17 de abr de 2008

Kiriku, Macunaíma, folclore e arte


Outro dia, assisti a um desenho animado mais do que diferente, Kiriku e a feiticeira, de Michel Ocelot. O filme começa com uma mulher, africana, grávida. Dentro do ventre materno, o bebê fala: "Mamãe, eu quero nascer." A mãe responde que, se ele já fala dentro da barriga dela, pode nascer sozinho. O menino engatinha para fora do corpo da mãe e corta o próprio cordão umbilical. "Mamãe, você tem que me lavar." Se ele nasceu sozinho, também pode se lavar sozinhom, é o que a mãe responde. Ela recomenda apenas que economize a água, porque, desde que a feiticeira Karaba apareceu na aldeia, o riacho parou de correr e todos os homens que vão combatê-la são comidos, inclusive o pai e o tio de Kiriku. E Kiriku, apesar do preconceito que sofre por ser menor que todos, vai atrás de Karaba para acabar com o sofrimento do seu povo.
A animação, com desenho algo naïf, é infantil mas não infantilizada (as cores são fortes - "tropicais?" - e as mulheres andam com seios à mostra, o que levou o filme a receber indicação "adulto" nos EUA). Uma análise do filme pode ser encontrada aqui.
A história é baseada em lendas da África Ocidental, e o interessante é notar como o tom se parece com as narrativas indígenas que inspiraram Macunaíma, de Mário de Andrade. Folheando hoje um livro do Sérgio Buarque de Holanda, O espírito e a letra, encontrei "O mito de Macunaíma". O antropólogo, historiador, crítico, etc., etc. (não é à toa que o filho dele é músico, escritor, dramaturgo, etc.) traduziu três narrativas do mito do deus Macunaíma, encontradas nos livros de Koch-Grünberg (de onde Mário de Andrade tirou a matriz de seu romance) e de Walter Roth. Na primeira, Macunaíma e Piá, gêmeos filhos do Sol, ainda no ventre da mãe, dizem: "Saiamos a visitar nosso pai. Mostraremos o caminho..." No meio do caminho para encontrar o pai de Piá e Macunaíma, a mãe acaba caindo e se machucando. Enfurecidos, os gêmeos se recusam a indicar a direção novamente. A mãe é morta por um jaguar, mas as crianças sobrevivem e crescem rapidamente. Dentro de um mês já eram adultos.
Outra semelhança entre os dois mitos está nos "suporpoderes" de Kiriku (que, além de já nascer espertérrimo, corre mais rápido que qualquer um) e do "deus" Macunaíma.
Queria ter mais tempo - e conhecimento - para tentar entender o que, afinal, significa esse mito do filho conversar com a mãe antes de nascer. Seria uma referência à óbvia e profunda ligação materna com os filhos? Ou àquilo que falta ao homem e atrapalha sua sobrevivência, ao fato de demorar mais que as outras espécies para ter autonomia?
Mas, além disso, Kiriku e Macunaíma são duas obras muito divertidas, e que nem por isso são simples. Tendo se inspirado em tradições semelhantes, têm públicos muitos distintos.
Kiriku é daquele tipo de animação que, em vez que passar valores às crianças, incentiva a imaginação. E, quem sabe, após conhecer algo diferente de Shreks e Mulans, ela não se desenvolve com mais gosto pelos livros, por culturas diferentes da sua (e da americana). Para terminar, a música do filme (traduzida; em francês é mais bonita):
Kiriku não é grande mas é valente
Kiriku é pequeno mas é o meu amigo
Kiriku é pequeno mas é o meu amigo
Kiriku o valente, é melhor que nós
Kiriku não é grande mas é a nossa criança
Kiriku é pequeno mas tem bom coração
Kiriku é pequeno mas tem bom coração
Kiriku é pequeno mas é o nosso amigo
Kiriku não é grande mas é a nossa criança.

(Imagens: cartaz de Kiriku e a feiticeira e Grande Otelo como Macunaíma.)

5 comentários:

Cláudia Lamego disse...

Lucas, bela dica.
Lili, o Antônio já viu esse filme? Vamos marcar um cineclube na sua casa para vermos juntos? (aliás, não é preciso um cineasta morrer, como Bergman, para vermos filmes juntos, né?)

Eu sempre ouvi dizer que "Macunaíma", de Mário de Andrade, era um livro difícil. Eu li e adorei. O filme, do Joaquim Pedro de Andrade, é um de meus preferidos do cinema nacional. Aliás, depois de Glauber, Joaquim Pedro.

Uma curiosidade: o Paulo José, que é Macunaíma boa parte do tempo, tem uma certa mágoa por ser pouco ou nada lembrado quando o assunto é o filme. Pô, mas é difícil a concorrência com o grande Otelo, né?

Lucas Bandeira disse...

O problema do Macu (que é como chamam o livro na USP) foram os professores de literatura das escolas. Quando Mário usava todos aqueles nomes indígenas, o que importava era a sonoridade, a gente não precisa ir ao dicionário. Os professores queriam que a gente lesse Macu como se lê Iracema.

Cláudia Lamego disse...

Lucas, nas faculdades de Letras também acontecia isso. Ouvi depoimentos de alunas de lá, nas aulas de português de Jornalismo na UFF, onde as turmas se misturavam.

Ah, uma informação relevante: no DVD de Macunaíma, tem um extra sensacional. É um documentário sobre a construção de Brasília, mas sob o ponto de vista dos operários nordestinos que foram para lá e viraram candangos. Ah, bela fase em que o cinema descobria o Brasil...E ainda têm coragem de falar mal do Cinema Novo!

Olívia Bandeira de Melo disse...

Ainda não vi o filme, vou alugar pro Antônio. Só uma ressalva: acho que Shrecks e Mulans também incentivam a imaginação, o gosto pela leitura e por culturas diferentes.

Nana Costa disse...

Fiz letras na UERJ e acho que não tenho do que reclamar sobre a leitura de Macunaíma que a professora fez com a turma. Ela deixava fluir, da mesma forma como quando ensina-se alguma língua instrumental: vc tem que tentar entender pelo contexto. No caso do livro, além disso, temos que nos deixar levar pela sonoridade, como já foi dito. Caso contrário, a leitura torna-se extremamente chata, pois é interrompida cada vez que você procura no dicionário ou na internet o significado de uma palavra. A essência do livro acho que está justamente no estranhamento que a gente sente diante das situações e palavras e também no fato de não procurarmos desfazer essa sensação.
Sobre Kiriku, fiquei bem surpresa, pois vi por acaso, num Telecine da vida, e esperava ver um desenho para relaxar, como a maioria. Ocorreu o contrário, no entanto: fiquei meio desconfortável durante todo o filme, que quebra o estereótipo de desenho para crianças. Ele recupera um tipo de imaginação crua sobre as coisas, uma imaginação mais sem limites sociais, acredito, um pouco mais mística. Vou tentar ver de novo, pq como foi há um tempo, posso ter outra sensação atualmente...