10 de jul de 2008

A ausência nos 50 anos da Bossa Nova

Neste blog, temos falado muito pouco do "dia em que a Bossa Nova inventou o Brasil", nas palavras de Tom Zé. Apaixonado pela Bossa Nova (ou pela maior parte dela), tem me incomodado uma visão do movimento que a mídia sempre vendeu: a Bossa Nova feliz, a Bossa Nova da boa consciência.

Desde que vi o documentário Vinicius, dirigido pelo Miguel Faria Jr., passei a me perguntar por que uma parte da Bossa Nova (justamente a mais política ou social) é praticamente ignorada, ou relegada a um terceiro plano (nem a um segundo). Não podemos nos esquecer da ligação de alguns compositores da Bossa Nova, principalmente Carlinhos Lyra, com o CPC da UNE no final dos anos 1950. O próprio Lyra falou sobre isso na Flip deste ano. (Lyra era talvez o mais "bossanovístico" do CPC, junto com outros como Edu Lobo e Dori Caymmi, que também tiveram ligação com a UNE.)

Além de Lyra, Nara Leão fez um disco maravilhoso de "bossa nova social" em 1964. Nesse disco, ela gravou "Maria Moita", de Lyra e Vinicius de Moraes - que começa com os versos "Eu nasci de mucama com feitor / o meu pai dormia em cama / minha mãe no pisador" -, além da "Marcha de Quarta-Feira de Cinzas".

O centro de onde emanavam todas as bossas novas era, claro, Vinicius de Morais. Além de participar da primeira revolução, há 50 anos, o Poetinha foi ativo no desvio para uma música mais engajada. E foi protagonista, com Baden Powell, de uma revolução dentro da revolução: os afro-sambas. (Uma revolução que não foi daquelas que eliminam o que vem antes, mas das que ampliam tudo ao redor.)

Estou ouvindo o disco "refeito" dos afro-sambas (Baden não gostou do resultado na época e regravou em 1991), e a cada audição acho mais incrível como eles conseguiram fazer uma leitura sofisticada da música popular a partir de elementos totalmente diferentes da Bossa Nova "lírica", indo em busca de raízes ainda mais tradicionais (não entendam isso como um valor, apenas que parece mais "música de terreiro" ou qualquer coisa assim do que samba-canção). Os afro-sambas é um disco que deve ser ouvido inteiro. Apesar de belas separadamente, músicas como "Canto de Ossanha" ganham uma nova dimensão no conjunto. O que João Gilberto fez com o violão harmônico, Baden fez com o percusivo. Na minha pequena cultura de samba, o que mais me lembra o disco é o LP Gente da Antiga, de 1968, que recuperava João da Baiana, junto com Clementina de Jesus e Pixinguinha.

A importância de resgatar a Bossa Nova social não é dizer que ela é melhor do que a lírica por ser engajada, mas mostrar como esse movimento foi rico, plural e como está ligado profundamente com a MPB que foi feita antes e depois daqueles dois discos que abalaram o mundo: Canção do amor demais e Chega de Saudade.

imagem: Nara Leão e Carlinhos Lyra com Silvio Caldas.

Para divertir, o Baden em Saravah:

11 comentários:

Olívia Bandeira de Melo disse...

Ótimo post, irmãozinho. É só esse lado feliz da Bossa Nova que aparece na mídia, ou então a disputa por paternidade e pertencimento: quem tem direito a se dizer parte do movimento? Quem frequentava o apartamento da Nara Leão?

Já está longe o tempo em que achava que a arte tinha de ser necessariamente engajada. Mas a Bossa Nova dia de luz e o meu barquinho a deslizar continua não me interessando nem um pouco.

Olívia Bandeira de Melo disse...

Só pra lembrar mais um nome pouco escutado e só citado pelo episódio do violão: Sérgio Ricardo.
Que tal fazer uma entrevista com ele?

Lucas Bandeira disse...

Acho o Sergio Ricardo ótimo. Aquele disco Um Sr. Talento é maravilhoso.
A gente também se esquece muito do Vandré, que para a mídia é apenas o cara que fez "para não dizer que não falei de flores", mas que tem muita coisa boa.

Cláudia Lamego disse...

Não, Vandré também ficou conhecido por se tornar mais reaça que os reaças da época.
E o Carlos Lyra me irrita muito. Hoje em dia, está muito preocupado com a "invasão" de Ipanema pelos mendigos, menores de rua e todo tipo de meliante. Um chato.

Mas, salve a Nara e o Sérgio Ricardo.

Lucas, engraçado, muita gente tem preconceito contra o Vinicius por falta de engajamento. Os afro-sambas são lindos. E esse disco aí com a tia Clementina é maravilhoso!

Lili, deixa de ser coruja, hein! :)

Olívia Bandeira de Melo disse...

Olha a patrulha, hein? Se não posso elogiar irmão também não posso elogiar amigo que, em certos casos, é sinônimo de irmão.
Beijos!

Lucas Bandeira disse...

Clau, o Carlos Lyra dos anos 60 é fodalhaço.

Pedro Paulo Malta disse...

Falou e disse, Lucas.

Vejo a felicidade que se atribui à bossa nova como um desses recursos inventados para simplificar a história: a bossa nova veio acabar com a tristeza que reinava no samba-canção dos anos 50. Fica mais simples assim, né?

Mas e o Johnny Alf, com suas pré-bossas dos anos 50? E Geraldo Pereira, Wilson Batista, Dorival Caymmi e tantos outros fazendo sambas "pra cima" nessa mesma década?

Aliás, outro atalho que ajuda um bocado a simplificar as coisas é o próprio papo do "nascimento" ou da "criação" da bossa nova. Nada contra a comemoração dos 50 anos de "Chega de saudade", justamente escolhida como marco. Ali estão a música do Tom e a letra do Vinicius tocadas e cantadas por João Gilberto.

Mas comemorar os 50 anos da criação (!!!) da bossa nova é se esquecer de Radamés Gnattali, Garoto, Dorival Caymmi, Ary Barroso, Mario Reis, Dênis Brean, os jazzistas e tantas outras plataformas fundamentais para a nova cara que o samba passou a ter a partir do fim dos anos 50.

Grande abraço,
PP

Cláudia Lamego disse...

Lucas, não questionei isso, mas que ele virou um chato virou!

Lili, me elogia também? :)

Amor, viva Mario Reis!! Em quem mais teria se inspirado João Gilberto, não é?

Num próximo encontro, vamos fazer uma audição de Nara, Lyra (tá, tá) e Sérgio Ricardo ("Se entrega, Corisco/eu não me entrego não")? E falar mal do Ruy Castro (que eu adoro)? :)

Lucas Bandeira disse...

Eu li em algum lugar (não me lembro onde) que o Johnny Alf sofreu preconceito (até "de cor") pra caramba, mesmo na época em que a bossa nova já estava firmada.
Há mais coisas entre o barquinho e o violão do que julga o Rui Castro, hehe.

Monique Cardoso disse...

A bossa nova começou bem antes desse 1958 festivo e ipanemense. todo mundo sabe disso, o pseudo-biógrafo-conhtratado da bossa nova, ruy castro, registra isso em seus livros. concordem com ele ou não, suas obras são consideradas referências sim e pairam impunes ao questionamento.
o fato é que no período a que se referem, a bossa nova já havia passado. os afro sambas sao bem posteriores.
vinicius e tom muitas vezes negaram a existência da bossa nova, tal qual um gênero musical com cabeça tronco e mebros, como rótulo classificador de músicas.
acho que o que está comemorando 50 anos, o que se considera bossa nova, viveu sim esse tempinho feliz e assim deve ser caracterizado. afinal, logo depois virou outra coisa e até deu em coisas bem bacanas. outras geniais, como os afro sambas. mas aí já não era bossa nova, há muito, muito tempo.

Lucas Bandeira disse...

não entendi nada, monique... eu não disse que os afro-sambas são bossa nova. disse que o carlos lyra era bossa nova.
quanto ao ruim e ao 1958, a verdade é que o disco do João Gilberto foi marcante para todo mundo na época. Exatamente isso um marco.
Se você puder me explicar...