23 de abr de 2008

Fernando paraguaio e a redescoberta da esperança

Embora já tenha o meu original, preciso confessar: estou apaixonada pelo Fernando paraguaio. Quem me conhece sabe que sou um pouco católica, muito apostólica, nada romana, e cegamente fascinada pela Teologia da Libertação, que aprendi junto com o abecedário, graças à mamãe.

Cresci vendo-a liderar campanhas pastorais na comunidade do Jacarezinho e, já na adolescência, “nas invasões” em terrenos baldios na zona Oeste do Rio. Foi assim que fui apresentada a Deus – Deus que ergue parede na favela, faz prato de sopa de entulho, lava feridas de desconhecidos, divide por cem uma caixa de remédio. Um Deus que não é doutrinário, nem institucional.

“Pelo amor de Deus”, “Vai com Deus”, “Fique com Deus”, “Deus te abençoe”, “Deus te ouça”. A base da Teologia da Libertação consiste em resgatar a riqueza da espiritualidade dos pobres, tão evidente em expressões como essas. O Frei Betto, alicerce da libertação, diz que para entendermos Deus temos que esquecer o Deus do catecismo, perfeitíssimo, cantor de ópera e cair no samba com o Deus tangível e companheiro.

Por mais que alguns insistam em apartar política de religião, a associação direta é inevitável. Mesmo que na consciência de Cristo houvesse apenas motivações religiosas, todas os seus atos tiveram conseqüências políticas – que abalaram os poderosos da época e desencadearam em tortura seguida de morte com requintes de crueldade. Logo, todos os cristãos são discípulos de um prisioneiro político.

Pio XI, que Deus o tenha, costumava dizer que “a política é a forma mais perfeita de caridade”. Sou uma crédula incorrigível, que ainda acredita em saci e na esquerda latino-americana. Às vezes, denúncias de corrupção e tortura abalam os resquícios de fé. Quando isso ocorre, impotente e aflita, rezo – não pela vida eterna, mas pela libertação imediata da desesperança.

“Fernando Lugo, ex-bispo, adepto da Teologia da Libertação, derrotou os colorados e é o novo presidente do Paraguai”, anunciou o locutor da rádio AM no início da semana. E eu, rindo da redescoberta da esperança, sussurrei baixinho no ônibus lotado: “Amém”, que em hebraico quer dizer “Sim, o mundo é bom”.

2 comentários:

Miragaya disse...

Delícia da minha vida, vc sabe que, apesar de cristão, tenho minhas desavenças com a Igreja Católica, olho torto para padres e me irrito com o bobalhão do Marcelo Rossi. Mas admiro iniciativas louváveis da igreja, como a Pastoral da Terra e outras ações pouco conhecidas do público e da mídia.
E confesso que depois que te conheci, sua fé me encantou e passei a ver que nem toda a igreja segue as premissas defasadas e arcaicas de Roma e do Vaticano. Felizmente, espero que o novo presidente vizinho tenha essa mesma fé e independência.
Prometo que não ficarei com ciúme do meu xará padre e paraguaio que, espero eu, não seja "falsificado", como outros que se dizem esquerdistas no continente.
Lugo encerra um ciclo de poder do Partido Colorado (que apesar do nome, é fascista e sustentou a ditadura de Strossner) de mais de 60 anos.
Espero que Lugo assuma com a noção de integração da América Latina e, inicialmente, para reforçar o Mercosul. Hoje, a aliança do Cone Sul ainda anda a passos muito lentos e só beneficia (justiça seja feita) Brasil e Argentina.
Boa sorte xará!

Cláudia Lamego disse...

Lu, muito bonito isso que você aprendeu com sua mãe. Eu entrevistei o Leonardo Boff recentemente e senti uma paz absurda ao lado dele. E vi essa esperança nos olhos, sabe? Uma bondade que não se acha por aí facilmente. Que Deus nos abençoe a todos.