26 de mai de 2008

Sem filtro


Tradicionalmente, os impostos levam a culpa do alto preço dos carros brasileiros. A indústria costuma usar a alta carga tributária como uma espécie de biombo. A voracidade do Estado brasileiro, é fato, beira a indecência. Mas as taxas sobre os produtos não são os únicos vilões dessa história. Ao se comparar diretamente os automóveis brasileiros com seus similares na Europa e nos Estados Unidos, descontados os impostos, a constatação é só uma: carro no Brasil é muito, muito caro. E isso em números absolutos, dólar a dólar ou euro a euro, sem relativizar o poder aquisitivo médio, muito maior em países desenvolvidos.

Um exemplo: Volkswagen Polo Sportline 1.6, com ar, trio, ABS e airbag ­ equipamentos típicos encontrados na Europa ­, custa R$ 60.095. Sem ICMS, IPI e PIS/Cofins, cai para R$ 42.668, equivalentes a 15.800 euros. Um Polo similar na Europa, sem impostos, sai por 12.768 euros, 23% a menos. Foram procuradas para falar sobre o assunto Renault, Volkswagen, Citroën, Fiat, Honda e General Motors. Nenhuma quis se pronunciar.

O tema, deve se reconhecer, é mesmo espinhoso. Sem a desculpa da carga tributária, sobram poucos argumentos para justificar porque um Fiat Punto ELX 1.4 com ABS e airbag feito em Betim custa 18,5% a mais que o similar europeu, que ainda por cima tem uma plataforma mais moderna. Aqui ele sai a R$ 48.399, ou R$ 34.064 sem os tributos, o que representa 12.616 euros. Na Alemanha, o Grande Punto 1.4 Active, com os mesmos recursos, sai por 10.645 euros. A única explicação que sobra é a velha teoria de formação de preço: “o preço de um produto é o valor máximo que o mercado aceita pagar”.

Na falta dos impostos, o culpado da vez passa a ser o enigmático “custo Brasil”. “Temos um custo geral que ainda é muito alto. Isso afeta diretamente o preço final de qualquer produto”, argumenta Carlos Thadeu Gomes, economista chefe do Conselho Federal de Contabilidade e ex-diretor de Política Monetária do Banco Central, que ficou surpreso ao saber que o carro brasileiro é mais caro. Não se pode desprezar, no entanto, o custo dos “favores” que as montadoras costumam ganhar. Estados que querem abrigar novas fábricas acenam com as mais diversas regalias, que vão desde a doação de terrenos até isenção de ICMS e IPTU.

Estudos do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais, Ibmec, estimam que 10% do valor de um automóvel seja do famigerado “custo Brasil”. Embora países como a França e Alemanha tenham obrigações sociais até mais altas que no Brasil, aqui se agregam os ônus da falta de infra-estrutura de transporte e até custos administrativos. Um exemplo: para cada R$ 1 bilhão faturado por uma empresa na Europa é necessário um funcionário para cuidar das questões tributárias. No Brasil, a proporção é de 20 funcionários para cada R$ 1 bilhão. “Esta burocracia também faz parte do “custo Brasil”, pondera Gilberto Braga, professor de Finanças do Ibmec.

Por outro lado, um funcionário europeu recebe, em média, 3 mil euros, contra 500 euros médios de um operário brasileiro. Sem contar que no chão da fábrica, a produtividade das plantas brasileiras é bem parecida com as obtidas em países desenvolvidos. Fábricas modernas, como a da General Motors em Gravataí, no Rio Grande do Sul, e a da Ford, em Camaçari, na Bahia, produzem cerca de 100 automóveis/ano por empregado, índice considerado altíssimo.

Mas não há como negar que os impostos exercem um papel nefasto neste jogo. Por isso mesmo, as diferenças ficam ainda mais gritantes se a referência for os preços nos Estados Unidos, um dos países com menor oneração de taxas no mundo. Enquanto um Honda Civic EX no Brasil custa sem impostos R$ 45.027 ­ ou US$ 22.500 ­, para os americanos ele custa US$ 15 mil. Ou seja: aqui é 50% mais caro. “O mercado americano tem ganhos de escalas e custos mais baratos, nosso mercado ainda é muito menor”, tenta justificar Miguel José de Oliveira, vice-presidente da Associação Nacional dos Executivos de Finanças e Contabilidade.

Aparentemente, há muitos motivos para esta escalafobética diferença de preços entre um país com renda percapta de US$ 5 mil, como o Brasil, e outros com renda percapta de US$ 30 mil para cima, como Alemanha, França, Itália, Espanha ou Estados Unidos. E os lucros são certamente um deles. No ano passado, a Fiat do Brasil lucrou nada menos que R$ 804 milhões líquidos. No primeiro semestre deste ano, a divisão da General Motors para América Latina, Ásia e Oriente Médio auferiu US$ 414 milhões de lucro ­ 67% das vendas deste braço são da América Latina. E a Ford alcançou US$ 255 milhões de lucro apenas no segundo trimestre deste ano no Mercosul. O tal do “custo Brasil” aparentemente ainda deixa uma margem muito simpática para as empresas.

Instantâneas

# Estudos apontam que um metalúrgico custa, em média, cerca de R$ 1.300 mensais para a indústria. Na Europa, um trabalhador custa o correspondente a R$ 8 mil reais por mês.

# Na França, 16% do valor de um carro é de impostos. Na Alemanha e na Espanha os índices são de 13% cada. No Japão, 9%, enquanto nos Estados Unidos a fatia tributária média é de 6,1% ­- varia de estado para estado.

# No Brasil, a média de tributos é de 29% do preço final de um automóvel.

Os preços aqui e lá

# Volkswagen Polo 1.6 Sportline - Brasil
Preço sugerido: R$ 60.095 (com ABS e airbag).
Sem os impostos: R$ 42.668.
Conversão: 15.803 euros.
# Volkswagen Polo 1.6 - Alemanha
Preço sugerido: 14.675 euros.
Sem os impostos: 12.768 euros.
Diferença: 23,7%.

# Renault Logan Privilége 1.6 16V
Preço sugerido: R$ 42.790 (completo).
Sem impostos: R$ 30.090.
Conversão: 11.144 euros.
Dacia Logan 1.6 16V - Alemanha
Preço sugerido: 10.550 euros.
Sem impostos: 9.175 euros.
Diferença: 21,4%

# Honda Civic EX - Brasil
Preço sugerido: R$ 63.515.
Sem impostos: R$ 45.027.
Conversão: US$ 22.513.
# Honda Civic Sedan - Estados Unidos
Preço sugerido sem impostos: US$ 14.990 mil.
Diferença: 50,1%.

# Citroën C3 Exclusive 1.6 16V - Brasil
Preço sugerido: R$ 53.410.
Sem impostos: R$ 37.922.
Conversão: 14.040 euros.
# Citroën C3 1.6 16V - Espanha
Preço sugerido: 13.500 euros.
Sem impostos: 11.637 euros.
Diferença: 20,6%.

# Peugeot 206 Presence 1.4 - Brasil
Preço estimado: R$ 43.750 (com ABS e airbag duplo).
Sem impostos: R$ 31.063.
Conversão: 11.505 euros.
# Peugeot 206 Urban 1.4 - Alemanha
Preço sugerido: 12.100 euros.
Sem impostos: 10.431 euros.
Diferença: 10,3%.

# Fiat Punto ELX 1.4 - Brasil
Preço sugerido: R$ 48.399.
Sem impostos: R$ 34.064.
Conversão: 12.616 euros.
# Fiat Grande Punto Active 1.4 ­ Alemanha
Preço sugerido: 12.140 euros.
Sem impostos: 10.645 euros.
Diferença: 18,5%.

# Toyota Corolla XEi - Brasil
Preço sugerido: R$ 63.944.
Sem impostos: R$ 45 401.
Conversão: US$ 22.700.
# Toyota Corolla CE ­ Estados Unidos
Preço sugerido sem impostos: US$ 14.400.
Diferença: 57,6%.

# Chevrolet Vectra GT - Brasil
Preço sugerido: R$ 59.990.
Sem impostos: R$ 45.593.
Conversão: 15.575 euros.
# Opel Astra - Alemanha
Preço sugerido: 16.360 euros.
Sem impostos: 14.234 euros.
Diferença: 9,4%.

# Ford Fiesta 1.6 - Brasil
Preço sugerido: R$ 50.360 (com ABS e airbag).
Sem impostos: R$ 35.756.
Conversão: 13.242 euros.
# Ford Fiesta 1.6 - França
Preço sugerido: 15.100 euros.
Sem impostos: 12.684 euros.
Diferença: 4,4%.

1 euro = R$ 2,70.
1 dólar = R$ 2,00.

(Matéria publicada pela agência de notícias Auto Press em setembro de 2007)

2 comentários:

Luciana Gondim disse...

Quando eu for grande, quero ter um lide igual ao do meu marido...

Monique Cardoso disse...

Dirijo tão mal que já desisti. Não sei porque o Detran RJ me aprovou. Ou melhor, sei sim. Esta semana ouvi atentamente, enquanto tomava banho, a entrevfista de Ricardo Boechat com uma professora da Universidade Federal do Ceará em Sobral, doutora em psicologia do trânsito pela Usp, de nome Gislaine. Desconfiei. Quebrei a cara. A mulher é uma phD no assunto. E como fala de forma esclarecedora. Depois de ouvir suas ponderações sobre a situação no trânsito, do comportamento dos motoristas, e sobre o fulxo da cidade com tantos carros tive certeza de que não preciso nem quero ter um automóvel. Com a facilidade das compras, os parcelamentos em muuitas e muitas vezes, as taxas de juros menos criminosas, todo mundo quer realizar o sonho de ter um carro.
Até acho que o automóvel, como milhares de outros produtos, estão supertaxados no Brasil, onde se paga muito imposto para se ver o dinheiro escapar pelo ralo da corrupção. Por outro lado, se o carro tivesse menos impostos, custaria mais barato. E as pessoas comprariam mais carros. O que pode significar mais trânsito, mais acidentes, mais engarrafamentos, mais poluição, menos incentivo ao transporte coletivo, ai, trágico, não?