22 de abr de 2008

Morenos e morenas (questionamentos semânticos)

A palavra "moreno", em todas as suas formas (os dois gêneros do adjetivo e do substantivo), é uma espécie de signo que, por sua ambiguidade, possui um sedutor vazio de significado, e por isso recorremos tanto a essa palavra.

Diante de uma pessoa que não sabemos se se considera negra, mulata ou branca, dizemos: "Você é morena." Ela pode tanto se definir morena pela cor do cabelo quanto pela pele. O Dicionário Houaiss mantém essa ambivalência. Moreno é, ao mesmo tempo, "que ou aquele cuja pele é escura, apresentando uma tonalidade entre o pardo e o negro" e "que ou aquele cuja cor de cabelo varia entre o castanho-escuro e o preto".

No discurso cotidiano, utilizamos "moreno" de maneira indefinida para evitar mal-entendidos, comumente de ordem racial. É um eufemismo tranqüilizador, que age porque, neste caso, uma única palavra remete a mais de um significado. Em um primeiro momento, quem fala e quem ouve podem ter idéias diferentes do que significa "moreno" naquela fala específica. Para que o diálogo continue, é necessário recorrer a um agente restritivo, uma comparação: "como é fulano de tal?", "ah, ele é moreno", "como quem?", "como beltrano" (esta resposta pode significar que a pessoa é mulata, ou é branca e tem os cabelos negros, ou mesmo que é negra). Assim, evita-se definir a cor - que, pela natureza da nossa sociedade, nem sempre é algo plenamente definido, muito menos essa definição é desprovida de moral.

No discurso artístico, "moreno" se torna uma espécie de arquétipo esfumaçado do brasileiro, sem contronos fixos. Serve tanto para louvar a "Morena dos olhos d'água" quanto para o "pretinho" que é rejeitado por ser "moreno demais". Afinal, a palavra "moreno" parece tão miscigenada quanto o "brasileiro". Ou seja, ela é apenas uma palavra (como brasileiro é apenas uma nacionalidade) cindida em vários significados (como o brasileiro é cindido em várias identidades, sem caráter único). Ela esconde, como a idéia de mestiçagem, uma separação social que evitamos enxergar.

"Moreno" representa muitas das características positivas (a mistura) e negativas (a cisão social velada) do Brasil. Morenos todos nós, mas morenos diferentes.

3 comentários:

Deia Vazquez disse...

Excelente texto, moreno.

Olívia Bandeira de Melo disse...

E a gente segue fingindo que é uma democracia racial e que nossa identidade é única e caracterizada por uma colorida e igualitária mistura...

Nana Costa disse...

Acho engraçado você escrever sobre isso, porque sempre que me encontro na situação de ouvinte de uma pessoa que fala "Sabe aquele moreno de tal lugar?", me sinto um pouco constrangida, pois não posso deixar de perguntar "Moreno de pele ou de cabelo?" e se respondem a primeira opção eu pergunto "Mas moreno negro ou moreno mulato, claro ou escuro, etc?", ao que o outro costuma relutar em responder com franqueza.
Pensando bem, a pessoa que iniciou a conversa jogou todo o peso do racismo pra cima de mim, pq ela é quem deveria escolher um termo menos ambíguo que "moreno" pra clarificar seu discurso. Ela se livrou do racismo, jogou pra cima do outro e ainda o deixou numa saia justa. Claro que isso não aconteceria se já tivesse me ocorrido, como ao Lucas, perguntar "Moreno que nem o fulano?", que é um ótimo jeito de fugir do constrangimento. No final das contas, se você pergunta "negro?", a outra pessoa ou pode achar que vc é racista ou exatamente o contrário: que por ter falado com tanta simplicidade, vc não tem problema com o racismo.