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22 de set. de 2008

Um dia...

...a cura da calvice era simples...



...homens peludos eram um must.



 Antes do botox os cosméticos Mary Quant proporcionavam lábios sedutores.


Ainda não tinham inventado a esteira ou a bicicleta ergométrica...




...e ser magrela não era nada atraente.




Família unida...



...atira e vai pra cama unida!



Um dia, o cubo mágico foi novidade.


Fonte: flickr

13 de set. de 2008

Na sola dos meus pés


Estive em Olinda na semana passada. Impregnada pela preguiça que toma conta da gente naquele lugar, só transcrevo agora anotações do meu caderninho:

"Parece que as memórias das ladeiras da cidade-patrimônio ainda estão sob meus pés. Quando acho que estou perdida, reconheço nas lojinhas, esquinas, placas e calçadas o caminho de volta. Mas quem está interessado em se encontrar quando o melhor é se perder?"

22 de ago. de 2008

Obituário de um sobrevivente

Outro dia, em uma conversa com uma amiga minha da mesma faixa etária (quando começamos a usar faixa etária em vez de idade é claro sinal que estamos ficando velhos), começamos a relembrar coisas da infância e da adolescência. E chegamos a uma conclusão: o pessoal da minha geração sobreviveu, literalmente.

Tudo bem gente, confesso que nasci no então Estado da Guanabara, nos Anos de Chumbo e na meia-vida do AI-5. Assisti a Máquina Tricolor em ação e me tornei Fluminense ao ver o Rivelino entortar a zaga do Vasco. No Maraca, a gente bebia Coca-Cola de máquina e Mate Leão naqueles latões, e ainda comia cachorro quente do Genial, cuja salsicha ficava exposta ao calor de 40 graus. Tudo sem qualquer fiscalização da Vigilância Sanitária. Lembro-me de quando Elvis morreu (mas será que ele morreu mesmo?). Lembro-me quando Cartola, Carmem Miranda, Vinícius de Moraes, Elis Regina, Cecília Meirelles e Garrincha morreram...
Vi pela televisão o Brasil ser campeão moral da Copa da Argentina e o ursinho Micha chorar nas Olimpíadas de Moscou. Joguei Telejogo (o primeiro videogame vendido no Brasil, da Telefunken!) e tomei Ki-Suco, um suco em pó mais artificial que Tang. E chupava balas Banda e Soft, que tinha um formato condenado e amaldiçoado por médicos, pois grudava no meio da garganta e fechava a glote. Mesmo assim, era vendida em qualquer cantina de escola ou barraquinha. Acompanhei o noticiário sobre as bombas na OAB e do RioCentro e comecei a achar que o SNI me vigiava e tinha minha ficha completa.

Pulei de alegria ao ganhar meu primeiro Autorama usado e adorava brincar de bolinha de gude no canteiro do Metrô perto de casa, repleto de ratos e sem qualquer fiscalização. Aliás, os brinquedos da nossa época não tinham qualquer selo do Inmetro e a gente se amarrava em beber a água do Aquaplay, que não tinha qualquer vedação. Cantei o hino nacional todos os dias no colégio. Fui advertido e suspenso algumas vezes na escola por desenhar uma foice e um martelo no quadro-negro. Usei Kichute para jogar bola, com aquelas travas de borracha que eram um verdadeiro crime contra os ligamentos do tornozelo. Peguei fila no cinema Carioca para ver ET (duas vezes!). Joguei Atari e entrava em rios já imundos para pegar pipa. Aliás, para fazer cerol, moía vidro na linha do trem, já que os muros eram mal conservados e qualquer um podia entrar na via férrea...

Comia sem medo os quitutes que a gente ganhava de desconhecidos no Dia de Cosme e Damião. Vivi a expectativa de uma Terceira Guerra Mundial e me assustei com o filme “The Day After”. Lembro da inauguração do Sambódromo... Freqüentei o Circo Voador quando ainda era no Arpoador e me amarrava nos shows “fumaçentos” do Celso Blues Boy. Era rato do “original” Noites Cariocas, no Morro da Urca, onde assisti um monte de bandas de BRock começarem e por onde me entranhei na mata para tentar chegar ao morro sem ter de pagar. Assisti ao Bernard dar o saque Jornada nas Estrelas, no Maracanã. Voltei várias vezes a pé para casa sozinho, às três da matina, na maior inocência e tranqüilidade.

Fui aos comícios das Diretas Já! e fiz panelaço na janela da minha casa. Fui escondido ao primeiro Rock in Rio, ao lado do RioCentro. Vi o Tancredo ser eleito pelo Congresso e morrer (ou ser morto) depois. Testemunhei a inflação diária, quando ia ao supermercado e o preço do macarrão estava Cr$ 1,50 (para quem não sabe, isso é cruzeiro) mais caro que no dia anterior e Cr$ 4,00 mais caro que há dois dias. Vi o Sarney baixar o Plano Cruzado e um monte de gente virar “Fiscal” nos supermercados. Vivi a falta de leite e de carne. Aliás, comi carne estragada da Europa e bebi aos montes um leite em pó holandês Vremilk, especialmente importado (as importações não eram liberadas) para suprir a falta de leite, para depois descobrirmos que a região das vaquinhas fornecedoras havia sido contaminada pelo acidente nuclear de Chernobyl.

Passei e levei cristal japonês no olho, que fazia a gente chorar e, por um milagre, ninguém ficou cego. Usei calça amarelo ovo com camisa de manga comprida vinho da OP e dancei new wave peitando os outros na Mamão com Açúcar, Robin Hood Pub, Mistura Fina e Help (antes de virar um puteiro). Vi pessoas dançarem com as paredes no Crepúsculo de Cubatão. Saí na porrada um sem número de vezes no Maracanã, levei bomba de gás lacrimogênio e cacetete da PM. Brinquei com mercúrio puro (que os dentistas davam para a gente brincar!) e essa porra deve estar no meu sangue até hoje. Dei calote em ônibus. Fumei Salem, um cigarro de menta 300 vezes mais cancerígeno que qualquer outro normal, enquanto meus amigos que não tinham dinheiro nem culhão para comprar loló ou maconha, cheiravam benzina e vomitavam depois.

Joguei pedras em ônibus na manifestação popular na Central do Brasil, em 1988. Bebi vodka Natasha, cerveja Malt 90, uísque Passport e caninha Pitu (sim, menor conseguia comprar bebida e cigarros sem problemas). Fui a todos os comícios do Lula no Rio de Janeiro e votei pela primeira vez para presidente, em 1989, sem medo de ser feliz. Chorei com a vitória do déspota de Maceió, com a queda do Muro de Berlim e com a Coca-Cola na China.




Ufa! Sobrevivi...

16 de ago. de 2008



Nos últimos cinco anos, boa parte dos melhores momentos da minha vida tiveram Dorival Caymmi como trilha sonora. É dele a música tema do meu primeiro encontro num certo bar de Copacabana. São deles as canções que embalaram muitas rodas memoráveis, na voz daquele que nasceu com a voz pronta para cantá-las (sou suspeita, mas sincera): Pedro Paulo Malta.

Ai, que saudade das rodas no Bip Bip, em Friburgo, Búzios e tantos lugares especiais onde estivemos, ao lado dos melhores amigos, cantando e louvando esse grande artista brasileiro, que hoje se despede. Façamos uma roda em homenagem!


Viva Caymmi e suas canções praieiras, seus sambas-canções, seus sambas e suas gravuras, que agora enfeitam as paredes da minha casa nova.

26 de jun. de 2008

Muito mais que um sonho


Parecia um sonho. Mas felizmente foi real. Um governo genuinamente socialista encheu de esperança um país e a América do Sul. À frente, coincidentemente mais um médico. Um líder que desejava um governo voltado para a educação, um país independente do capital estrangeiro exacerbado, uma "via chilena para o socialismo". O sonho se tornou mais real quando ele nacionalizou as minas de cobre, que eram brinquedinho de multinacionais, e os bancos. E o incrível: dividia os lucros com os funcionários.
Em sua breve passagem, mais realidades: a inflação caiu, o poder aquisitivo aumentou, a economia também. Tudo em um âmbito democrático e limpo. Foi demais para o império do norte. Na seqüência de horror, corrupção, roubalheira, imundice e assassinatos que varriam o continente, o sonho real se tornou pesadelo. A onda paranóica para servir a interesses do outro hemisfério se fez presente com bombas e homicídios dele, de 7 mil conterrâneos, de um país, de um continente.
Hoje, Allende faria aniversário. A lembrança desta data e deste homem em jornais e sites, porém, comprova que, sem dúvida, não foi um sonho. Foi real. E pode ser real novamente. E está sendo real por aí. Basta não deixar o pesadelo que vem lá de cima fazer crer que tudo não passa de sonho.

18 de mai. de 2008

Quem poderá intervir?



“Planeta: a Terra.

Cidade: Tóquio.

Como todas as metrópoles deste planeta, Tóquio está hoje em desvantagem na sua luta contra o maior inimigo do homem: a poluição. E, apesar dos esforços de todo mundo, pode acontecer que – um dia – a terra, o ar e as águas venham se tornar letais para toda e qualquer forma de vida.

Quem poderá intervir?

SPECTREMAN!!!!”

Era assim que sempre começava um episódio do Spectreman, depois daquela abertura que tinha uma música muito legal (e sobre a qual eu sempre falava: “Quando tiver uma banda, vou fazer uma versão dessa música...”).

Eu devia estar sentado no sofá, tirando meleca e coçando o saco ainda moleque.

Acho que passava na TVS (hoje SBT), ou também passou na extinta TV Manchete... não sei. (Acho que lá era o concorrente... o Ultraman).

Monstros gigantes, cenários toscos, a inconfundível vitória do Bem contra as forças do Mal.

Doutor Gori e sua risada ameaçadora, no fundo, não ameaçavam ninguém.

Nosso herói, Spectreman, trajando seu coletinho mal passado, era mais do que um super-herói. Pela introdução, ele já assumiria a responsabilidade de um ambientalista ferrenho, a defender o planeta da louca voracidade da industrialização.

Em Kyoto, anos mais tarde, Spectreman, com sua identidade humana de Joji Gamu, estava na platéia. Já com uns 50 e poucos, bem acabadaço, não teve forças para reagir. Sua história de bons serviços à Divisão de Pesquisa e Controle de Poluição não foi considerada. Ele pediu a palavra, mas foi solenemente ignorado pelos chefes de Estado presentes. Caiu na real e viu que o jogo estava perdido.

Desesperançoso, Spectreman pegou um trem-bala até Tóquio e seguiu a viagem acompanhando um show de bizarrices na TV em frente de sua poltrona. Quando desceu, resolveu comprar calcinhas usadas de colegiais nipônicas numa dessas lojas para japas de meia idade que se amarram em calcinhas suadas de colegiais nipônicas.

Em casa, jogou os sapatos para longe e ligou a TV. Ficou vendo alguns desses desenhos japoneses. A luta, agora, se colocava em mundos paralelos, distantes do cof-cof, dos engarrafamentos, das buzinas, das colegiais. Um mundo fantástico e asséptico.

Ele se sentiu um panaca, um palhaço a serviço de um país que mata baleias em nome de “valores culturais”.

Ele foi até o quarto. Abriu o armário e pegou uma caixinha. Tirou lá de dentro um pouco do haxixe que um amigo filipino havia descolado com um conhecido indiano que fazia hora-extra numa fábrica que fazia peças para aparelhos da Sony. Preparou o fumo e tocou fogo.

Pegou uma fita VHS empoeirada e colocou no videocassete.

Ele se sentou no sofá.

Começou a viajar no episódio em que ele pegou uma barata gigante pela antena e atirou longe, indo cair naqueles prédios toscos feitos de papelão, ou coisa parecida.

Deu uma boa risada. Depois, tirou uma meleca e coçou o saco velho.

E pensou alto:

- E agora? Quem poderá intervir?

12 de mai. de 2008

É coisa nossa...


Na minha adolescência suburbana, ainda que freqüentasse muito os cinemas da cidade vizinha (nos anos 80, as famílias podiam ir ao cinema sem gastar fortunas. O dinheiro dava até para comprar os mini-chicletes coloridinhos e a bala caramelo, o grande hit de então), minha grande diversão mesmo era a televisão. Cresci assistindo a programas de auditório, novelas, desenhos. Ouso confessar que meus programas prediletos eram o Cassino do Chacrinha, aos sábados, e o Sílvio Santos, aos domingos.

“Agora é hora de alegria/vamos sorrir e cantar/lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá/Sílvio Santos vem aí/lá lá lá lá lá lá”. Invariavelmente, meus domingos começavam assim (principalmente os sem-sol, porque suburbano adora “viajar” até a praia, com suas barracas, sanduíches prontos, cadeiras e esteiras – onde foram parar as esteiras de palha?). Meus quadros favoritos eram os da cabine-foguete e o dos dados. O primeiro era assim: a criança entrava e, ao ver uma luzinha acender, tinha que responder sim ou não para a pergunta fatal de Sílvio Santos: “você troca uma bicicleta com seis marchas por uma chupeta”? SIMMMMMMM. No segundo, o apresentador distribuía dados para bebês de colo e as mães faziam malabarismos mil para a criança jogar o brinquedinho novo no chão. Ganhava o bebê que jogasse o dado com o maior número virado. Também me lembrei agora de um quadro em que a criança vestia uma calça larga, a enchia de bolas e Sílvio ia estourando cada uma, fazendo a contagem junto com o auditório.

Ah, e tinha o “Qual é a música”, um dos clássicos do domingo. Alguém se lembra do Trio Los Angeles? Eles estavam sempre lá. Gretchen era outra habitué. Ronnie Von idem. Sílvio Santos era o paraíso dos artistas decadentes (vem daí meu gosto estranho por programas bizarros?). O “Programa de Calouros” era outra diversão certa. Ano passado, tentei fazer um mestrado sobre Aracy de Almeida e a construção de uma nova identidade para a cantora dos anos de ouro da MPB a partir da participação neste programa. Não deu.

Sempre que estou em casa, e me lembro de ligar a TV, volto ao SBT aos domingos para matar a saudade. Sílvio Santos continua o mesmo, reeditando velhas fórmulas, criticando a Globo – e agora a Record que lhe tirou o segundo lugar de audiência. O “Qual é a música” ainda atrai artistas no ostracismo, mostra dubladores com pinturas bregas no rosto (quem se lembra do Pablo?) e músicas que só os moradores de São Paulo conhecem (nada contra a cidade, ok?). Mas agora Sílvio está parecendo aquela pessoa que chegou ao fim da vida (velhinhos perdem a vergonha de certas coisas, não é?, feito as crianças) e perdeu todos os pudores. Como dono e faz-tudo da emissora, fala o que quer, tira artistas do ar, muda os horários, monta e desmonta o núcleo de telejornalismo. Além de humilhar as colegas de auditório, ele faz chacota com os participantes do programa.

No “Qual é a música” de ontem, ele se perguntou à Sheila Carvalho (ex-dançarina do Tchan), que estava acompanhada do atual marido, por que o Compadre Washinton (seu ex-companheiro de grupo e de cama) batia tanto nela. Depois, quis saber: e o bebê, vocês já têm? A mulher perdeu um no ano passado, e não escondeu o constrangimento numa lágrima que lhe pendeu do olho esquerdo. Logo depois, quis saber de um piloto desconhecido da Stock-Car quando ele ia correr pela Fórmula-1. E fez o filho da Wanusa, irmão da Aretha e vencedor da Casa dos Artistas (sei tudo isso, mas não lembro o nome da criatura, que herdou os cabelos da mãe) cantar uma de suas músicas atuais para testar sua popularidade. Diante de um auditório mudo, o rapaz cantarolou Plunct Plact Zum, no que foi acompanhado por meia dúzia de senhoras de meia-idade, para mostrar que já fez sucesso um dia...

O pior é que esse patético, mas divertido circo eletrônico ainda deve render ao dono do SBT alguma audiência. Inclusive a minha, claro.

2 de mai. de 2008

Em Lisboa, de braços dados com Pessoa

No último fim de semana, dedicado ao repouso por causa de uma virose ou suspeita de dengue e de sinusite, fui a Lisboa. Explico. Está saindo no Brasil, pela Companhia das Letras, um guia turístico escrito por ninguém menos que Fernando Pessoa, lá pelos idos dos anos 20. Escrevi um texto para o caderno Idéias, do JB, que sai hoje, a respeito. A cada página virada, o poeta me dava a mão e me levava de volta à cidade branca, que conheci há um ano. Percorri o caminho sugerido por Pessoa: o terreiro do paço, os arcos, a Rua Augusta, o Rossio, o elevador da Santa Justa, a subida de elétrico até o Chiado, o Bairro Alto, a Rua do Diário de Notícias, a Av. da Liberdade, depois o parque Eduardo VII. Depois busquei o roteiro que eu mesma fiz, e confesso que fui a alguns lugares justamente seguindo os passos do poeta. O café A Brasileira. A assorda no almoço econômico no Martinho da Arcada, bem ali ao lado da Alfândega, onde ele, o próprio, comeu de graça tantas vezes, me contou o neto do dono. Era lá que colocava as idéias em ordem...me contou. Pessoa escreveu o guia em inglês mas não há muitas informações sobre a publicação do mesmo na época. A intenção era divulgar os encantos de sua cidade amada no estrangeiro. No livro, o poeta exalta grandes momentos históricos do país. Tenta seduzir seu turista acidental para dentro de todas as bibliotecas. De forma quase inocente dá, "aos leitores que entendem português", um panorama completo dos jornais da cidade, comentando a orientação editorial e fornecenedo até o endereço de cada um. Curiosidades a parte, é encantador perceber no texto, deveras datado, romantismos dos idos tempos. As pessoas chegavam à cidade de navio pelo Tejo! As preferências turísticas também mudaram. Na época, pelo que dá a entender, o delicioso bairro de Alfama, muito procurado pelos turistas por conservar um clima século 19-alternativo-roots, não fazia qualquer sucesso: era um bairro de pobres. Talvez a vocação do bairro não seja, mesmo, a de receber visitantes inoportunos. Nos muros brancos da Alfama irmortalizada pelos fados de Amália Rodrigues há várias mensagens estampadas em stencil expoulsando os baderneiros: Turistas, respeitem os moradores ou vão para a Espanha!

17 de abr. de 2008

Tapete Vermelho 1

Com algum delay, inicio uma minissérie de posts sobre bizarrices divertidas apesar de absurdas e alguma memória afetiva para não perder a oportunidade. As pérolas, nos dois sentidos, foram colhidas á beira do tapete vermelho da cerimônia de premiação da Academia Brasileira de Cinema, que leva o nome de uma operadora de celular e foi realizado na casa de shows patrocinada pela mesma operadora na segunda-feira chuvosa. Começo pela parte das lembranças, claro. Apesar de ainda não ter chegado aos 30, adoro lembrar. Dá a impressão de que vivi mais intensamente.

Sentada numa árida área destinada a jornalistas no mezanino da casa de espetáculos, eu o avistei, sentado à mesa com a mulher e uns cinco filhos, na primeira fila, pertinho do palco, em posição de destaque. Certamente ele era a pessoa mais famosa daquela platéia cheia de celebridades, muitas delas descartáveis como um palito de picolé. Uma colega havia informado que ele chegara cedo, respeitando o horário da cerimônia, que atrasou uma hora inteirinha. Vestia smoking e todos os seus estavam elegantes, porém bem discretos.

Competiam acirradamente (bocejoooo), com o maior número de indicações, os filmes Tropa de Elite e O ano em que meus pais saíram de férias. Fiquei arrepiada quando me dei conta de que este era o mais próximo que eu já havia chegado de meus maiores ídolos do cinema nacional. Ele estava lá e, mais tarde, se eu quisesse, eu poderia falar com ele, conversar. Minha atual posição, sem grandes dificuldades, permitiria isso. E ele me daria atenção. Também percebi que não assisti a nenhum de seus últimos cinco ou seis filmes, eu acho.

Despido de seu principal personagem, ele estava ali, atento a tudo, silencioso. Ninguém, mais que ele tinha o direito de estar ali. Afinal, duas ou três gerações de espectadores foram ao cinema levados por ele pela primeira vez, encantadas pelas histórias mirabolantes reveladas a cada novo roteiro. É certo que formou alguns, senão muitos, cinéfilos.

Sua mesa, como a de todos os convidados, só tinha água. O tempo vai passando e ele já não bate tantas palmas. Está sentado exatamente em frente a nova estrela de seus mais recentes longa-metragens.

Quando fui escalada para cobrir a tal cerimônia (devido a sua importância frágil, não me dei ao trabalho de ler o texto de divulgação contendo o programa da noite) não sabia que Renato Aragão seria homenageado. Daniel Filho (medo...) fora chamado ao palco para proferir algumas palavras sobre o artista, lembrar fatos marcantes de sua carreira. São 47 filmes e bilheteria de 125 milhões de espectadores, informa o apresentador enquanto cenas históricas dos filmes dos Trapalhões são exibidas. Impossível não ficar arrepiada e de olhos marejados, ao lembrar de que eu era feliz e sabia.

Ele já sabe que será chamado ao palco. Põe a mão no queixo, coça a cabeça. A esposa, percebendo seu nervosismo, afaga seu ombro para dar conforto. É incrível como uma pessoa com um trabalho amplamente reconhecido, muitas vezes laureado, ainda se emocione de tal maneira indisfarçável. Quem está ali, não é a estrela. É o jovem comediante, que estudou direito, e veio do Ceará tentar a sorte na vida artística no Sul Maravilha. Seu nome é anunciado e todos se levantam ao som ensurdecedor de palmas. Quem se emociona sou eu.

Se ele sempre teve reconhecidos sua empatia com o público e seu sucesso na TV, em seu discurso de agradecimento fica claro que ele esperava pelo reconhecimento da academia, dos críticos, dos que sempre fizeram o tal cinema sério, de arte.

"Quando eu saí do Ceará foi para fazer cinema. Fiz televisão a vida inteira para sobreviver", entrega ele. "Mas foi no cinema que vivi todas as minhas fantasias: fui herói, bandido, vilão, galã. Já fui perseguido por bichos, fantasmas. Enquanto o Didi batia no bandido na tela para salvar a mocinha, eu apanhava dos críticos aqui fora". Um tapa de luvas brancas.

Acho que Renato Aragão até se estendeu um pouco demais no discurso...ao final, não segurou o choro quando a filha, Lili - ela é princesa, fadinha, ninja e protagonista de sua vida e de suas produções que continuam a atrair sempre mais de 1 milhão de pessoas às salas de cinema brasileiras a cada lançamento, - entregou-lhe a escultura de acrílico desenhada por João Uchôa.

Finalizou dizendo que "não é para os que foram indicados e não ganharam ficarem chateados. Depois de 40 anos e 47 filmes, eu ganhei meu primeiro troféu".

A cerimônia acabou quase meia-noite e os jornalistas foram delicadamente expulsos. Quem quisesse fazer alguma entrevista deveria aguardar na calçada, apesar do vento gelado da noite chuvosa. A mocinha bem vestida de cabelos escovados dizia que Renato Aragão seria um dos primeiros a vir dar entrevistas. Esqueci da fotógrafa e me despedi rapidamente dos colegas (alguns deles se estapeavam para ouvir uma declaração qualquer da grávida Camila Pitanga). Tomei um táxi. "Laranjeiras, moço, por favor".

16 de abr. de 2008

Esbarrei nela



Um dia esbarrei nela, linda, toda-toda, cheia de salamaleques e olhares sedutores. Fisgou-me na mesma hora. Aquele carnaval foi memorável. Linda, linda, purpurina tilintando nos olhos. Um aperto no peito. Ela sumiu. No meio daquela multidão. Um vazio. De repente, um par de pernas, todo trançado de branco. Filó vermelho escondia as coxas, e a bunda, que bunda. A barriguinha saliente denunciava as gordurinhas, daquelas que se pode pegar e apertar até cansar de tanta gostosura. Seios pequenos. Podia fechar os olhos e dizer que cabiam nas palmas das minhas mãos. Os braços acompanhavam as pernas, longilíneos, desses que te abraçam até quase sufocar. Fingi que não vi. Passei, olhei pra trás e lá estava ela, a nuca fogosa. Cabelos longos, desciam pelos ombros magros e recortavam o rosto fino da mais bela visão da festa do Rei Momo. Seus olhos castanhos me fitaram num sorriso fechado, de um lado parado, do outro puxado. Vi a covinha. Linda. Senti que já estava no papo. Eu, claro. Me tremi inteiro. Ela sorriu. Agora por inteiro. Olhou pra frente e seguiu devagar...

14 de abr. de 2008

O importante é que emoções eu vivi

Não consigo lembrar de jeito nenhum o nome desde simpático vendedor de lanches numa bisrosca de beira de esquina (que os portenhos chamam kiosco) da pequena e bela Tigre, cidadezinha a 30 km de Buenos Aires. Ele ganha a vida vendendo sanduíches e, entre os mais populares, está este pão com lingüiça, o choripan, nossa refeição à beira do rio que batiza a cidade, num piquenique improvisado sobre um lençol.
Temos, por estas bandas de cá, o hábito de cultivar a rivalidade entre argentinos e brasileiros, algo alimentado pelo futebol, o que é uma bobagem. Uma bobagem divertida, mas uma bobagem. Este homem, cujo nome gostaria de recordar, provou para mim que isso é uma bobagem. Buenos Aires recebe uma enxurrada de brasileiros a cada feriado. A economia argentina se recupera de forma acelerada, mas continua bem econômico viajar para lá. Mesmo acostumado a encontrar nordestinos e sudestinos com freqüência, o homem não perde a oportunidade de saldar e fazer festa com o grupo de jovens na casa dos 30 anos pelo simples fato de serem brasileiros. E faz questão de cantarolar um trecho de uma canção popular de Roberto Carlos (acho que era Nas curvas da estrada de Santos) para, em seguida, contar um caso. Ou melhor, compartilhar conosco, cinco estranhos, uma recordação que, pelo brilho nos olhos e pelo sorriso, lhe é muito cara: a primeira vez que beijou uma mulher foi ao som do Rei, confidenciou. Não era uma namoradinha qualquer, deu para perceber. Deve, decerto, ter sido uma grande paixão. O homem seguiu, dando alguns detalhes do dia que, pelo visto, não esquecerá jamais. Emenou reclamando que as entradas para o show que Roberto faria em abril na capital argentina estavam caras e mesmo assim, esgotadas. Ele não tinha entradas, mas disse que talvez comprasse o disco novo do artista, gravado em espanhol, lançado há pouco.
Também tenho um leque de recordações pessoais embaladas ao som do Rei. Não, nunca fui a um show dele. Ainda. Mas sei de cor muitas de suas canções, saídas dos seis discos que minha mãe colocava na vitrola por vez, e que iam caindo, um a um, na seqüência, para que ela se distraísse enquanto lavava roupa. Se ainda houvesse muito trabalho a fazer, os vinis eram substituídos por outros seis. De outros artistas, ela, voluntariosa, dizia que Roberto Carlos era bom, mas que se ouvisse muito, enjoava. Ela enjoou de vez. A coleção está esquecida, nos armários de uma casa também esquecida. Seu CD player hoje tem outras preferências.
Já escrevi sobre esta minha relação com Roberto numa crônica universitária antiga e não vou me repetir. O fato é que o Rei ainda não embalou nenhum dos meus momentos românticos. Acho que por uma questão, digamos, de choque de gerações. Entretanto, seu poder de hipnotizar platéias e ao mesmo tempo tocar indivíduos me intriga e me atrai. Aliás, adoro certos fenômenos culturais de massa. Como me mostrou o simpático senhor do kiosco, eles derrubam certas fronteiras. Por isso resolvi percorrer as curvas da estrada de Santos.

7 de abr. de 2008

Rod Stewart provocou sessão nostalgia




A princípio, iria apenas fazer um comentário ao post da Cláudia, sobre Rod Stewart. Mas o post deu tantas saudades da infância e da adolescência, que o comentário acabou virando postagem. Quem eram os nossos ídolos nos anos 80, início dos anos 90? Que músicas tocavam, primeiramente, nos Hi-fis e, depois, nas discotecas? Quais desses nós continuamos a ouvir?

Segue uma listinha dos que me vêm à cabeça agora (com uma pequena ajuda da Internet), através das imagens de seus LPs:

A turma do balão mágico – Simoni, Mike e Jairzinho voam num balão mágico super colorido. É o álbum da música "Charleston" (1982). Em 1985, eles lançaram um disco cuja capa trazia uma carrossel. A gente podia recortar e encarte e montar um carrossel de papel.

Xuxa - No seu 1° LP, "Xuxa e seus amigos" (1984), ainda na TV Manchete, ela aparece com os ombros nus e chuquinhas de borracha coloridas no cabelo. Participação de Marina Lima, Chico Buarque, Caetano Veloso e outros.

Trem da Alegria – Juninho Bill, Vanessa, Luciano e Patrícia (mais tarde rebatizada de Patrícia Marx) fazendo um trenzinho humano, no segundo LP do grupo (1986). Uma guitarra faz a ligação dos "vagões" do trem; sai fumaça da cabeça do Juninho. Música inesquecível: “Fera neném”.

Plunct Plact Zuun - Uma nave espacial que mais se parece um barco a vela voa pelo espaço (1983). Raul Seixas canta "Carimbador maluco" e Jô Soares interpreta "Planeta doce". O site Músicas Infantis 80 traz diversas capas de discos e liks para downloads das músicas.

Ritchie – Um close do cantor, com olhar fulminante, estampa seu 1° LP, “Vôo de coração” (1983). É o álbum do clássico “Menina Veneno”, mas não podemos esquecer “A vida tem dessas coisas/Olhe só nós dois aqui/Presos num elevador/Uma noite sem dormir”.

Verão de 84 – Uma morena de brinco lilás e viseira amarela, numa foto de estúdio que transfere o cenário que deveria ser “praia” para um cenário “azul de boate”. No lado A, destaque para “Ursinho Blau Blau” (Absyntho, do Sylvinho Blau Blau) e, no lado B, “Eu sou Free” (do grupo feminino Sempre Livre): “Só estudei em escola experimental/Meu pai era surfista profissional/Minha mãe fazia mapa astral legal/Minha mãe fazia mapa astral”.

A-ha – Os três rapazes posam no que parece um celeiro (!) no disco chamado “On tour in Brazil” (1989). Não me lembro qual música fazia mais sucesso. Acho que a Andréa pode me ajudar.

Dire Straits – Quem não se lembra da capa de “Brothers in arms“ (1985), que trazia as músicas “Money for nothing” e “So far away”? Uma guitarra prateada sobe aos céus de um azul bebê com nuvens meio cor de rosa.

Tracy Chapman – A cantora e compositora de voz rouca aparece com os cabelos curtos e de dread na capa de seu primeiro álbum (1988). Seus olhos estão baixos e a fotografia é sépia, dando um ar de melancolia, de saudosismo e de solidão. Músicas: “Fast car”, “Baby I can hold you?”.

Luiz Caldas – O LP “Magia” (1985) traz o rei da lambada de brinco e passando a mão pelos cabelos compridos, enrolados e molhados. Quem não dançou “Fricote" ("Nega do cabelo duro/Que não gosta de pentear/Quando passa na baixa do tubo/O negão começa a gritar/Pega ela aí/pega ela aí/Pra quê?") e “Haja amor”?

Eurythmics – Annie Lennox e Dave Stewart abraçados nos encaram no LP “Greatest Hits” (1991). A foto é embaçada e explora os tons típicos da dupla: vermelho, branco e preto. As músicas da adolescência: “The miracle of love”, “Sweet dreams (are made of this)” e “There must be an angel”.

Tem mais, mas deixo para a imaginação de cada um: Michael Jackson, Madonna, Ira!, Engenheiros do Hawaii, Capital Inicial, Kid Abelha, Paralamas do Sucesso, Rita Lee e Roberto de Carvalho, Pepeu Gomes. Quem dá mais?

Foto: Antônio Teixeira / CPDoc JB


"You're in my heart/you're in my soul..."

Preciso confessar: antes de Chico Buarque, eu amei Rod Stewart! Pronto, falei. Fiquei com uma dor de corno danada porque, agora que vou casar, não pude gastar ao menos R$ 200 no ingresso mais barato para assistir ao show do inglês/escocês na Arena Rio. Na véspera, passei a tarde ouvindo os clássicos que embalaram minhas antigas paixões e fossas (como se ama e se chora na adolescência, como se não houvesse rugas no futuro), relembrando o dia em que meu irmão se recusou a me levar no show do Rod em... peraí, quando foi mesmo que o cantor esteve no Brasil e eu não pude ir porque ainda não tinha me rebelado em casa?

Pego o jornal, leio as matérias na internet e todos os textos me dizem que Rod Stewart fez dois shows no país: em 1985, no Rock in Rio I, e em 1994, na praia de Copacabana, na virada do ano. Mas, tenho certeza que meu irmão não foi em nenhum dos dois, e me lembro com clareza que ele viu Rod Stewart, e ainda trouxe de lembrança uma foto, que deixou recostada no meu travesseiro no dia seguinte (como o odiei por essa foto). Ah, agora achei num site do JB uma foto da apresentação em 1989: foi na Praça da Apoteose, eu tinha 14 anos e só iria a um grande show no seguinte, Rock in Rio II, após me jogar no chão, espernear, me enfiar debaixo do chuveiro de camisola e tudo, bater com a cabeça no armário, ameaçar meus pais e acusá-los de quererem me tornar uma adulta frustrada e uma suburbana fadada às histórias da vila onde morávamos.

Por que os críticos esqueceram da apresentação de 1989? Por que todos dizem que é a terceira, e não quarta vez, que Rod Stewart vem ao Brasil? Ontem, ouvi um programa inteiro no rádio sobre o cantor e também esse lapso foi cometido. É intrigante pensar em quantas informações erradas lemos no jornal e como, tantas vezes repetidas, essas verdades se cristalizam na história.

Mas o fato que quero registrar aqui é: eu adoro Rod Stewart, já quis "ficar" com ele (na adolescência, a gente tem vontade de beijar nossos ídolos, tá bom, eu também já quis "ficar" com o Chico Buarque e já era bem grandinha quando isso aconteceu!!!), sonhei muito com ele naquela noite em que fui obrigada a ouvi-lo apenas no vinil de capa rosa, que trazia os seus grandes clássicos. Só não sei se quero retomar esse gosto, comprando algum dos álbuns em que ele recria standards americanos ou mesmo o disco rosa, agora em CD.