16 de jun de 2008

Desesperançar


Depois de tanto tempo, cá estou eu, mãos trêmulas outra vez. Sei que nunca fui das mais fortes, mas agora voltou, ainda mais intenso, aquele medo absurdo de desesperançar. Espero que por aí as coisas estejam melhores, aqui está uma calmaria de dar dó. Outro dia revi nossas fotos, mexi naqueles livros... Ainda tenho as cinzas daquela réplica do Consenso de Washington, que queimamos em Porto Alegre. Mas rasguei aquelas fotos do México. Fraquejei, compa. Foi na noite em que resolvi ser propriedade privada. É, vou mesmo me casar. Juro que tentei resistir, mas não deu depois de ver tantos caírem. Porra, será que ninguém está vendo isso tudo? A defensiva acabou, querido. Ninguém resiste mais. Estou grávida. Grávida de um menino de nome Ernesto. Às vezes, quando ele está muito agitado, canto a Internacional Comunista pra ele ninar. Tão pequeno e já odeia o Pinochet, o Reagan, a Thatcher, o Blair, o Fujimori, o Menem, o FHC, o Bush...Conversamos muito, já que só posso falar dessas coisas para dentro. E ele, que só conhece o Lula corrupto e o Chavez guerrilheiro, não entende que a esquerda está passando pela mesma fase que ele, de gestação. Você também não acredita nisso? Vencemos contra aqueles ortodoxos neoliberais. O que está acontecendo agora é mero acidente de percurso. Não dá pra negar tantos avanços sociais. Sem falar na economia, no Banco do Sul, da adesão da Venezuela e da Bolívia ao Mercosul. Estamos ganhando peso, sei que estamos. E o tal do Lugo, o paraguaio? Confio nele, tem olhos de verdade, um semblante apaixonado. Quem sabe essa onda chega logo a El Salvador. Mas Ernesto não acredita. Nem ele, nem a geração que veio depois de nós. Quanto tempo temos ainda? Precisamos, compa, de uma ação enérgica com resultado imediato para cativar os de vinte e poucos. E aí a reação vem em cascata. Não vem? A velha direita, que não sei de onde tira tanta força pra resistir, agora voltou a usar o argumento da corrupção e da falência do Estado. Como se o capitalismo fosse auto-suficiente e eles não fossem os maiores corruptos de toda essa História. Filhos da puta. Gosto nem de pensar nisso, começo logo a enjoar. Será que estão todos grávidos? E você, querido, nunca pensou em ter uma família privada, só sua? A sensação é boa, mas dá medo. Medo de desesperançar.
*Foto de Marcelo Valle

10 comentários:

Gugu disse...

Lindo!

Monique Cardoso disse...

Por acaso foi o aniversário de 80 anos do finado (em todos os sentidos) Che que a inspirou a isso tudo?

meus heróis morreram de overdose, meus inimigos estão no poder. ideologia, eu quero uma para viver pois não tenho nada perto disso há muito tempo.

Luciana Gondim disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Luciana Gondim disse...

Monique, você me mata de orgulho...mas nem brinque com essa palavra "finado". Che vive! Não se desesperance. Estamos em gestação. Vamos hoje?

http://embacu.cubaminrex.cu/Default.aspx?tabid=7389

Gugu disse...

Por falar no assunto, alguém já viu "Personal Che"? É legal?

Cláudia Lamego disse...

Lu, lindo!
Não perca a esperança jamais. Ensine ao Ernesto (ele já foi encomendado?) as suas crenças.
Num mundo em que soldados do Exército matam jovens em favelas, policiais se transformam em bandidos e torturam moradores, é preciso ensinar humanismo e solidariedade às nossas crianças.

Quanto ao Che, ele vive em camisetas, filmes, livros e quadros empoeirados.

Olívia Bandeira de Melo disse...

Eu, Dê e o Marcelo vimos "Personal Che" ontem. Não vou comentar, fica para algum post (de um de nós três, quem resolver escrever primeiro).

E, Luciana, a senhora quis nos dar uma notícia via blog?

Luciana Gondim disse...

Imagina, Lili! 2008 é o ano da Aracy

Gardênia Vargas disse...

Viva a esperança, a que não morre jamais!

A digestora metanóica disse...

Amiga, não desesperança não! Vamos engravidar juntas como nos bons tempos?
Amo você