6 de jun. de 2008

Semente de Conto - EPIFANIA TRICOLOR



Quatro minutos do primeiro tempo. As oitenta mil cabeças submersas na forma oval assistiam, extasiadas, ao vaivém de bolas amarelas no gramado. As mãos se encontraram na tentativa de alcançar o balão vermelho. Veio a nuvem de arroz e ele lhe ofereceu a camisa para proteger o rosto. O suor brotou farto pela testa até alcançar a virilha. A bandeira tricolor desceu inteira sobre os dois, protegendo-os de si mesmos. Doze minutos do segundo tempo. Inconsolável, ele caiu. Ela lhe devolveu a camisa, cobriu suas costas com as mãos. Os seios roçaram o braço direito. As pernas trepidaram e as línguas se encontraram. Dezoito minutos, gol de Washington. Os mamilos encontraram o peito de frente. Morderam-se os lábios em profano silêncio. Nova nuvem de arroz e o corpo inteiro ficou anestesiado. Vinte e seis do segundo. Conca, Conca, Conca, e as mãos encobriram toda a cintura, dedos já na altura do ventre. O espaço entre o vão das pernas dele ganhou forma, ela ardia por dentro. Faltou-lhes o ar. Quarenta e sete. Dodô! O manto tricolor caiu sobre as cabeças e se amaram ali, na íntima comunhão de um Maracanã lotado.

Acontecimentos reais.2


Foto: Keryllyn de Souza

"Sejam sinceros: nunca lhes passou pela cabeça querer ver-se vivendo? Vocês só querem viver para si - e fazem muito bem- , sem pensar no que poderiam ser para os outros; não porque não lhes interesse a opinião alheia, que lhes interessa enormemente, mas porque vocês vivem na feliz ilusão de que os outros, de fora, os percebem da mesma forma como vocês se percebem."

(Pirandello – Um, nenhum e cem mil)

Coisas estranhas acontecem na normalidade da casa. As formigas não gostam de açúcar, preferem se infiltrar na garrafa de café. Todas as manhãs, ela é obrigada a repetir o mesmo gesto. Abre a garrafa, assassina as formigas com a água da torneira e depois joga água fervendo para limpar os vestígios. Ela pensa que sociedade secreta das formigas é essa que resiste às suas investidas.

Freqüentemente, também, os objetos somem ou mudam de lugar. Ela deixa o livro na mesinha de cabeceira, antes de dormir, e ele amanhece no sofá da sala. Certa vez, procurou sua certidão de nascimento, guardada há 35 anos na caixinha de recordações que sua mãe lhe dera, e ela não estava mais lá. Precisou ir ao cartório para recuperar sua existência.


Seu marido teima em lhe dar explicações científicas ou, ao menos, plausíveis, para as coisas estranhas. Trouxe, certa vez, um recorte de jornal que falava de uma espécie de formigas - a Faraó ou Monomorium pharaonis - que procuravam lugares na casa onde pudessem se aquecer, como os aparelhos eletrônicos. Logo, concluía o marido, as formigas entravam na garrafa de café em busca do calor.


Sobre os livros, ele jurava que a mulher era sonâmbula e que lia nas madrugadas, no sofá, embora ela não se lembrasse de nada e o marcador continuasse na mesma página em que ela havia interrompido a leitura antes de dormir. A certidão, obviamente, foi comida por traças, as traças de livros da espécie Acrotelsa collaris (Fabricius), que gostam de papel com cola, como a certidão que havia sido desprendida de um livro de anotações de bebê.


Um dia, ela olhou no espelho, mas viu a imagem de outra mulher. Chamou o marido. “Quem você está vendo ali?” “Ora, você”, respondeu o homem. “Não, não sou eu. É outra mulher. Agora me explique essa coisa estranha”. Diante do espanto do marido, desafiou: “Então descreva, detalhadamente”. O marido expôs minuciosamente os traços, contou as rugas, filosofou sobre a textura da pele e os desenhos do cabelo.


Dessa vez, ele não conseguiu solucionar o mistério. O que suas palavras descreviam era a outra mulher.

5 de jun. de 2008


"Voltei pro Crato/E fui fazer artesanato/De barro bom e barato/Pra mó de economizar", cantarolava, quando saí de casa ontem, olhei para o lado, vi a menina Sílvia e sorri. Podia ser o pai, pensei. "Eu era um broto/E também fiz muito garoto/Um mais bem feito que o outro/Eles só faltam falar", continuava os versos da canção quando, descendo a ladeira da Rua Faro, do outro lado da rua, observo o maestro Luiz Cláudio Ramos. Ah, não, não podia ser o cantor?
À noite, vendo o jogo do Fluminense na TV, ele finalmente aparece. Com o sorriso largo característico, comemora ao lado da filha Sílvia e do genro Chico Diaz, nas cadeiras do Maraca, o segundo gol do seu time.
O dia era dele, do tricolor das Laranjeiras, time do nosso Cartola, do mestre maior Nelson Rodrigues, dos amigos nas arquibancadas, de toda a nação que obrigatoriamente ontem se tingiu de verde, branco e grená e torceu contra os hermanos do Boca Juniors.
Não, não virei a casaca. Sou Vasco, tenho dois botafoguenses em casa e nem ligo para futebol. Mas, não posso negar que a campanha do Fluminense na reta final da Taça Libertadores me fez novamente sentar em frente à TV para torcer e voltar a ver partidas inteiras (o que, nos últimos anos, só tem acontecido em jogos de Copa do Mundo). Tá bom, confesso, eu sou também é muito fã do Renato Gaúcho.

4 de jun. de 2008

O menino do violino

Mais um dia ela corre afoita. Quase perde o das 9h35. Chega, se arruma no banco, põe as bolsas e casaco de lado para poder achar o pente , o espelho e o batom. Se arruma depressa e agradece o pequeno trânsito causado pela chuva fina. Deu tempo. Ela está pronta. A condução pára e lá está ele, o menino do violino. Entra meio desajeitado, arruma o cabelo molhado, sacode a capa do instrumento e paga para passar da roleta. Eis o grande instante. Ele passa por ela, olha pra frente, procura um acento vazio. Lisbela contempla o momento e reconhece o ar agitado. Ela não olha mais pra trás. A viagem é regida pelos desenhos do vento entre seus dedos. Mãos na altura do lábios. Seus olhos fitam o nada, sempre de lado. Ela quer que ele a veja em seu melhor ângulo. Jura que é observada e que ele corre para encontrá-la todos os dias. Seguem assim os minutos. De repente a hora de saltar. Arruma o cachecol, afofa a bolsa para não parecer cheia demais, coloca os óculos escuros e levanta. Olha em volta a procurar o violino. Não acha. Ele já desceu. Ela segue pelas ruas torcendo para o dia passar... Amanhã ela o verá novamente.

A invasão dos filmes dublados

Uma das coisas que mais me incomodam, até mais que pessoas falando no celular e comendo pipoca no cinema, é filme dublado. E outro dia entrei correndo no cinema sem prestar atenção nessa simples informação: o filme era dublado. Assisti resignado, mas meu espanto foi maior quando descobri que naquele cinema todas as sessões exibiam filmes dublados.

Na saída eu peguei um folheto com a programação dos cinemas Kinoplex. Além do Shopping Grande Rio, os cinemas do Iguaçú Top, do Madureira Shopping e BayMarket (este, com a excessão de uma sessão) apresentavam em sua programação apenas filmes dublados.
O contrário acontecia no Fashion Mall, no Leblon, no Palácio, no Roxy e no São Luiz. (Nos demais, as sessões eram equilibradas.)

Além de uma decisão prática (não iria mais ao cinema no Grande Rio), fiquei pensando que separação social é essa. Será que foram feitas pesquisas para saber se no Leblon as pessoas sabem ler (ou gostam de ler) e em São João de Meriti não sabem, ou lêem com dificuldade e devagar? Ou essa decisão foi tomada com base apenas em preconceitos?

Não que estejamos perdendo grande coisa. Afinal, a vasta programação do Kinoplex reserva para todos (!) os cinemas, às vezes em mais de uma sala, "Indiana Jones", "Speed Racer" e "Homem de Ferro" (só no Leblon, que tem apenas duas salas, os filmes eram "Indiana Jones e "Efeito Dominó"). Os filmes que completam a programação são piores.

Reclama-se muito da onipresença da televisão - principalmente das novelas - na vida do brasileiro. Mas assitir ao final de "Duas caras", que bem ou mal tentou colocar alguma questão em discussão, é muito mais enriquecedor que ver filmes ruins e dublados nos Kinoplex da vida.

3 de jun. de 2008

Caso Jornal O Dia 3

Enquanto a maioria alardeia, mui justamente, a tortura sofrida pelos nossos bravos colegas do jornal O Dia por inescrupulosos policiais, peço vênia para desviar um pouco o olhar para dentro de casa; mais especificamente para os aquários, onde engravatados comandantes da comunicação lançam, diariamente, centenas de operários das letras na cova dos leões. Com redações cada vez mais enxutas e a necessidade crescente por pautas sensacionalistas, a nobre função de ser “os olhos e ouvidos da sociedade” se converteu em uma atividade suicida.

Jornalismo investigativo de qualidade requer tempo, dinheiro, infra-estrutura e profissionais preparados. Mas os comandantes, que certamente nem por um milhão de euros se embrenhariam em uma favela dominada por milícias, optam sempre pelo caminho mais rápido: convencer apaixonados pela profissão a conseguir a manchete do próximo domingo em troca do pão no fim do mês. É isso ou rua.

Há quem diga que práticas como essa são inevitáveis em uma atividade como a reportagem. Mas nem o mais cruel comandante enviaria um soldado sozinho e sem suporte para o campo de batalha. O que se questiona aqui não é, em absoluto, a realização de matérias investigativas, que denunciem os algozes da sociedade. Mas a falta de segurança profissional para quem ainda tem coragem e paixão para exercitar o que, de fato, é jornalismo.

Promiscuidade com a imprensa rendeu votos à Marina Magessi

O noticiário da manhã de hoje me deu náuseas. A rádio Bandnews FM, durante programa de Ricardo Boechat, divulgou gravações telefônicas autorizadas pela Justiça para a Polícia Federal em que a ilustre deputada federal Marina Magessi (PPS-RJ), ex-inspetora ou ex-delegada da divisão de entorpecentes do Rio (ela chorou em seu último dia na Polícia, não lembram???, pilantra!!) contando como negociava (NEGOCIAÇÕES, MUITAS VEZES, ENVOLVEM NÃO SÓ TROCA DE FAVORES, MAS TAMBÉM DE DINHEIRO) a exclusividade de reportagens sobre as operações que realizava, durante seu horário de trabalho como servidora pública, que fique claro, com a TV Globo e com o Jornal O Globo. No áudio é possível ouvir Magessi contando que fechou estas tais parcerias com os veículos para a cobertura da Operação Chave de Ouro, que prendeu jovens de classe média que traficavam LSD e ecstasy. A gravação registra a ex-inspetora conversando sobre o assunto no dia 01/12/2006 com o inspetor Hélio Machado, que hoje é procurado pela PF e está foragido. Marina Magessi ainda defende, em outro telefonema, a ação das milícias. Ela cita nominalmente Rodolfo, de O Globo. Pra quem sabe ler, um pingo é letra, já dizia a minha avó.

O link para se ouvir as gravações está no site da rádio. É claro que estas coisas acontecem, quem trabalha na linha de frente do jornalismo carioca está careca de saber. A PF do Rio adora "liberar" imagens para a Globo e só para esta emissora. E quando você pede estas imagens no dia seguinte ao da exibição, na maior cra de pau deslavada eles dizem que não têm, desconversam, enrolam. Ora. Uma operação policial ou de fiscalização é uma atividade caríssima aos cofres públicos e é paga com o dinheiro do contribuinte, que tem todo o direito de saber o que se passa na cidade onde vive. Uma coisa é um cidadão, leitor ou não, vender imagens exclusivas de uma cena que presenciou para determinado veículo. É o que fazem os profissionais freelancer. Outra é uma instituição pública fazer isso. É ilegal, imoral.

Marina Maggesi deixou a polícia civil pouco depois da tal operação em que aparecia como heroína para candidatar-se à Câmara dos Deputados. Há trechos da escuta telefônic em que ela comemora os mais de 3 minutos que ficou no ar na abertura do jornal nacional, com letra mínúscula, projetando seu nome e imagem a milhões e milhões de pessoas. Essa "fama" seria muito útil meses depois, quando ela botasse o pé na porta da casa das pessoas durante o horário eleitoral gratuito.

Dicas culturais


No ano em que se completam 20 anos da morte da cantora, a agenda do samba e choro divulga o convite para a exposição que o CPC Aracy de Almeida inaugurou ontem na Sala Carlos Couto, espaço anexo ao Teatro Municipal de Niterói, em homenagem à Dama do Encantado. "Aracy de Almeida – 1914/1988: A Realidade do Samba" terá fotos da carreira, capas de álbuns e discos e frases da cantora que foi uma das maiores intérpretes do meu querido Noel Rosa.


A exposição terá ainda um libreto com trechos de entrevistas de Araca, além de depoimentos de Cristina Buarque, Olívia Byngton, Ana de Hollanda, Eliane Faria, Maria Bethânia, Caetano Veloso, entre outros.

Serviço: A Sala Carlos Couto fica na Rua XV de Novembro, 35 – Centro/Niterói, em frente ao Plaza Shopping. A exposição fica em cartaz de 03 de junho a 31 de julho de 2008 e pode ser conferida de terça a sexta-feira, das 10h às 18h; e aos sábados, domingos e feriados das 15h às 18h. A entrada é franca.

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Também em Niterói, a nossa Olívia Bandeira de Mello convida para a exposição fotográfica do grupo Olho Vivo, assessorado pela ONG Bem TV.

Para o serviço, é só clicar na imagem ao lado (linda, por sinal).




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A amiga Elis Galvão divulga o terceiro número da Revista Moviola:

"Nesta edição, a Revista Moviola trata de Cinema e Teatro. Começando com uma entrevista dada por Domingos de Oliveira e Priscilla Rozembaum; um texto de Rafael de Luna sobre o Cinema Brasileiro na primeira metade do século XX; a montagem como separação do Cinema e do Teatro; Renata Mizrahi falando de sua vida como atriz; a difícil relação entre Ópera e Cinema; um podcast Roberto D'Ugo Júnior e sua Música Discreta; as imagens desconcertantes de Rita Melo; e uma entrevista exclusiva com Tião, que venceu a Regard Neuf no último festival de Cannes com seu curta Muro. E ainda: João Paulo Cuenca; Hunter S. Thompson; Contos; Versos; Odylo Costa Filho; e a continuação da campanha da Moviola Fotografe o seu Cinema antes que ele vire Igreja."
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Por último, gostaria de recomendar uma série de textos sobre a Tijuca do nosso colaborador Fernando Miragaya, para onde talvez se mude nossa Caroça Luciana Gondim (existe essa possibilidade, não?), publicados no blog do tijucano Eduardo Goldemberg. Nos textos, ele propõe roteiros interessantíssimos desse bairro da Zona Norte que tem aparecido nos jornais apenas pelo lado negativo (favelas, tiroteios, violência). Tive muitos amigos moradores de lá (em todo lugar há um tijucano, não?) e fiquei emocionada ao conhecer, ainda que virtualmente, um lugar tão querido dos cariocas. Vale a visita.

2 de jun. de 2008

Caso Jornal O Dia 2

Campanha de 2006. A candidata à Presidência Heloísa Helena percorria uma das favelas do Complexo da Maré, seguida por cabos eleitorais e a imprensa, quando surgiram no horizonte da caravana traficantes armados com fuzis. Os fotógrafos registraram a cena. Mais adiante, eles estavam bem perto. Já dava para ver o tamanho do fuzil, os rádios de comunicação e a cara dos bandidos, que fizeram questão de mostrar o poderio bélico para a comitiva.

Ao passar para outra comunidade, no mesmo complexo, um menino chegou até um dos fotógrafos e deu o alerta: "eles" sabem que foram fotografados. Era o aviso de que estávamos em território inimigo e que, ali, poderia não haver presidente de associação de moradores, muito menos a polícia, que nos salvasse. Depois de passar por bocas de fumo, o clima ficou mais tenso, embora as armas já estivessem escondidas. O pessoal da campanha do PSOL insistia em dizer que não havia problema, que não era necessário ter a presença da polícia, que favela não tem só bandido. Aquele discurso chato de esquerda não nos convenceu. Três repórteres se juntaram para uma conferência e decidimos: vamos voltar para a redação, porque sem segurança não há trabalho. Ligamos para os chefes, relatamos os fatos e demos meia volta rumo ao centro da cidade.

A morte de Tim Lopes marcou para sempre o jornalismo na cidade do Rio. Coletes à prova de bala e carros blindados hoje fazem companhia aos blocos de apuração, gravadores e máquinas fotográficas nas horas em que os repórteres precisam sair para cobrir tiroteios, por exemplo. A Globo, por um tempo, decidiu não entrar mais de carro em favelas. Não sei se continua assim. O fato é que acabou de vez o mito de que a imprensa tinha salvo-conduto para cobrir conflitos. Se estamos em guerra ou não (alguns estudiosos rejeitam essa observação), o fato é que tornou-se perigosíssimo transitar por esses territórios com leis próprias, agora ditadas também por bandidos de farda, os milicianos.

O seqüestro e a tortura da equipe de reportagem de O Dia será outro marco, triste, para a história do jornalismo - que já sofreu com torturas durante a ditadura militar. Estaríamos de novo em estado de exceção?

Muitos estão criticando a postura do jornal, por ter deixado seus profissionais enfrentarem uma situação de risco, passando-se por moradores da favela para revelar o cotidiano de quem convive com a milícia. Há ideologia no desejo de mostrar as mazelas dos favelados aos outros cidadãos do Rio? Há. Ela é da intensidade dos que desejaram derrubar os ditadores de farda verde de outrora? Talvez sim. Deseja-se morrer por essa causa? Não.

Como disse o presidente do Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio, Azis Filho (que já vem discutindo essa questão no sindicato há algum tempo), é preciso preparação para uma infiltração em área conflagrada. Concordo. Mas acho que é menos hora para discutir os métodos jornalísticos, e mais o momento de cobrarmos uma solução para o combate à milícia. Na época do Tim Lopes, foi mais fácil para a então governadora Benedita da Silva empenhar as forças de segurança pública na busca desesperada ao assassino do jornalista. Elias Maluco e seu bando foram capturados, presos e condenados. Mas, agora, o caso é outro. A polícia vai prender policiais? Quem, na instituição, está ou não envolvido com os milicianos? Identificá-los e condená-los vai adiantar? Ou eles vão continuar subjugando os moradores como os reles traficantes?

Achar as respostas para essas perguntas, dias após a prisão do deputado estadual Álvaro Lins, acusado de usar a máquina pública para proteger contraventores e achacar bandidos, é primordial para o futuro da cidade. Com poderes nas instituições, os milicianos serão mais duros de combater. O trabalho da imprensa fica prejudicado, e os moradores da cidade, acuados. Esperamos por capítulos melhores para essa tragédia.

1 de jun. de 2008

Caso Jornal O Dia

Por razões de saúde estive um pouco afastada desse blog. Infelizmente, o que me incentiva a voltar é uma notícia lamentável. Não pensei num título criativo, mas isso não tem a menor importância. Uma equipe de reportagem do jornal O Dia, infiltrada em uma comunidade para fazer uma matéria sobre como é o dia-a-dia numa favela dominada por uma milícia, foi descoberta, torturada e permanece ameaçada de morte, fato ocorrido há 15 dias e noticiado no jornal deste domingo para segurança dos envolvidos. A redação da publicação trabalhou hoje com as portas fortemente trancadas. Não quero propor uma discussão sobre coisas como "fere a liberdade de imprensa", "desrespeito às instituições"...Não tenho também um pensamento organizado sobre tudo, apesar de muita gente estar especulando como eles agiram, se deram bobeira ou não, se tudo foi bem ou mal planejado, de quem é a responsabilidade, nem se o jornal acaba até lucrando pois tá vendendo igual água. Também não quero falar de milícias, traficantes, poder paralelo.

Penso nos três seres humanos envolvidos. Estavam lá para denunciar a opressão vivida por gente pobre, sentindo isso na própria pele e num clima de tensão, sempre, imagino, com medo de serem descobertos. São jornalistas (motorista e fotógrafo muitas vezes ajuda à beça numa apuração, muitos tem um faro danado), não investigadores profissionais. Eles aparanham muito. Não imagino a dor que é ficar levando socos e chutes de um monte de homens. Não consigo imaginar o que é estar sob totura psicológica com uma arma apontada pra cabeça, não sei o que é ter um saco plástico na cabeça. Não sei o que é ter medo de morrer. Isso não é filme. Aconteceu com três colegas. Estou profundamente chocada. E triste. Como estas pessoas vão superar isso? Vão superar? Vão sobreviver a isso?