25 de set de 2008

A divina Elizeth, rainha da bossa


Um amigo meu disse que, ouvindo novamente Canção do amor demais, para muitos o disco inaugural da bossa nova, notou como era estranha a combinação das músicas inovadoras de Tom e Vinícius e o violão de João Gilberto com aquela cantora à moda antiga, com seus vibratos e seu "errrre", típico dos cantores da primeira metade do século XX. Eu me pergunto: que outra cantora poderia estar ali? Era, com certeza, a pessoa certa, no lugar certo, na hora certa, a mais versátil de sua época, capaz de ir de Villa-Lobos a "Eu bebo sim". (Mais do que saber se a Divina era a Sarah Vaughan ou a Ella Fitzgerald brasileira, chego mesmo a me perguntar: qual das duas fois a Elizeth deles?)
Um exercício rápido é, em vez de ouvir algum de seus melhores discos, escolher uma coletânia, como esta. Escutando com atenção, parece uma seleção de cantoras, ou de estilos de cantoras que iriam se desenvolver nas décadas seguintes (estilo Elis Regina, estilo Clara Nunes, estilo Gal, etc.).

Outro exercício interessante é comparar os pout-porris do disco A bossa eterna de Elizeth e Cyro com os do Dois na bossa de Elis e Jair Rodrigues. É só substituir o regional do Caçulinha por um grupo se samba-jazz, o grande Cyro por um sucedâneo mais limitado (Jair Rodrigues) e pronto. Até o figurino é igual.



12 comentários:

l.c disse...

Por acaso eu tenho os dois discos, e nao me vem a cebeça nenhuma equidade entre os dois.
A começar pela propria identidade de arranjos que cada um contem.
Mas a música permite esse tipo de audiçao propria, o que é maravilhoso.
Sem contar que eu nao sou muito de gostar de comparaçoes entre obras.
Que Elizeth foi sem duvida uma das maiores 'divas' isso eu concordo, só nao entendo pq quase nunca falam da maysa matarazzo, que estaria no mesmo time de cantoras brasileiras que considero primeiro time.

Cláudia Lamego disse...

A Maysa também é maravilhosa, mas teve uma carreira mais irregular, inclusive por causa do alcoolismo e das temporadas na Europa.

L.C., agora que a Globo prepara uma minissérie ouviremos falar muito em Maysa.

A propósito, estou lendo a biografia da cantora, escrita pelo Lira Neto. Se você gosta dela, vale a pena.

Ah, tem o disco que ela gravou na Elenco?

Lucas, eu sempre estranhei algo nesse disco-marco da Bossa Nova. Lendo o seu texto, descobri o que é. Amo Elizeth, a Divina.

Ainda bem que temos lugar para todas as divas.

Lucas disse...

LC, o que eu disse foi que os arranjos são muito diferentes, uma vez que um é feito por um regional e outro por um grupo de samba-jazz. Mas o espírito de encenação de uma camaradagem entre os cantores, com pot-porris, etc., é o "mesmíssimo". Lê lá que eu falei: substitui o regional por um grupo de samba-jazz, etc.

l.c disse...

Lucas., nao concordo com a com epirito de encenaçao-camaradagem, mas respeito se assim o viu.
Afinal a visao musical é ampla e subjetiva.
Acho estéticas completamentes diferenciadas, pois assim o vi.

E Claudia, li a biografia do Lira neto antes de sair, pois tenho um tio que era sobrinho de maysa, , mas sou fa de maysa antes mesemo de saber que ela era tia de um tio meu.
E qto a carreiras irregulares , o que podemos falar de Elis, janis joplin, hendrix, noel rosa, e afins .....e até mesmo eu que vivo uma carreira irregular nesta vida cheia de culpas catolicas que temos que consentir


Acho justo da globo fazer uma minisserie sobre ela, ate mesmo porque acho que antes de ser mae do jayme monjardim, ela ja era maysa.

Qtos aos cds eu os tenho aos montes , pois sou um melancolico feliz.

''Acendam seus cigarros.
Desapertem o nó da gravata.
Tomem em dobro seus tranquilizantes.
Nao encostem em metal.
Atenção ...Maysa vai cantar''
(Anuncio da boate Au Bon Gourmet , Rio de Janeiro, para show de Maysa em 1963)

quem quiser minha visao dela veja meu fotolog:
http://www.fotolog.com/lcgrazinoli

Cláudia Lamego disse...

Noel Rosa teve carreira irregular? Ele deixou centenas de músicas, aos 27 anos!!! Nunca parou de compor.

Maysa volta e meia estava internada, saía de cena, voltava, dizia que ia parar, retomava. Isso é o que chamo de carreira irregular. Além disso, não conseguiu se livrar do rótulo "cantora de fossa", nem quando fez um disco de bossa (com a ressalva de que, antes da bossa, já gravava Tom e Vinicius).

Elis teve uma carreira sólida também, só parou quando morreu.

l.c disse...

A questão é definir carreira irregular.

Noel era um notório boemio, que por muitas vezes estava alcoolizado. E ainda recai sobre ele algumas acusações de comprar músicas e colocar como composiçao dele(mais de 200 musicas aos 27 anos, é meio duvidoso). E sem duvida morrer aos 27 anos é bastante irregular.

Elis morreu de overdose, ou alguem realmente acredita que foi armação da ditadura, assim como Joao Marcelo acredita? E elis era extremamente complicada nos bastidores, a carreira teve altos e baixos, principalmente no momento pós Boscoli.

Mas ficariamos anos aqui discutindo isso e nao chegariamos a lugar algum.

E quanto a rótulos, eu nao trabalho com rótulos. Eu os deixo para quem acha que possui a competencia de fixa-los. Tanto que não me atreveria a dizer qual a maior cantora que esse país ja teve, posso no máximo expressar as que gosto mais, que se interessar possa são 3: Elis , Maysa e Bethania.

Acho que eu sou rei da fossa.

Cláudia Lamego disse...

Bem, vamos começar não misturando alhos com bugalhos: Noel não era cantor, embora tenha gravado em alguns discos. Nâo dá para comparar a carreira dele com a de cantores.
Ao que me consta, e às pessoas que com ele conviveram e escreveram sobre, ele é que vendia seus sambas. Na biografia escrita por João Máximo e Carlos Didier, o Caola, é contada a história de uma dívida homérica que ele tinha com Francisco Alves, porque este tinha vendido-lhe um carro. Chico Viola, este sim, é acusado de ter comprado muitos e muitos sambas. Ele exigia parceria na hora de gravar e levar a música para o rádio e a glória.

Eu falei carreira irregular não porque ela era alcoólotra, o que não é nenhum demérito para nossos artistas, mas por deixar que o álcool a impedisse de cumprir contratos de shows, de gravações de discos e de programas de TV. Maysa poderia ter feito muito mais, pelo talento que tinha, e a coragem de ter jogado uma vida de socialite rica paulista para o alto em nome da música.

Também adoro Elis, Bethânia e Maysa. E incluo Carmen Miranda, Aracy de Almeida, Elizeth Cardoso, Dolores Duran, Nara Leão e até a chata da Marisa Monte entre o rol de nossas divas. São muitas outras. Estamos muito bem servidos.

Pedro Paulo Malta disse...

Salve, Lucas!

Adoro o Canção do amor demais, que, de quebra, tem a importância histórica de estar entre a pré-bossa e a bossa nova propriamente dita.

Arranjos e cantora "à antiga", composições meio lá (Estrada branca, Modinha, Serenata do adeus) meio cá (Chega de saudade, Outra vez). Difícil até de se enquadrar como marco - graças a Deus.

Bem observado sobre o "Raízes do samba". Não tenho simpatia pelo CD que fizeram para a Elizeth (o mesmo valendo pro Cyro Monteiro, colcha de retalhos sem identidade), mas você tem razão quanto às várias Elizeths que estão ali. Vou ouvir de novo.

LC: Noel acusado de comprar música?!!! Duvidosa é a fonte de onde você tirou isso, não o tamanho da obra dele em tão pouco tempo de vida. Obra que, diga-se de passagem, está muito mais para irretocável (em marchas, sambas, foxes, canções) do que exatamente irregular.

Abraços.

l.c disse...

A fonte que eu tinha, era um grande conhecedor de samba e foi meu professor: Roberto Moura , que inclusive tem alguns livros falando sobre samba. Nao sei o quanto ele é discutivel.

E pela ultima vez: definamos o que é carreira irregular ????

Carreira irregular e obra irretocável nao sao incompativeis, até pq uma nao anula a outra, mas entendo a sua posiçao.

Mais uma vez vou apelar pra subjetividade do tema e opiniao, que nao necessitam de unanimidade.

Pedro Paulo Malta disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Pedro Paulo Malta disse...

LC,

Acho mesmo bem discutível que Roberto Moura tenho dito isso. Que ele tenha escrito, então, aposto que não.

Tive o prazer de conhecê-lo e, pelo tanto que ele sabia, é certo que sabia que nomes como Cartola, Pixinguinha e Noel - entre muitos outros - estão acima de qualquer suspeita quanto à legitimidade (não qualidade, pois ninguém está) do que compuseram.

Comprar samba foi prática regular, sim, mas por Francisco Alves, Mario Reis e outros cantores dos anos 20, 30 e décadas seguintes. Neste caso, Noel era o "vendedor", estando sempre "do outro lado do balcão" - até porque, apesar de oriundo da classe média (baixa), Noel não tinha dinheiro para isso. Tinha, sim, era talento de sobra.

Em suma: pelo fato de Noel ser personagem recorrente dessas histórias de compra e venda de sambas, capaz de o amigo ter se confundido...

Quanto à carreira irregular da Maysa, acho que o assunto é música mesmo (o que ela cantou e/ou gravou), e não birita.

Abraços.

Lucas disse...

"E sem duvida morrer aos 27 anos é bastante irregular." - deus meu, é por comentários como esse que tenho tédio de blog... Acho que a gente tem que passar esse teste antes de a pessoa poder comentar: http://xtremedownload.110mb.com/testidiota.htm.

Aliás, não gosto da Maysa.

Pepê e Claudia, como sempre, vocês dão aula sobre música popular.