4 de jul de 2008

A (falta de fascínio pela) Cobertura Jornalística e o Menino do Sorvete


Ontem o Presidente Lula participou do lançamento do Plano Safra Mais Alimentos da Agricultura Familiar.

Enquanto Repórter do Ministério do Desenvolvimento Agrário (um órgão que existe, mas a imprensa acha que é ou o Ministério da Agricultura, ou Ministério da Reforma Agrária, antigo nome) fui cobrir a passagem do Lula na exposição montada na Esplanada dos Ministérios de tratores e maquinários voltadas aos agricultores familiares.

Confesso que já não tenho mais o encanto que presenciei de alguns jornalistas ainda têm (não gosto de chamar de colega, pois não estudaram no mesmo colégio que eu e nem tenho relações de parceria com estas pessoas).

Sobretudo em Brasília, onde a cobertura política é de fato uma das áreas mais dinâmicas do jornalismo, é interessante notar o que esta pretensa proximidade do poder que o jornalista aqui tem exerce em seu comportamento, em suas opiniões e conseqüentemente em seu trabalho, sobretudo os jornalistas de sucursais dos grandes jornais.

Mas o maior motivo da falta de fascínio pela cobertura jornalística se dá em algumas práticas cotidianas. Os fotógrafos, muitos verdadeiramente baita profissionais (aliás, vale a pena ver este link: www.baitaprofissional.blogspot.com) o clima de "pipa avoada" era incrível. A competição entre eles e a necessidade de ter a foto são muitas vezes demonstradas de forma atabalhoadas. (incluo os câmeras nessa também).

Quanto aos "canetinhas", repórteres que vão escrever a matéria, há sempre aquela espera bem chata pra ver se o Lula vem ou não falar com a imprensa. Muitas vezes não vem e, quando chega, fica aquela neurose pra enfiar o microfone na goela do camarada, em fazer a pergunta. Desculpem-me todos as pessoas que escolheram a mesma profissão que eu. Já achei o máximo a cobertura deste tipo de coisas. Não guento mais. É muito chato.

Todas estas situações me lembram de quando eu era menino em Nilópolis e pegar uma pipa (ou um balão) era uma das coisas mais valiosas. Mostrava bravura, habilidade, impulsão e significava levar pra casa um troféu de quem "vence na competição"("tá na mão", "sai, sai" "é minha, e minha"). A diferença é que depois de grande já não tem mais tanta graça. A adrenalina não é a mesma. Desculpem-me os yuppies do mercado financeiro, mas a busca por pipa e balão mexem muito mais com a adrenalina (ou quem sabe os bons bookers do mercado eram crianças boas em correr atrás de pipas e balão).

Outro comportamento engraçado, só que do outro lado da cerca do cerimonial da presidência, é o dos seguranças da Presidência. Parecem todos terem surgido do filme Matrix, com aquele ponto no ouvido, um pretenso jeito discreto, terno e óculos escuro. Ok, eles estão fazendo o trabalho deles, tudo bem.

Mas são caricatos. Melhor, a situação da cobertura jornalística é caricata! Todo aquele clima de credenciamento e tal. As cercas com grades, para impedir o comportamento animalesco e irracional de nós jornalistas para falar com o presidente. A cerca é para os jornalistas. Sei lá, perdeu qualquer encanto esse tipo de trabalho.

Ainda bem que a vida é bem mais. E para mostrar o quanto é ridícula a situação de uma cobertura como essa, só mesmo um menino de 5 anos, que corre atrás de pipa e de balão. Alheio a tudo o que acontecia, mas olhando tudo com curiosidade de um menino, por ser pequeno e magrinho, entrava e saia do cercado, passando entre as grades, por ser pequenino do lado dos jornalistas pro dos seguranças e vice-versa.

Nesta brincadeira de passar entre as grades ele se aproxima de um senhor, seguido de cerca de 30 puxa-sacos, entre ministros, governadores papagaios de pirata, querendo aparecer ao lado do presidente, ... ele passou na cerca e entrou na frente do Lula.

Ninguém esperava isso, nem o menino esperava que todos iam parar por um segundo e olhar pra ele. O Lula não entendeu quem era o menino. O menino não entendeu quem era o Lula. O Presidente abaixou para falar com ele. O menino não quis muito papo e saiu de perto da confusão. Parecia mais interessado no comportamento da horda de fotógrafos e suas máquinas maravilhosas e na exposição dos tratores, máquinas realmente incríveis. E saiu dali do burburinho.

Depois ficou do lado dos repórteres observando aquela maluquice como quem vê televisão e acha tudo muito diferente. O pirralho tava na dele. Tomando um sorvete de morango, na boa. Foi então que um jornalista ao meu lado pergunta pra ele, em linguagem fática, pra estabelecer uma conversa:

-Tá gostoso o sorvete?

Ele responde "urrum". Bem informado que somos nós jornalistas, e, inquisitores que somos para extrair depoimentos, perguntou também qual o time dele, querendo saber se ele era Fluminense. Ele responde que é "Brasil, Brasiliense, Corinthians" e um outro time que eu confesso que não lembro. O gaúcho respondeu em tom de piada:

- Bah , guri, assim tu não perde nunca!

O "guri" achou melhor não responder também e voltou para o seu sorvete de morango. O jornalista então, gaiatamente, diz pra ele ofercer o sorvete pro Lula, pela mobilidade que ele tinha de passas entre as grades. O menino gostou da brincadeira, riu, mas depois pensou e perguntou:

- Quem é Lula?

O repórter gaúcho achou melhor não responder que era o presidente da república, fundador do PT, histórico líder dos metalúrgicos, e três vezes candidato, etc. O menino não ia nem ligar mesmo e ia voltar pro sorvete. Então ele apontou pra um velho de barbas e cabelos brancos, terno claro e boné da Embrapa, em cima de um trator.

O menino então passou sem cerimônias pela cerca do cerimonial e foi oferecer o sorvete aquele senhor meio baixinho. O Lula não entendeu de novo, mas declinou da oferta e o menino resolveu sair de perto, pois tinha muita gente e ele queria comer seu sorvete de morango com calma.

Acho que se eu pedisse ele me daria um pedaço. Desconfio até que se o jornalista gaúcho falasse pra ele oferecer para qualquer outra pessoa ele ofereceria. Sem problemas. Aos jornalistas envolvidos nestas coberturas, bom trabalho.... Eu tô fora! Prefiro ver o menino.

2 comentários:

Gugu disse...

Maravilhoso! Um dos melhores textos que já li aqui.

Kika Gada disse...

Gostei muito desse post. Acho que eu também prefiro observar o menino. Dele dá para se esperar algo de novo, inusitado (ignorar o protocolo, a segurança, passar por grades e não saber quem é o Lula! Adorei). O que não se pode dizer o mesmo dos jornalistas. Não há criatividade nas perguntas. São sempre as mesmas (reflexo das pautas burocráticas). Além disso, por estarem tão perto do poder, se acham o máximo. Não há ética, respeito e, pior, só nessa cidade coleguinha é fonte de informação (ninguém checa. Ouve de um jornalista e publica). Saudades do Rio e dos meninos na praia.

Bjs