14 de abr de 2008

O importante é que emoções eu vivi

Não consigo lembrar de jeito nenhum o nome desde simpático vendedor de lanches numa bisrosca de beira de esquina (que os portenhos chamam kiosco) da pequena e bela Tigre, cidadezinha a 30 km de Buenos Aires. Ele ganha a vida vendendo sanduíches e, entre os mais populares, está este pão com lingüiça, o choripan, nossa refeição à beira do rio que batiza a cidade, num piquenique improvisado sobre um lençol.
Temos, por estas bandas de cá, o hábito de cultivar a rivalidade entre argentinos e brasileiros, algo alimentado pelo futebol, o que é uma bobagem. Uma bobagem divertida, mas uma bobagem. Este homem, cujo nome gostaria de recordar, provou para mim que isso é uma bobagem. Buenos Aires recebe uma enxurrada de brasileiros a cada feriado. A economia argentina se recupera de forma acelerada, mas continua bem econômico viajar para lá. Mesmo acostumado a encontrar nordestinos e sudestinos com freqüência, o homem não perde a oportunidade de saldar e fazer festa com o grupo de jovens na casa dos 30 anos pelo simples fato de serem brasileiros. E faz questão de cantarolar um trecho de uma canção popular de Roberto Carlos (acho que era Nas curvas da estrada de Santos) para, em seguida, contar um caso. Ou melhor, compartilhar conosco, cinco estranhos, uma recordação que, pelo brilho nos olhos e pelo sorriso, lhe é muito cara: a primeira vez que beijou uma mulher foi ao som do Rei, confidenciou. Não era uma namoradinha qualquer, deu para perceber. Deve, decerto, ter sido uma grande paixão. O homem seguiu, dando alguns detalhes do dia que, pelo visto, não esquecerá jamais. Emenou reclamando que as entradas para o show que Roberto faria em abril na capital argentina estavam caras e mesmo assim, esgotadas. Ele não tinha entradas, mas disse que talvez comprasse o disco novo do artista, gravado em espanhol, lançado há pouco.
Também tenho um leque de recordações pessoais embaladas ao som do Rei. Não, nunca fui a um show dele. Ainda. Mas sei de cor muitas de suas canções, saídas dos seis discos que minha mãe colocava na vitrola por vez, e que iam caindo, um a um, na seqüência, para que ela se distraísse enquanto lavava roupa. Se ainda houvesse muito trabalho a fazer, os vinis eram substituídos por outros seis. De outros artistas, ela, voluntariosa, dizia que Roberto Carlos era bom, mas que se ouvisse muito, enjoava. Ela enjoou de vez. A coleção está esquecida, nos armários de uma casa também esquecida. Seu CD player hoje tem outras preferências.
Já escrevi sobre esta minha relação com Roberto numa crônica universitária antiga e não vou me repetir. O fato é que o Rei ainda não embalou nenhum dos meus momentos românticos. Acho que por uma questão, digamos, de choque de gerações. Entretanto, seu poder de hipnotizar platéias e ao mesmo tempo tocar indivíduos me intriga e me atrai. Aliás, adoro certos fenômenos culturais de massa. Como me mostrou o simpático senhor do kiosco, eles derrubam certas fronteiras. Por isso resolvi percorrer as curvas da estrada de Santos.

6 comentários:

A digestora metanóica disse...

O nome dele já não importa. O importante são as emoções. ;)

Deia Vazquez disse...

Gostaria de encontrar uma pessoa que nao se emocione com pelo menos uma musica do Roberto Carlos.
E romance em espanhol eh sempre mais romantico ;)

Luciana Gondim disse...

Eu adoro Lady Laura, Nicoleta! E as músicas do Rei para vesgas e gordinhas.

Gugu disse...

Minhas memórias sobre o Rei vêm da infância. Uma tia, chamada Márcia, comprava os LPs novos sempre perto do Natal. Assim, todo dia 24 de dezembro as festas eram embaladas por discos dele. Ainda posso sentir o cheiro da comida, o som do toca-disco prateado e o barulho das pessoas zanzando pela sala. Muito boa sua crônica, Nique.

Cláudia Lamego disse...

Nique, fiquei emocionada. Você já foi para Santos? Vai ainda? A-hã!

Roberto Carlos, para mim, é sinônimo de: mamãe ganhando, todo Natal, o novo LP do Rei, dado de presente por papai; mamãe e papai me deixando com a avó para ver o Rei no Canecão; TODOS os Natais da minha vida, em que, antes da ceia, assistíamos juntos ao especial (que agora é no dia 25 e esse ano assisti com meus pais, muito emocionada); muito choro ao som de "Detalhes", a música que embalou minha primeira grande fossa. Ou seja, Roberto Carlos também é o som da minha infância. Para minha mãe, continua sendo.

Parabéns, seu texto está magnifíco e me causou todo um processo retroativo, de lembranças ótimas...

Olívia Bandeira de Melo disse...

Clau, temos mais uma coisa em comum. "Detalhes" também embalou um "amor" da minha vida, um "amor" complicado, o único cafajeste.
Nique, linda a sua crônica.
Beijos!