16 de jul de 2008

Todo dia, mas nem sempre igual

Delicada e perfeitinha, recém-casada, recém-mudada, recém-dona-de-casa-ultra-super-neurótica, ela foi ao banco pagar a conta da light. Faltavam ainda 10 dias para o vencimento. Se esperasse mais um pouco, entretanto, o dinheiro contado e separado poderia virar um vestido, um sapato, uma bolsa, um casaco.

Empurrou a porta da agência e reclamou do tamanho da fila. Abriu a agenda para pegar o boleto. Teoricamente, ele estaria grampeado três vezes na página com a data do dia. Não estava. Nem na do dia seguinte. Nem no início, nem no fim do ano. Respirou fundo e se prometeu ficar calma. Mas num impulso, virou a agenda de cabeça para baixo e sacudiu tantas vezes que sentiu o braço doer. Xingou a própria sorte, o céu, o inferno, o casamento e o marido (devia ser culpa dele!). Resignada, neurótica amadora, desistiu.

Visualizou o fim do mundo: a casa escura, o banho gelado, os capítulos perdidos da novela, o sorvete derretido no freezer, o silêncio do secador de cabelos. À noite, derrotada, entrou pela portaria do prédio disposta a engolir o orgulho e pedir colo. Ensaiou algo do tipo: "OK, você venceu, batata-frita. Perdi a conta de luz. Sou uma esposa lamentável".

Em um último e incompreensível ato de esperança, correu até a caixa do correio. E lá estava, iluminada, cor de abóbora, a conta da light. Pensou que, talvez, nunca a tivesse tirado dali. Mas notou que estava aberta e, dentro, encontrou uma carta:

"Cara Amiga, bom dia! Esta conta foi achada dentro do ônibus. Resolvi, como servo do Deus Altíssimo, devolvê-la em vossa residência. Que Deus te abençoe rica e profundamente. (...) Se um dia desejar visitar-nos, estamos na Igreja Batista Nova Filadélfia, em Rocha Miranda. Com a paz do Senhor Jesus, I.L. P.S.: Jesus te ama! Receba-o. Leia a Bíblia".

Emocionada por constatar que o mundo continuaria o mesmo, sentou para redigir uma resposta. De cara, pensou em algo assim: "Obrigada por sua ajuda, o sr é um homem bom. Mas assuma responsabilidade por seu ato de heroísmo. Tenha orgulho de si nesta vida e nesta terra. A servidão acabou". Pouco depois, cansada e agradecida às crenças alheias, apagou tudo e recomeçou. Escreveu apenas "Deus te dará em dobro". E lacrou o envelope.

14 comentários:

Gardênia Vargas disse...

Muitooooooooooooooooo Bom!

Belo começo, amiguinha Dê :o)

clarinetadas disse...

Lindo demais!!!!

Vai que é tua Andressaaaaaaaaa!

Só jeusus e control+s salvam é o que me resta dizer!

Cláudia Lamego disse...

Lindo, Dê.

Eu, quando perco alguma coisa, apelo para a reza. São Longuinho sempre me ajuda, mas eu tenho que procurar, né? Tenho fé.

Lucas Bandeira disse...

A Andressa é o Flaubert do Caroço.

Andressa Camargo disse...

Lucas, vc gosta do Flaubert? Isso foi um elogio?

Gugu disse...

Bela estréia! Demorou mas abalou. Lindo.

Marcelo Valle disse...

Uau! Sensacional...então é isso que você esconde atrás desse rostinho bonito...grande escritora, grande roteirista,grande cineasta e futura grande dona de casa. escreva mais, deu vontade de ler

A digestora metanóica disse...

Sempre que leio um texto novo aqui, só vejo o nome do autor no final mesmo, que assim dá pra brincar de adivinhar.

Três nomes me vieram enquanto lia este post. Primeiro, Clau. Em seguida, Lu. Depois "ai, Gisele, é Olívia, claro". "Não, não mesmo. Quem será???".

Há um tempo atrás, Dê, eu saberia de cara. Mas confesso que tinha esquecido como era bom te ler. Refresca mais a minha memória, as minhas sensações?

Beijos,
Gi

Olívia Bandeira de Melo disse...

Finalmente nos deu o prazer de compartilhar suas palavras. Muito bom!

Será que algum só-jesus-salva vai encontrar e devolver meus documentos roubados ontem?

Beijos!

Cláudia Lamego disse...

Gi, também faço esse exercício.
É legal, né?
Oh, eu não escrevo contos. Não podia ser eu mesmo! A não ser pelo dona-de-casa! ehhehee
Marcelo, como assim futura grande dona-de-casa? Ela já é!

Andressa Camargo disse...

Lili, estamos torcendo para que seus documentos sejam encontrados por alguma pessoa boa e solidária. Quando eu foi assaltada há dois anos, um moço que trabalhava num estacionamento encontrou minha carteira de motorista, meu caderno de telefones e minha carteirinha da UFF. Me ligou e me devolveu tudo. Meu pai é que foi buscar, com medo de o cara ser um dos assaltantes. Muito triste isso...

clarinetadas disse...

Poxa achei que vcs iam achar que o texto era meu. Risos

l.c grazinoli disse...

O melhor texto escrito aqui, até agora.

Parabens

Luciana Gondim disse...

Lindo, Dê. Escreva mais, mais, mais!