23 de jun de 2008

Vitalidade marginal, poesia biotônica


Em 1976, saía das entranhas da imprensa alternativa um jornal de contracultura cheio de talentosos porralocas. Seu nome: Almanaque Biotônico Vitalidade. Na capa, as caras de vários “bichos-grilos” -- aos quais talvez ninguém desse o mínimo crédito. Lá dentro, 40 páginas de poesia, experimentos textuais e viagens gráficas.

No editorial-apresentação, escrito em verso (como não poderia deixar de ser), comparecia a disposição para energizar o marasmo e fazer brilhar vida num tempo em que a ditadura sombreava tudo com morte (embora se dissesse em processo de “abertura”)[1].

"(...) essência de energia pura,/o biotônico vitalidade/é composto de raízes,/folhas e frutos plenos./(...)/É muito eficaz nos casos de desânimo geral."



Seguindo a estrutura de uma bula de um remédio bom para a cabeça, o editorial apresentava indicações, contra-indicações e posologia. Almanaque Biotônico Vitalidade era indicado, por exemplo, “contra a inércia, contra a lei da gravidade, contra a contrariedade”. E ainda, confirmando sua vocação, “contra a cultura oficial”. Um remédio que “não deve ser ministrado àqueles que propõem a morte como única forma de vida”.

Os “médicos” formavam o grupo Nuvem Cigana, que trazia nomes como Torquato Neto, Chacal, Charles e outros que passaram para a história como “poetas marginais”. Um “jornal”, uma “revista”, sei lá qual rótulo, que trazia “notícias” que não caducam, como a que foi publicada na página 7, autoria de Torquato Neto.

"o Rio é lindo/ o pão daqui é uma pedra de/açúcar,/a carne não sangra o corte não/dói/tudo se esquece/o morro está infestado de bandidos/e ratos/tem um quartel da polícia no/fim da escadaria/à direita/que jeito?!/o nome é Santa Marta/um beijo"

E lá se vão 32 verões.




[1] Não esquecer que Herzog foi “suicidado” em outubro de 1975 e o operário Manuel Fiel Filho torturado e morto no início daquele ano de 76.

PS1:

Há, se a memória não me trai, dois exemplares encadernados do Almanaque para consulta no Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, que mantém um bom acervo de imprensa alternativa. Um material que vale a pena conferir.

PS2:

Topei com alguns links na internet que levam a algo mais sobre o assunto:

Portal Literal
Poesia na Rede

7 comentários:

Moacy Cirne disse...

Puxa vida, vocês são grupo - ou parte dele - que fizeram O Caroço na UFF. De qualquer modo, gostei do pouco que vi por aqui. Vou olhar o resto, com a devida atenção. Abraços.

Moacy Cirne disse...

Oi, gente, pretendo publicaer amanhã no Balaio a bela foto de Marcelo 'Luar do Sertão', com os devidos créditos. Tudo bem? Continuo relendo O Caroço. Abraços.

Cláudia Lamego disse...

Cirne, somos nós mesmos. Um prazer e uma honra tê-lo como leitor. Finalmente, decidimos criar um blog, depois de muitos anos acalentando o sonho de voltar a imprimir nosso jornal ou uma revista.
O grupo está todo aqui, exceto um dos meninos, o Leo Cosendey. Mas a turma cresceu, vieram os maridos, companheiros, namorados, novos amigos. Melhor assim, né?
Pode usar a foto à vontade. Já viu o fotolog do Marcelo? Tem coisas lindas por lá.
Um abraço!

Olívia Bandeira de Melo disse...

Duplo prazer nessa tarde fria. Mais um texto do JH, com material de primeira, e a visita de nosso querido Cirne, que foi o entrevistado do Caroço impresso nº 4, de maio/junho de 2001.
Um grande abraço!

Cláudia Lamego disse...

Lili, que tal republicarmos a entrevista aqui? Ou melhor, marcamos um encontro com o professor em Laranjeiras (pode ser no Choro na Feira), comemos um pastel e o entrevistamos de novo!!!

Gugu disse...

Clau, ótima idéia! Vamos re-entrevistar o Cirne!! Será que ele nos daria essa honra??

Marcelo Valle disse...

Nobre Cirne, "andei andando" por terras potiguares vi muitos luares, essa foto na verdade é um luar paraibano, meio agreste, meio sertanejo...
Publique, espalhe esse luar pela Internet via Balaio! É uma honra! Ainda bebes cachaça?