Uma vez por ano, sempre naquele dia, ela vinha visitá-lo. Fazia tempo que não estavam mais juntos, mas ambos sentiam dever tanto um ao outro que era necessário, nem que fosse por um dia apenas, que se reencontrassem.
Sentado, sem se importar com os outros passantes, ele a esperava chegar. Viu quando ela apareceu ao longe, vindo devagar pelas alamedas cobertas de folhas secas, trazendo flores nas mãos. Ela gostava de manter aquela formalidade, o que fazia com que ele se sentisse tanto lisonjeado quanto incomodado; jamais se lembrava de dar alguma coisa a ela.
Sorriu quando percebeu que ela continuava linda, tanto quanto na época em que se apaixonaram, mais de vinte anos antes. Ela também sorriu ao vê-lo, iluminando seu rosto antes tenso -- parecia não ter se acostumado a encontrar-se com ele depois de terminado o casamento. Podia sentir o incômodo que a tomava.
Afinal, encontraram-se. Ela lhe entregou as flores e o encarou por um longo tempo. Sabiam que não havia nada a ser dito. Ela havia casado novamente, tido outra filha e arranjado um emprego melhor. Já ele permanecia na mesma situação desde a separação, tantos anos antes, mas nenhum dos dois se importava com isso. Reviam-se, e isso bastava.
Ele percebeu os olhos dela ficarem úmidos e sabia que ela pensava "e se ainda estivéssemos juntos?" Lamentava. Estava tudo acabado, não havia jeito -- quantos mais anos separados seriam necessários para que ela se convencesse? Ele não conseguia entender a razão de tal apego ao passado, de pensar em como seria se tivesse sido, de entristecer-se sem motivo desejando o impossível.
Uma lufada de vento fez com que ela se lembrasse de que devia ir. Fitou-o uma última vez, enxugando os olhos com as costas das mãos, sorriu incerta e se despediu com uma tristeza resignada na voz. Ele, por sua vez, não se mexeu; apenas acompanhava-a com os olhos, vendo-a se afastar com seus passos elegantes sobre as folhas secas caídas nas estreitas alamedas. Ela voltaria, ele sabia. Estaria lá novamente no ano seguinte, no mesmo dia de Finados, trazendo-lhe suas flores. E ambos, mais uma vez, lembrariam do tempo em que haviam estado juntos -- como se, por um só momento, pudessem esquecê-lo.
6 de out. de 2008
Alamedas
3 de out. de 2008
Que mistérios tem Clarice?
“E um dos indiretos modos de entender é achar bonito.”
Tinha acabado de entrar na exposição sobre Clarice Lispector no Centro Cultural Banco do Brasil e pensava justamente na dificuldade que sempre tive de “entender” a escritora. Tenho vários livros, tentei ler alguns deles, mas sempre fui abandonando a leitura pelo caminho, um a um. No entanto, ao entrar na primeira sala e me deparar com as fotos e algumas de suas frases era como se aquilo que estava lendo e admirando fizesse todo o sentido para mim, desde sempre.
Foi quando me deparei com a frase lá em cima.
Estive lá no domingo, mais um dia chuvoso no Rio e, pelo que eu tinha lido, o último para se conferir a exposição, que já tinha feito o maior sucesso em São Paulo. Foi uma surpresa atrás da outra. Além de achar as soluções cenográficas perfeitas para se ler Clarice, gostei muito de entrar em contato com o universo mulher da escritora. Numa entrevista, que assisti sentada no sofá, ao lado da máquina de escrever usada por Clarice, ela explica que “é muito maternal” e que, portanto, tem muito mais facilidade e gosto para lidar com crianças que com adultos.
Nessa linha feminina, um dos documentos expostos que mais me chamou a atenção foi uma listinha de afazeres domésticos de Clarice:
1) Viver melhor as 24 horas do dia (ter mais tempo)
2) Tinturaria cabelo
3) Luvas
4) Café turco
5) Ginástica
1) ...
2) Morangos pessoas de idade
3) ... o menu
4) Vestido preto
5) Dar paz ao rosto (telefonar Wilma)
Desde que casei, as listas com afazeres tornaram-se um hábito indispensável. A gente vai andando pela casa e vê que a pasta de dente está acabando, que o leite só dá para hoje, que o pão está vencido, etc. Se não anotamos nada, corremos o risco de voltar do supermercado sem os itens básicos para a casa funcionar. Clarice, mãe de dois filhos, mulher de diplomata, escritora famosa, não era diferente.
Em outro trecho da tal entrevista, ela fala também de seus livros e do rótulo de “hermética”. E conta, deliciosamente, que um professor de literatura de um colégio famoso no Rio disse que não conseguiu entender um de seus livros. Emenda revelando que o mesmo era o livro de cabeceira de uma moça de 17 anos, que a abordou para contar a história.
Saí da sala de exposição, depois de me deliciar com as cartas enviadas por e para Clarice, de gente como Rubem Braga, Lúcio Cardoso, Paulo Mendes Campos, Érico Veríssimo, direto para a livraria da Travessa do CCBB. Se a menina de 17 anos compreendia, já era a minha hora de comprar e tentar ler “A paixão segundo G.H. Para minha surpresa, o livro citado por Clarice no vídeo estava esgotado ali. Sinal de que muitos leitores, como eu, já estavam tentando penetrar ainda mais no reino das palavras da autora de “A hora da estrela”.
OBS: Esse texto também foi publicado no meu novo blog. Tentei escrever algo que valesse para os dois lugares, com o objetivo mesmo de linkar aqui no Caroço o meu novo endereço no mundo blogueiro. O Lameblogadas II ainda está em fase de arrumação e faxina geral, mas acho que já posso fazer o open house.
21 de set. de 2008
O sobe e desce
A intensidade da vida é algo que me fascina. Sigo os dias sempre numa gangorra. Às vezes fico lá no alto, olhando tudo, mirando o verde e o caos de longe. Outra estou no meio de tudo, tento me livrar do peso e subo de novo. Hoje com pouco mais de 25 anos já me sinto vivida, imatura, mas vivida. Busco a independência do corpo, da alma. Busco a subida, o alto astral, a vida leve. Busco a sabedoria que os anos oferecem em conta gotas, e alguns momentos em uma avalanche. Dosar, respirar, se esticar. Esticar a vida para ser vivida intensamente, e na medida.
9 de set. de 2008
Será que sempre foi assim?
Bem, depois de um furto, a sensação de vazio é normal, a rápida atitude de cancelar cartões e retirar novos documentos também. Pois bem, depois de sumirem (gatuno profissional) com a minha bolsa na Lapa, decidi dar queixa numa delegacia mais simpática e menos movimentada do que a 5ª DP, na Lapa. Fui ao Catete. Chego e peço para fazer o B.O., eles pedem para eu esperar um pouquinho. Logo depois, e até bem rápido, a menina da triagem em atende e pergunta o que houve. Eu explico que furtaram minha bolsa na Lapa. Ela pergunta "o sujeito estava armado?" "Não meu amor, foi um furto. Eu nem vi o meliante" "Ah tá". De repente surge um homem caminhando lentamente. Pega o papelzinho e chama: "Germânia?" "Não inspetor, Gardênia". Aqui já percebi que paciência seria meu trunfo nessa missão.
Como é que alguém pega um papel, no qual, em letras garrafais, está escrito um nome, no caso, G-A-R-D-Ê-N-I-A, e lê Germânia? Na boa, já sofri demais por conta do meu nome (que hoje acho lindo e blá blá blá) mas, façameofavor, não dá pra ver Gardênia e ler Germânia, né?
Enfim. Sento na cadeira precária da delegacia precária e, na mesma hora, o homem barrigudo bem precário senta à minha frente. Percebo que o inspetor Fábio é jovem, não deve passar dos 35. Na mão esquerda exibe uma aliança esmagada, daquelas que só saem arrebentadas por um alicate. Pensei: "esse é do tipo que engorda cem kilos depois de casar". De repente fui interrompida pela voz ríspida de Fábio:
- Olha, esse registro só vai ficar pronto depois de 4 dias. Você só vai poder pegar sua cópia na sexta-feira.
- Mas eu não levo nenhum outro documento que comprove que fiz um Boletim de Ocorrência? – retruquei com cara de desentendida.
- Não.
- Mas eu preciso...
- Vou anotar aqui o número do registro, você vem na sexta e pega.
- Mas e enquanto isso? Não dá pra fazer nada sem o B.O.. Preciso ir ao banco, Detran, tirar CPF, identidade, meu celular...
- Ah minha querida, eu não posso fazer nada. Agora é assim. Paciência.
Olha ela aí. Paciência. Eu não disse que seria meu trunfo. Respirei bem fundo. Chamei Buda, Jesus, Xangô, Oxalá, Maomé e tudo quanto foi santo pra me ajudar.
- Mas... Você não pode me dar algum papel timbrado que comprove o meu registro? Daí...
- Menina! Você não me ouviu?! Eu só cumpro ordens. O delegado decidiu que só vai liberar depois de quatro dias, e é isso! Entendeu bem? – bravejou bem alto o moço da barriga enorme batendo na mesa e com olhar de assassino.
Confesso que fiquei com medo nessa hora, me tremi toda. Minha mã começou a suar. Mas minhas reações nunca são as melhores. Olhei bem pra ele e disse com o coração pulando:
- Eu sei que você SÓ cumpre ordens. Mas pense na minha situação. Fui roubada. Levaram todos meus pertences de uma só vez. Venho à uma delegacia que, teoricamente, é um lugar de proteção à vítima e, você me agride? Não estou entendendo. Você acha que estou aqui por que penso em recuperar minhas coisas? Eu preciso mesmo é desse B.O. para minha vida andar. Só quero entender por que não posso levar agora. Não pode me dar uma resposta do tipo "por que não". Não sou burra...
Nesse exato momento, eis que surge um outro inspetor. Mais velhor, com ar de experiência e uma feição mais doce – se é que é possível candura numa delegacia. Segurou o ombro do gordão e disse olhando pra mim:
- Você não vai poder pegar sua cópia hoje por que a queixa devia ter sido feita na Lapa. Lá você teria acesso rápido.
- Então pára. Por favor. Eu vou agora mesmo até lá.
- Agora não dá mais. Eu já comecei – se meteu o inspetor Fábio que, com um sorriso sarcástico no canto da boca, continuou - Já gerei o número e agora não tem mais como voltar atrás.
- Então eu acabo aqui e vou lá fazer outro registro – respondi rápido.
- Você vai fazer duas ocorrências do mesmo roubo? – se espantou Fábio, o inspetor barrigão.
- Sim, claro. Se é isso que preciso fazer para ter o documento que quero, não tenho a menor dúvida.
- Mas...
- Você não precisa ir até lá, não. O delegado vai fazer um despacho para a 5ª DP e despacha seu B.O., daí você já leva sua cópia, ok? – disse o homem bom de barba grisalha e bem mais magro que o mais novo.
Silêncio.
- Pronto. Acabou. É só isso. Tchau! – se despediu o inspetor Fábio, o da barriga enorme.
Olhei para o lado, levantei e procurei o cara da barba grisalha. Respirei, abri o maior dos sorrisos de gratidão: "Muito obrigada". Saí da delagacia com vontade de morrer, sem entender como a vida se tornou assim, tão hostil.
1 de set. de 2008
The Killers
I'm coming out of my cage
And I've been doing just fine
Gotta gotta be down
Because I want it all
19 de ago. de 2008
Impressões de viagem - ou o privilégio de morar na Zona Sul
Desde que dois arrastões atingiram moradores do Jardim Botânico, em menos de um mês, todos os dias passo, no caminho de volta para casa, no Horto, por uns quatro carros da polícia. Desde a saída do Rebouças até a Lopes Quintas, é quase um a cada esquina da Rua Jardim Botânico.
Fico imaginando como deve estar o policiamento na rua da Tijuca onde o menino João Roberto foi assassinado. Ou naquela de Oswaldo Cruz, que ficou famosa por outro crime bárbaro da cidade, a morte de João Hélio.
22 de jul. de 2008
Coordenadas
30 de mai. de 2008
Impressões de viagem São João-Bonsucesso
30 de maio
Aos poucos, parece que a configuração urbana do futuro vai surgindo. Na avenida Brasil, há um estranho e antigo prédio comercial; a construção interrompida na metade serve de estrutura para uma favela em camadas: cada andar daquilo que seria uma empresa parece um pequeno bairro miserável, um em cima do outro, pobreza sobre pobreza, em uma selva de concreto ainda mais escura do que aquela em que vivemos. (Em uma rua de Bonsucesso, a calçada de um quarteirão de indústrias começa a ser ocupada por barracos, como um caracol em que no centro houvesse um círculo grande e ao redor fossem se acumulando pequenas circunferências daquilo que é marginal, à margem.)
Não mais apenas duas cidades estranhamente unidas sem se misturar (como água e óleo): agora o Rio também é uma cidade dentro da outra (como aquelas bonecas russas). Se, no Japão dos livros de Genichiro Takahashi, é possível que em um andar de um prédio alto corra um rio, aqui nossa falência urbana é servida em camadas retangulares. Lá estão o esgoto aparente (desta vez, não à céu aberto), sua criminalidade de subsistência, seus gatos elétricos e suas vidas próximas e distantes da minha.
12 de mai. de 2008
Sobre o GP da Turquia
Alguém, além de mim, notou que o Massa ontem ficou quietinho quietinho na hora do Hino Nacional Brasileiro e abriu um sorrisão na hora da execução do hino da Itália e até ensaiou umas frases da música que embalou os anos Schumacher na Fórmula-1?
29 de abr. de 2008
Uma noite, hum, digamos, inesperada
Foi uma noite, no mínimo, peculiar. Me diverti e dancei bastante. Recomendo. Ah! Nessa tal rodinha, ninguém se machuca, não viu. Eles estão lá por que querem, só se empurram. Sei lá por que. Me lembrou aqueles bailes funks de antigamente (será que existe até hoje?) que o povo ia pra brigar, lado A x lado B. Porém, o hardcore me pareceu ser mais, hum, digamos, leve.
E fica aí um dos versos que não me sai da memória:
Quanto mais feio, quanto mais sujo
Quanto mais forte o bafo
Mais ela gosta de mim
Quanto mais feio, quanto mais sujo
24 de abr. de 2008
Você já foi à Bahia?
Acabei de chegar da bahia, mais precisamente, Salvador.
Você Já Foi a Bahia? (Dorival Caymmi)
Não?
Então vá!
Quem vai ao "Bonfim", minha nêga,
Nunca mais quer voltar.
Muita sorte teve,
Muita sorte tem,
Muita sorte terá
Você já foi à Bahia, nêga?
Não?
Então vá!
Lá tem vatapá
Então vá!
Lá tem caruru,
Então vá!
Lá tem munguzá,
Então vá!
Se "quiser sambar"
Então vá!
Da velha São Salvador
Há lembranças de donzelas,
Do tempo do Imperador.
Tudo, tudo na Bahia
Faz a gente querer bem
A Bahia tem um jeito,
Que nenhuma terra tem!
Impressões de viagem São João-Bonsucesso
18 de abr. de 2008
Impressões de viagem São João-Bonsucesso
17 de abr. de 2008
O Rio de Janeiro sob olhos canadenses - sem entrada e sem juros
Impressões de viagem São João-Bonsucesso
16 de abr. de 2008
Impressões de viagem São João-Bonsucesso
16 de abril
15 de abr. de 2008
Troca-troca
Meu espanto não é por ver acabar mais um telejornal, mas sim ver que, depois de uma tentativa frustrada de renovação, chega-se à desistência, apenas desistência. E no lugar? Adivinha?! Um seriado estrangeiro (ainda bem que não foi o bay watch. Fora Chavez! Risos). Ninguém mais comenta, ninguém ouve falar. Apenas some do ar. No lugar, uma risadas esparsas. Não, nada contra o Chaves (com s no final!), aliás, a-do-ro esse chiquitos, os vejo desde meus três ou quatro anos. E pásmem, rio até hoje (vinte e tantos anos depois). Porém, ter acerteza de que, um seriado vai dar mais audiência que um produto jornalístico é o que me assusta. E essa outra série aí. Nunca nem ouvi falar, Parece coisa sobrenatural... vai ver que o "homi" acha que assim vai melhor o IBOPE. E o pior: eu acredito nele.
Se não me engano o Aqui e Agora estava prometendo uma grande renovação, seria o grande lançamento (como produto jornalístico da emissora) para 2008. Não sei nem se chegaram a contratar novos jornalistas e produtores, mas, de fato, me lembro uma certa algazarra em torno do novo formato do telejornal. Até platéia teria. Li isso em algum lugar. As notícias pipocaram em fevereiro deste ano e, como não vejo muita TV, nem sei se chegaram a lançar a novidade jornalística. Pelo visto, morreu na praia.
Cheguei a uma conclusão: preciso estudar os seres humanos do terceiro mundo! Ou será que do tanto faz o mundo? Precisamos de indivíduos críticos. Mas como mobilizar o planeta?
Detesto terminar um texto com uma pergunta. Mas realmente estou confusa.
Impressões de viagem São João-Bonsucesso
14 de abr. de 2008
Impressões de viagem São João-Bonsucesso
14 de abril


