da redação latina que vai fechar as portas. Do aquário veio a sentença: como resultado da crise estadunidense, o jornal já não tem recursos para comprar papel – artigo de luxo para bolsos latinos pilhados, cujo preço disparou nas últimas semanas.

11 de set. de 2008

11 de setembro

- Mamãe, o que é comunismo?

- América Latina, minha filha, comunismo é quando você se descobre que seus mortos não estão menos mortos que os mortos deles.

VÉU – Breves errâncias da mente de uma noiva 15 dias antes

sou concatenação de saudades
que paira
sobre o ventre
com duplicidade única
debulhada em teu sexo em flor

15 de ago. de 2008

Notícias Latinas - 13/8/2008

O ex-bispo católico Fernando Lugo, 57, assume hoje a presidência do Paraguai. Calejados por duas guerras internacionais e 62 anos de Partido Colorado no poder, os paraguaios aguardam, esperançosos, pela revolução. A conferir.

***

Censo americano revela que, em 2042, negros, latinos, asiáticos e outras minorias vão suplantar a população branca nos Estados Unidos. Em 2050, de acordo com a pesquisa estadunidense, serão 46% brancos não-hispânicos, 30% hispânicos, 13% negros, 8% asiáticos e 5% de outras origens residentes no país.

***

A CNI (Confederação Nacional da Indústria) argumenta que a ampliação da licença-maternidade para seis meses "sacrificará" a competitividade da indústria brasileira. "Não é dureza de coração, mas quatro meses de licença-maternidade estão de bom tamanho", afirmou o presidente do Conselho de Relações do Trabalho da entidade empresarial, Francisco Gadelha.

7 de ago. de 2008

Maldita


maldita mania essa de trabalhar com as letras
no início achava que brincava
mas me perdi entre gretas
e hoje sou sua escrava

no início maldita escrava
me perdi com as letras
essa mania de trabalhar entre gretas
achava hoje que brincava

e me achava entre gretas
mas hoje perdi sua escrava
mania de trabalhar e brincava
no início sou maldita entre letras

24 de jul. de 2008

Brincadeira com Clarice


“Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria – e não o que é.”

De Felicidade Clandestina, Clarice Lispector. Rocco, 1971.


E eu que, plena de arrogância, achava que já tinha lido tudo de Clarice, há exatos sete dias descobri o visceral conto “Perdoando Deus”. Desde então, rezo para dar de cara com um rato de esgoto.

22 de jul. de 2008

Coordenadas


Para mim, a Terra sempre foi plana. Foi e continua sendo. Nós é que estamos girando. Uns mais que outros, dependendo do grau de crença nas convenções. Tampouco creio em direita e esquerda. Desde cedo aprendi a desconfiar dos pontos de referência. Graças ao meu aguçado e desorganizado senso de direção, sempre paro 350 graus além de onde deveria estar. Tentei dançar, para ver se coordenava, mas descobri que quando se dança o corpo avança em círculos disformes, também sem qualquer referência. Até que, dia desses, fui avançando de rua em rua, pelo centro da cidade, até que cheguei muitos graus além de onde deveria chegar. Olhei ao redor e não havia mais ninguém, além de um ninguém coberto por um cobertor de farrapos e seu vira-lata. Perdida, recebi a referência que precisava para me coordenar por toda a vida: “Vá por onde o corpo mandar. Quem nunca se perdeu, não há de desperder-se”.
Foto: Marcelo Valle

13 de jul. de 2008

VÉU – Breves errâncias da mente de uma noiva, 75 dias antes

Quando homem e mulher dormem juntos, entrelaçados, os sonhos pairam frenéticos sobre os corpos, sem saber onde pousar.

Um par de pés deve cobrir o outro par de orelhas, para que cada sonho encontre seu respectivo dono.
Deve-se doar como mulher e receber como menina. Receber o sonho e a coisa toda, que em cinza até então dormitava.

E depois se reacender inteira, em ondas de corpos que vem e vão.

3 de jul. de 2008

Semente de conto - O LIBERTADOR

Enquanto a multidão tricolor se equilibrava sobre os braços das cadeiras, maldizendo o pescoço pequeno demais para alcançar o gramado, ele permanecia sentado, cabisbaixo, com as mãos espalmadas sobre o chão. Sentiu o cheiro da fumaça dos fogos de artifício, brincou com o vapor de pó de arroz que envolveu sua nuca, segurou o peito ao ouvir o forte apito inicial. As cadeiras todas rangiam ao mesmo tempo, com o incansável trotar de 160 mil pés. Se agarrava como podia ao chão já lavado de suor e cerveja, rei absoluto da área do Maracanã que se via desde abaixo do joelho. Apesar de extasiada com o espetáculo tricolor, uma força maior, quase mágica, atraía meus olhos em direção a ele. Trinta segundos antes do gol adversário ser anunciado, ele soltou um urro de desespero. Logo em seguida, a multidão o acompanhou. Na tentativa de driblar a dor pela inesperada ameaça de derrota, afastei os olhos do gramado e comecei a assistir ao espetáculo pelos olhos dele. E vibrei, em insana euforia, trinta segundos antes do primeiro gol tricolor e outros trinta antes do segundo. Emocionada, lancei-me também ao chão, que se movia tal qual mar revolto. Esperava com a ansiedade da criança que aguarda o presente de Natal o celebrar precipitado daquele humilde profeta, coberto por uma bandeira rasgada e quase incolor. Trinta segundos antes do terceiro, chorei de felicidade, abraçada aos meus, pedindo a Deus um último vibrar profético daquele santo libertador. Mas trinta segundos antes da partida terminar, ele tirou os óculos escuros e exibiu duas pupilas enxarcadas e tão brancas quanto a sigla do Fluminense estampada na velha bandeira.

1 de jul. de 2008

Semente de conto - O CAPITAL

Onze da noite e ela ali, depois do turno de oito horas oficiais e duas extras. Úlcera dormindo tranqüila do lado esquerdo do estômago, biscoitos amanteigados, nona xícara de café do dia. Digita. Digita. Digita. Lá pela décima oitava página do relatório, sentiu a ponta dos dedos pesarem. Levantou, as costas doíam. Fez e refez os exercícios para a tendinite que o fisioterapeuta lhe ensinara. Pulso pra cima, pulso pra baixo. Pulso pra baixo, pulso pra cima. Digita. Digita. Digita. Sentiu os dedos ainda mais pesados, e quando arriscou uma tecla, as letras afundaram todas de uma vez. Quis esconder as mãos gigantescas atrás das costas, mas os dedos avançaram pelas pernas, desceram pelas coxas e tocaram o chão. Ainda assim, passou desapercebida entre os colegas hipnotizados pela tela do PC. Boa noite. Boa noite. Boa noite. Decidiu voltar caminhando para casa, uma bolsa de água quente certamente amenizaria o inchaço. Ou talvez devesse ir ao médico no final da semana, faltavam ainda muitas páginas do relatório para concluir. Atravessou a rua o mais rápido que pode, mas lhe faltaram as forças para carregar o mindinho. O dedo foi atropelado por um motoqueiro, que o confundiu com uma lombada. Se um cara manda no Brasil com nove dedos, pensou, eu posso muito bem bater um relatório sem um mindinho. Faltavam apenas duas ruas para chegar ao apartamento, onde ninguém lhe esperava, mas mal conseguia se locomover. Um vira-lata ladrou assustado com o polegar que destruía o asfalto por onde avançava. Logo vieram os outros cães que se fartaram com a carne exposta da palma das mãos. Caiu na esquina, entre latões de lixo e muros grafitados. Acordou rodeada por populares, que com facões e tesouras arrancavam o que faltava da mão, que crescera durante a madrugada e já ocupava todo o bairro. Dez mil novas barraquinhas de churrasco foram armadas em toda a cidade. Não sentia dor, apenas agonia por não ter acesso ao PC. Pediu uma caneta e um bloco de papel a um senhor que cortara a terceira falange do seu indicador. Arriscou um E, logo um P, e em menos de duas horas já aprendera a escrever o alfabeto todo com o pé direito. Trigésima terceira página do relatório, o dedão do pé começou a inchar. Escreve. Escreve. Escreve. O asfalto da rua logo cedeu, caíram os populares, as barraquinhas de churrasco, as casas, os prédios e as lápides.
Foto: Marcelo Valle

24 de jun. de 2008

Indiferença

Compa, chegou o inverno. Parece que a saudade tem termômetro, aumenta sempre que a temperatura cai. Saudade das suas idéias rasuradas sobre os restos do café da manhã, que costumavam tomar todo o apartamento, como cheiro de pão fresco no forno. Desde que te escrevi pela última vez, Ernesto ganhou sete centímetros. Está cada vez mais inquieto, como nós quando jovens. E tem aquele quê de temerosidade, que faz bem a todo revolucionário que não entrega a vida à toa. Não sei se por precoce sabedoria ou mania de perseguição, o menino inventou agora que uma nova ofensiva estadunidense está por vir. Diz ele que depois que levou bomba no Iraque, os americanos do Norte perceberam que tinham deixado os americanos do Sul livres de mais. Tão livres, que o inimaginável aconteceu: os movimentos sociais, com forte poder de persuasão popular, chegaram ao poder por via democrática. E parece que só agora Bush se deu conta de que os índios estão no poder. Ouviu bem, compa? Os índios estão no poder! A TV transmite, o jornal alardeia, mas não é curioso como exatamente quando conseguimos aquilo pelo qual lutamos há séculos, não temos forças nem para comemorar? Ou estão todos surdos ou não estão mesmo entendendo os avanços que conquistamos nos últimos anos. Talvez não seja – não é – exatamente como pensamos, mas, o menino está certo, melhor uma democracia construída por nós que uma outra imposta por eles. Há quem diga que o que está acontecendo aqui em baixo, no quintal, é fascismo. Acho que fascismo foi só um termo reinventado para dar nome aos esquemas de controle latino-americanos. Quando são os estadunidenses quem controlam, o fascismo recebe nome de democracia. Mas não tem jeito. Ernesto está com medo da contra-ofensiva e por isso tenho enjoado mais. Tento acalmá-lo, dizendo que não é a primeira vez, mas o menino está inconsolável. Quando o temor aumenta, rezo muito, para não sermos engolidos pelo fantasma da indiferença, nem sermos levados por esse discurso de que os nossos líderes indígenas são neoterroristas. Aí chegam as notícias sobre os confrontos diretos com as oligarquias na Bolívia? Falam de confrontos militares pesados, com prenúncio de um novo massacre, que certamente não será noticiado. Nunca sei em quem acreditar, não se escreve mais nas entrelinhas. Não sou mais a favor das armas, vou ser mãe. Mas também não acredito em democracia real sem luta, nem em comunhão com o neoliberalismo. Trata-se de tornar o mundo desconfortável para eles, assim como estou agora.

*Foto de Marcelo Valle

18 de jun. de 2008

Caroços no JB




Os coleguinhas Júlio Calmon e Anna Carolina Braile, do Jornal do Brasil, encheram esse caldo virtual de caroços na coluna BlogD, da Revista Domingo!




16 de jun. de 2008

Desesperançar


Depois de tanto tempo, cá estou eu, mãos trêmulas outra vez. Sei que nunca fui das mais fortes, mas agora voltou, ainda mais intenso, aquele medo absurdo de desesperançar. Espero que por aí as coisas estejam melhores, aqui está uma calmaria de dar dó. Outro dia revi nossas fotos, mexi naqueles livros... Ainda tenho as cinzas daquela réplica do Consenso de Washington, que queimamos em Porto Alegre. Mas rasguei aquelas fotos do México. Fraquejei, compa. Foi na noite em que resolvi ser propriedade privada. É, vou mesmo me casar. Juro que tentei resistir, mas não deu depois de ver tantos caírem. Porra, será que ninguém está vendo isso tudo? A defensiva acabou, querido. Ninguém resiste mais. Estou grávida. Grávida de um menino de nome Ernesto. Às vezes, quando ele está muito agitado, canto a Internacional Comunista pra ele ninar. Tão pequeno e já odeia o Pinochet, o Reagan, a Thatcher, o Blair, o Fujimori, o Menem, o FHC, o Bush...Conversamos muito, já que só posso falar dessas coisas para dentro. E ele, que só conhece o Lula corrupto e o Chavez guerrilheiro, não entende que a esquerda está passando pela mesma fase que ele, de gestação. Você também não acredita nisso? Vencemos contra aqueles ortodoxos neoliberais. O que está acontecendo agora é mero acidente de percurso. Não dá pra negar tantos avanços sociais. Sem falar na economia, no Banco do Sul, da adesão da Venezuela e da Bolívia ao Mercosul. Estamos ganhando peso, sei que estamos. E o tal do Lugo, o paraguaio? Confio nele, tem olhos de verdade, um semblante apaixonado. Quem sabe essa onda chega logo a El Salvador. Mas Ernesto não acredita. Nem ele, nem a geração que veio depois de nós. Quanto tempo temos ainda? Precisamos, compa, de uma ação enérgica com resultado imediato para cativar os de vinte e poucos. E aí a reação vem em cascata. Não vem? A velha direita, que não sei de onde tira tanta força pra resistir, agora voltou a usar o argumento da corrupção e da falência do Estado. Como se o capitalismo fosse auto-suficiente e eles não fossem os maiores corruptos de toda essa História. Filhos da puta. Gosto nem de pensar nisso, começo logo a enjoar. Será que estão todos grávidos? E você, querido, nunca pensou em ter uma família privada, só sua? A sensação é boa, mas dá medo. Medo de desesperançar.
*Foto de Marcelo Valle

6 de jun. de 2008

Semente de Conto - EPIFANIA TRICOLOR



Quatro minutos do primeiro tempo. As oitenta mil cabeças submersas na forma oval assistiam, extasiadas, ao vaivém de bolas amarelas no gramado. As mãos se encontraram na tentativa de alcançar o balão vermelho. Veio a nuvem de arroz e ele lhe ofereceu a camisa para proteger o rosto. O suor brotou farto pela testa até alcançar a virilha. A bandeira tricolor desceu inteira sobre os dois, protegendo-os de si mesmos. Doze minutos do segundo tempo. Inconsolável, ele caiu. Ela lhe devolveu a camisa, cobriu suas costas com as mãos. Os seios roçaram o braço direito. As pernas trepidaram e as línguas se encontraram. Dezoito minutos, gol de Washington. Os mamilos encontraram o peito de frente. Morderam-se os lábios em profano silêncio. Nova nuvem de arroz e o corpo inteiro ficou anestesiado. Vinte e seis do segundo. Conca, Conca, Conca, e as mãos encobriram toda a cintura, dedos já na altura do ventre. O espaço entre o vão das pernas dele ganhou forma, ela ardia por dentro. Faltou-lhes o ar. Quarenta e sete. Dodô! O manto tricolor caiu sobre as cabeças e se amaram ali, na íntima comunhão de um Maracanã lotado.

3 de jun. de 2008

Caso Jornal O Dia 3

Enquanto a maioria alardeia, mui justamente, a tortura sofrida pelos nossos bravos colegas do jornal O Dia por inescrupulosos policiais, peço vênia para desviar um pouco o olhar para dentro de casa; mais especificamente para os aquários, onde engravatados comandantes da comunicação lançam, diariamente, centenas de operários das letras na cova dos leões. Com redações cada vez mais enxutas e a necessidade crescente por pautas sensacionalistas, a nobre função de ser “os olhos e ouvidos da sociedade” se converteu em uma atividade suicida.

Jornalismo investigativo de qualidade requer tempo, dinheiro, infra-estrutura e profissionais preparados. Mas os comandantes, que certamente nem por um milhão de euros se embrenhariam em uma favela dominada por milícias, optam sempre pelo caminho mais rápido: convencer apaixonados pela profissão a conseguir a manchete do próximo domingo em troca do pão no fim do mês. É isso ou rua.

Há quem diga que práticas como essa são inevitáveis em uma atividade como a reportagem. Mas nem o mais cruel comandante enviaria um soldado sozinho e sem suporte para o campo de batalha. O que se questiona aqui não é, em absoluto, a realização de matérias investigativas, que denunciem os algozes da sociedade. Mas a falta de segurança profissional para quem ainda tem coragem e paixão para exercitar o que, de fato, é jornalismo.

28 de mai. de 2008

Semente de Conto - ARACY




Não sei como nem quando essa mulher me dobrou desse jeito. Mal me fita nos olhos, sempre com ar de soberana, nem modos têm. É sempre o que ela quer e na hora que quer. O corpo é uma tábua, nem sinal de cintura. Esnoba meu CD do Chico, meus amigos, meu Botafogo! E eu, feito bobo, volto correndo pra casa, deixo serviço por fazer, dispenso a cerveja com os amigos, só para estar com ela. Horas e mais horas de sono perdidas, contemplando o sono dela. Deus, o que será de mim quando ela completar um ano?