22 de ago de 2008

Obituário de um sobrevivente

Outro dia, em uma conversa com uma amiga minha da mesma faixa etária (quando começamos a usar faixa etária em vez de idade é claro sinal que estamos ficando velhos), começamos a relembrar coisas da infância e da adolescência. E chegamos a uma conclusão: o pessoal da minha geração sobreviveu, literalmente.

Tudo bem gente, confesso que nasci no então Estado da Guanabara, nos Anos de Chumbo e na meia-vida do AI-5. Assisti a Máquina Tricolor em ação e me tornei Fluminense ao ver o Rivelino entortar a zaga do Vasco. No Maraca, a gente bebia Coca-Cola de máquina e Mate Leão naqueles latões, e ainda comia cachorro quente do Genial, cuja salsicha ficava exposta ao calor de 40 graus. Tudo sem qualquer fiscalização da Vigilância Sanitária. Lembro-me de quando Elvis morreu (mas será que ele morreu mesmo?). Lembro-me quando Cartola, Carmem Miranda, Vinícius de Moraes, Elis Regina, Cecília Meirelles e Garrincha morreram...
Vi pela televisão o Brasil ser campeão moral da Copa da Argentina e o ursinho Micha chorar nas Olimpíadas de Moscou. Joguei Telejogo (o primeiro videogame vendido no Brasil, da Telefunken!) e tomei Ki-Suco, um suco em pó mais artificial que Tang. E chupava balas Banda e Soft, que tinha um formato condenado e amaldiçoado por médicos, pois grudava no meio da garganta e fechava a glote. Mesmo assim, era vendida em qualquer cantina de escola ou barraquinha. Acompanhei o noticiário sobre as bombas na OAB e do RioCentro e comecei a achar que o SNI me vigiava e tinha minha ficha completa.

Pulei de alegria ao ganhar meu primeiro Autorama usado e adorava brincar de bolinha de gude no canteiro do Metrô perto de casa, repleto de ratos e sem qualquer fiscalização. Aliás, os brinquedos da nossa época não tinham qualquer selo do Inmetro e a gente se amarrava em beber a água do Aquaplay, que não tinha qualquer vedação. Cantei o hino nacional todos os dias no colégio. Fui advertido e suspenso algumas vezes na escola por desenhar uma foice e um martelo no quadro-negro. Usei Kichute para jogar bola, com aquelas travas de borracha que eram um verdadeiro crime contra os ligamentos do tornozelo. Peguei fila no cinema Carioca para ver ET (duas vezes!). Joguei Atari e entrava em rios já imundos para pegar pipa. Aliás, para fazer cerol, moía vidro na linha do trem, já que os muros eram mal conservados e qualquer um podia entrar na via férrea...

Comia sem medo os quitutes que a gente ganhava de desconhecidos no Dia de Cosme e Damião. Vivi a expectativa de uma Terceira Guerra Mundial e me assustei com o filme “The Day After”. Lembro da inauguração do Sambódromo... Freqüentei o Circo Voador quando ainda era no Arpoador e me amarrava nos shows “fumaçentos” do Celso Blues Boy. Era rato do “original” Noites Cariocas, no Morro da Urca, onde assisti um monte de bandas de BRock começarem e por onde me entranhei na mata para tentar chegar ao morro sem ter de pagar. Assisti ao Bernard dar o saque Jornada nas Estrelas, no Maracanã. Voltei várias vezes a pé para casa sozinho, às três da matina, na maior inocência e tranqüilidade.

Fui aos comícios das Diretas Já! e fiz panelaço na janela da minha casa. Fui escondido ao primeiro Rock in Rio, ao lado do RioCentro. Vi o Tancredo ser eleito pelo Congresso e morrer (ou ser morto) depois. Testemunhei a inflação diária, quando ia ao supermercado e o preço do macarrão estava Cr$ 1,50 (para quem não sabe, isso é cruzeiro) mais caro que no dia anterior e Cr$ 4,00 mais caro que há dois dias. Vi o Sarney baixar o Plano Cruzado e um monte de gente virar “Fiscal” nos supermercados. Vivi a falta de leite e de carne. Aliás, comi carne estragada da Europa e bebi aos montes um leite em pó holandês Vremilk, especialmente importado (as importações não eram liberadas) para suprir a falta de leite, para depois descobrirmos que a região das vaquinhas fornecedoras havia sido contaminada pelo acidente nuclear de Chernobyl.

Passei e levei cristal japonês no olho, que fazia a gente chorar e, por um milagre, ninguém ficou cego. Usei calça amarelo ovo com camisa de manga comprida vinho da OP e dancei new wave peitando os outros na Mamão com Açúcar, Robin Hood Pub, Mistura Fina e Help (antes de virar um puteiro). Vi pessoas dançarem com as paredes no Crepúsculo de Cubatão. Saí na porrada um sem número de vezes no Maracanã, levei bomba de gás lacrimogênio e cacetete da PM. Brinquei com mercúrio puro (que os dentistas davam para a gente brincar!) e essa porra deve estar no meu sangue até hoje. Dei calote em ônibus. Fumei Salem, um cigarro de menta 300 vezes mais cancerígeno que qualquer outro normal, enquanto meus amigos que não tinham dinheiro nem culhão para comprar loló ou maconha, cheiravam benzina e vomitavam depois.

Joguei pedras em ônibus na manifestação popular na Central do Brasil, em 1988. Bebi vodka Natasha, cerveja Malt 90, uísque Passport e caninha Pitu (sim, menor conseguia comprar bebida e cigarros sem problemas). Fui a todos os comícios do Lula no Rio de Janeiro e votei pela primeira vez para presidente, em 1989, sem medo de ser feliz. Chorei com a vitória do déspota de Maceió, com a queda do Muro de Berlim e com a Coca-Cola na China.




Ufa! Sobrevivi...

11 comentários:

l.c grazinoli disse...

Depois de ler isso tudo eu cheguei a uma só conclusão:

TU É VELHO PRA CARAMBA.
ahahahahahahahahahahah

Velho não , um clássico.

Luciana Gondim disse...

Beber água do aquaplay!!!!!! :) Fomos mesmo feitos um para o outro.

Pedro Paulo Malta disse...

"Agora a China bebe Coca-Cola
Aqui na esquina cheiram cola
Biodegradante, aromatizante tem!"

Compartilho algumas das lembranças as do Maraca: Coca de máquina, cachorro Geneal (com "e" depois do "n" e aquele fiapo de mostarda). Já o Rivellino infelizmente não vi.

Salve, salve!

Abraço grande,
PP

Cláudia Lamego disse...

Eu usei roxo com amarelo e achava que isso só era moda em São Gonçalo!
Ai, meu Deus, também joguei o Telejogo e vivi a maioria das coisas que você diz aí (menos as carioquíssimas, que eu era do outro lado da Ponte).
Mas não lembro das mortes nem do noticiário sobre a bomba no Riocentro...
Somos vividos, hein?

Olívia Bandeira de Melo disse...

Caro Mira, apesar de ser uma menina muito nova, com apenas 18 aninhos (rsrsrs), me lembro das balas Soft e Banda, do Ki-suco, do Aquaplay, do Atari e de outras coisas que chegavam ao interior de Minas.

Agora, fiquei muito curiosa em saber: o que andas fazendo pós-1989?

Beijos!

JH disse...

Viu a Máquina jogar!?

Que inveja! hehehe

Miragaya disse...

Grande PP, bem lembrada a música do Repemê quando o paulo Ricardo gemia mas fazia música decente. Tinha Juvenília tb que era muito boa, lembra? Perdoa pelo Genial... esqueci do detalhe do "E".

Lili, após 89 me tornei pai e tentei ser um pouco mais responsável: parei de beber água do Aquaplay! rsrsrs

Cláudia Lamego disse...

Juvenília era linda! Fui no show do RPM com minha calça roxa e uma blusa amarela, com tênis amarelo combinando. Ah, usando pochete!!!!!!!!!!

Gente, morria de medo de morrer chupando a bala Soft!

Mira, parou de beber água do Aquaplay, mas continuou jogando videogame, né?

Miragaya disse...

Claro Clau!!! rsrs

Inclusive vou organizar campeonatos de bola de gude, de botão e de videogame reunindo Giulia, Antonio, Francisco, Ernesto... e depois os ensino a beber água do Aquaplay!!! rsrsrs

Moacy Cirne disse...

Com bastante atraso, comento agora o seu texto: Cara, ao contrário de alguns colegas aqui, acho que você é novo pra caramba. Imagina eu, que vibrei, ouvindo pelo rádio, quando o Brasil foi campeão na Copa da Suécia, e que vi, em pleno Maraca (com mais de 180 mil torcedores presentes), o Fluminense derrotar o Flamengo por 3 a 2 e conquistar o Carioca de 69? Você é novo, cara! Um abraço tricolor.

Gugu disse...

Inclusive tem uma comunidade ótima no Orkut: "Eu quase morri com bala soft". É o meu caso, e eu nunca esqueço o sabor: uva. Mira, quantos anos você tem?? 235?? Abraço!