13 de jun de 2008

Quando a arte atrapalha a sua vida


O título pode parecer absurdo. Afinal, arte é alimento. O que vem dela é benéfico, sem dúvida. Mas pouco se pensa sobre o lado prático da coisa. Especialmente quando se trata de produtos audiovisuais. Vou ser mais claro: quase ninguém pára para analisar como se dá o processo de construção do objeto artístico. Não estou me referindo ao momento criativo, à inspiração, ao sofrimento para traduzir a emoção em arte. Isso todo mundo conhece.

Tampouco falo de questões práticas, tipo: a escolha da locação, a preparação do maquinário, o deslocamento de equipes e materiais, a montagem dos cenários, enfim, a produção propriamente dita. Isso é básico. Agora, o que se comenta pouco – e o que me faz pensar - é de que maneira essas produções, muitas vezes rodadas em locações urbanas, interferem no dia-a-dia da população.

Eu moro numa área naturalmente cinematográfica: a Lapa. É comum, pelo menos quinzenalmente, me deparar com todo aquele aparato: caminhões, tripés, holofotes, cadeirinhas de diretor, câmeras, gruas, trilhos, figurantes, entre outros equipamentos que eu nem conheço. Costumo andar a pé no local, e não é só para o meu lazer. Retorno do meu trabalho caminhando e inevitavelmente cruzo a região dos arcos.

Já me vi tendo que desviar muitos metros do local corriqueiro, por causa de uma novela das sete. As produções cercam áreas bastante extensas, com faixas semelhantes às da Defesa Civil. E tem sempre alguém pra avisar os distraídos: “Não pode passar por aqui!”. Como assim?? Eu estava indo para a minha casa! Eu moro ali! Já precisei andar pela rua, com trânsito intenso, para não ocupar a calçada onde era gravada uma cena da Alzira, de Duas Caras.

Recentemente descobriram que o Bairro de Fátima, onde moro, é uma boa locação de cinema. Parece um lugar do interior, tem uma pracinha linda, muitas árvores, ruas com paralelepípedos e um monte de escadarias quilométricas, que quase tocam o céu. Aconchegante e pacato. Mas hoje de manhã, por exemplo, estava tudo cercado com as famosas faixas amarelo-e-pretas. Vários caminhões, muitos figurantes, um café da manhã apetitoso servido pela produção, fora todo o maquinário.

O pessoal da cenografia construiu ali um ponto de ônibus com uma tubulação enorme, azul, passando embaixo. Os atores – que eu não reconheci – gravavam na escadaria. Eram 8h30, portanto meu horário de ir trabalhar. Mas não havia ônibus porque a praça estava "lacrada". O ponto da vida real mudou de locação, para quase 500 metros adiante. Nessa hora, eu juro que pensei: “foda-se a arte, eu quero meu coletivo".

11 comentários:

Olívia Bandeira de Melo disse...

É Gu, deve ser duro morar perto de cartão postal. Nunca tinha ouvido ninguém falar sobre isso.

Gugu disse...

Lili, são situações comuns naquela área. Acho tudo muito interessante mas às vezes me estressa. E em Niterói, como é isso? Estão gravando a novela "Beleza Pura" aí, né?

Olívia Bandeira de Melo disse...

Gu, só vi gravação uma vez, graças aos céus. Fui ao delicioso e sossegado quiosque Cheiro de Mar, na Boa Viagem, e estava o maior tumulto. A produção tinha até reservado as mesas, mesmo sem utilizá-las, só pra ninguém sentar. Criamos um caso com o dono do bar, arrumamos uma mesa, mas desistimos e fomos embora.

Gardênia Vargas disse...

Menino, e você imagina o que é morar em Santa Teresa? Isso pinto! Já passei por cada uma. Mas acho tudo lindo e como todo brasileiro, me adapto :o)

Gugu disse...

Essa é a merda, Lili: eles querem reservar o mundo só pra si, mesmo que não vão utilizar o espaço. Fico com ódio, às vezes.

Olívia Bandeira de Melo disse...

Ih, Gu, acabou de aumentar a estatística de ódio no blog Lovelines...

Gugu disse...

Lili, mas eu não disse "eu odeio". Ih, agora eu disse... Hahaha.

Cláudia Lamego disse...

Há algum tempo, eu peguei o maior engarrafamento do mundo pra chegar na casa do Pedro. Era a produção de um filme do Bruno Barreto (eca!) sobre o 174. Se fosse para um bom projeto, não teria ficado com tanta raiva. O que esse infeliz pode fazer melhor que o "Ônibus 174"?
Ah, mas quando eu morava em São Gonçalo, a produção de um seriado (ou seria o filme?) sobre o Homem da capa preta (esqueci, por ora, o nome do político) usou um casarão do Centro para a locação. Ai, era um acontecimento!! O povo ir tudo pra lá ver os artista.

Gugu disse...

Clau, é tudo muito interessante. É excitante ver como funciona toda aquela coisa mágica da TV e do cinema. Vc fica se perguntando: quando e onde isso vai ser veiculado. A imaginação fica a mil. Mas tem esse outro lado chatinho que incomoda...

Cláudia Lamego disse...

O gogle me ajudou: o político era o Tenório Cavalcante. Eu só me lembrava do nome da espingarda que ele levava para a assembléia, quando era deputado: Lurdinha!!

Sei, Gu. Tem esses dois lados.
E as feiras livres? São ótimas, né? Mas causam o maior transtorno em algumas ruas. Simplesmente, você não pode tirar o carro da garagem.

Monique Cardoso disse...

É uma palhaçada, um circo!!! às vezes inevitável. mas novela? faça-me o favor. outro dia seguia atrasada para o municipal, e no templo sagrado nao se entra atrasada ou esbaforida. eis que saio da estação do metrô e não posso, junto a distintos senhores e senhoras, ir adiante. estavam gravando uma cena enorme de Mutantes, da Record. A grua estava postada em frente a escada!!!! e se movia!! nao dava pra passar por baixo daquele enorme braço de ferro. os funcionários riam da nossa cara. nada faziam. e ainda faziam psiu quando a gente reclamava da demora. um desrespeito. e nao havia faixa listrada...