8 de jul de 2008

Prepare-se!

Mais um crime bárbaro resultou na morte de uma criança de 3 anos de idade. Menos de 12 horas depois, cartazes de políticos invadiam as ruas da cidade. Um deles me chamou a atenção pelos dizeres: "Quero o meu Rio de volta". Ironicamente, uma política que fazia parte do grupo que destrói o município há quase duas décadas. Fiquei imaginando, que cartazes os pais dessa criança estariam empunhando. Talvez algo como "Quero meu filho de volta".


À tarde, o secretário e o governador dizem que a polícia está despreparada. Logo eles, que são os responsáveis pela polícia, dizem que ela está despreparada. Mas a cidade, o estado, o país estão preparados para quê? Como exigir preparo de um PM se o comandante dele não é preparado, visto que o secretário responsável por sua corporação não tem qualquer preparo, já que o chefe executivo do secretário também não está preparado para o cargo.


Nesse meio tempo, outra pessoa, desta vez uma dona de casa, morria dentro da sua própria residência na Vila Cruzeiro, vítima de mais uma malfadada bala perdida. Ela podia estar preparando uma comida, quem sabe, ou se preparando para sair.


O despreparo é uma espécie de instituição enraizada e viciada no país, uma vez que no cargo máximo da nação também se encontra um despreparado. E sabe-se lá quantos despreparados ainda estão por vir. Eles já estão por aí, espalhados pelos cartazes.


O cidadão, é claro, este tem de estar sempre preparado. Preparado para ser explorado no trabalho, para ser amarrotado no ônibus, para ser alvejado na rua. Os pais dessa criança, agora, estão preparados para enterrá-la. E os filhos daquela senhora precisam se preparar para sepultar mais um número, mais uma estatística.


O crime de todos? Nascer no Brasil.


Desculpem a pieguice e a dramaticidade. É apenas o desabafo de um pai e de um filho que não está preparado para nada disso.

3 comentários:

Cláudia Lamego disse...

Mira, morar no Rio é um exercício de sobrevivência. Isso cansa tanto...

Olívia Bandeira de Melo disse...

Fernando, entendo perfeitamente "a pieguice e a dramaticidade". A gente fica mesmo muito chocado com essa violência crescente e, pior, institucionalizada. Na semana passada também morreu um menino de 9 anos em uma das favelas do Rio, atingido por um PM. No mesmo domingo da morte do João Roberto, dois amiguinhos do Antônio, da idade dele, viram a arma de um policial apontada para as cabeças deles, no Jardim Botânico. A mãe teve de mentir: "A arma é de brinquedo!"

Dizer que a polícia é despreparada, que não tem capacitação, deixa as coisas muito fáceis. Tudo bem, este pode ser um dos fatores, mas não é o único. Influencia também uma política e uma visão de mundo que estimulam o medo, o salve-se quem puder, a "caça". Uma política que declara que estamos em guerra e, se assim estamos, tudo é válido, tudo é justificável. Uma política que coloca polícia x população civil, quando deveria haver troca e respeito mútuo.

E mais: corrupção, baixos salários, falta de políticas sociais, etc., etc.

paulabemtv disse...

(Desabafo)Como cidadã não poderia me calar.
Mas um caso de assassinato realizado por quem deveria nos proteger, desta vez, contra um menino de 3 anos. Estou perplexa com esta estrutura de seres humanos cada vez mais feito animais. Estamos lidando com policiais despreparados, políticos corruptos e todo tipo de cidadão inerte e acha que violência é somente quando há morte. Até quando vamos nos calar diante de qualquer infração vista?
Ontem, estava dando oficina para crianças e sabiam tudo em detalhes da tragédia do pequeno João. E elas separam a violência que mata para a violência de empurrar o coleguinha, da falta de respeito, de pegar algo que não é seu, e isso é reflexo dos seus pais. Nossa tendência é fazer e ver algo de errado e fingir que não estamos vendo. Quem paga o “pato” no final das contas, são negros e pobres do nosso país. Acho um absurdo que crianças de comunidades, favelas ou como queiram nominar, vejam policiais armados em sua porta como se fosse algo comum, achando poucas todas as debilidades já existentes. Os senhores do RJ, Governador Sérgio Cabral, Secretário segurança Beltrame, e tal de Pitta, têm que ser responsabilizados pelo ato infrator de seus subordinados (além deles é lógico), porque somos nós que pagamos seus salários e devem serviços bem prestados à sociedade. Temos que nos mexer de nossos assentos confortáveis, sair da posição de cômodo que nos encontramos, e começar a denunciar casos de abusos que acontecem nas nossas vistas. Vou anotar telefones e sites úteis onde posso fazer denúncias e reclamações. A cada abuso de poder: uma foto, uma notícia, uma reclamação, até encher o saco. Não suportarei mais assistir guardas municipais jogar pra cima mercadorias de camelos ao invés de apreender ou então, espancar menores de rua sem nenhum pudor. Quem faltar com respeito um cidadão ao meu lado estará ferrado!
As pessoas estão frias, olhando para o seu próprio umbigo, preocupadas em status, poder dentro das igrejas, locais de trabalho e de estudo, todos querendo se dar bem e estarem por cima “da carne seca” ou se sentirem “a última coca-cola do verão”. Cadê o senso crítico? Respeito? Ideologias? Quantos mortos ainda contaremos? Que política de segurança é essa que mostra serviço através da quantidade de mortos? Sei que existem os bons e os maus e, não sei até quando, mas acredito no ser humano. Vivemos numa cidade linda, cheia de graça por si só e, no entanto, estamos entregues a todo tipo de imbecis de ternos, fardados e pessoas atrás de oba-oba, que seguem micaretas, enchem estádios, lotam shows nas praias, mas que não se mobilizam a sua maneira contra esse tipo de “calhordice”! Quero fazer coro com a poetisa Elisa Lucinda, “Só de sacanagem”, quero ser mais honesta!