3 de jun de 2008

Caso Jornal O Dia 3

Enquanto a maioria alardeia, mui justamente, a tortura sofrida pelos nossos bravos colegas do jornal O Dia por inescrupulosos policiais, peço vênia para desviar um pouco o olhar para dentro de casa; mais especificamente para os aquários, onde engravatados comandantes da comunicação lançam, diariamente, centenas de operários das letras na cova dos leões. Com redações cada vez mais enxutas e a necessidade crescente por pautas sensacionalistas, a nobre função de ser “os olhos e ouvidos da sociedade” se converteu em uma atividade suicida.

Jornalismo investigativo de qualidade requer tempo, dinheiro, infra-estrutura e profissionais preparados. Mas os comandantes, que certamente nem por um milhão de euros se embrenhariam em uma favela dominada por milícias, optam sempre pelo caminho mais rápido: convencer apaixonados pela profissão a conseguir a manchete do próximo domingo em troca do pão no fim do mês. É isso ou rua.

Há quem diga que práticas como essa são inevitáveis em uma atividade como a reportagem. Mas nem o mais cruel comandante enviaria um soldado sozinho e sem suporte para o campo de batalha. O que se questiona aqui não é, em absoluto, a realização de matérias investigativas, que denunciem os algozes da sociedade. Mas a falta de segurança profissional para quem ainda tem coragem e paixão para exercitar o que, de fato, é jornalismo.

15 comentários:

Olívia Bandeira de Melo disse...

Faço comentário único para os três posts (Monique, Cláudia e Luciana) sobre o caso. Fiquei muito triste pelas pessoas, como diz a Monique, acho que as autoridades têm que tomar providências, como pede a Cláudia, mas a pergunta que a Luciana fez foi a primeira que me veio à cabeça quando soube da triste notícia: com que direito e em nome de que as redações enviam seus repórteres para situações perigosas sem preparação e sem segurança?

Monique Cardoso disse...

ninguém sabe qual foi a preparaçao da reportagem. ninguém sabe quem errou aonde. não vamos especular pois é muito leviano e pode ser cruel.
o rio de janeiro, só no ano passado matou, por PAF, mais que o dobro de pessoas que morreram em toda a guerra do iraque até agora. se esta quantidade chega a ser morta, imaginem quantas não vivem sob ameaça. acho que sim, é necessário que dúzias de matérias, em todos os veículos, relatem como é viver sob a ditadura das milícias. dar números e colocar a fala na boca de autoridades e especialistas engravatados nao conscientiza ninguém. todo mundo sabe que as matérias que mostram a notícia pelo lado do drama humano do cidadão comum são muito mais fáceis de serem resolvidas e absorvidas.
aquelas três pessoas não foram a realengo fazer aquela reportagem por medo de serem demitidas, nem querendo ganhar prêmios. Isso não aconteceu. tinham motivos para ir e o jornal tinha motivos para querer publicar uma história destas e não era só vender mais exemplares.
Mas isso tudo tb não é importante. O problema não é o aquário mandar repórteres fazerem isso. Subir morro em tiroteio pode ser bem pior e mais fatal. E olha que eu conheço uma boa dúzia de moleques e garotas que adoram isso. e reporteres cascudos que adoram isso. o problema é a milícia existir. é o tiroteio pelo controle de venda de drogas existir. este é que é o problema. não é o jornal querer registrar.

Cláudia Lamego disse...

Concordo plenamente com a Nique. Jornalistas não vão mais cobrir conflitos? Quem vai informar à sociedade o que está acontecendo nas favelas? Ninguém é obrigado a ir fazer o que a repórter foi fazer no Batan não. Essas matérias, muitas vezes, são sugeridas pelos próprios repórteres. Ou o repórter tem o direito de se negar a ir. A pessoa pode até ficar mal vista, por exemplo, se se recusar a cobrir tiroteio enquanto está de plantão. Mas nem acredito que seja demitida também. Na redação, como observou a Nique, há pessoas que gostam, ou melhor, adoram cobrir essas coisas. Têm adrenalina. São os repórteres de polícia, que devem se preparar cada vez mais para cobrir conflitos (fazendo cursos, usando coletes, aprendendo a se defender). Mas vão correr riscos, porque jornalismo é profissão de risco mesmo. Quem não quiser se arriscar, não pode trabalhar em redação, infelizmente.
De qualquer forma, neste caso, eu acho que o risco foi muito grande, e deveria ter sido medido melhor. O que aconteceu é lamentável para todos nós. Imaginem o clima que deve estar na redação do Dia, e como os repórteres vão se sentir daqui pra frente quando tiverem que fazer seu trabalho normalmente.
Agora, me lembrei do caso das ações da Universal contra jornais. Podemos ficar acuados? Diante desses e outros desafios?

Olívia Bandeira de Melo disse...

"São os repórteres de polícia, que devem se preparar cada vez mais para cobrir conflitos (fazendo cursos, usando coletes, aprendendo a se defender). Mas vão correr riscos, porque jornalismo é profissão de risco mesmo".

Ok. Jornalismo é profissão de risco. Ok, a mídia não pode deixar de informar e, mesmo, "denunciar". Mas são os repórteres de polícia que têm que se preparar, por conta própria? As empresas de comunicação não têm que se responsabilizar por essa preparação? Não precisam dar suporte?

Esse caso provoca discussões porque envolve vidas humanas. Mas a gente sabe que a falta de preparo é geral, assim como a falta de estrutura. Não é irresponsabilidade, por exemplo, colocar um repórter para fazer dezenas de matéria por semana, sem tempo pra pesquisar e refletir?

Luciana Gondim disse...

Faço minhas as palavras da Olívia. A realização de matérias investigativas é mais que necessária - é essencial. A questão é que nas últimas décadas, é cada vez maior a cobrança sobre os repórteres e cada vez menor a infra-estrutura. Baixos salários, pouco tempo para apuração...barreiras que só são ultrapassadas com o paixão e entusiasmo de focas e idealistas (ainda bem que eles ainda existem!). Monique, olhe para a editoria de cidades e o que verá são estagiários. O que defendo é que os repórteres adotem a postura que a Clau adotou (Caso O Dia 2): recuar quando a não houver suporte para prosseguir. Complexo de Clark Kent é atitude suicida. Se o jornal quer manchete, que pelo menos dê o mínimo de infra-estrutura para seu repórter trabalhar. Sejamos realistas. Será que esses jornalistas estudaram práticas de guerrilha com a PM? Tinham rádios para se comunicar? Os carros eram blindados? Será que havia alguém na base os vigiando 24 horas? Antes de se embrenhar numa favela, há um mínimo de preparação. Nesse sentido, bato palmas para as matérias do Fantástico com traficantes nas comunidades. Os repórteres passam por treinamento e conhecem regras básicas de segurança. Como sabem, tive a oportunidade de praticar um pouco do jornalismo de frente de batalha, como aprendiz de um jornal. Vi um colega fotógrafo morrer, é dramático. O que prova que nem toda preparação é infalível. Mas o mínimo de segurança é fundamental. Antes de ir pra lá passamos por uma semana de treinamento, tinha colete a prova de balas, rádio, éramos monitorados e tínhamos uma base para contato em qualquer caso de emergência. Enfim. Jornalismo é atividade arriscada, mas quem lucra com as manchetes tem o dever de garantir o mínimo de segurança para o exercício da função.

Cláudia Lamego disse...

Lu, entrei muito em favela em época eleitoral, mas o que notei, sempre, foi uma organização impecável dos responsáveis pela campanha com a segurança de todos, inclusive deles mesmos. É preciso, sim, dar ciência aos traficantes de que vamos entrar. A polícia precisa estar avisada. No caso da campanha do PSOL, havia desorganização e o discurso deles era de que não se deve fazer acordo com o tráfico, não se subjugar. Ora, não sejamos bobos, a coisa não funciona assim. Por isso, resolvemos sair.

Uma vez, na favela do Borel, o pessoal da campanha errou um beco e deu de cara com traficantes. Foi um constrangimento geral, mas fomos protegidos pelos cabos eleitorais. Nesse dia, um repórter do JB, heroicamente, decidiu se desgarrar da comitiva e descer sozinho. Resultado: foi parado por traficantes no caminho.

Em outro caso, íamos cobrir um café da manhã de uma candidata na Maré. Chegando lá, havia uma operação policial, nunca vi tanto carro do Bope junto. Aí, a assessoria ligou e avisou: tudo cancelado porque não há segurança. Assim deve ser.

No Globo, não há estagiários na editoria Rio. Os repórteres são experientes, e também gostam da adrenalina a que a Nique sugeriu. Aliás, estagiário não acompanha repórter em morro, é uma regra do jornal.

Enfim, outras observações para o próximo post, pois o assunto não se encerra...

Gardênia Vargas disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Gardênia Vargas disse...

Concordo com a Lu e com Olivia quando dizem que a empresa tem obrigação de dar segurança a seus funcionários. Mas concordo com a Clau e Nique quando falam sobre as pautas serem sugeridas pelos próprios reporteres que tem tesão em fazer isso, e que o jonal aceita por que a pauta realmente é boa. Não acho que seja por medo de ser despedido ou por ser ordem do aquário, acho mesmo que é a tal "busca da verdade".

No caso do O Dia, não tenho dúvidas que a reporter quis muito fazer a pauta e sugeriu. O editor deve ter se preocupado com ela com certeza, mas a inconsequência foi geral, de ambos os lados.

Com certeza a instituição deveria ter se preparado mais para esse tipo de missão, até por que não estamos falando "só" de traficantes, mais sim de policiais, milicianos, que em dois tempos baixam sua vida em seus computadores, legalmente e, sem maiores restrições, podem se valer de sua família, seu trabalho, algum podre. Acabam com sua vida, sua cabeça. Tudo em nome da lei ou do que eles inventarem.

Até agora tento imaginar como foi que chegaram a conclusão de não matar a equipe. Devem ter algum medo também. Devem ter lembrado de Elias Maluco... Sei lá. De fato a equipe do O Dia teve "muita sorte". Bem sabemos, as leis paralelas são crueis e desumanas. E depois vão chamar quem? A polícia? (...)

Não suponho o que passará nos pensamentos do próximo reporter a ter vontade de se infiltrar novamente numa milícia. Precisamos de corojosos assim. Mas quem será o "louco"? Será que agora (e sempre depois da M acontecer)as redações irão tomar mais cuidados com nossos próximos super-reporteres?

Luciana Gondim disse...

Clau, palmas então para O Globo também. Adoraria trabalhar na Rio com essa estrutura.

Miragaya disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Miragaya disse...

Me recordo bem quando o Tim Lopes foi barbaramente assassinado. A palavra de ordem em todas as transmissões da TV Globo era: "morreu no exercício da profissão". Como é que é? Jornalista não é investigador de polícia. Claro que temos o dever de fazer matérias investigativas, mas não se pode fazer isso a qualquer preço e tornar isso o fio condutor do jornalismo. O problema é, como disse a Lu, que as redações estão cada vez mais enxutas e os jornais, com a concorrência esmagadora da internet, procurando furos a qualquer preço. Passa-se por cima de qualquer prudência para mandar repórteres e até mesmo estagiários, todos despreparados, para fazerem matérias investigativas sobre milícias e traficantes altamente armados em territórios desconhecidos. Já fiquei preso em tiroteios em favelas por três ocasiões a trabalho. Nas mesmas condições que provavelmente a equipe do Dia encarou. Hoje penso: de que valeria ter tomado um tiro na cabeça? Ter um nome perdido no obituário do jornal? Ser lembrado na primeira semana em alguma manifestação do sindicato?
Jornalista não é policial. As redações podem mandar o cara para rua, mas com planejamento e preparação. E mandar repórteres mais cascudos e experientes. Fotógrafos e motoristas idem. Preparar o terreno no local pois qualquer um que já subiu numa favela aqui sabe que quando você é forasteiro todo mundo te manja.
Isso não significa que o jornalismo investigativo tenha de se acuar e morrer. Mas quem não pode morrer é o jornalista porque o exercício dele é informar e analisar os fatos para a sociedade. Quem tem que prender, trocar tiro com bandido é a polícia. Ou então, daqui a pouco, os repórteres de cidade terão de andar armados.

Lucas Bandeira disse...

Lu, que história é essa do fotógrafo que morreu?
conta.

Luciana Gondim disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Luciana Gondim disse...

Lu, leia a matéria no link:

http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2006/10/363225

Luciana Gondim disse...

Caso não consiga abrir o link do Centro de Mídia Independente:

27/10/2006 18:23

Oaxaca, Oax. Um tiroteio que ocorreu no município de Calicante causou a morte do documentarista estadunidense Brat Will, de Indymedia Nova Iorque, que levou um tiro no peito. Um fotógrafo do periódico Milenio Diario, Oswaldo Ramírez, foi ferido com um disparo no pé, informou a edição Web do periódico.

O enfrentamento ocorreu quando grupos de supostos guardas brancas(paramilitares pró-governo), segundo reportou Radio Fórmula, agrediram aos brigadistas que resguardavam as barricadas.

O dirigente da APPO, Flavio Sosa, pediu a urgente intervenção do governo federal nesse município, porque disse que grupos ao serviço do prefeito priísta estão amedrontando com armas de fogo aos brigadistas que guardam as barricadas. "Nós só temos pedras e eles armas de fogo", disse.

De acordo as primeiras informações, em Calicante se registrou um tiroteio e além do periodistas morto e o fotógrafo ferido, três pessoas mais resultaram feridas.