15 de abr de 2008

Elefante globalizado

Elefante chique

O Brasil viveu nas últimas décadas uma campanha constante e suja de depreciação do serviço público. Principalmente nos anos 80, o discurso recorrente, seja na mídia ou forçada pela elite, era de que, se era público não prestava. Eu mesmo cresci me acostumando a ouvir que o Estado não funciona, que funcionário público é imprestável e tudo que o governo põe a mão é ruim e danoso ao cidadão. Ou seja, já se preparava nessa época um ambiente hostil contra estatais e órgãos públicos de uma forma geral. Um cenário propício para as oligarquias deste país ensaiarem uma onda preocupante e perversa de privatizações na década de 90.
Me lembro até hoje de um asqueroso senador da república, já falecido, comemorando com dinossauros de brinquedo a quebra do monopólio da Petrobras sobre a exploração do petróleo no país. Também me recordo daquele meu xará, que foi presidente, usava cabelo gomalina e tinha semblante fascista, amaldiçoando a máquina do estado e a comparando a um elefante em reclames de televisão. Outro xará meu, com faixa presidencial e em uma falsa pluma de social democrata, então, colocou em prática uma promíscua série de privatizações com o intuito de fomentar a livre concorrência e aliviar o Estado para que esse, enfim, pudesse se dedicar a assuntos como educação e saúde.
Pois bem, o xará pseudo-tucano (escrevo assim porque acho um crime usarem uma ave tão bonita como marca de um partido político sem qualquer ideologia ou coerência) abriu as pernas e vendeu empresas estatais até hoje em situações e negócios considerados desvantajosos para os cofres do estado e sob suspeita de fraudes que as aves azuis e amarelas tentam varrer para debaixo do tapete.
Passada uma década, na prática, o que melhorou? Bem, já ouvi um estudante de jornalismo soltar a pérola de que graças a esse sistema e ao governo “social-democrata” (as palavras social e democracia nunca foram tão mal empregadas e entendidas) que hoje eu tinha um telefone celular. E que, graças a isso, o gari da esquina também tinha celular e televisão em casa. Nesta visão extremamente linear e medíocre, cheguei a indagar se deveria colocar um altar com a foto do meu xará em casa e venerá-lo diariamente com o meu celular ao ouvido.
Bacana. Então, o gari tem celular, mas o filho dele não tem escola e a esposa dele precisa ficar três meses para aguardar uma cirurgia em qualquer SUS da vida. Pelo visto, é muito pedir para ser cidadão e ser reconhecido como tal, inclusive pelos serviços que outrora eram estatais e foram dados (está bem, vendidos) à iniciativa privada. Hoje, o que temos? Temos taxas altas de telefonia e um serviço que ainda deixa muito a desejar. Cobranças de assinaturas, preços altos de ligações e serviços de qualidade discutível. Basta ver a lista de campeões de reclamações dos Procons país afora.
E gostaria de hoje perguntar àquele nefasto senador dos dinossauros onde foi parar a tal concorrência? Sim, porque hoje para ter um telefone fixo em casa no Rio de Janeiro eu só posso recorrer a duas empresas, sendo que uma usa antena e é controlada por um magnata mexicano, que também é dono de uma operadora de telefonia celular, que acaba de comprar uma concorrente (viva a globalização!). Isso em um mercado de telefonia móvel que reúne o impressionante número de quatro companhias, no Rio.
E o que dizer da empresa fornecedora de energia elétrica? Essa é um espetáculo. Nome inglês pomposo para um serviço de quinta. Só para refrescar a memória, quando essa tal companhia foi privatizada, nos anos 90, recebeu uma bela quantia do BNDES para sanar dívidas e se reestruturar. Pois bem, há dois anos, estava em crise novamente, apesar disso ter custado 18 mil empregos. O mal gerenciamento lhes custou a concessão? Pelo contrário, receberam mais grana do mesmo banco. Curiosamente, as reclamações não têm a mesma ênfase de décadas atrás e as queixas mesmo só são ouvidas nas esferas judiciais. Pena que o senador dos dinossauros não esteja vivo para me explicar melhor essa lógica...
Tudo isso que escrevi freneticamente até agora é para tentar entender uma outra privatização. Em uma matéria que fiz recentemente sobre o trânsito das grandes cidades, que fica cada vez mais caótico com os milhares de carros novos que ganham as ruas, o engenheiro de tráfego Fernando McDowell me chamou a atenção para números assustadores sobre os metrôs do Rio e de São Paulo. Considerados os meios de transporte mais eficazes para tentar tirar os automóveis das ruas e melhorar o trânsito e a poluição das metrópoles, o metrô se mostra hoje muito mais ineficaz que quando era regido pelo Estado.
Segundo o mesmo engenheiro, nos horários de pico, o tempo de espera entre uma composição e outra nos dois metrôs é de inacreditáveis quatro minutos – o certo são 90 segundos. Me lembro bem quando usava o metrô carioca nos anos 80. Passava rápido e enchia pouco, mesmo na hora do rush. Hoje, se perde minutos preciosos esperando os trens, que, invariavelmente, chegam abarrotados. E tem mais essa: a média de pessoas por metro quadrado no metrô do Rio e no de São Paulo é de seis, quando o ideal são quatro pessoas por metro quadrado.
E como transporte de péssima qualidade nunca significou tarifas mais baixas, o sujeito corre do abarrotado e atrasado metrô - e do igualmente ineficaz ônibus - para pegar seu carro ou moto com uma bíblia de prestações em uma das mãos. Resultado: mais veículos nas ruas, mais congestionamentos e mais poluição saindo pelos escapamentos. Perda de produtividade e de qualidade de vida são os efeitos seguintes de tamanho descaso com o transporte público. Ou melhor, privado.
Na outra ponta, tudo como antes. A educação e saúde, aquelas áreas que seriam contempladas com as gorduras deixadas pelo emagrecimento do elefante estatal, continuam sucateadas e ferindo os princípios básicos democráticos (democracia não é só votar para presidente!). Está na hora do Estado voltar a valorizar seu papel. Não só nas áreas que sempre foram sua obrigação. É preciso tomar as rédeas de áreas estratégicas porque o elefante não emagreceu. Ele só mudou de roupa e usa presas de marfim.
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Antes que eu esqueça: agradeço ao convite para este blog caroçal e também pelo modo acolhedor com que todos me receberam... apesar de o Diego não deixar eu sentar na janela e de eu ter matado Dolores!!!

7 comentários:

A digestora metanóica disse...

Como assim matou Dolores????

Deia Vazquez disse...

Tambem sou dessa epoca. Ate lembro de um comentario da Margaret Tatcher dizendo que "se ate comida era privatizada, por que o resto nao pode ser?". Nao sei se ela disse isso mesmo, mas na minha memoria infantil ela disse. Aquilo pra mim fez certo sentido. Mas outras coisas fizeram bem menos sentido. Nao sou favoravel a privatizacao, que fique claro. Mas eh dificil nao negar a incompetencia do Estado. Quantos aqui ja nao conheceram varias pessoas que querem prestar concurso publico so para ter "garantia e trabalhar pouco"? Infelizmente nossa mentalidade foi vendida bem antes de Light.

Luciana Gondim disse...

Amor, que orgulho! Você oficialmente entre nós, com seus textos revolucionários!

Gugu disse...

Muito bom, Fernando! Seja bem-vindo.

Cláudia Lamego disse...

Fernando, seja bem-vindo.

Gostaria de saber o que você acha dessa história de crédito para compra de automóveis, que não para de crescer, o governo tentou brecar, mas a indústria pressionou e o ministro Mantega voltou atrás. Não é péssimo que as pessoas paguem um carro a perder de vista? No fim das prestações, se chegar até lá, o carro já virou sucata...

Quanto às privatizações, em setores estratégicos sou contra. Não em todos. O ideal seria termos uma sociedade de empresários honestos e governantes incorruptíveis, para termos investimentos privados onde o Estado não pudesse mais dar conta.

E ainda bem que, mesmo quebrando o monópolio, mantivemos a hegemonia na indústria do petróleo. Vi um documentário argentino sobre a dilapidação do patrimônio nacional deles (eles venderam a petroleira estatal) e fiquei estarrecida. O que seria de nós sem a Petrobras?

Beijos imperdoáveis (por ter matado a Nossa Senhora Dolores).

Miragaya disse...

Oi Clau! Essa onda de compras a perder de vista é mesmo preocupante. Acho ótimo a indústria estar aquecida, pois gera empregos e estimula a criação de novas fábricas. O que me preocupa, primeiro, é o total descaso com o trânsito nas cidades. Não se investe em transporte de massa, em corredores viários, em transporte solidário, nada. Ninguém vai deixar de comprar carro com medidas como essa, só que o uso do carro vai ser bem mais moderado. Mais aos fins de semana ou para viajar. Quanto às prestações, o nível de endividamento também é preocupante. O sujeito compra um carro por seis anos a juros extorsivos, ao final terá pago pouco mais de dois carros. Mas o que o mercado estimula é que antes mesmmo de terminar a bíblia de prestações ele compre outro carro refinnciando o financiamento existente. Ou seja, dívida eterna.

Olívia Bandeira de Melo disse...

Me lembrei de uma coisa que não tem relação direta com o texto do Fernando, mas com os comentários da Clau e do próprio Fernando. Esse semana conversava com a Dani aqui da Bem Tv sobre o número de prédios de classe média alta que têm sido construídos em Niterói. Em busca da qualidade de vida que a cidade propagandeia, classes médias de vários lugares do Brasil têm vindo pra cá. Resultado: o trânsito está caótico, a paisagem virou uma manada de elefantes brancos, a poluição aumenta. E mais: os classes médias se atrolam em dívidas, pois não conseguem quitar o financiamento alto e os condomínios altíssimos.
Enquanto isso, na periferia, mais precisamente em UMA comunidade da cidade, o governo promete conjuntos habitacionais maravilhosos. Mas vocês acham que os moradores estão felizes e tranquilos? Estão com medo, pois também acham que não conseguirão pagar seus novos lares, e mais a luz, a água, o IPTU, etc.
Endividamento generalizado, poluição, engarrafamento, propaganda eleitoral. Onde está a qualidade de vida de Niterói?

Seja bem-vindo, Fernando!