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6 de out. de 2008

Alamedas

Uma vez por ano, sempre naquele dia, ela vinha visitá-lo. Fazia tempo que não estavam mais juntos, mas ambos sentiam dever tanto um ao outro que era necessário, nem que fosse por um dia apenas, que se reencontrassem.

Sentado, sem se importar com os outros passantes, ele a esperava chegar. Viu quando ela apareceu ao longe, vindo devagar pelas alamedas cobertas de folhas secas, trazendo flores nas mãos. Ela gostava de manter aquela formalidade, o que fazia com que ele se sentisse tanto lisonjeado quanto incomodado; jamais se lembrava de dar alguma coisa a ela.

Sorriu quando percebeu que ela continuava linda, tanto quanto na época em que se apaixonaram, mais de vinte anos antes. Ela também sorriu ao vê-lo, iluminando seu rosto antes tenso -- parecia não ter se acostumado a encontrar-se com ele depois de terminado o casamento. Podia sentir o incômodo que a tomava.

Afinal, encontraram-se. Ela lhe entregou as flores e o encarou por um longo tempo. Sabiam que não havia nada a ser dito. Ela havia casado novamente, tido outra filha e arranjado um emprego melhor. Já ele permanecia na mesma situação desde a separação, tantos anos antes, mas nenhum dos dois se importava com isso. Reviam-se, e isso bastava.

Ele percebeu os olhos dela ficarem úmidos e sabia que ela pensava "e se ainda estivéssemos juntos?" Lamentava. Estava tudo acabado, não havia jeito -- quantos mais anos separados seriam necessários para que ela se convencesse? Ele não conseguia entender a razão de tal apego ao passado, de pensar em como seria se tivesse sido, de entristecer-se sem motivo desejando o impossível.

Uma lufada de vento fez com que ela se lembrasse de que devia ir. Fitou-o uma última vez, enxugando os olhos com as costas das mãos, sorriu incerta e se despediu com uma tristeza resignada na voz. Ele, por sua vez, não se mexeu; apenas acompanhava-a com os olhos, vendo-a se afastar com seus passos elegantes sobre as folhas secas caídas nas estreitas alamedas. Ela voltaria, ele sabia. Estaria lá novamente no ano seguinte, no mesmo dia de Finados, trazendo-lhe suas flores. E ambos, mais uma vez, lembrariam do tempo em que haviam estado juntos -- como se, por um só momento, pudessem esquecê-lo.

3 de out. de 2008

Que mistérios tem Clarice?

“E um dos indiretos modos de entender é achar bonito.”

Tinha acabado de entrar na exposição sobre Clarice Lispector no Centro Cultural Banco do Brasil e pensava justamente na dificuldade que sempre tive de “entender” a escritora. Tenho vários livros, tentei ler alguns deles, mas sempre fui abandonando a leitura pelo caminho, um a um. No entanto, ao entrar na primeira sala e me deparar com as fotos e algumas de suas frases era como se aquilo que estava lendo e admirando fizesse todo o sentido para mim, desde sempre.

Foi quando me deparei com a frase lá em cima.

Estive lá no domingo, mais um dia chuvoso no Rio e, pelo que eu tinha lido, o último para se conferir a exposição, que já tinha feito o maior sucesso em São Paulo. Foi uma surpresa atrás da outra. Além de achar as soluções cenográficas perfeitas para se ler Clarice, gostei muito de entrar em contato com o universo mulher da escritora. Numa entrevista, que assisti sentada no sofá, ao lado da máquina de escrever usada por Clarice, ela explica que “é muito maternal” e que, portanto, tem muito mais facilidade e gosto para lidar com crianças que com adultos.

Nessa linha feminina, um dos documentos expostos que mais me chamou a atenção foi uma listinha de afazeres domésticos de Clarice:
1) Viver melhor as 24 horas do dia (ter mais tempo)
2) Tinturaria cabelo
3) Luvas
4) Café turco
5) Ginástica

1) ...
2) Morangos pessoas de idade
3) ... o menu
4) Vestido preto
5) Dar paz ao rosto (telefonar Wilma)

Desde que casei, as listas com afazeres tornaram-se um hábito indispensável. A gente vai andando pela casa e vê que a pasta de dente está acabando, que o leite só dá para hoje, que o pão está vencido, etc. Se não anotamos nada, corremos o risco de voltar do supermercado sem os itens básicos para a casa funcionar. Clarice, mãe de dois filhos, mulher de diplomata, escritora famosa, não era diferente.

Em outro trecho da tal entrevista, ela fala também de seus livros e do rótulo de “hermética”. E conta, deliciosamente, que um professor de literatura de um colégio famoso no Rio disse que não conseguiu entender um de seus livros. Emenda revelando que o mesmo era o livro de cabeceira de uma moça de 17 anos, que a abordou para contar a história.

Saí da sala de exposição, depois de me deliciar com as cartas enviadas por e para Clarice, de gente como Rubem Braga, Lúcio Cardoso, Paulo Mendes Campos, Érico Veríssimo, direto para a livraria da Travessa do CCBB. Se a menina de 17 anos compreendia, já era a minha hora de comprar e tentar ler “A paixão segundo G.H. Para minha surpresa, o livro citado por Clarice no vídeo estava esgotado ali. Sinal de que muitos leitores, como eu, já estavam tentando penetrar ainda mais no reino das palavras da autora de “A hora da estrela”.

OBS: Esse texto também foi publicado no meu novo blog. Tentei escrever algo que valesse para os dois lugares, com o objetivo mesmo de linkar aqui no Caroço o meu novo endereço no mundo blogueiro. O Lameblogadas II ainda está em fase de arrumação e faxina geral, mas acho que já posso fazer o open house.

21 de set. de 2008

O sobe e desce

A intensidade da vida é algo que me fascina. Sigo os dias sempre numa gangorra. Às vezes fico lá no alto, olhando tudo, mirando o verde e o caos de longe. Outra estou no meio de tudo, tento me livrar do peso e subo de novo. Hoje com pouco mais de 25 anos já me sinto vivida, imatura, mas vivida. Busco a independência do corpo, da alma. Busco a subida, o alto astral, a vida leve. Busco a sabedoria que os anos oferecem em conta gotas, e alguns momentos em uma avalanche. Dosar, respirar, se esticar. Esticar a vida para ser vivida intensamente, e na medida.

9 de set. de 2008

Será que sempre foi assim?

Bem, depois de um furto, a sensação de vazio é normal, a rápida atitude de cancelar cartões e retirar novos documentos também. Pois bem, depois de sumirem (gatuno profissional) com a minha bolsa na Lapa, decidi dar queixa numa delegacia mais simpática e menos movimentada do que a 5ª DP, na Lapa. Fui ao Catete. Chego e peço para fazer o B.O., eles pedem para eu esperar um pouquinho. Logo depois, e até bem rápido, a menina da triagem em atende e pergunta o que houve. Eu explico que furtaram minha bolsa na Lapa. Ela pergunta "o sujeito estava armado?" "Não meu amor, foi um furto. Eu nem vi o meliante" "Ah tá". De repente surge um homem caminhando lentamente. Pega o papelzinho e chama: "Germânia?" "Não inspetor, Gardênia". Aqui já percebi que paciência seria meu trunfo nessa missão.

Como é que alguém pega um papel, no qual, em letras garrafais, está escrito um nome, no caso, G-A-R-D-Ê-N-I-A, e lê Germânia? Na boa, já sofri demais por conta do meu nome (que hoje acho lindo e blá blá blá) mas, façameofavor, não dá pra ver Gardênia e ler Germânia, né?

Enfim. Sento na cadeira precária da delegacia precária e, na mesma hora, o homem barrigudo bem precário senta à minha frente. Percebo que o inspetor Fábio é jovem, não deve passar dos 35. Na mão esquerda exibe uma aliança esmagada, daquelas que só saem arrebentadas por um alicate. Pensei: "esse é do tipo que engorda cem kilos depois de casar". De repente fui interrompida pela voz ríspida de Fábio:

- Olha, esse registro só vai ficar pronto depois de 4 dias. Você só vai poder pegar sua cópia na sexta-feira.

- Mas eu não levo nenhum outro documento que comprove que fiz um Boletim de Ocorrência? – retruquei com cara de desentendida.

- Não.

- Mas eu preciso...

- Vou anotar aqui o número do registro, você vem na sexta e pega.

- Mas e enquanto isso? Não dá pra fazer nada sem o B.O.. Preciso ir ao banco, Detran, tirar CPF, identidade, meu celular...

- Ah minha querida, eu não posso fazer nada. Agora é assim. Paciência.

Olha ela aí. Paciência. Eu não disse que seria meu trunfo. Respirei bem fundo. Chamei Buda, Jesus, Xangô, Oxalá, Maomé e tudo quanto foi santo pra me ajudar.

- Mas... Você não pode me dar algum papel timbrado que comprove o meu registro? Daí...

- Menina! Você não me ouviu?! Eu só cumpro ordens. O delegado decidiu que só vai liberar depois de quatro dias, e é isso! Entendeu bem? – bravejou bem alto o moço da barriga enorme batendo na mesa e com olhar de assassino.

Confesso que fiquei com medo nessa hora, me tremi toda. Minha mã começou a suar. Mas minhas reações nunca são as melhores. Olhei bem pra ele e disse com o coração pulando:

- Eu sei que você SÓ cumpre ordens. Mas pense na minha situação. Fui roubada. Levaram todos meus pertences de uma só vez. Venho à uma delegacia que, teoricamente, é um lugar de proteção à vítima e, você me agride? Não estou entendendo. Você acha que estou aqui por que penso em recuperar minhas coisas? Eu preciso mesmo é desse B.O. para minha vida andar. Só quero entender por que não posso levar agora. Não pode me dar uma resposta do tipo "por que não". Não sou burra...

Nesse exato momento, eis que surge um outro inspetor. Mais velhor, com ar de experiência e uma feição mais doce – se é que é possível candura numa delegacia. Segurou o ombro do gordão e disse olhando pra mim:

- Você não vai poder pegar sua cópia hoje por que a queixa devia ter sido feita na Lapa. Lá você teria acesso rápido.

- Então pára. Por favor. Eu vou agora mesmo até lá.

- Agora não dá mais. Eu já comecei – se meteu o inspetor Fábio que, com um sorriso sarcástico no canto da boca, continuou - Já gerei o número e agora não tem mais como voltar atrás.

- Então eu acabo aqui e vou lá fazer outro registro – respondi rápido.

- Você vai fazer duas ocorrências do mesmo roubo? – se espantou Fábio, o inspetor barrigão.

- Sim, claro. Se é isso que preciso fazer para ter o documento que quero, não tenho a menor dúvida.

- Mas...

- Você não precisa ir até lá, não. O delegado vai fazer um despacho para a 5ª DP e despacha seu B.O., daí você já leva sua cópia, ok? – disse o homem bom de barba grisalha e bem mais magro que o mais novo.

Silêncio.

- Pronto. Acabou. É só isso. Tchau! – se despediu o inspetor Fábio, o da barriga enorme.

Olhei para o lado, levantei e procurei o cara da barba grisalha. Respirei, abri o maior dos sorrisos de gratidão: "Muito obrigada". Saí da delagacia com vontade de morrer, sem entender como a vida se tornou assim, tão hostil.

1 de set. de 2008

The Killers

Oh well I don't mind, if you don't mind'
Cause I don't shine if you don't shine
Before you go, can you read my mind?

A plateia que assistia ao ultimo show da edicao 2008 do Festival de Leeds pode nao ter conseguido ler a mente de Brandon Flowers, vocalista da banda The Killers, mas era nitida a tensao do lider do grupo. A voz e o corpo tremulos deixavam claro que algo nao estava muito bem. Alguma adolescente que estava do meu lado perguntou "voce acha que ele esta "com algo?".

O show era particularmente o que eu mais esperei - por duas vezes nao cheguei a tempo no website para comprar ingresso dos shows que o grupo fez em Londres nos ultimos dois anos. Enfim, o dia chegou e ainda era o encerramento de um festival incrivel. Em tres dias consegui ver shows de Pete and the Pirates, Blood Red Shoe, Be your own pet, Jack Penate, Ida Maria, Fratellis, Queens of the Stone Age, Rage Against the Machine (pensei que o empurra-empurra ia me render varios hematomas, mas ate que nao), Metallica (show bonito de ver, mas tirando a classica "Nothing else matters", eu nao conhecia muita coisa), CSS (tinha implicancia com eles, mas juro que bateu um momento patriotico no show e me emocionei), Chromeo, Cage the Elephant, Simian Mobile Disco (me senti na rave ha 10 anos atras), The Automatic (que acaba de lancar disco novo e eu gosto deles bastante, apesar das criticas ruins), Santogold (que negona estilosa!), Editors (aquela voz do Tom Smith eh orgasmatica), The Ting Tings (a bandinha de dois eh boa mesmo), Black Kids, Bloc Party (um dos melhores do festival), Serj Tankian (vocalista do System of a Down, fez um show tao despretencioso quanto lindo, cheio de mensagens de paz, justica e inconsciente coletivo), Last Shaddow Puppets (acompanhados de uma orquestra, uma graca), Hadouken! ("musica para uma cultura acelerada" - o moleque nao poderia ter achado melhor nome) e de repente algum mais que esqueci. Ufa! Cansei so de ler. Realmente essa maratona para um corpinho de quase 30 anos nao foi nada facil. Depois da primeira noite no camping (ou "grande campo de lama e desordem"), decidimos (eu e dois amigos) assumir os nossos limites e as 8 da manha de sexta ja estavamos no centro da cidade em busca de um hotel (chegamos no festival a meia-noite e a barraca ficou em pe as quatro da manha, depois de varias "atolacoes na lama", derrapadas, muito frio e experiencias estranhas no banheiro a ceu aberto).  Um hotel com lencois limpos e banheiro cheiroso foi fundamental pra aguentar ate o fim. Mas isso eh papo pra outro post.

Na manha seguinte, no onibus de volta a Londres, um dos amigos que me acompanhou na jornada musical resolveu comprar um exemplar da NME, uma das biblias musicais inglesas (eu diria A biblia, na verdade). Na capa, tres fotos do vocalista do The Killers parecendo confuso, e a chamada "estou tendo uma crise de personalidade". Agora sim esta explicado. Brandon Flowers, 27 anos, mormon praticante, casado, pai e lider de uma das bandas de maior sucesso nos ultimos anos nao aguenta mais o peso. E ainda tem que empolgar 70 mil pessoas. A missao, apesar de tudo, foi muito bem cumprida. 


I'm coming out of my cage
And I've been doing just fine
Gotta gotta be down
Because I want it all







19 de ago. de 2008

Impressões de viagem - ou o privilégio de morar na Zona Sul

Desde que dois arrastões atingiram moradores do Jardim Botânico, em menos de um mês, todos os dias passo, no caminho de volta para casa, no Horto, por uns quatro carros da polícia. Desde a saída do Rebouças até a Lopes Quintas, é quase um a cada esquina da Rua Jardim Botânico.
Fico imaginando como deve estar o policiamento na rua da Tijuca onde o menino João Roberto foi assassinado. Ou naquela de Oswaldo Cruz, que ficou famosa por outro crime bárbaro da cidade, a morte de João Hélio.

22 de jul. de 2008

Coordenadas


Para mim, a Terra sempre foi plana. Foi e continua sendo. Nós é que estamos girando. Uns mais que outros, dependendo do grau de crença nas convenções. Tampouco creio em direita e esquerda. Desde cedo aprendi a desconfiar dos pontos de referência. Graças ao meu aguçado e desorganizado senso de direção, sempre paro 350 graus além de onde deveria estar. Tentei dançar, para ver se coordenava, mas descobri que quando se dança o corpo avança em círculos disformes, também sem qualquer referência. Até que, dia desses, fui avançando de rua em rua, pelo centro da cidade, até que cheguei muitos graus além de onde deveria chegar. Olhei ao redor e não havia mais ninguém, além de um ninguém coberto por um cobertor de farrapos e seu vira-lata. Perdida, recebi a referência que precisava para me coordenar por toda a vida: “Vá por onde o corpo mandar. Quem nunca se perdeu, não há de desperder-se”.
Foto: Marcelo Valle

30 de mai. de 2008

Impressões de viagem São João-Bonsucesso

30 de maio

Aos poucos, parece que a configuração urbana do futuro vai surgindo. Na avenida Brasil, há um estranho e antigo prédio comercial; a construção interrompida na metade serve de estrutura para uma favela em camadas: cada andar daquilo que seria uma empresa parece um pequeno bairro miserável, um em cima do outro, pobreza sobre pobreza, em uma selva de concreto ainda mais escura do que aquela em que vivemos. (Em uma rua de Bonsucesso, a calçada de um quarteirão de indústrias começa a ser ocupada por barracos, como um caracol em que no centro houvesse um círculo grande e ao redor fossem se acumulando pequenas circunferências daquilo que é marginal, à margem.)
Não mais apenas duas cidades estranhamente unidas sem se misturar (como água e óleo): agora o Rio também é uma cidade dentro da outra (como aquelas bonecas russas). Se, no Japão dos livros de Genichiro Takahashi, é possível que em um andar de um prédio alto corra um rio, aqui nossa falência urbana é servida em camadas retangulares. Lá estão o esgoto aparente (desta vez, não à céu aberto), sua criminalidade de subsistência, seus gatos elétricos e suas vidas próximas e distantes da minha.

12 de mai. de 2008

Sobre o GP da Turquia

Alguém, além de mim, notou que o Massa ontem ficou quietinho quietinho na hora do Hino Nacional Brasileiro e abriu um sorrisão na hora da execução do hino da Itália e até ensaiou umas frases da música que embalou os anos Schumacher na Fórmula-1?



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Depois, estranham minha torcida por Lewis Hamilton, que, com um carro melhorzinho ontem, já incomodou a irritante hegemonia vermelha na mais charmosa categoria automobilística.





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E o Rubinho? 257 corridas envergonhando a bandeira brasileira pelo mundo afora. Galvão exaltou: foram nove vitórias e dois vice-campeonatos... E ainda sugeriu ao piloto: para chegar a 300, faltam mais dois anos...

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É cada dia mais ridícula a cobertura da Globo. Se Rubinho fosse um piloto inglês, argentino, espanhol, alemão ou japonês, seria motivo de chacota entre os nossos comentaristas oficiais. Até o Luciano Burti, um rapaz sensato, técnico e dono dos melhores comentários durante a transmissão, encerrou participação hoje no Globo Esporte lembrando que Rubinho tem grandes chances de pontuar no próximo GP de Mônaco, já que seu carro não é bom nas retas...

29 de abr. de 2008

Uma noite, hum, digamos, inesperada

Depois de um dia cheio, almoço em família, jogo de futebol (sem comentários), acarajé e táxi pra casa, já se passava das 20h do domingão, e de repnte meu telefone tocou. Era Priscila, uma amiga querida que me chamou para fazer companhia a um show na Lapa, do ladinho da minha casa. Fiquei na dúvida, pois já estava preparada psicologicamente para ficar em casa vendo filme do Jim Jarmusch, maaaaas como sou uma pessoa, hum, digamos, impulsiva, lá fui eu. Quando chegamos ao Teatro Odisséia dei de cara com o look da galera e, percebi, que eu era, hum, digamos, diferente. Estava de vestidinho rosa floridinho, com uma bolsinha de mão também florida. Todos, eu disse, t-o-d-o-s os presentes estavam de preto ou cinza beeem escuro. Mas tudo bem, sou do tipo que faz tipo, então me fiz de distraída, deu certo.
Entrei ao som de Mostros do Ula Ula, que abriu a noite de lançamento do DVD do Matanza, lançado pela MTV e Deck Disc. Guitarra, baixo e bateria anunciam a “porrada”. Comecei a sentir meus joelhos dobrarem e minha cabeça mexer. Algo parecido com o que o funk faz com as cadeiras. Não dá pra se conter. A banda é boa, rapá! Eles são os pais do Contrycore - mistura de Jonhy Cash com Hardcore. Pesado e bom. A platéia foi ao delírio. Jimmy, o vocalista ruivo barbudo de quase dois metros, entrou calado. Ele faz cara de mal. Eles gritam. Ele olha. Eles gritam. Ele começa. Eles começam. A roda se abre no meio da platéia e uns se jogam contra os outros numa “dança” quase tribal. Difamação, xingamento. Esculhambação, palavrões. Os versos das músicas na voz rouca e grave do irlandês, eram quase inaudíveis. Mas eu fiz leitura labial e entendi pelo menos 70%.
E por falar em porcentagem, pelo menos 85% dos espectadores eram homens. As poucas meninas ficavam pelos cantos, em cima de cadeiras, amparadas pelos namorados, ou até aclamando a banda na frente do palco. Contudo, a pista era mesmo deles. Um me chamou a atenção, devia ter uns 1,80 cm de largura, tinha cabeça raspada e um bigode a lá “seu Leôncio – do pica-pau”. Ele só empurrava quem chegasse perto. Um deles subiu no palco e se jogou. Seu Leôncio, com toda sutileza, deu-lhe um chega-pra-lá que o moçoilo só foi aparecer de novo lá no finzinho da música, e lá atrás, bem longe do el bigodon. Me-do!

Foi uma noite, no mínimo, peculiar. Me diverti e dancei bastante. Recomendo. Ah! Nessa tal rodinha, ninguém se machuca, não viu. Eles estão lá por que querem, só se empurram. Sei lá por que. Me lembrou aqueles bailes funks de antigamente (será que existe até hoje?) que o povo ia pra brigar, lado A x lado B. Porém, o hardcore me pareceu ser mais, hum, digamos, leve.
:o)

E fica aí um dos versos que não me sai da memória:

Quanto mais feio, quanto mais sujo
Quanto mais forte o bafo
Mais ela gosta de mim
Quanto mais feio, quanto mais sujo

24 de abr. de 2008

Você já foi à Bahia?

Acabei de chegar da bahia, mais precisamente, Salvador.

Estou encantada com o povo imensamente receptivo, com as praias cheias de coqueiros, que mais pareciam miragens, ladeando a bela cidade crescida desordenamente. O clima tenso que todo mundo tanto me falou, não vi, não. Deve ser pela baixa temporada. Agradeci todos os dias pela lua, linda, amarela e cheia. O Pelô é barril (gíria nova!!), ou seja, muito perigoso, mas só à noite (por exemplo, um policial veio nos avisar que era o último do turno, e nos aconselhou a não andar pelos becos estreitos. Ficamos pelos largos). A lua (de novo) abençoou o passeio, tudo lindo, nem tão caro. Quase comprei quadros, mas não coube no bolso. Trouxe uma camisa escrita "Bahia - Salvador". Turista que se preza tem de levar souvenir.

A paisagem natural é incrivelmente bela, mesmo. Toda esquina você cruza com uma praia. Toda esquina. Se quiser uma mais "bonita" ou deserta, pronto, 40 minutos e está lá Itacimirim, um paraiso bem cuidado. No caminho, dunas branquinhas.

Mas a minha maior lembrança de Salvador são as comidas, fartas, picantes e deliciosas!! Devo ter engordado uns três quilos, sem culpa. Não dá pra fazer pouco caso do acarajé da Dinha, ou da moqueca mista (camarão e peixe) do Mercado Modelo. O que dirá do pão delícia das padarias Perini, ou então o siri na praia da barra. Impossível não comer porções de lambreta nas areias de Stella Maris, ou o sorvete da Cubana, no Pelourinho. Engordei sim, mas amarrei a fitinha na igreja do Bonfim pedindo pra gordurinha sumir. Acredito nos orixás (risos).

É tanta coisa que não dá pra contar assim não, minha gente. E fica meu convite e homenagem a essa incrivel viagem:

Você Já Foi a Bahia? (Dorival Caymmi)

Você já foi à Bahia, nêga?
Não?
Então vá!
Quem vai ao "Bonfim", minha nêga,
Nunca mais quer voltar.
Muita sorte teve,
Muita sorte tem,
Muita sorte terá

Você já foi à Bahia, nêga?
Não?
Então vá!
Lá tem vatapá
Então vá!
Lá tem caruru,
Então vá!
Lá tem munguzá,
Então vá!
Se "quiser sambar"
Então vá!

Nas sacadas dos sobrados
Da velha São Salvador
Há lembranças de donzelas,
Do tempo do Imperador.
Tudo, tudo na Bahia
Faz a gente querer bem
A Bahia tem um jeito,
Que nenhuma terra tem!

Impressões de viagem São João-Bonsucesso

24 de abril

Costumamos nos referir a avenidas e vias expressas como "artérias da cidade" (ou seja, elas transportam o sangue - os carros - do coração da cidade para todas as partes do corpo; acredito que de manhã deveriam ser chamadas de "veias", pois nos levam em direção ao caos urbano, e à noite nos trazem de volta para longe do centro). Uma visão aérea da cidade deve mostrar os pontos em que o sangue da cidade corre mais devagar, como um corpo com artérias entupidas, prestes a romper, onde estamos presos.

18 de abr. de 2008

Impressões de viagem São João-Bonsucesso

18 de abril

Colado na traseira de uma Kombi: "Que Deus lhe dê em triplo tudo aquilo que me desejar"; será algum tipo de leilão da Graça Divina (por causa do multiplicativo)?

17 de abr. de 2008

O Rio de Janeiro sob olhos canadenses - sem entrada e sem juros

- I always find it funny when something that I thought was strange about Brazil shows up in the news, five years later (i.e. calling  yourself Catholic when you disagree with the Pope about 90% of official church doctrine).

A frase acima fazia referencia a esta noticia. Nao precisa ser canadense pra nao entender essa compulsao parcelatoria, ne? 

Perguntado sobre mais curiosidades brasileiras, eis as questoes que ainda intrigam o nosso visitante:

- "Screaming at the top of your lungs on the sidewalk: just annoying or an effective marketing strategy?"

- "All those cheap Hershey chocolate bars: where the hell do they get them?! (and btw, are those real Gillette razor blades?!"

Impressões de viagem São João-Bonsucesso

17 de abril

No Timbau, o Pet Shop Canarinho expõe franguinhos em gaiolas. Pressupõe-se que alguém tenha essas aves como animais de estimação.

16 de abr. de 2008

Impressões de viagem São João-Bonsucesso

16 de abril


No engarrafamento da Linha Vermelha, costumo identificar alguns carros que enfrentam o trânsito no mesmo horário que eu: uma caminhonete da Lidador, um EcoSport... Com o tempo, acabo tendo um afeto por eles, companheiros desse momento tão civilizado que é a estafante ida para o trabalho. Mas para mim são só carros, não há ninguém lá dentro; a civilidade incomunicável das máquinas.

15 de abr. de 2008

Troca-troca


Bom, que o SBT nunca investiu em jornalismo, todo mundo já sabe. Que o SBT prefere comprar programas de fora a investir nas produções nacionais, também já sabemos. Então qual foi o meu espanto ao ler que, ao chegarem para trabalhar, 40 profissionais, entre jornalistas e produtores, de São Paulo, Brasília, Ribeirão Preto e Rio de Janeiro foram todos demitidos, nesta sexta-feira, dia 11. O jornal “Aqui Agora” saiu da grade da emissora paulista e no lugar entraram os seriados Chaves e As Visões de Raven. Não sei se fico chocada com os mais 40 profissionais desempregados no mercado brasileiro, ou corro para as livrarias em busca do livro de um grande amigo meu: Chaves de um sucesso.

Meu espanto não é por ver acabar mais um telejornal, mas sim ver que, depois de uma tentativa frustrada de renovação, chega-se à desistência, apenas desistência. E no lugar? Adivinha?! Um seriado estrangeiro (ainda bem que não foi o bay watch. Fora Chavez! Risos). Ninguém mais comenta, ninguém ouve falar. Apenas some do ar. No lugar, uma risadas esparsas. Não, nada contra o Chaves (com s no final!), aliás, a-do-ro esse chiquitos, os vejo desde meus três ou quatro anos. E pásmem, rio até hoje (vinte e tantos anos depois). Porém, ter acerteza de que, um seriado vai dar mais audiência que um produto jornalístico é o que me assusta. E essa outra série aí. Nunca nem ouvi falar, Parece coisa sobrenatural... vai ver que o "homi" acha que assim vai melhor o IBOPE. E o pior: eu acredito nele.

Se não me engano o Aqui e Agora estava prometendo uma grande renovação, seria o grande lançamento (como produto jornalístico da emissora) para 2008. Não sei nem se chegaram a contratar novos jornalistas e produtores, mas, de fato, me lembro uma certa algazarra em torno do novo formato do telejornal. Até platéia teria. Li isso em algum lugar. As notícias pipocaram em fevereiro deste ano e, como não vejo muita TV, nem sei se chegaram a lançar a novidade jornalística. Pelo visto, morreu na praia.

Cheguei a uma conclusão: preciso estudar os seres humanos do terceiro mundo! Ou será que do tanto faz o mundo? Precisamos de indivíduos críticos. Mas como mobilizar o planeta?

Detesto terminar um texto com uma pergunta. Mas realmente estou confusa.

Impressões de viagem São João-Bonsucesso

15 de abril

Os pedestres que atravessam a avenida Brasil pela passarela 8 às vezes se assustam com veículos que os ultrapassam correndo onde apenas pessoas a pé deveriam andar - são mototáxis. Entre esses motoristas, um é mais afoito: parece nunca frear, enquanto guia sua CG com seu único braço.

14 de abr. de 2008

Impressões de viagem São João-Bonsucesso

14 de abril

Uma clareira no paredão de casas de tijolos aparentes da Linha Vermelha: um campo de futebol com a grama queimada e um Ciep. Às oito da manhã, mulheres se exercitando. A mais concentrada caminha pelas margens do campo, curvada e apoiada numa bengala.