25 de jul de 2008

Dia do escritor - Brincadeira com João Cabral

Aproveitando as citações literárias por aqui, deixo a minha contribuição lembrando que hoje é o Dia do Escritor. Quem deu a dica foi o amigo Henrique Rodrigues, cujo livro de poesia "A musa diluída" recomendo com louvor. Segue seu email:

Hoje é comemorado o dia do escritor, desde um decreto governamental de 1960. O crítico francês Roland Barthes distinguia écrivant (escrivão, aquele que transmite uma mensgagem sem muito gueriguéri) de écrivain (escritor, o que se detém na forma e vai além das palavras, tentando costurar os vazios que existem por trás delas). Uma diferença pequena e imensa entre os dois termos. Vai em homenagem aos camaradas um dos metapoemas mais relevantes da nossa língua: "Catar feijão", do João Cabral.

Catar feijão
João Cabral de Melo Neto

Catar feijão se limita com escrever:
joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo;
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e o oco; palha e eco.

Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a com o risco.

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