30 de abr de 2008

Travestindo


Travestis sempre chamam a atenção. Além de atiçarem o imaginário, a curiosidade e até a libido das pessoas (por que não?), eles ajudam a vender revista e jornal. Não bastasse serem estigmatizados, inclusive entre os próprios homossexuais, ainda servem de chacota para a grande parte da população. Representam a medida exata do quanto “o mundo está perdido”.

Poucos realmente se colocam no lugar deles. Porque a rejeição, mesmo imaginária, dói. Analisando com equilíbrio, travestis carregam um peso que faz os nossos problemas parecerem ínfimos. Imaginem uma adolescente, travesti, no exame do Exército.

Nos meus 18 anos vi isso de perto: um rapaz, já com corpo feminino, maquiagem e roupas de menina, exposto a um batalhão de dezenas de garotos e submetido aos olhares maliciosos dos soldados, que passavam por ele com sorrisinhos de canto de boca.

Acredito que toda a vergonha, a humilhação e o medo, substantivos abstratos, tenham se personificado ali, naquele momento. Talvez a moça/rapaz não tenha se sentido tão mal, talvez até tenha tirado de letra. Pode ser que o fato tenha incomodado mais a mim do que a ela.

Mas é só pra ilustrar que o dia-a-dia dessas pessoas é, certamente, bem mais complicado que o nosso. Atividades normais, como ir ao supermercado ou à farmácia, comer em um restaurante, comprar uma coca-cola na esquina, podem se tornar experiências profundamente penosas.

Imaginem fazer academia, ir ao dentista, comprar sapatos de salto... Já viram travestis em lojas de departamento? Eles estão condenadas a viver à margem. Por isso a grande maioria acaba indo parar nas esquinas das ruas cariocas, submetidas à violência e à humilhação.

Quanto mais parecidas com mulheres (sem pêlos, gogó, sinal de barba, voz grave, sem formas exageradas), maior a possibilidade de sucesso. É o caso de Roberta Close, Rogéria, Ruddy, Jane de Castro, entre outras. Os postos de trabalho, entretanto, ainda são restritos, e estão no universo dos negócios voltados para a beleza.

Em um caso como o do Ronaldo Fenômeno, a tendência é acreditar que os travestis são culpados. Pode ser que sejam culpados sim (pela acusão em relação às drogas, não ao sexo, claro). Mas antes mesmo de se defenderem, já estão na desvantagem. E o povo gosta, tem notícia no Jornal Nacional e no Globo. É provável que revistas semanais também explorem o assunto. Agora, alguém se lembra da última matéria abordando violência contra travestis? Acontece todos os dias...

Hoje saiu outra notícia falando da Operação Copacabana, que tem a pretensão de acabar com a desordem no bairro. O título, na versão online do Globo é “Operação em Copacabana prende prostitutas”. Mas a legenda da foto não deixa por menos: “travestis também foram detidos”. Pronto, taí a palavrinha mágica que faz atrai os olhos e o imaginário dos leitores.

7 comentários:

Deia Vazquez disse...

Gu, essa questao eh taaao delicada. Acho que no caso do Ronaldo, o fato de envolver travestis foi so um "toque a mais", a alegoria perfeita para a sociedade machista ridicularizar ainda mais o envolvido.
Quanto alguem resolve travestir, faz uma opcao de colocar sua sexualidade exposta, totalmente fora da esfera privada. Alem disso, nao eh so sexual, eh ir contra a natureza anatomica, o que eh mais grave - logo, nos sentirmos incomodados. Como voce mesmo disse o desconforto dos meninos na ocasiao que voce viveu era talvez maior que a dele(a?). Ele(a) fez essa opcao, sabe o preco que vai pagar por isso e mesmo assim achou qe valia a pena. So acho uma pena que na maioria dos casos ser transexual seja sinonimo de vender o corpo.
Eh uma questao tao sensivel, que eu prefiro parar por aqui ;)

Gugu disse...

É, Déia, acho que a questão deve ser debatida de forma mais ampla mesmo. Acredito que o travestismo seja algo além da simples opção. Tem a ver como a não-aceitação da própria imagem, é fruto de uma tortura interna constante e dolorosa. Embora os travestis conheçam as dificuldades, acredito que não tenham idéia de como é a aceitação das pessoas até o dia em que resolvem sair para a rua. É todo preconceito é sempre cruel. Concordo com você que o estranhamento é natural, mas achincalhar é escroto. O lema é "sempre respeitar as diferenças". Sempre.

Olívia Bandeira de Melo disse...

Seria legal fazer uma matéria, hein, Gu? Por que você não entrevista alguns travestis e coloca aqui no blog?
Beijos!

Gugu disse...

Sim, Lili, gostaria muito de fazer uma matéria com elas, mas não tenho coragem de abordá-las no horário de serviço. Podíamos fazer uma entrevista coletiva com uma delas. O que você acha? Beijos.

Olívia Bandeira de Melo disse...

Acho ótimo. É só marcarmos!

Cláudia Lamego disse...

Travestis e putas sofrem todo tipo de violência e, quando vão dar parte na polícia, são maltratados, postos da delegacia pra fora. Estão à margem da sociedade, como os meninos de rua, os moradores de favelas, os pobres...

Marcelo disse...

Recomendo dois estudos sobre o tema(que inclusive me serviram como base de pesquisa para um dos contos do meu último livro): "Travestis, enter o espelho e a rua" e "Engenharia erótica: travestis do Rio de Janeiro"