8 de out. de 2008

Diálogos de campanha (ainda no 1º turno) - e uma pergunta

No sacolão volante, estacionado na Pacheco Leão, Horto.

_ Esse Crivella não pode ganhar.
_ Ah, não mesmo. Não voto nele de jeito nenhum, aquele povo evangélico...
_ Você vai votar em quem, então?
_ Ah, eu voto naquele menino, ele é muito bom, honesto.
_ Quem, o Eduardo Paes?
_ Não, no Gabeira, ué.


Numa janela da São Clemente. Uma carreata do Molon passava na rua, com quase ninguém atrás. E a menina Sofia, de 2 anos e 10 meses, pergunta:

_ Mamãe, o que aquele moço tá fazendo em pé no carro, dando tchau?

*****

A pergunta: vocês acham que as fotos do "menino" Gabeira de sunga podem tirar votos do candidato verde?

Ovelhinhas



Você se assustava com a menina pastorinha? Eu também. Até descobrir hoje o "bebê pastor". Afinal de contas, o que já é ruim sempre pode piorar:

Eduardo Paes e a milícia



via Pedro Doria.

7 de out. de 2008

Conversas de escritorio

Menina 1: Acho que voces deveriam assistir a esse video.

Menina 2: Bem-vindos ao futuro!

Menino 1: Nao eh ilegal empregar macacos?

Menino 2: Olhe entao a sua volta.

6 de out. de 2008

Alamedas

Uma vez por ano, sempre naquele dia, ela vinha visitá-lo. Fazia tempo que não estavam mais juntos, mas ambos sentiam dever tanto um ao outro que era necessário, nem que fosse por um dia apenas, que se reencontrassem.

Sentado, sem se importar com os outros passantes, ele a esperava chegar. Viu quando ela apareceu ao longe, vindo devagar pelas alamedas cobertas de folhas secas, trazendo flores nas mãos. Ela gostava de manter aquela formalidade, o que fazia com que ele se sentisse tanto lisonjeado quanto incomodado; jamais se lembrava de dar alguma coisa a ela.

Sorriu quando percebeu que ela continuava linda, tanto quanto na época em que se apaixonaram, mais de vinte anos antes. Ela também sorriu ao vê-lo, iluminando seu rosto antes tenso -- parecia não ter se acostumado a encontrar-se com ele depois de terminado o casamento. Podia sentir o incômodo que a tomava.

Afinal, encontraram-se. Ela lhe entregou as flores e o encarou por um longo tempo. Sabiam que não havia nada a ser dito. Ela havia casado novamente, tido outra filha e arranjado um emprego melhor. Já ele permanecia na mesma situação desde a separação, tantos anos antes, mas nenhum dos dois se importava com isso. Reviam-se, e isso bastava.

Ele percebeu os olhos dela ficarem úmidos e sabia que ela pensava "e se ainda estivéssemos juntos?" Lamentava. Estava tudo acabado, não havia jeito -- quantos mais anos separados seriam necessários para que ela se convencesse? Ele não conseguia entender a razão de tal apego ao passado, de pensar em como seria se tivesse sido, de entristecer-se sem motivo desejando o impossível.

Uma lufada de vento fez com que ela se lembrasse de que devia ir. Fitou-o uma última vez, enxugando os olhos com as costas das mãos, sorriu incerta e se despediu com uma tristeza resignada na voz. Ele, por sua vez, não se mexeu; apenas acompanhava-a com os olhos, vendo-a se afastar com seus passos elegantes sobre as folhas secas caídas nas estreitas alamedas. Ela voltaria, ele sabia. Estaria lá novamente no ano seguinte, no mesmo dia de Finados, trazendo-lhe suas flores. E ambos, mais uma vez, lembrariam do tempo em que haviam estado juntos -- como se, por um só momento, pudessem esquecê-lo.

NYTimes sobre "Ensaio sobre a cegueira"

Não tenho acompanhado tudo que tem sido escrito sobre o filme Ensaio sobre a cegueira. Mas achei interessante essa crítica do New York Times, que bate, principalmente, no livro do José Saramago.
Tenho restrições ao livro, mas o que mais me impressiona é que o NYTimes praticamente diz que o livro é ruim porque é alegórico, isto é: porque não é realista. Para o jornal, o que importa são os "seres humanos reais" (o que é isso, exatamente?; algum livro ou filme fala realmente de "seres humanos reais"?). Como bons apóstolos de Syd Field, os críticos costumam avaliar negativamente todo e qualquer filme (e, claro, todo livro, ora pois) que não obedeça à máxima de que "toda ação do personagem deve ser justificada pela construção psicológica desse personagem". Isso, para eles, não é um "universo mecânico"...
Por fim, nos diz o crítico, "o filme [Blindness] não nos dá muito o que pensar". A mim, dá muito o que pensar (como, p. ex., que m... afinal é o "ser humano"), ao contrário desse realismo onipresente em filmes como Menina de ouro (Clint Eastwood) e livros como Pastoral americana (Philip Roth), que todos aplaudem sem restrições, mas que para mim parecem aula de educação moral e cívica.
Conclamo algum caroço com maior sensibilidade cinematográfica a falar sobre o filme...

5 de out. de 2008

Cesar Maia acha que vai dar Gabeira

Se a campanha eleitoral foi morna, o dia de votação está quente no Rio de Janeiro. Daqui a pouco começam a sair as pesquisas de boca de urna. Apressadinho, o prefeito-internauta Cesar Maia já botou seu data-blog na rua. Previsões - baseadas em quê, Deus!!!??? - são favoráveis ao candidato Fernando Gabeira. reproduzo na íntegra o conteúdo que ele publica em forma de newsletter, conhecida como ex-blog.

DATA-BLOG VAI AS RUAS NO SÁBADO E GARANTE GABEIRA FÁCIL NO SEGUNDO TURNO!

1. Gabeira chegará aos 20% e Crivella ficará nos 14%, aliás, previstos desde o início da campanha por este Ex-Blog.

2. O Ibope -confessando os erros- fez um gigantesco ajuste em uma semana. A diferença de 14 pontos passou a ser de 2 (19% a 17%). Mas para fazer essa mágica e se justificar, o Ibope disse que fez uma pesquisa com 1.200 entrevistas durante três dias: quinta, sexta e sábado. Com isso dirá que havia uma curva ascendente de Gabeira e que os três dias mitigaram esse resultado.

3. O Data-Folha fez a pesquisa entre sexta e sábado e deu Gabeira na frente: 18% a 17%, com 2 mil entrevistas.

4. Mas os experimentados entrevistadores do Data-Blog foram para a rua no sábado e entrevistaram 1.200 pessoas por toda a cidade. Na quinta-feira haviam apontado 17% para o Gabeira e 15% para o Crivella projetando pelo menos 3 pontos de diferença no hoje.

5. Mas ontem o Data-Blog fez primeiro uma pesquisa efetivamente espontânea. Gabeira teve 17% e Crivella 10%. Paes teve 22%. Ainda tinham 36% de não-voto (brancos-nulos-indecisos).

6. Na pesquisa de ontem, de intenções de voto induzidas, Gabeira teve 20% e Crivella 14%, numa enorme vantagem muito além da margem de erro. A curva ascendente de Gabeira traduz um movimento de contaminação de voto que pode ampliar esta diferença.

3 de out. de 2008

Que mistérios tem Clarice?

“E um dos indiretos modos de entender é achar bonito.”

Tinha acabado de entrar na exposição sobre Clarice Lispector no Centro Cultural Banco do Brasil e pensava justamente na dificuldade que sempre tive de “entender” a escritora. Tenho vários livros, tentei ler alguns deles, mas sempre fui abandonando a leitura pelo caminho, um a um. No entanto, ao entrar na primeira sala e me deparar com as fotos e algumas de suas frases era como se aquilo que estava lendo e admirando fizesse todo o sentido para mim, desde sempre.

Foi quando me deparei com a frase lá em cima.

Estive lá no domingo, mais um dia chuvoso no Rio e, pelo que eu tinha lido, o último para se conferir a exposição, que já tinha feito o maior sucesso em São Paulo. Foi uma surpresa atrás da outra. Além de achar as soluções cenográficas perfeitas para se ler Clarice, gostei muito de entrar em contato com o universo mulher da escritora. Numa entrevista, que assisti sentada no sofá, ao lado da máquina de escrever usada por Clarice, ela explica que “é muito maternal” e que, portanto, tem muito mais facilidade e gosto para lidar com crianças que com adultos.

Nessa linha feminina, um dos documentos expostos que mais me chamou a atenção foi uma listinha de afazeres domésticos de Clarice:
1) Viver melhor as 24 horas do dia (ter mais tempo)
2) Tinturaria cabelo
3) Luvas
4) Café turco
5) Ginástica

1) ...
2) Morangos pessoas de idade
3) ... o menu
4) Vestido preto
5) Dar paz ao rosto (telefonar Wilma)

Desde que casei, as listas com afazeres tornaram-se um hábito indispensável. A gente vai andando pela casa e vê que a pasta de dente está acabando, que o leite só dá para hoje, que o pão está vencido, etc. Se não anotamos nada, corremos o risco de voltar do supermercado sem os itens básicos para a casa funcionar. Clarice, mãe de dois filhos, mulher de diplomata, escritora famosa, não era diferente.

Em outro trecho da tal entrevista, ela fala também de seus livros e do rótulo de “hermética”. E conta, deliciosamente, que um professor de literatura de um colégio famoso no Rio disse que não conseguiu entender um de seus livros. Emenda revelando que o mesmo era o livro de cabeceira de uma moça de 17 anos, que a abordou para contar a história.

Saí da sala de exposição, depois de me deliciar com as cartas enviadas por e para Clarice, de gente como Rubem Braga, Lúcio Cardoso, Paulo Mendes Campos, Érico Veríssimo, direto para a livraria da Travessa do CCBB. Se a menina de 17 anos compreendia, já era a minha hora de comprar e tentar ler “A paixão segundo G.H. Para minha surpresa, o livro citado por Clarice no vídeo estava esgotado ali. Sinal de que muitos leitores, como eu, já estavam tentando penetrar ainda mais no reino das palavras da autora de “A hora da estrela”.

OBS: Esse texto também foi publicado no meu novo blog. Tentei escrever algo que valesse para os dois lugares, com o objetivo mesmo de linkar aqui no Caroço o meu novo endereço no mundo blogueiro. O Lameblogadas II ainda está em fase de arrumação e faxina geral, mas acho que já posso fazer o open house.

2 de out. de 2008

Jogando pesado, mas com jeitinho


Entrei no orkut hoje e dei de cara com a seguinte mensagem, no painel principal, logo abaixo da minha sorte do dia: "Uau, você está usando o Google Chrome! Cuide dele direitinho".

O navegador da Google, lançado no início de setembro, de fato caiu no meu gosto, mas nessas horas me bate aquela nóia séria de que os caras vão dominar o mundo e eu estou batendo palma pra maluco dançar.

A linguagem despretensiosa e descontraída não passa batido, não vem de hoje e de inocente não tem nada. Todos aqui já tivemos o privilégio de, após uma tentativa fracassada de acesso ao orkut, ler as mensagens engraçadinhas do tipo "bad, bad server".

Isso me lembra uma entrevista que assisti, há mais de 10 anos, com um professor de marketing que dizia que a capacidade das empresas de conferir humanidade à frieza do computador definiria a disputa por clientes e usuários na Internet - e ele exemplificava esse pensamento com profecias estranhas, como a invenção de mecanismos para medir a sensibilidade do toque nas teclas, que por sua vez ativariam o envio de mensagens correspondentes à sutileza ou falta de na hora de teclar, do tipo "ai, porra!" ou "hum... assim que eu gosto".

O tal do professor acertou. Essa tendência de tecnologia/internet humanizada aparece não só no diálogo engraçadinho com o usuário do orkut, mas está também no azul bebê que ambienta a rede de relacionamentos, cor do aconchego, que induz a uma certa hospitalar letargia.

Teorias conspiratórias à parte, na semana em que a Google anunciou o Chrome, a Discovery Brasil exibiu um programa sobre a Internet e a guerra dos navegadores, travada entre 1995 e 1999. O documentário vale muito à pena (faço ressalvas, mas mesmo assim vale) e nos dá uma boa dimensão do que representa um navegador a mais no mercado.

PS - A imagem do post eu tirei daqui. Porque o mundo é dos nerds e dos geeks.

RELATO DE VIAGEM - SOBRE AGRICULTURA E AGRICULTORES (PARTE 1)

26 de Agosto de 2008


Depois de aproximadamente seis horas de viagem, partindo de Campina Grande, chegamos à pequena cidade de São José de Piranhas, situada no sertão da Paraíba, aos pés da Serra do Monte Horeb. São dez horas da noite, a temperatura é amena, os hotéis estão todos cheios, funcionários de uma empreiteira responsáveis pela duplicação das redes de transmissão elétrica ocuparam todos os lugares. Pego o telefone celular e tento ligar pra casa, não tem sinal. Damos uma volta pela praça, a cidade parece estar em “polvorosa”. Estamos em ano eleitoral e, em alguns dias, será instalada uma antena para celular. Não se fala em outra coisa. Cansados, fomos muito bem recebidos na casa de um amigo, Weggles.

Na manhã seguinte, depois de um farto café da manhã, conheço melhor a cidade. Uma grande praça em frente a Igreja, com direito a coreto,bares e tudo. A vida social da cidade está na praça. Um bom comércio, ruas limpas e organizadas. Mulheres bonitas em toda parte. A economia local gira em torno da agricultura, do funcionalismo público e de aposentadorias. Na produção agrícola destacam-se as culturas de arroz, fava, feijão, milho, gado. Com cerca de 20 mil habitantes a disputa eleitoral é acirrada, e como dizem por lá, “ tá quente como boca de caieira!”. Dia e noite, carros de som fazem propaganda para os três candidatos a prefeito, disputando numa “briga sonora” os ouvidos e os votos dos eleitores. Mas durante alguns dias, um carro com uma chamada diferente destacava-se dos demais, convidando os cidadãos a participarem do “Dia de Beneficiamento de Algodão Agro ecológico Colorido”, na comunidade de Lagoa de Dentro. Uma grande faixa colocada na entrada da cidade também dá destaque ao evento.

Desde 2003 foi instalada na comunidade de Lagoa de Dentro uma mini-usina para o beneficiamento do algodão que é produzido na região, tornando-se assim a "comunidade núcleo" de um pólo produtor que aglutina as comunidades de Pereiros (município de Bonito de Santa Fé), Sítio Barreiros (município de Cajazeiras), Redondo (em Cachoeira dos Índios) e Espinheiro (em Aurora - CE).

A cotonicultura vem sendo reintroduzida na região depois de anos de decadência, em decorrência do aparecimento da praga do bicudo e da abertura do mercado brasileiro à competitividade internacional na década de 90. A iniciativa partiu de um projeto do COEP (Comitê de Entidades no Combate a Fome e Pela Vida- www.coepbrasil.org.br) em parceria com a Embrapa, Chesf, UFRJ/Coppe. Um dos objetivos iniciais do projeto era geração de renda e agregação de valor ao produto na agricultura familiar.

O beneficiamento é um processo que permite que o algodão em rama seja separado em pluma e caroço, prensado em fardos e vendido diretamente para fábricas de fios, sem passar pelos atravessadores. Assim, alcança um preço melhor de mercado, deixando o lucro com os agricultores.

(Continua...)