12 de mai de 2008

É coisa nossa...


Na minha adolescência suburbana, ainda que freqüentasse muito os cinemas da cidade vizinha (nos anos 80, as famílias podiam ir ao cinema sem gastar fortunas. O dinheiro dava até para comprar os mini-chicletes coloridinhos e a bala caramelo, o grande hit de então), minha grande diversão mesmo era a televisão. Cresci assistindo a programas de auditório, novelas, desenhos. Ouso confessar que meus programas prediletos eram o Cassino do Chacrinha, aos sábados, e o Sílvio Santos, aos domingos.

“Agora é hora de alegria/vamos sorrir e cantar/lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá lá/Sílvio Santos vem aí/lá lá lá lá lá lá”. Invariavelmente, meus domingos começavam assim (principalmente os sem-sol, porque suburbano adora “viajar” até a praia, com suas barracas, sanduíches prontos, cadeiras e esteiras – onde foram parar as esteiras de palha?). Meus quadros favoritos eram os da cabine-foguete e o dos dados. O primeiro era assim: a criança entrava e, ao ver uma luzinha acender, tinha que responder sim ou não para a pergunta fatal de Sílvio Santos: “você troca uma bicicleta com seis marchas por uma chupeta”? SIMMMMMMM. No segundo, o apresentador distribuía dados para bebês de colo e as mães faziam malabarismos mil para a criança jogar o brinquedinho novo no chão. Ganhava o bebê que jogasse o dado com o maior número virado. Também me lembrei agora de um quadro em que a criança vestia uma calça larga, a enchia de bolas e Sílvio ia estourando cada uma, fazendo a contagem junto com o auditório.

Ah, e tinha o “Qual é a música”, um dos clássicos do domingo. Alguém se lembra do Trio Los Angeles? Eles estavam sempre lá. Gretchen era outra habitué. Ronnie Von idem. Sílvio Santos era o paraíso dos artistas decadentes (vem daí meu gosto estranho por programas bizarros?). O “Programa de Calouros” era outra diversão certa. Ano passado, tentei fazer um mestrado sobre Aracy de Almeida e a construção de uma nova identidade para a cantora dos anos de ouro da MPB a partir da participação neste programa. Não deu.

Sempre que estou em casa, e me lembro de ligar a TV, volto ao SBT aos domingos para matar a saudade. Sílvio Santos continua o mesmo, reeditando velhas fórmulas, criticando a Globo – e agora a Record que lhe tirou o segundo lugar de audiência. O “Qual é a música” ainda atrai artistas no ostracismo, mostra dubladores com pinturas bregas no rosto (quem se lembra do Pablo?) e músicas que só os moradores de São Paulo conhecem (nada contra a cidade, ok?). Mas agora Sílvio está parecendo aquela pessoa que chegou ao fim da vida (velhinhos perdem a vergonha de certas coisas, não é?, feito as crianças) e perdeu todos os pudores. Como dono e faz-tudo da emissora, fala o que quer, tira artistas do ar, muda os horários, monta e desmonta o núcleo de telejornalismo. Além de humilhar as colegas de auditório, ele faz chacota com os participantes do programa.

No “Qual é a música” de ontem, ele se perguntou à Sheila Carvalho (ex-dançarina do Tchan), que estava acompanhada do atual marido, por que o Compadre Washinton (seu ex-companheiro de grupo e de cama) batia tanto nela. Depois, quis saber: e o bebê, vocês já têm? A mulher perdeu um no ano passado, e não escondeu o constrangimento numa lágrima que lhe pendeu do olho esquerdo. Logo depois, quis saber de um piloto desconhecido da Stock-Car quando ele ia correr pela Fórmula-1. E fez o filho da Wanusa, irmão da Aretha e vencedor da Casa dos Artistas (sei tudo isso, mas não lembro o nome da criatura, que herdou os cabelos da mãe) cantar uma de suas músicas atuais para testar sua popularidade. Diante de um auditório mudo, o rapaz cantarolou Plunct Plact Zum, no que foi acompanhado por meia dúzia de senhoras de meia-idade, para mostrar que já fez sucesso um dia...

O pior é que esse patético, mas divertido circo eletrônico ainda deve render ao dono do SBT alguma audiência. Inclusive a minha, claro.

8 comentários:

Olívia Bandeira de Melo disse...

O Sílvio é melhor do que o Faustão, né não? Pelo menos não se leva a sério como esse último.

Cláudia Lamego disse...

O Sílvio é o melhor apresentador de televisão. Mesmo imitando fórmulas estrangeiras ou reinventando linguagens de outros tempos. Assistir a um programa dele é uma baita aula de comunicação.

Pedro Paulo Malta disse...

Amor,

Divertido e competente ele é. Nem dá pra discutir.

Mas o fino trato com as "colegas de trabalho" nunca foi o forte dele - vide as esmolas que atirava pras velhinhas no "Topa tudo" e tiradas do tipo "má é repetente!" que despejava sobre os adolescentes grandalhões que iam ao Domingo no Parque.

Já a programação... Assim como o Sílvio, divertia mas não era exatamente um primor, né? Viva a Noite, Luta livre, Bozo, filmes com jacarés gigantes e invasão de aranhas... Sem falar de bombas como Aqui Agora, Sabadão Sertanejo...

Concordo com a Lili: comparando por baixo, é melhor que o Faustão, que largou o palhaço nos tempos do Perdidos.

Má ôeeeeeee... Quem quer dinheeeeeiro?

Beijos ammorozos.

Cláudia Lamego disse...

Ah, não, o Bozo era muito bom!!! Um clássico.

E a Porta da Esperança? E o namoro na TV? E o Roletrando, o melhor de todos?

Gugu disse...

Clau, eu fico sem jeito com a falta de educação do Sílvio. Mas ele sempre foi assim. Me divirto muito com ele. Costumo dizer que se o visse um dia na minha frente, cara a cara, ficaria paralisado. Sou fã.

Gardênia Vargas disse...

a-a-aê i-í!
Não dá pra levar a sério, mas que o cara é de se tirar o chapéu, a isso é. Quero ler a biografia dele. Alguém tem?

No mais, eu amava a porta da esperança! sonhava em um dia chegar lá e sair com a coleção inteira da Barbie, mas nunca me inscrevi :o)

Cláudia Lamego disse...

Vocês se lembram quando ele, numa entrevista, disse que estava com câncer e prestes a vender o SBT? BRAVATA com uma jornalista da Contigo. SENSACIONAL!

Garden, eu tenho um livro muito bom: chama Circo Eletrônico - Sílvio Santos e o SBT. É acadêmico, mas muito bem escrito, não é chato. A biografia é chapa-branca.

Ai, e quando a pessoa ia na Porta da Esperança pedir uma prótese, abria-se a porta e via-se um vazio? Que tristeza, meu Deus! Mas o melhor era a propaganda amadora das lojas que "doavam" coisas para o programa. Muito bom! Melhor do que a "qualidade" do Boni na Globo. Fala, sério!

"Ritmo/em ritmo de festa", "todo mundo rodando", "oi", "quem quer dinheiro?", "oi", "Ritmo/em ritmo de festa"...

Guttemberg Coutinho disse...

Sou admirador também do sr. Abravanel. O cara é único na TV. Não tem nada parecido. Também acho ele muito mais divertido que o mal-educado do Faustão.

Eu me divirto muito analisando a breguice dos programas e revivendo épocas do passado. Tem coisas que há trinta anos são iguais!!! Rolo de rir.

O grande problema é que realmente, por já estar idoso ter em seu subconsciente que não tem mais nada a perder e que pode tudo, ele comete umas gafes horríveis, como as citadas aqui em posts anteriores.

Penso que ele deveria passar a bola para alguém na área administrativa da programação da emissora. Esse negócio de ele ficar mudando a programação eu considero uma falta de respeito com os telespectadores.

Em todo caso, creio que Silvio Santos é um mestre de Comunicação. Ele a tem como um dom. Certamente será sempre um ícone na história da TV, até mais que o Chacrinha.