2 de jun de 2008

Caso Jornal O Dia 2

Campanha de 2006. A candidata à Presidência Heloísa Helena percorria uma das favelas do Complexo da Maré, seguida por cabos eleitorais e a imprensa, quando surgiram no horizonte da caravana traficantes armados com fuzis. Os fotógrafos registraram a cena. Mais adiante, eles estavam bem perto. Já dava para ver o tamanho do fuzil, os rádios de comunicação e a cara dos bandidos, que fizeram questão de mostrar o poderio bélico para a comitiva.

Ao passar para outra comunidade, no mesmo complexo, um menino chegou até um dos fotógrafos e deu o alerta: "eles" sabem que foram fotografados. Era o aviso de que estávamos em território inimigo e que, ali, poderia não haver presidente de associação de moradores, muito menos a polícia, que nos salvasse. Depois de passar por bocas de fumo, o clima ficou mais tenso, embora as armas já estivessem escondidas. O pessoal da campanha do PSOL insistia em dizer que não havia problema, que não era necessário ter a presença da polícia, que favela não tem só bandido. Aquele discurso chato de esquerda não nos convenceu. Três repórteres se juntaram para uma conferência e decidimos: vamos voltar para a redação, porque sem segurança não há trabalho. Ligamos para os chefes, relatamos os fatos e demos meia volta rumo ao centro da cidade.

A morte de Tim Lopes marcou para sempre o jornalismo na cidade do Rio. Coletes à prova de bala e carros blindados hoje fazem companhia aos blocos de apuração, gravadores e máquinas fotográficas nas horas em que os repórteres precisam sair para cobrir tiroteios, por exemplo. A Globo, por um tempo, decidiu não entrar mais de carro em favelas. Não sei se continua assim. O fato é que acabou de vez o mito de que a imprensa tinha salvo-conduto para cobrir conflitos. Se estamos em guerra ou não (alguns estudiosos rejeitam essa observação), o fato é que tornou-se perigosíssimo transitar por esses territórios com leis próprias, agora ditadas também por bandidos de farda, os milicianos.

O seqüestro e a tortura da equipe de reportagem de O Dia será outro marco, triste, para a história do jornalismo - que já sofreu com torturas durante a ditadura militar. Estaríamos de novo em estado de exceção?

Muitos estão criticando a postura do jornal, por ter deixado seus profissionais enfrentarem uma situação de risco, passando-se por moradores da favela para revelar o cotidiano de quem convive com a milícia. Há ideologia no desejo de mostrar as mazelas dos favelados aos outros cidadãos do Rio? Há. Ela é da intensidade dos que desejaram derrubar os ditadores de farda verde de outrora? Talvez sim. Deseja-se morrer por essa causa? Não.

Como disse o presidente do Sindicato dos Jornalistas do Município do Rio, Azis Filho (que já vem discutindo essa questão no sindicato há algum tempo), é preciso preparação para uma infiltração em área conflagrada. Concordo. Mas acho que é menos hora para discutir os métodos jornalísticos, e mais o momento de cobrarmos uma solução para o combate à milícia. Na época do Tim Lopes, foi mais fácil para a então governadora Benedita da Silva empenhar as forças de segurança pública na busca desesperada ao assassino do jornalista. Elias Maluco e seu bando foram capturados, presos e condenados. Mas, agora, o caso é outro. A polícia vai prender policiais? Quem, na instituição, está ou não envolvido com os milicianos? Identificá-los e condená-los vai adiantar? Ou eles vão continuar subjugando os moradores como os reles traficantes?

Achar as respostas para essas perguntas, dias após a prisão do deputado estadual Álvaro Lins, acusado de usar a máquina pública para proteger contraventores e achacar bandidos, é primordial para o futuro da cidade. Com poderes nas instituições, os milicianos serão mais duros de combater. O trabalho da imprensa fica prejudicado, e os moradores da cidade, acuados. Esperamos por capítulos melhores para essa tragédia.

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