24 de jun de 2008

Indiferença

Compa, chegou o inverno. Parece que a saudade tem termômetro, aumenta sempre que a temperatura cai. Saudade das suas idéias rasuradas sobre os restos do café da manhã, que costumavam tomar todo o apartamento, como cheiro de pão fresco no forno. Desde que te escrevi pela última vez, Ernesto ganhou sete centímetros. Está cada vez mais inquieto, como nós quando jovens. E tem aquele quê de temerosidade, que faz bem a todo revolucionário que não entrega a vida à toa. Não sei se por precoce sabedoria ou mania de perseguição, o menino inventou agora que uma nova ofensiva estadunidense está por vir. Diz ele que depois que levou bomba no Iraque, os americanos do Norte perceberam que tinham deixado os americanos do Sul livres de mais. Tão livres, que o inimaginável aconteceu: os movimentos sociais, com forte poder de persuasão popular, chegaram ao poder por via democrática. E parece que só agora Bush se deu conta de que os índios estão no poder. Ouviu bem, compa? Os índios estão no poder! A TV transmite, o jornal alardeia, mas não é curioso como exatamente quando conseguimos aquilo pelo qual lutamos há séculos, não temos forças nem para comemorar? Ou estão todos surdos ou não estão mesmo entendendo os avanços que conquistamos nos últimos anos. Talvez não seja – não é – exatamente como pensamos, mas, o menino está certo, melhor uma democracia construída por nós que uma outra imposta por eles. Há quem diga que o que está acontecendo aqui em baixo, no quintal, é fascismo. Acho que fascismo foi só um termo reinventado para dar nome aos esquemas de controle latino-americanos. Quando são os estadunidenses quem controlam, o fascismo recebe nome de democracia. Mas não tem jeito. Ernesto está com medo da contra-ofensiva e por isso tenho enjoado mais. Tento acalmá-lo, dizendo que não é a primeira vez, mas o menino está inconsolável. Quando o temor aumenta, rezo muito, para não sermos engolidos pelo fantasma da indiferença, nem sermos levados por esse discurso de que os nossos líderes indígenas são neoterroristas. Aí chegam as notícias sobre os confrontos diretos com as oligarquias na Bolívia? Falam de confrontos militares pesados, com prenúncio de um novo massacre, que certamente não será noticiado. Nunca sei em quem acreditar, não se escreve mais nas entrelinhas. Não sou mais a favor das armas, vou ser mãe. Mas também não acredito em democracia real sem luta, nem em comunhão com o neoliberalismo. Trata-se de tornar o mundo desconfortável para eles, assim como estou agora.

*Foto de Marcelo Valle

3 comentários:

Moacy Cirne disse...

"Trata-se de tornar o mundo desconfortável para eles, assim como estou agora": numa simples frase, tudo é dito, tudo é revelado. Em tempo: podemos marcar, sim, um papo no Choro da Feira. Ou mesmo aqui no meu apartamento (moro no fibnal da Gen. Glicério).Será um prazer rever a turma. Só tem um problema: estou sem beber. Recomedações médicas. Mas conseguirei uma boa cachaça de Caicó pra vocês: a Samanaú. Estarei em Natal entre 5 e 20 de julho. Por aí. Ou marcaremos antes, ou marcaremos depois. A combinar. Abraços em todos.

Luciana Gondim disse...

Saudações tricolores, mestre do Balaio! Primeiro reencontro no Maracanã, em histórica goleada, e agora em território virtual. Bem-vindo! Abraços!

Gugu disse...

Querido mestre do Balaio, não vejo a hora do reencontro. Talvez possamos marcar para depois da sua volta. Abraço e obrigado pelas visitas ao Caroço.