8 de abr de 2008

O último inocente - Pequena crônica de uma edição


As pessoas são várias ao mesmo tempo, e eu mesmo me sinto outro quando saio da minha rotina em frente ao computador e pego um táxi para o Leblon. Enquanto verifico quanto estou molhado por causa da chuva, penso como será a pessoa que vou visitar, como será seu apartamento. Ligo para avisar que estou atrasado, que a chuva me pegou de surpresa, com medo de que aquilo vá ferir os brios de alguém ocupadíssimo, com tarefas agendadas com exatidão (se é que existe uma pessoa assim no Rio de Janeiro, uma cidade em que um mesmo percurso pode durar uma hora ou quinze minutos).

Desço, envergonhado e arrependido por ser tão relaxado e não carregar guarda-chuva. Quando a gente vai encontrar alguém, precisa estar apresentável.

Quem abre a porta do edifício, um dos prédios mais antigos do Alto Leblon, logo no início da subida, é um homem que aparenta meia-idade, cabelos rajados de branco e castanho, sempre com um sorriso que faz seus olhos parecerem dois traços riscados por um desenhista de mangá. "Não tem porteiro", ele me explica. Veste uma blusa branca com a estampa do grupo Afro Reggae. Me convida para segui-lo até o apartamento, um andar abaixo da portaria. O prédio fica numa ladeira.

Chegamos a uma sala de uns quatro metros de comprimento por três de largura, com uma estante de metal com três ou quatro fileiras de livros - filosofia, romances, poesia e música - e alguns CDs. No lado oposto ao da porta, uma janela se abre para um pequeno jardim. O anfitrião me oferece uma cadeira para sentar e pergunta se quero água. Fico de costas para a janela e ele num sofá à minha esquerda. Pego uma papelada da minha bolsa. Vemos cada anotação que fiz no livro, discutindo o que poderíamos mexer e o que não. Depois, peço a ele que traga fotos que iremos colocar na diagramação, e ele traz um envelope com imagens em preto-e-branco: o Rio de Janeiro da década de 1940, São Paulo nos anos 1950, e separamos o que devemos utilizar. Uma última idéia: reproduzirmos os passaportes de seus pais, que vieram fugidos da guerra na Europa e encontraram no Brasil um país de misturas e de oportunidades. Os passaportes, emitidos na Alemanha nazista, têm a suástica estampada na capa, e nas páginas de identificação leio: Paul e Ana Mautner.

***

Jorge Mautner, ou George Henrique Mautner, é uma figura singular na cultura brasileira. Considerado por muitos precursor do tropicalismo, escritor precoce, não conseguiu a popularidade de muitos de seus companheiros. Algumas de suas músicas, no entanto, entraram para o imaginário popular como poucas. "Maracatu atômico", que compôs em parceria com Nelson Jacobina, músico que o acompanha há anos, teve diversos momentos de onipresença nas rádios, gravada na década de 1970 por Gilberto Gil e na de 1990 por Chico Science e Nação Zumbi. E seus livros da "Mitologia do Kaos", com k mesmo, influenciaram muitos dos poucos escritores que os leram (e mereceram desprezo de outros, como Torquato Neto).

No entanto, apesar do humor que encontramos em suas letras, Jorge Mautner é, possivelmente, o último dos inocentes. Sua crença no valor do corpo, na beleza de todas as coisas e no Brasil como paradigma de aceitação do diferente impregna cada palavra que diz, mesmo que essa contaminação não seja consciente. Ao dizer que seu livro "é repetição mesmo, esse negócio de arrumar o texto, que trouxeram pro Brasil no meio do século, acaba com a literatura", isso quer dizer mais do que simplesmente uma defesa de estilo. É, intimamente, como está escrito em umas das definições de Roland Barthes para "estilo", em O grau zero da ecrita, uma defesa da "equação entre a intenção literária e a estrutura carnal do autor". Se uma frase saiu daquele jeito, é porque ela foi escrita naquele momento, em que o autor tinha um sentimento bem específico. Não dá para mudar o estado em que a pessoa se encontrava, como não se pode reviver o momento.

***

Depois de algumas horas discutindo detalhes do livro, peguei novamente o táxi levando as fotos e os passaportes em um pacote. Agora, eu tinha que esperar dois textos importantes - um pronunciamento do Gilberto Gil que ele me mandaria para digitar e outro de Caetano Veloso, que tinha ficado de enviar em algumas semanas um posfácio. Já tínhamos um texto de orelha pronto, do escritor Flávio Moreira da Costa.

Como costuma acontecer em todo processo de edição, tudo estava praticamente pronto e faltava algo importante: o texto do Caetano. Mautner me respondia, um pouco constrangido, que Caetano havia viajado, ou que tinha saído para uma gravação, e as semanas foram se passando. (Quando o livro já estava na gráfica, com algumas páginas estrategicamente dispensáveis no final, o posfácio milagrosamente surgiu.)

Livro pronto, lançamento lotado, o trabalho de edição estava terminado, mas Mautner às vezes me ligava, sempre com o mesmo entusiasmo, para dar notícias de como o livro estava indo, contar sobre os lugares em que havia feito lançamentos do livro, sobre as pessoas que o haviam lido.

É difícil acreditar naquela visão positiva da realidade - Mautner crê que o melhor lugar do mundo é, sim, aqui e agora, e mesmo a idéia mais simples merece dele uma exclamação -, creio mesmo que seus parceiros musicais são mais céticos do que ele. Por isso, embora flerte com a cultura pop, Mautner fica à margem dela; embora brinque com o lixo cultural, não é aceito pelo mercado. Porque é a última pessoa inocente, que não faz concessões ao viver cada momento como divino e maravilhoso.

(Imagem: José Roberto Aguilar)

6 comentários:

Deia Vazquez disse...

Eu jurava que Maracatu Atomico era originalmente do Chico Science....vivendo e aprendendo ;)

Olívia Bandeira de Melo disse...

Querido irmão, se o Jorge Mautner é o último inocente, tomara que seja também eterno. Há muito (talvez isso sequer tenha ocorrido alguma vez) não encontro um inocente, ou um otimista, ou um entusiasmado, enfim, alguém que já passou dos enta vivendo o aqui e agora como uma criança.
Gostaria de conhecer o Jorge Mautner. Ele está participando do Pontão de cultura do Kaos, e tem viajado o Brasil inteiro para se apresentar e conhecer outros projetos culturais.
Olhe o que ele disse sobre isso, em entrevista para a Agência Carta Maior: "Cada Ponto de Cultura vai além da imaginação, o entusiasmo é total e o amor pelo Brasil é absoluto, mas não é xenófobo, é de um otimismo inacreditável".
Os projetos são assim ou são os olhos de Mautner?

Cláudia Lamego disse...

Vamos criar uma seção de entrevistas, editar a nossa com o pesquisador (alguém guardou?) e marcar uma com o Mautner. Eu levo o PP.

Lucas, você sentou molhado no sofá da casa dele? Tirou o sapato?

Lucas Bandeira disse...

Lili, acho que são os olhos dele mesmo. Não que o projeto seja ruim, mas certamente ele tira do projeto o que ele tem de melhor.
Claudia, a camisa é que estava mais molhada, e não me recostei na cadeira, hehe.

Olívia Bandeira de Melo disse...

AS fitas do PC, se não me engano, ficaram com a Nique para serem decupadas. As fotos estão lá em casa.

Cláudia Lamego disse...

Vamos editar, por favor...