18 de abr de 2008

Quem rouba tu é quem paga tu

415, Usina-Leblon, entra na Nossa Senhora de Copacabana. Dois meninos, pés descalços, feridas abertas nas canelas raquíticas, shorts muito maiores que os corpos que tentam cobrir, dentes escuros demais para a pouca idade, pressionam a porta de trás. “Tamu fedendo cadi que viemo do lixão de Caxias”, avisa o menor deles. Um vendedor de vassouras, que brinca de equilibrista com seu fardo de madeira piaçaba, gargalha. Sentam sem cerimônia no último banco do veículo, mudos, narinas abertas aspirando o ar da pequena multidão perfumada. Na altura da Arcoverde, o motorista freia bruscamente. Escorrega pela porta da frente, pressiona a de trás, corre em direção aos meninos. “Podem descer agora, moleques, antes que eu enfie a porrada em vocês”. O equilibrista de piaçabas reage: “Deixa os menor, piloto, eles num vão roubar ninguém. Gente do lixão num rouba carteira, rouba comida”. Sem voltar os olhos para aquele que o repreendia, agarrou os dois pelo braço e os lançou porta afora, de uma tacada só. Da calçada, em prantos, feridas novas na canela, o maior esbravejou com toda a força que podia, para Copacabana toda ouvir: “Ô seu motorista, nós num quer roubar. Quem rouba tu é quem paga tu”.

2 comentários:

Cláudia Lamego disse...

Lu, quantas vezes a gente não fica com medo desses meninos, à toa? Hoje, estava no 996 reparando nos tipos que entram em cada ônibus. A Ponte estava lenta e, ao lado, um ônibus seguia para Nova Iguaçu, com pessoas de face mais cansada, mais mal vestidas, mais simples, enfim. No meu, iam patricinhas da PUC, meninas bem vestidas, com malas grandes (ele passa pela Rodoviária) e poucas, pouquíssimas pessoas com cara de trabalhadores. No 53, aqui em Icaraí, é assim também. Por isso, quando entra alguém "suspeito", as madames ficam logo incomodadas. No Rio, passando pelo Jardim Botânico, reparo quando entram alunos de escolas públicas, no caminho para a Rocinha, talvez. E os estudantes de classe média, indo para o Shopping da Gávea... Essa diferença social é uma coisa que me atormenta. E agora lembro de uma propaganda do PT (feita pelo Duda Mendonça!!!), que mostrava cenas de pessoas carentes e perguntava: se você quer mudar essa situação, ou se incomoda com ela, é porque tem o sentimento do PT dentro de você. Era um recado aos ricos e de classe média que nunca tinham votado no partido.

Ainda temos esperança?

carvalhando disse...

Se a gente mantiver a esperança de encontrar pessoas como o vendedor de vassouras, já vale a pena.

Sempre vale a pena ter esperança, só nao vale esperar pra fazer.