Você se assustava com a menina pastorinha? Eu também. Até descobrir hoje o "bebê pastor". Afinal de contas, o que já é ruim sempre pode piorar:
8 de out. de 2008
Ovelhinhas
18 de set. de 2008
Teleatendimento Paraíso, bom dia

Terminei de discar. Chamou uma vez só e aí veio a gravação:
Bem-vindo ao teleatendimento do Paraíso. Para comunicar perda ou roubo da sua alma, tecle dois. Para solicitar uma cura, tecle três. Para solicitar emprego, tecle quatro. Para consultar seu saldo divino, tecle cinco. E para falar com um de nossos atendentes, tecle nove.
Nove.
Uma voz disse "Aguarde" e foi seguida por outra gravação:
Sua mulher se transformou numa estátua de sal? Peça a nossos atendentes o livro "Curiosidade não é de Deus" e aprenda a não olhar para trás quando não deve. Na compra do livro, você ganha de brinde o premiado "100 receitas de pão ázimo", que fez grande sucesso...
-- Teleatendimento Paraíso, Anjo Falafel, bom dia. -- era o atendente.
-- Hã... bom dia. Estou ligando pra pedir paciência pra aturar o meu chefe.
-- Pois não, senhor, qual o seu nome?
-- Leandro Rosemberg.
-- Número de registro da certidão de batismo?
-- Hmmmmm... não sei.
-- Desculpe senhor, para estarmos autorizando ajuda é necessário estarmos verificando seu cadastro, e para isso estaremos precisando desta informação.
-- Tudo bem. Eu ligo mais tarde.
-- A Corporação Paraíso agradece sua ligação, senhor.
Doze minutos depois, terminei de ligar de novo. Veio a gravação. Teclei nove antes que ela acabasse. "Aguarde".
Um dilúvio está caindo em sua cidade? Encomende com um de nossos atendentes uma moderna arca! Temos modelos esportivos para profissionais arrojados, além do modelo standard para toda sua família e um casal de cada...
-- Teleatendimento Paraíso, Anjo Carretel, bom dia.
-- Bom dia, eu queria paciência pra aturar o meu chefe.
-- Pois não, senhor, qual é o seu nome?
-- Leandro Rosemberg.
-- Número de registro da certidão de batismo?
-- Três dois cinco nove barra oito, livro trinta e sete.
-- Pois não, senhor, aguarde um momento enquanto estamos verificando seu cadastro... qual é o nome completo do titular?
-- Leandro Muniz Rosemberg.
-- Obrigado pela confirmação, senhor. É, realmente estou vendo em nosso banco de dados que seu chefe é mesmo difícil de agüentar.
-- Por isso estou pedindo paciência. Não quero mandar ele tomar no cu e perder o emprego.
-- Cuidado com o linguajar, senhor. O senhor acaba de perder um crédito divino.
-- Ei!
-- As Corporações Paraíso estão sempre atentas, senhor.
-- Tá bom. Então, vocês podem me dar um pouco de paciência?
-- Quanta o senhor quer?
-- O suficiente pra permanecer no meu emprego até o fim do ano.
-- Para isso é necessário consultar seu saldo divino. Aguarde um instante na linha enquanto estou fazendo a consulta.
-- Tudo bem.
Silêncio.
-- Obrigado por ter aguardado, senhor. Realmente, de acordo com o sistema, o senhor não possui créditos divinos o suficiente para estar recebendo uma carga de paciência extra nem até o fim do mês.
-- Ih, que merda.
-- E o senhor acaba de perder mais um.
-- Não, não, desculpe. Hmmmm.... tem como recuperar meus créditos?
-- Sim, senhor: orando, vigiando, jejuando...
-- Não, mas eu quero uma forma rápida.
-- Bom, na compra de nossos produtos o senhor pode estar recebendo um bônus de divindade que aumentará seu saldo.
-- Ótimo. Como é que eu faço?
-- Vou estar transferindo sua ligação para o setor de compras. O senhor deseja mais alguma informação?
-- Não, obrigado.
-- As Corporações Paraíso agradecem sua ligação. Tenha um bom dia.
Comprei uma Lembrança do Monte Sinai e um Barril Mágico de Água, que se transforma em vinho durante festas. Não foi muito caro e, melhor, pude pagar com cartão de crédito. De acordo com o setor de compras, minhas encomendas vão levar 40 dias e 40 noites pra chegar em casa, mas o melhor é que consegui um bônus divino pra durar até o fim do ano. Isso, claro, se eu perder essa maldita tendência de perder meus créditos.
Será que dizer "maldita" faz perder créditos?
É essa culpa que me mata.
16 de jul. de 2008
Todo dia, mas nem sempre igual
Empurrou a porta da agência e reclamou do tamanho da fila. Abriu a agenda para pegar o boleto. Teoricamente, ele estaria grampeado três vezes na página com a data do dia. Não estava. Nem na do dia seguinte. Nem no início, nem no fim do ano. Respirou fundo e se prometeu ficar calma. Mas num impulso, virou a agenda de cabeça para baixo e sacudiu tantas vezes que sentiu o braço doer. Xingou a própria sorte, o céu, o inferno, o casamento e o marido (devia ser culpa dele!). Resignada, neurótica amadora, desistiu.
Visualizou o fim do mundo: a casa escura, o banho gelado, os capítulos perdidos da novela, o sorvete derretido no freezer, o silêncio do secador de cabelos. À noite, derrotada, entrou pela portaria do prédio disposta a engolir o orgulho e pedir colo. Ensaiou algo do tipo: "OK, você venceu, batata-frita. Perdi a conta de luz. Sou uma esposa lamentável".
Em um último e incompreensível ato de esperança, correu até a caixa do correio. E lá estava, iluminada, cor de abóbora, a conta da light. Pensou que, talvez, nunca a tivesse tirado dali. Mas notou que estava aberta e, dentro, encontrou uma carta:
"Cara Amiga, bom dia! Esta conta foi achada dentro do ônibus. Resolvi, como servo do Deus Altíssimo, devolvê-la em vossa residência. Que Deus te abençoe rica e profundamente. (...) Se um dia desejar visitar-nos, estamos na Igreja Batista Nova Filadélfia, em Rocha Miranda. Com a paz do Senhor Jesus, I.L. P.S.: Jesus te ama! Receba-o. Leia a Bíblia".
Emocionada por constatar que o mundo continuaria o mesmo, sentou para redigir uma resposta. De cara, pensou em algo assim: "Obrigada por sua ajuda, o sr é um homem bom. Mas assuma responsabilidade por seu ato de heroísmo. Tenha orgulho de si nesta vida e nesta terra. A servidão acabou". Pouco depois, cansada e agradecida às crenças alheias, apagou tudo e recomeçou. Escreveu apenas "Deus te dará em dobro". E lacrou o envelope.
