Sentada num canto escuro, ela meditava sobre sua existência vazia. Já havia chegado à metade de sua vida e, até então, não havia feito nada de muito relevante. Não viajara, não inventara, não descobrira -- ocupava seu tempo na luta pela sobrevivência, a cada dia buscando o que comer. Lugar limitado esse, o mundo.
Tinha ouvido falar sobre o exterior, mas não sabia o que esperar dele. Diziam que era um lugar limpo, claro, arrumado -- muito diferente da podridão fétida e úmida em que vivia. Tinha sonhos de conhecê-lo, mas conforme o tempo passava, mais convencida ficava de que ele não passava de lenda: já havia andado tanto em sua busca por comida que achava impossível haver algum lugar que não conhecesse.
Pensando nisso, lembrou-se de que ainda não havia encontrado nada naquele dia. Começou a andar, percorrendo os caminhos imundos que normalmente trilhava. No entanto, absorta em seus pensamentos, não percebeu o enorme buraco que se abria no caminho e caiu por ele.
A queda foi curta, ela não se feriu. "Foi só um susto", como costumavam lhe dizer quando ainda era jovem. Pôs-se novamente sobre as pernas para sair do buraco e voltar ao caminho normal, mas desistiu quando percebeu que dele saía um túnel desconhecido. Olhou-o com atenção. Enfim uma novidade. Armada de coragem, começou a seguir pelo túnel, intrigada com a claridade difusa que se tornava mais forte conforme se aproximava.
Enfim, chegou ao fim do túnel, que terminava numa pequena abertura. Pondo a cabeça para fora, viu um lugar amplo, iluminado, limpo -- e lembrou-se de imediato das lendas sobre o exterior. Só podia ser ali! Entusiasmada, passou pela abertura e começou a passear pelo local, os olhos marejados com tanta beleza e luminosidade. Finalmente! Depois de tanta angústia na escuridão, de tanto sofrimento na sujeira, o destino lhe dava a oportunidade de conhecer aquele paraíso imaculado.
Estava feliz. Sentia-se como se tivesse a vida inteira se preparado para aquele momento. E foi então, no auge de sua absoluta alegria, que ela foi esmagada por uma força além da sua compreensão, tão forte que partiu seu corpo ao meio. Tudo escurecia depressa, não havia mais o que fazer; ela apenas permanecia caída, as pernas para cima, contemplando suas vísceras à mostra. As últimas palavras que ouviu foram "Amor, vem ver a barata que matei no banheiro".
6 de nov. de 2008
História de uma cucaracha no exterior
6 de out. de 2008
Alamedas
Uma vez por ano, sempre naquele dia, ela vinha visitá-lo. Fazia tempo que não estavam mais juntos, mas ambos sentiam dever tanto um ao outro que era necessário, nem que fosse por um dia apenas, que se reencontrassem.
Sentado, sem se importar com os outros passantes, ele a esperava chegar. Viu quando ela apareceu ao longe, vindo devagar pelas alamedas cobertas de folhas secas, trazendo flores nas mãos. Ela gostava de manter aquela formalidade, o que fazia com que ele se sentisse tanto lisonjeado quanto incomodado; jamais se lembrava de dar alguma coisa a ela.
Sorriu quando percebeu que ela continuava linda, tanto quanto na época em que se apaixonaram, mais de vinte anos antes. Ela também sorriu ao vê-lo, iluminando seu rosto antes tenso -- parecia não ter se acostumado a encontrar-se com ele depois de terminado o casamento. Podia sentir o incômodo que a tomava.
Afinal, encontraram-se. Ela lhe entregou as flores e o encarou por um longo tempo. Sabiam que não havia nada a ser dito. Ela havia casado novamente, tido outra filha e arranjado um emprego melhor. Já ele permanecia na mesma situação desde a separação, tantos anos antes, mas nenhum dos dois se importava com isso. Reviam-se, e isso bastava.
Ele percebeu os olhos dela ficarem úmidos e sabia que ela pensava "e se ainda estivéssemos juntos?" Lamentava. Estava tudo acabado, não havia jeito -- quantos mais anos separados seriam necessários para que ela se convencesse? Ele não conseguia entender a razão de tal apego ao passado, de pensar em como seria se tivesse sido, de entristecer-se sem motivo desejando o impossível.
Uma lufada de vento fez com que ela se lembrasse de que devia ir. Fitou-o uma última vez, enxugando os olhos com as costas das mãos, sorriu incerta e se despediu com uma tristeza resignada na voz. Ele, por sua vez, não se mexeu; apenas acompanhava-a com os olhos, vendo-a se afastar com seus passos elegantes sobre as folhas secas caídas nas estreitas alamedas. Ela voltaria, ele sabia. Estaria lá novamente no ano seguinte, no mesmo dia de Finados, trazendo-lhe suas flores. E ambos, mais uma vez, lembrariam do tempo em que haviam estado juntos -- como se, por um só momento, pudessem esquecê-lo.
18 de set. de 2008
Teleatendimento Paraíso, bom dia

Terminei de discar. Chamou uma vez só e aí veio a gravação:
Bem-vindo ao teleatendimento do Paraíso. Para comunicar perda ou roubo da sua alma, tecle dois. Para solicitar uma cura, tecle três. Para solicitar emprego, tecle quatro. Para consultar seu saldo divino, tecle cinco. E para falar com um de nossos atendentes, tecle nove.
Nove.
Uma voz disse "Aguarde" e foi seguida por outra gravação:
Sua mulher se transformou numa estátua de sal? Peça a nossos atendentes o livro "Curiosidade não é de Deus" e aprenda a não olhar para trás quando não deve. Na compra do livro, você ganha de brinde o premiado "100 receitas de pão ázimo", que fez grande sucesso...
-- Teleatendimento Paraíso, Anjo Falafel, bom dia. -- era o atendente.
-- Hã... bom dia. Estou ligando pra pedir paciência pra aturar o meu chefe.
-- Pois não, senhor, qual o seu nome?
-- Leandro Rosemberg.
-- Número de registro da certidão de batismo?
-- Hmmmmm... não sei.
-- Desculpe senhor, para estarmos autorizando ajuda é necessário estarmos verificando seu cadastro, e para isso estaremos precisando desta informação.
-- Tudo bem. Eu ligo mais tarde.
-- A Corporação Paraíso agradece sua ligação, senhor.
Doze minutos depois, terminei de ligar de novo. Veio a gravação. Teclei nove antes que ela acabasse. "Aguarde".
Um dilúvio está caindo em sua cidade? Encomende com um de nossos atendentes uma moderna arca! Temos modelos esportivos para profissionais arrojados, além do modelo standard para toda sua família e um casal de cada...
-- Teleatendimento Paraíso, Anjo Carretel, bom dia.
-- Bom dia, eu queria paciência pra aturar o meu chefe.
-- Pois não, senhor, qual é o seu nome?
-- Leandro Rosemberg.
-- Número de registro da certidão de batismo?
-- Três dois cinco nove barra oito, livro trinta e sete.
-- Pois não, senhor, aguarde um momento enquanto estamos verificando seu cadastro... qual é o nome completo do titular?
-- Leandro Muniz Rosemberg.
-- Obrigado pela confirmação, senhor. É, realmente estou vendo em nosso banco de dados que seu chefe é mesmo difícil de agüentar.
-- Por isso estou pedindo paciência. Não quero mandar ele tomar no cu e perder o emprego.
-- Cuidado com o linguajar, senhor. O senhor acaba de perder um crédito divino.
-- Ei!
-- As Corporações Paraíso estão sempre atentas, senhor.
-- Tá bom. Então, vocês podem me dar um pouco de paciência?
-- Quanta o senhor quer?
-- O suficiente pra permanecer no meu emprego até o fim do ano.
-- Para isso é necessário consultar seu saldo divino. Aguarde um instante na linha enquanto estou fazendo a consulta.
-- Tudo bem.
Silêncio.
-- Obrigado por ter aguardado, senhor. Realmente, de acordo com o sistema, o senhor não possui créditos divinos o suficiente para estar recebendo uma carga de paciência extra nem até o fim do mês.
-- Ih, que merda.
-- E o senhor acaba de perder mais um.
-- Não, não, desculpe. Hmmmm.... tem como recuperar meus créditos?
-- Sim, senhor: orando, vigiando, jejuando...
-- Não, mas eu quero uma forma rápida.
-- Bom, na compra de nossos produtos o senhor pode estar recebendo um bônus de divindade que aumentará seu saldo.
-- Ótimo. Como é que eu faço?
-- Vou estar transferindo sua ligação para o setor de compras. O senhor deseja mais alguma informação?
-- Não, obrigado.
-- As Corporações Paraíso agradecem sua ligação. Tenha um bom dia.
Comprei uma Lembrança do Monte Sinai e um Barril Mágico de Água, que se transforma em vinho durante festas. Não foi muito caro e, melhor, pude pagar com cartão de crédito. De acordo com o setor de compras, minhas encomendas vão levar 40 dias e 40 noites pra chegar em casa, mas o melhor é que consegui um bônus divino pra durar até o fim do ano. Isso, claro, se eu perder essa maldita tendência de perder meus créditos.
Será que dizer "maldita" faz perder créditos?
É essa culpa que me mata.
8 de set. de 2008
O ramo de almeirão
Se beber não dirija, dizia a lei, e eu, como cidadão respeitável que tem medo de pau de arara, obedecia. Foi por isso que, depois daquele porre, resolvi voltar de táxi.
-- Pra onde? -- perguntou o taxista.
-- Ah, sei lá -- respondi. -- Pra qualquer lugar. Nada mais me importa. Minha mulher me trocou por um ramo de almeirão, aquela vaca.-- Sei bem como isso é. Aconteceu comigo também. Mas sei o que pode te deixar bem melhor.
-- O quê?
-- Vou te levar num lugar mágico, cheio de cor e música, onde todos voltam a ser crianças e sorriem, cheios de esperância e inocença -- o taxista não se dava muito bem com sufixos.
Não respondi. O taxista tinha um brilho cativante no olhar, mas eu estava enjoado demais, então só me recostei. As casas passavam. Os postes piscavam. As putas me mostravam os peitos. Um duende apareceu do meu lado.
-- E aí, campeão?
-- Sai daqui, coisa do capeta.
-- Epa, epa, epa! -- o duende era o Juvenal Antena. -- Eu justamente vim aqui te avisar de uma situação muito perigosa!
-- Que que é?
-- Esse lugar pra onde vocês estão indo... é melhor tomar cuidado! É um lugar do barulho, cheio de aventura e confusão, onde tem uma turminha da pesada que vai aprontar todas! -- agora o duende era o Narrador da Sessão da Tarde.
-- Ah, vai se foder, seu duende.
Aí ele se ofendeu. "Duende é o cacete. Sou um Leprechaun, porra. Da Irlanda. Legítimo."
-- Sério mesmo? -- eu perguntei.
-- Com certeza. Olha aqui, ó -- e ele mostrou, no braço, um autêntico selo de procedência irlandesa.
Na mesma hora, pedi para o taxista parar o carro. Meio a contragosto, já que a corrida seria menor, ele encostou no meio-fio. Paguei e descemos, eu e o duende leprechaun, e fomos para um bar beber e falar da vida. Sentamos no balcão, mas ele desistiu bem depressa, assim que viu que não serviam Guinness.
"Brahma me dá dor de cabeça", foram suas últimas palavras antes de desaparecer numa nuvem de fumaça amarela. Merda de vida, pensei, sempre me tomando meus amigos. Então olhei pro lado e vi, no banco à direita, um saci que tomava uma dose de pinga.
Cheguei mais perto.
-- E aí, amigão. Quer conversar? -- perguntei.
-- Minha vida é uma merda -- ele disse. -- Todo dia acordo com o pé esquerdo. É por isso que eu bebo.
Juntei-me a ele. Aquela noite foi folclórica.
5 de set. de 2008
Navalha na carne

Serginho chegou para sua mãe com a boca pingando sangue. Grita grita chora berra. Dona Alice se espanta. O que foi, meu filho, como isso aconteceu?
Grito choro soluço berro berro.
Dona Alice leva Serginho pro banheiro. Lava lava lava lava língua. Sangue pinga vaza escorre. Sabão não, mãe, o gosto é ruim. Lava lava. Que corte é esse na sua língua, meu filho?
Dois talhos fundos, no sentido da largura.
É que a vovó me falou que eu estava dizendo uns palavrões muito cabeludos, explicou Serginho muito envergonhado. E aí fui raspar a língua pra não ter perigo de engolir cabelo.
Ah, meu filho -- disse a mãe, compreensiva -- Você não pode fazer isso, que machuca! Da próxima vez, chama a mamãe que ela faz com cera quente!
Ambos se abraçam.
2 de set. de 2008
Se bem me lembro, foi num aniversário que meu pai chegou em casa com um enorme embrulho cor-de-rosa. Fiquei ansioso: o que seria aquele presente tão grande?
-- É uma bicicleta, pai?
-- Que nada, rapaz, muito melhor.
Entusiasmado, comecei a rasgar o papel sem pena. Pedaços voavam para todo lado. Meus pais me olhavam com um sorriso de dever cumprido.
Quando afinal terminei de rasgar o pacote, estranhei aquele anão de rosto laranja e cabelo verde:
-- Que é isso, pai?
-- É um Umpa Lumpa, filhão. Vai dizer que você não conhece? Eu sempre quis ter um quando tinha a sua idade!
Olhei para o anão, que me encarava sério. Ele fedia a cigarro e estava mal barbeado -- as pontas pretas nojentas surgiam por baixo da maquiagem. Olhei para meus pais, que mantinham uma expressão encorajadora e um pouco ansiosa também.
Não queria desapontá-los, coitados.
* * * * * * * * * *
No meu quarto, o Umpa Lumpa estava olhando pela janela com as mãos pra trás das costas. Depois de um tempo bem longo, virou-se e me encarou.
-- O que você tem pra beber aí?
-- Aqui? Nada!
-- Que merda. Tem um cigarro?
-- Não, sou apenas uma singela e meiga criancinha!
O Umpa Lumpa resmungou e cuspiu pro lado. Escuta aqui, ele disse. Vou sair pra comprar uns cigarros e tomar umas cervas. Tu fica quieto aqui e não me enche o saco.
Obedeci.
Em silêncio, o Umpa Lumpa foi até o quarto dos meus pais e pegou a chave do carro. Olhou pra mim com uma cara ameaçadora e saiu.
* * * * * * * * * *
Mais tarde (já era madrugada), meus pais entraram no meu quarto. Minha mãe não chorava, berrava como um bezerro sendo castrado. Acordei assustado:
-- Que foi? Que foi?
Minha mãe não conseguia falar. Meu pai ficava quieto, mudo, os olhos bem abertos como se quisesse ver através das cortinas. Então ele falou, sem me olhar nos olhos:
-- O Umpa Lumpa, meu filho. Ele morreu.
-- Hã?
-- Ele morreu, meu filho. Batida de carro. Parece que estava bêbado. Tinha mais alguém com ele. Parece que eram... prostitutas.
-- ...
-- Como você faz isso, garoto? Como você deixou ele sair de carro sozinho, e ainda com vagabundas? Aposto que isso é influência sua!
-- Mas eu...
-- Seu irresponsável! Agora levanta, seu moleque! Você vai com a gente no IML!
Minha mãe berrava, uivava, gritava, gemia. Meu pai me empurrava pra me vestir. Estava começando a não gostar daquele presente.
* * * * * * * * * *
Chegamos ao IML pra fazer o reconhecimento do corpo. Quando meus pais viram aquela peruca verde começaram a chorar. Minha mãe tremia. Meu pai mantinha a cabeça baixa, as lágrimas rolando por seu rosto em silêncio.
O enterro foi no dia seguinte. Vários outros anões laranja de cabelos verdes foram à cerimônia. Eles cantavam
Umpa
Lumpa
Dumpa-di-du
E a música continuava, mas eu não entendia nada. Quando o caixote foi finalmente enterrado, eles simplesmente sumiram por entre os túmulos. Em seguida, meus pais me arrastaram até o carro. Eles não falavam mais comigo.
O silêncio durou dias, até que resolvi perguntar a meus pais o que eles queriam que eu fizesse. Não disseram nada; simplesmente me deram a peruca verde. Desde então, pelo menos uma vez por semana, tenho que me vestir de Umpa Lumpa pra eles. Minha mãe sempre chora e meu pai, suspirando, diz: "Aquele sim, faz uma falta."
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agradecido pelo convite, senhoras e senhores. espero poder colaborar no que for possível.
11 de jul. de 2008
REPOSTAGEM: CINE PULGUEIRO, BOM PRA CACHORRO

CINE PULGUEIRO
Marcelo Valle( Magoo)
Pelo pêlo segue a pulga, ignorando as rugas de uma testa franzida e suada. Os olhos em festa, já quase vencidos, semicerrados se esforçam na escuridão para acompanhar o movimento na tela. No ar, o som das gargalhadas se mistura ao cheiro de couro das poltronas doces. Pipocas e perfumes baratos. As cadeiras duras, machucadas, recheadas de palha ainda acomodam muita gente. A casa está cheia como não se via há tempos. Até as primeiras fileiras foram tomadas. O mofo lentamente se espalha pela parede. O filme é velho como todos os outros que por ali passaram, estrangeiro também, o que de fato não importa. Sobra espaço para reinventar os discursos. Alguns, mais metidos, ruminam as palavras de fora. Grupos de meninos, sempre em grupos, comentam o beijo estampado. Meninas encabuladas, rapazes excitados, moças alvoroçadas. Os velhos recordam e as senhoras...Ah...as senhoras! Essas não estão assim tão cheias de pudores, querem mais é sonhar com o novo galã, agora velho. Lá fora a missa acabou e ninguém imagina que a cidade esteve em polvorosa, às beiras de uma revolução. A sessão era de graça, mas todo mundo fez questão de pagar. A revolução?!...Bem... foi por causa do cinema.
Chegou alguém na cidade, não se sabe quando, nem de onde. Dizia falar em nome de Deus, todos logo desconfiaram. Afinal, se Deus criou o mundo, é bem capaz de falar por si só. Além do mais, já estavam acostumados com o padre. Pastor ali, só de cabras. Muito dinheiro ele tinha para arrebatar o que bem pudesse. Não o que quisesse, e assim foi. O cinema continuou cinema. Em nome de Deus foi embora, mas voltou tempos depois. Trouxe consigo, o Diabo. Ele mesmo, o fancho, pé de bode, arrenegado. Entrou o rabudo no cinema espalhando enxofre pra todo lado, achando, coitado, que com o cheiro forte espantaria a freguesia. De nada adiantou. Tentou de novo trazendo as pulgas. Eram tantas, que cobriam as cadeiras. Mas aquele povo tinha sangue de sobra, sabe-se lá quanto. E muitos cachorros na cidade havia. Logo as pulgas encontraram os cachorros. Mas o Diabo não desistia, começou então, a tramar a demolição. Logo, logo descobriu-se a intenção. E a cidade virou um inferno. O Dito Cujo tentou tentar a todos. Madalena, Rita, Sebastião, José, Bárbara, Benedito, Jorge, Conceição, Gabriel, Luzia, Cosme, Maria, Cristóvão e Damião, Eulália, Genoveva e Teresa...todo mundo ali tinha nome de santo, mas de fato ninguém era, nem por isso o Diabo teve vez. Foi escorraçado, coitado, o Cão com o rabo entre as pernas! De vermelho ficou branco, coberto de penas, até parecia um anjo. No dia seguinte o cinema, com muito orgulho, foi rebatizado de Pulgueiro. Algumas pulgas ali, definitivamente se alojaram, pulgas que gostam de filmes. A sessão estava cheia. E lá no fundo, com a testa franzida e suada, Deus assistia a tudo e ria...
3 de jul. de 2008
Semente de conto - O LIBERTADOR
Enquanto a multidão tricolor se equilibrava sobre os braços das cadeiras, maldizendo o pescoço pequeno demais para alcançar o gramado, ele permanecia sentado, cabisbaixo, com as mãos espalmadas sobre o chão. Sentiu o cheiro da fumaça dos fogos de artifício, brincou com o vapor de pó de arroz que envolveu sua nuca, segurou o peito ao ouvir o forte apito inicial. As cadeiras todas rangiam ao mesmo tempo, com o incansável trotar de 160 mil pés. Se agarrava como podia ao chão já lavado de suor e cerveja, rei absoluto da área do Maracanã que se via desde abaixo do joelho. Apesar de extasiada com o espetáculo tricolor, uma força maior, quase mágica, atraía meus olhos em direção a ele. Trinta segundos antes do gol adversário ser anunciado, ele soltou um urro de desespero. Logo em seguida, a multidão o acompanhou. Na tentativa de driblar a dor pela inesperada ameaça de derrota, afastei os olhos do gramado e comecei a assistir ao espetáculo pelos olhos dele. E vibrei, em insana euforia, trinta segundos antes do primeiro gol tricolor e outros trinta antes do segundo. Emocionada, lancei-me também ao chão, que se movia tal qual mar revolto. Esperava com a ansiedade da criança que aguarda o presente de Natal o celebrar precipitado daquele humilde profeta, coberto por uma bandeira rasgada e quase incolor. Trinta segundos antes do terceiro, chorei de felicidade, abraçada aos meus, pedindo a Deus um último vibrar profético daquele santo libertador. Mas trinta segundos antes da partida terminar, ele tirou os óculos escuros e exibiu duas pupilas enxarcadas e tão brancas quanto a sigla do Fluminense estampada na velha bandeira.1 de jul. de 2008
Semente de conto - O CAPITAL
Onze da noite e ela ali, depois do turno de oito horas oficiais e duas extras. Úlcera dormindo tranqüila do lado esquerdo do estômago, biscoitos amanteigados, nona xícara de café do dia. Digita. Digita. Digita. Lá pela décima oitava página do relatório, sentiu a ponta dos dedos pesarem. Levantou, as costas doíam. Fez e refez os exercícios para a tendinite que o fisioterapeuta lhe ensinara. Pulso pra cima, pulso pra baixo. Pulso pra baixo, pulso pra cima. Digita. Digita. Digita. Sentiu os dedos ainda mais pesados, e quando arriscou uma tecla, as letras afundaram todas de uma vez. Quis esconder as mãos gigantescas atrás das costas, mas os dedos avançaram pelas pernas, desceram pelas coxas e tocaram o chão. Ainda assim, passou desapercebida entre os colegas hipnotizados pela tela do PC. Boa noite. Boa noite. Boa noite. Decidiu voltar caminhando para casa, uma bolsa de água quente certamente amenizaria o inchaço. Ou talvez devesse ir ao médico no final da semana, faltavam ainda muitas páginas do relatório para concluir. Atravessou a rua o mais rápido que pode, mas lhe faltaram as forças para carregar o mindinho. O dedo foi atropelado por um motoqueiro, que o confundiu com uma lombada. Se um cara manda no Brasil com nove dedos, pensou, eu posso muito bem bater um relatório sem um mindinho. Faltavam apenas duas ruas para chegar ao apartamento, onde ninguém lhe esperava, mas mal conseguia se locomover. Um vira-lata ladrou assustado com o polegar que destruía o asfalto por onde avançava. Logo vieram os outros cães que se fartaram com a carne exposta da palma das mãos. Caiu na esquina, entre latões de lixo e muros grafitados. Acordou rodeada por populares, que com facões e tesouras arrancavam o que faltava da mão, que crescera durante a madrugada e já ocupava todo o bairro. Dez mil novas barraquinhas de churrasco foram armadas em toda a cidade. Não sentia dor, apenas agonia por não ter acesso ao PC. Pediu uma caneta e um bloco de papel a um senhor que cortara a terceira falange do seu indicador. Arriscou um E, logo um P, e em menos de duas horas já aprendera a escrever o alfabeto todo com o pé direito. Trigésima terceira página do relatório, o dedão do pé começou a inchar. Escreve. Escreve. Escreve. O asfalto da rua logo cedeu, caíram os populares, as barraquinhas de churrasco, as casas, os prédios e as lápides. 24 de jun. de 2008
Indiferença
Compa, chegou o inverno. Parece que a saudade tem termômetro, aumenta sempre que a temperatura cai. Saudade das suas idéias rasuradas sobre os restos do café da manhã, que costumavam tomar todo o apartamento, como cheiro de pão fresco no forno. Desde que te escrevi pela última vez, Ernesto ganhou sete centímetros. Está cada vez mais inquieto, como nós quando jovens. E tem aquele quê de temerosidade, que faz bem a todo revolucionário que não entrega a vida à toa. Não sei se por precoce sabedoria ou mania de perseguição, o menino inventou agora que uma nova ofensiva estadunidense está por vir. Diz ele que depois que levou bomba no Iraque, os americanos do Norte perceberam que tinham deixado os americanos do Sul livres de mais. Tão livres, que o inimaginável aconteceu: os movimentos sociais, com forte poder de persuasão popular, chegaram ao poder por via democrática. E parece que só agora Bush se deu conta de que os índios estão no poder. Ouviu bem, compa? Os índios estão no poder! A TV transmite, o jornal alardeia, mas não é curioso como exatamente quando conseguimos aquilo pelo qual lutamos há séculos, não temos forças nem para comemorar? Ou estão todos surdos ou não estão mesmo entendendo os avanços que conquistamos nos últimos anos. Talvez não seja – não é – exatamente como pensamos, mas, o menino está certo, melhor uma democracia construída por nós que uma outra imposta por eles. Há quem diga que o que está acontecendo aqui em baixo, no quintal, é fascismo. Acho que fascismo foi só um termo reinventado para dar nome aos esquemas de controle latino-americanos. Quando são os estadunidenses quem controlam, o fascismo recebe nome de democracia. Mas não tem jeito. Ernesto está com medo da contra-ofensiva e por isso tenho enjoado mais. Tento acalmá-lo, dizendo que não é a primeira vez, mas o menino está inconsolável. Quando o temor aumenta, rezo muito, para não sermos engolidos pelo fantasma da indiferença, nem sermos levados por esse discurso de que os nossos líderes indígenas são neoterroristas. Aí chegam as notícias sobre os confrontos diretos com as oligarquias na Bolívia? Falam de confrontos militares pesados, com prenúncio de um novo massacre, que certamente não será noticiado. Nunca sei em quem acreditar, não se escreve mais nas entrelinhas. Não sou mais a favor das armas, vou ser mãe. Mas também não acredito em democracia real sem luta, nem em comunhão com o neoliberalismo. Trata-se de tornar o mundo desconfortável para eles, assim como estou agora.16 de jun. de 2008
Desesperançar
12 de jun. de 2008
Mulher-banana
6 de jun. de 2008
Semente de Conto - EPIFANIA TRICOLOR
Quatro minutos do primeiro tempo. As oitenta mil cabeças submersas na forma oval assistiam, extasiadas, ao vaivém de bolas amarelas no gramado. As mãos se encontraram na tentativa de alcançar o balão vermelho. Veio a nuvem de arroz e ele lhe ofereceu a camisa para proteger o rosto. O suor brotou farto pela testa até alcançar a virilha. A bandeira tricolor desceu inteira sobre os dois, protegendo-os de si mesmos. Doze minutos do segundo tempo. Inconsolável, ele caiu. Ela lhe devolveu a camisa, cobriu suas costas com as mãos. Os seios roçaram o braço direito. As pernas trepidaram e as línguas se encontraram. Dezoito minutos, gol de Washington. Os mamilos encontraram o peito de frente. Morderam-se os lábios em profano silêncio. Nova nuvem de arroz e o corpo inteiro ficou anestesiado. Vinte e seis do segundo. Conca, Conca, Conca, e as mãos encobriram toda a cintura, dedos já na altura do ventre. O espaço entre o vão das pernas dele ganhou forma, ela ardia por dentro. Faltou-lhes o ar. Quarenta e sete. Dodô! O manto tricolor caiu sobre as cabeças e se amaram ali, na íntima comunhão de um Maracanã lotado.
4 de jun. de 2008
O menino do violino
Mais um dia ela corre afoita. Quase perde o das 9h35. Chega, se arruma no banco, põe as bolsas e casaco de lado para poder achar o pente , o espelho e o batom. Se arruma depressa e agradece o pequeno trânsito causado pela chuva fina. Deu tempo. Ela está pronta. A condução pára e lá está ele, o menino do violino. Entra meio desajeitado, arruma o cabelo molhado, sacode a capa do instrumento e paga para passar da roleta. Eis o grande instante. Ele passa por ela, olha pra frente, procura um acento vazio. Lisbela contempla o momento e reconhece o ar agitado. Ela não olha mais pra trás. A viagem é regida pelos desenhos do vento entre seus dedos. Mãos na altura do lábios. Seus olhos fitam o nada, sempre de lado. Ela quer que ele a veja em seu melhor ângulo. Jura que é observada e que ele corre para encontrá-la todos os dias. Seguem assim os minutos. De repente a hora de saltar. Arruma o cachecol, afofa a bolsa para não parecer cheia demais, coloca os óculos escuros e levanta. Olha em volta a procurar o violino. Não acha. Ele já desceu. Ela segue pelas ruas torcendo para o dia passar... Amanhã ela o verá novamente.
28 de mai. de 2008
Semente de Conto - ARACY
23 de mai. de 2008
A verdade
Numa manhã cinzenta de agosto, Chico e Ana acordaram dispostos a encontrar A VERDADE. Conversaram durante horas sobre como a tarefa poderia ser realizada. Cogitaram todos os meios e ponderaram sobre as conseqüências que a descoberta poderia trazer. Cochicharam muito durante o café da manhã, entre broas e queijos e pães. Tudo sob o olhar interrogativo, mas carinhoso, da mãe. Concordaram sobre a importância de manter o projeto em sigilo. Passaram a tarde planejando a ação, desenharam, trocaram bilhetes ao longo do dia, mantendo o segredo da intenção sob sete chaves bem pesadas. À noite, despediram-se após o jantar e correram para o quarto. Luz apagada, juntaram-se embaixo do cobertor. Acenderam o abajur, do mesmo jeito que faziam desde pequenos, quando brincavam de caverninha. Respirações ofegantes, um calor dentro do corpo subindo para as bochechas. Ana então perguntou: “Chico, você achou A VERDADE?”. E o menino, olhos exclamativos, revela o livro escondido atrás de si, afastando a poeira acumulada. “Aqui está, Ana”, com o dedo certeiro sobre A VERDADE. Era o dicionário de capa preta aberto na página 2.060.
9 de mai. de 2008
Semente de conto - ESQUELETO
2 de mai. de 2008
Semente de Conto - NÚPCIAS
16 de abr. de 2008
Esbarrei nela
Um dia esbarrei nela, linda, toda-toda, cheia de salamaleques e olhares sedutores. Fisgou-me na mesma hora. Aquele carnaval foi memorável. Linda, linda, purpurina tilintando nos olhos. Um aperto no peito. Ela sumiu. No meio daquela multidão. Um vazio. De repente, um par de pernas, todo trançado de branco. Filó vermelho escondia as coxas, e a bunda, que bunda. A barriguinha saliente denunciava as gordurinhas, daquelas que se pode pegar e apertar até cansar de tanta gostosura. Seios pequenos. Podia fechar os olhos e dizer que cabiam nas palmas das minhas mãos. Os braços acompanhavam as pernas, longilíneos, desses que te abraçam até quase sufocar. Fingi que não vi. Passei, olhei pra trás e lá estava ela, a nuca fogosa. Cabelos longos, desciam pelos ombros magros e recortavam o rosto fino da mais bela visão da festa do Rei Momo. Seus olhos castanhos me fitaram num sorriso fechado, de um lado parado, do outro puxado. Vi a covinha. Linda. Senti que já estava no papo. Eu, claro. Me tremi inteiro. Ela sorriu. Agora por inteiro. Olhou pra frente e seguiu devagar...







